sábado, 24 de janeiro de 2015

Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015


Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015

COLUNA UM- Daniel Teixeira

Alteração gráfica do Jornal

Por razões relacionadas com as alterações verificadas nos sistemas de busca dos motores (de busca) resolvemos (ainda que e sempre a título experimental) transferir o nosso Jornal, até agora publicado em servidor com domínio próprio (raizonline.com) para publicação a partir deste número num dos nossos blogues.

Os números anteriores a este 262º número encontram-se no respectivo site acima referido (http://www.raizonline.com/) e por lá vão ficar, pelo menos até ao mês de Setembro, altura em que se decidirá se se continua a pagar o domínio ou não.

Na verdade, em termos de alcance de leituras temos visto reduzir-se o número de clics no Jornal, o que se pode atribuir a mais que um factor.

O facto de termos até agora colocado um resumo de cada postagem num outro Blogue (que não este) mostra-nos que é relativamente menor o número de pessoas que vão até ao Jornal ler os textos completos do que aquele que se fica pelo resumo apresentado no Blogue.

As razões deste facto são também mais que uma: uma parte das pessoas não repara no link colocado abaixo de cada postagem e considera (os leitores não assíduos ou sem trabalhos publicados, sobretudo) que lhes satisfaz a amostragem que fazemos considerando mesmo que o nosso resumo constitui a totalidade do texto.

Assim, razões de facilidade de busca e facilidade de acesso aos textos totais são as motivações que nos levam para já a fazer esta alteração: de site (domínio próprio) para Blogue da Google.

Ainda uma outra razão, embora de segunda ordem, nos leva também a esta alteração: estamos (no Jornal em site) com uma centena de páginas, renovadas em grupos de vinte / vinte e cinco periodicamente, o que faz com que os textos fiquem, na nossa opinião, demasiado tempo online num mesmo exemplar. No caso do Blogue, eles ficarão até mais tempo online, mas de acordo com a sua distribuição número a número.

Este número tem o seu índice geral no seguinte link (Índice) mas como é o primeiro desta série poderá ser acedido calmamente através do sistema habitual nos Blogues (postagem anterior).

Esperamos ir resolvendo alguns problemas que entretanto possam vir a surgir e muito sinceramente achamos que este sistema tem futuro nas nossas publicações uma vez que praticamente toda a gente conhece o mecanismo dos blogues.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira  




 

Dias de cinema - Por Carlos Guerreiro


Dias de cinema

Por Carlos Guerreiro

Retirado do Blogue Aterrem em Portugal


A memória dos 70 anos do final da II Guerra Mundial traz até Lisboa um conjunto de documentários e filmes que vão passar até aos primeiros dias de Fevereiro. No Cinema Ideal, na Rua do Loreto, passam diariamente até 4 de Fevereiro - três documentários de forma sequencial.

Assim, a partir das 16 horas, passa “O último dos injustos”, seguido às 20 horas de “O homem decente” e, por fim, às 21.45 horas, de “A noite cairá”. Aos fins de semana, às 11 horas, é tempo de rever, na mesma sala, “O grande ditador” de Charles Chaplin.

“O último dos injustos” é uma viagem a dois tempos ao Gueto de Theresienstadt, conduzida por Claude Lanzmann. Em 1975 ele entrevistou o último dos sobreviventes daquele que os nazis venderam como um gueto modelo.




No Cinema Ideal podem ver-se documentários sobre a II Guerra Mundial até ao dia 4 de Fevereiro.

Em 2012 ele regressou para recordar esse tempo. “O homem decente” é o retrato da vida e da mente do “Arquitecto da Solução Final”, Heinrich Himmler, feita através de de cartas, fotografias e diários encontrados na casa de família dos Himmler em 1945.

Em “A noite cairá” recupera as imagens filmadas pelos britânicos nos campos de concentração em 1945. O objectivo passava por editar um filme que servisse para mostrar aos alemães os horrores em que tinham participado.

Questões diversas adiaram a montagem da película que, com o surgimento da guerra fria, ficou esquecida em prateleiras. Também há cinema relacionado com a temática da II Guerra Mundial no Cinema S. Jorge. Trata-se de uma iniciativa do Goethe Institut, que preparou num ciclo temático com algumas das produções mais conhecidas da DEFA sobre o nacional-socialismo produzidas pós 1945.


No Cinema S. Jorge começa no dia 26 um ciclo com filmes Alemães sobre o Nacional-Socialismo pós 1945.

Tratam-se de cinco filmes, realizados nos anos 50 e 70, que vão passar a partir dos dia 26 naquela sala às 21 horas. O primeiro filme é “Estrelas”. Segue-se, no dia 27, “Nu entre Lobos”, a 28, “Jacob, o Mentiroso”, a 29, “Eu tinha dezanove” e a 30 “Os assassinos estão entre nós.

Para obter mais informações pode consultar a nossa Agenda ou ligar-se ao site do Goethe Institut  na iniciativa.

Bons filmes e bom fim de semana…

Carlos Guerreiro




O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR - Crónica de Gociante Patissa


O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR

Crónica de Gociante Patissa

Os homens gabam-se ter sonhos, quando são na verdade estes que carregam aqueles. Não posso dizer que tenha até aqui inventado a asserção. Temos os sonhos, são nossos, mas não mandamos neles, nem os mudamos. Ou mudamos? Parece-me mais certo ver os sonhos como a não aceitação da impotência, da circunstância vivida.

O sonho, enquanto meta, mais não é do que o tempo indeterminado entre o hoje e o amanhã promissor, algures na manivela do tempo. Certa pessoa, no contexto de trabalho, chegaria a escandalizar-se diante de uma resposta minha em 2006. Questionado sobre o que sonhava ser em termos profissionais, justamente no segundo ano de fracassada tentativa de entrar para a universidade, disse-lhe eu que não levávamos para a esfera do sonho a coisa, que o sonho não contava onde tudo escasseia.

A gente até já sabe com o que se pode, ou não, sonhar. Se limitadas são as almas, também o são por solidariedade sonhos. Mas, incorrigíveis, sonhamos sempre, talvez porque o onírico tem a chatice de ser multidirecional. Que remédio!

E eu sonhava, mais ou menos a partir de 1996, com a possibilidade de ver um dia um livro numa vitrina de livraria... com o meu nome na capa.
Seria o chamado sonho de Gutenberg? Ora, tal sonho carregou a minha imaginação, a auto - superação e as energias até 2008. E sem que eu pudesse controlar, o sonho metamorfoseou-se, porque ele, o sonho, lida mal com a ideia de chegar ao destino, o sonho é afinal um caminhante de só começar.

Agora o sonho passou a ter na mira a primeira oportunidade de ser entrevistado para falar (não sobre, mas) de um livro meu, discutir, se tal se aplica, o interior.

Até agora só tenho recebido da imprensa oportunidades para anunciar e informar - o que desde já agradeço, para não ser ingrato, posto que, de tão recorrente, pode ser um indicador da fatia de atenção que me é merecida enquanto criador do campo da escrita.

Foi por isso que recebi com satisfação, no começo de uma entrevista a propósito da novela «Não Tem Pernas o Tempo», uma pergunta muito pertinente, de um entrevistador que tinha um exemplar com considerável antecedência. "Vou-te apresentar como escritor?" Essa pergunta é ainda menos complexa do que a outra, para a qual me engasgo sempre: "Qual é o título do livro?"

Esta sim, é uma grande questão! Desfez-se pois o segredo. O sonho mesmo é chegar a ser lido e inspirar guião, mas sei também deste carácter fugidio de um sonho, pelo que me darei por avisado, se disso não passar.
 
Qual é mesmo o título do livro?

Gociante Patissa, Benguela 14.12.14


 



O DOCE E SUAVE PRAZER DO ENVELHECIMENTO - Joaquim Nogueira


O DOCE E SUAVE PRAZER DO ENVELHECIMENTO

Por Joaquim Nogueira


… recuo algumas décadas (intensamente vividas) do historial da minha vida e lembro que nada me fazia pensar, naquelas alturas, do momento em que viesse a “absorver” a inevitabilidade do envelhecimento… são alturas da nossa vida em que nunca se pensa nos anos que passarão (muito rapidamente) a voar e, um dia, sem notarmos a não ser duma forma muito patética que já passamos dos 50… 

mas, maravilha, ainda aí a nossa postura é de alegria: atingir a “meta” dos 50 é algo para festejar e a festa que a família e os amigos nos fazem é algo que jamais esqueceremos (relembro a minha algures nos finais de 1995)… depois, outra vez, muito rapidamente, de novo, atinge-se a barreira dos 60… nessa altura somos levados a pensar nos familiares que, anteriormente, chegaram a esse marco… depois, bem depois é um ápice e o dia a dia é tão veloz que as 24 horas parecem minutos a escapulirem por entre os dedos…
 
… e sorrio… sorrio porque por mais estranho que pareça, sinto-me feliz… sinto que já vivi tempos fantásticos… lembro-os com saudade é certo mas com a alegria de ter vivido cada momento, cada minuto como se fosse uma hora e o tempo não acabava e o dia era imenso, enorme, longo, perfeito e talvez eterno…
 
… estou, pois, numa altura da vida em que os dias passam com uma rapidez estranha mas, ao mesmo tempo, aceito esse facto como algo que assim tem de ser… e sorrio de novo por saber que estar aqui e agora foi o resultado do vivido nos momentos antes… e sinto uma serenidade estranha, algo tão diferente de todo o stress que foi então a constante absoluta dos dias que vivi e olho para o dia de amanhã como a meta que tenho de alcançar com a mesma calma com que alcancei o dia de hoje…
 
… viver, pois, o dia a dia num suave e doce abraço com o tempo que me é concedido, é a razão para olhar para a “frente” sem medos, sem receios, sem preconceitos…
 
… aos mais novos, aos meus filhos, aos meus netos, a toda a gente que está vivendo a vida que eu já vivi apenas digo que vivam todos os momentos com intensidade, que agarrem os minutos fazendo deles eternas horas de alegria… que não pensem em coisas tristes porque viver é uma bênção e como tal deve ser absorvida…
 
… espero viver ainda muitos anos e em cada dia que viver amanhã e nos seguintes eu sinta que foi mais um minuto que tive para absorver tudo o que o Universo me deu, me dá e me dará… e saber que afinal de contas o envelhecer é suave e doce como um gelado que nos escorre pela garganta e nos dá um saboroso, doce e suave prazer…



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Prosa Poética por Ilona Bastos


Prosa Poética por Ilona Bastos

Olhares

Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
 
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!



 
Quando te abrigavas no meu ventre

 
Quando te abrigavas no meu ventre, e eu descia pausadamente esta avenida suave e curva, olhava, por sobre o muro do jardim, as árvores, as flores, os carreiros pejados de folhas e dizia: Vê, meu filho, meu amor! Quanta beleza te espera cá fora!

E quando ouvia os gorjeios dos pássaros escondidos nas ramagens, sorria e murmurava para ti: Escuta, que maravilha! Cantam, as aves, de alegria, por saberem que vais nascer!

E em todos os momentos contigo conversava, confidenciando-te segredos, prometendo-te um mundo encantador, cheio de felicidade, contando-te da ânsia de sentir-te nos meus braços, aconchegar-te junto ao peito, criar-te.

Recordo-me de tudo isto agora que já és homem, e que uma incógnita me atordoa.

Pausadamente desço a avenida, como o fazia então – e também hoje faço o meu olhar saltar o muro baixo, atravessar as grades e espraiar-se pelo jardim, caminhar pelos carreiros, acariciar as sebes, deter-se nas bagas vermelhas e redondas de um arbusto, voejar por entre as folhas douradas que aqui e ali se desprendem dos ramos, planam um pouco e aterram suavemente nos caminhos.

A beleza é semelhante à de outrora. Também o meu espírito se deleita com a Natureza. Mas a dúvida, subtil, insidiosa, macula, incerta, a minha felicidade. Não sei, agora, o que se abriga em mim.



Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater

Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater, a colar-se ao vidro por fracções de segundo e a escorregar lentamente, deixando atrás de si um rasto brilhante.

Preparo-me para recebê-la condignamente: visto-me, calço-me, coloco a bolsa a tiracolo, pego na pasta e saio.
 Cá está a chuva prometida!

Estranhamente, os outros parecem não vê-la… Deixam os edifícios, caminham pelo passeio, saem dos automóveis, atravessam a rua desprotegidos, como se a não sentissem. Alguns levam mesmo o chapéu-de-chuva no braço, como se de um adereço inútil se tratasse. Só eu subo a rua de gabardina abotoada, guarda-chuva a cobrir-me, chapéu enterrado na cabeça.
 Espanto-me. Será que só chove em mim?

Detenho o olhar nas poças de água, onde as gotas, com um só toque, desenham círculos sucessivos, concêntricos, num ondear expressivo. Também sobre o fundo das árvores, escurecidas pelo céu nublado, confirmo as rectas que a chuva risca num movimento ininterrupto.
 Será possível que só eu veja e sinta a chuva?

Eis que alcanço a avenida e as dúvidas se dissipam. Aí, a chuva é real nos transeuntes que se deslocam apressados, de botas calçadas, guarda-chuvas abertos, correndo da esquerda para a direita e desta para a esquerda, alheados de tudo o que não seja o seu destino. Nas paragens, recolhem-se debaixo dos abrigos, olhos abertos, expectantes, ou sobrancelhas franzidas.

Os autocarros chapinham junto à calçada, e aguardam pacientemente que os rapazes da escola atravessem a passadeira, pesadas mochilas às costas, capuzes na cabeça, mãos nos bolsos, passo decidido. Por vezes, pequenas corridas. E as meninas, de cabelos ao vento, conversam sem parar. Os automóveis sibilam, limpa pára-brisas em acção, avançando sobre o passeio, para deixar uma criança, arrancando depois, com sofreguidão, nos sinais luminosos.

Sim, isto é um dia de chuva – reconheço.

E lanço então os meus passos sobre a multidão em movimento.




O longo Inverno - Conto por Arlete Piedade


O longo Inverno

Conto por Arlete Piedade

Era inverno e chovia há muitos dias. Já tinha passado o Natal e outro ano se tinha iniciado e não parava de chover. O mês de Janeiro estava quase no fim e desde o princípio de Dezembro que chovia sem parar.

Francelina era a mais velha das quatro irmãs que viviam naquela casa quase isolada no pequeno aglomerado de casas, longe da aldeia, no meio dos campos. A norte era rodeado de pinhais e a sul, uma vasta campina atravessada de um ribeiro de água fresca e cristalina, estendia-se a perder de vista em direcção ás aldeias vizinhas.

Na margem do ribeiro, um velho moinho de água, moía incansável o trigo e o arroz, necessário á vida da aldeia e nos campos alagadiços, criava-se arroz, milho, e cultivavam-se hortas e vinhas.

Todas as famílias, tinham o seu pedaço de terra na campina, mas os pais das quatro irmãs, tinham também outras propriedades na aldeia vizinha de onde o seu pai era natural. Mas eram terrenos cultivados com oliveiras herdadas de varias gerações.

Todos os anos no outono as irmãs iam apanhar as azeitonas para levar para o lagar e extrair o azeite dourado que era depois guardado nas talhas em barro durante o inverno longo.

Durante o verão, Francelina e as suas irmãs, Amélia, Laura e Gertrudes, iam trabalhar nos campos de cultivo intensivo perto da cidade, a mais de 30 kms de distância. Estava-se em 1950, os tempos ainda eram de recuperação da grande guerra, e as irmãs deslocavam-se a pé acompanhadas do seu burro, que carregava as ferramentas de trabalho e os mantimentos necessários para a sua subsistência, bem como alguma roupa.

A sua mãe sempre doente, ficava em casa na companhia do marido que era pedreiro. Mas naqueles tempos, as casas eram construídas de adobes, que eram grandes blocos feitos
de terra prensada e seca dentro de moldes de madeira, e que eram retirados e colocados nos lugares, para fazer as paredes, transportados ás costas, pelos pedreiros e seus ajudantes.

Então a somar á doença da mãe, juntava-se o cansaço do pai, prematuramente envelhecido e sempre com dores nas costas. Quando as filhas chegavam dos campos estavam á espera da sua magra jorna, para pagar as contas do médico e dos remédios, bem como da mercearia da aldeia, que lhes dava crédito porque sabia que as filhas iam trabalhar e ganhar algum dinheiro.

Mas durante o inverno, não havia trabalho. Os campos estavam alagados com as cheias do rio Tejo, e não se podia cultivar. Entre Outubro e Março, eram os tempos das vacas magras. Valia-lhe os «fiados» e o azeite armazenado nas bojudas talhas de barro.

Quando a fome apertava e o dono da mercearia e da farmácia começavam a pedir se podiam pagar, o pai só tinha uma solução. Dizia á filha mais velha:
 - Francelina, vai lá encher uns garrafões de azeite, que eu vou vendê-los á feira amanhã! – E diz ás tuas irmãs, para darem mais uma ração ao burro, para ver se ele pode com os garrafões que eu preciso de o levar!

Era o que as irmãs queriam ouvir. Estavam cansadas de estar fechadas em casa e de ver a chuva cair lá fora. Agora era ver quais delas, conseguiam convencer o pai a acompanhá-lo á feira.

Tinham ouvido dizer que os serradores da aldeia vizinha também já tinham voltado das florestas da Beira Baixa e sabiam que um deles andava interessado na irmã mais velha. Pelo menos ela tinha que ir á feira com o pai. Quem sabe o encontrava e o namoro não ia em frente. Pelo menos era menos uma boca para alimentar.

No dia seguinte iniciaram a jornada ainda era de noite. O burro estava bem alimentado e os garrafões de azeite foram colocados nos ceirões e amarrados com cordas. Depois de comerem umas sopas de pão de milho duro, molhadas em café, pai e filha colocaram-se a caminho do mercado que era na vila distante 10 kms. Demoravam cerca de três horas e tinham que estar lá bem cedo para apanhar um bom lugar e poderem vender o azeite por um preço melhor.

Apenas Francelina como a mais velha, pode acompanhar o pai que ia á frente pelo estreito caminho á beira do regato, levando o burro pela arreata . Atrás seguia a filha, que com 22 anos e habituada ás longas caminhadas, não tinha problemas em fazer a caminhada até á vila.

Ia contente, a pensar no seu pretendente. Ele era da aldeia vizinha e tinha uma propriedade ao lado de uma do seu pai. Nesse Outono quando estavam a apanhar a azeitona, ele andava também a fazer o mesmo trabalho e tinham conversado um pouco.

Ele tinha-lhe dito que era serrador e que ia estar fora até ao Carnaval, porque ia serrar para longe, para a Beira Baixa, e que lá fazia muito frio e caía neve. Ela tinha gostado da conversa dele e tinha-lhe dito também que no verão ia trabalhar para os campos da lezíria do Tejo, para ajudar o pai a pagar as contas.

Durante as semanas em que tinham apanhado azeitona nas propriedades vizinhas, os dois jovens tinham ficado mais amigos e todos os dias se falavam. Quando a adiafa chegou, que era a festa do final da apanha da azeitona, tinha havido um baile e tinham dançado juntos todas as danças.

Depois cada um seguiu o seu caminho, com a promessa de se verem no mercado pelo Carnaval. Francelina ia ligeira e mal sentia os pés tocarem no chão. Esperava pelo pedido de namoro e em resolver a sua vida.




Poesia de Manuela Pittet


Poesia de Manuela Pittet


UTOPIA

Amor, sempre ele/ ela= Energia
 Essa busca incessante de harmonia
 Onde todas as criaturas habitam
 Multidimensionais, os espaços onde viajamos
 Os paradigmas que criamos
 Como Seres que somos
 Tão desconhecidos (ainda) do nosso interior...
 Alquimia, nirvana, pedra filosofal
 Desejo ainda poluído pelo medo
 Que timidamente pede e foge
 A iluminação que o atraí e repele (...),
 Nos desejos inconfessados da criação
 Que catalogamos nas páginas da utopia...
 Percentagem cerebral... Domínio!
 Controle da espiral, no A.D.N., domínio!
 Querer avançar e ainda inventar
 Colocando o sonho e o mental
 Nos cestos da fabulação...
 Utopia... ainda... Utopia
 Que dia após dia
 Sai do pó que impressionava as páginas
 Do Livro profundo onde se escondia...
 Se lavar nas ondas do conhecimento
 Tão desconhecidas do conceito racional
 Libertando poluição magnética
 No nosso corpo energético, imortal.
 O Amor surge em potência
 E oferece majestade à utopia
 Hoje não a olhamos com os mesmos olhos
 Hoje é ela que nos olha e sorri
 Que, mais do que uma imagem do mental
 Ela é, realidades do nosso poder de criação
 Algumas reluzentes outras tenebrosas
 Na construção de um todo...
 Libertai-vos homens
 O vosso poder de amar
 Vos transporta para além da utopia
 Agarrai esse poder!!!


O MEU AMOR

Eu amo a morte
 Porque ela não morre em mim (…)
 O meu pensamento não morre
 Porque eu mato a morte
 Com meus punhais de vida!…
 Viver a morte com vida
 Morrer a vida sem morte (…)
 E pronunciar as palavras
 Que nenhum ser humano aprendeu
 (Estas que meus olhos falam
 mas que teimosamente não querem ouvir…)
 enfim…
 esfregar meu corpo na areia da Terra prometida
 fazer amor com o sol e as estrelas
 e ser o feixe de luz
 que desmente a morte e a vida
 que é com seu calor e brilho
 A EXISTÊNCIA
 O IDEAL
 O SONHO…
 E ser assim, o Amor
 E os esposos da felicidade
 CASADOS PELO VENTO QUE AQUI NÃO SOPRA!…

(in: «Cartas da minha Alma»)

EIS-ME…

… Eis que se confirmam
 As certezas da imaginação racionalista
 E as incertezas do imprevisto onírico…
 Como pedras rolantes
De um planeta sem vida
Onde se inventam pássaros
 E se dança a monotonia
 Da racionalidade inexistência (…),
 Eis que chega
 O viajante « intemporal » !…
 Eis que felicito
 A ignorância do sábio
 E o orgulho do ignorante…
 Eis-me que cheguei
 Perante o incognoscível
 Da inteligência metafísica
 E o ocultismo
 Da sabedoria dogmática
 Enlatada de misticismo...
 EIS-ME QUE VOS CHEGO
 NA TARDE LONGA
 DA MINHA PARTIDA !…