sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Cinema


Por muitos anos o salão de cinema em Imbituba situava-se ao lado dos barracões, que eram também moinhos de farinha de mandioca.

Era um conjunto de mais ou menos quinze barracões, inclusive alguns serviam de quartel do Exército no tempo da Guerra, onde foi instalado o 12° CEMAC, ou seja Grupo Motorizado de Artilharia de Costa, depois transferido para São Francisco do Sul.

Os barracões foram construídos pela Companhia Docas, localizados próximos à ICC. Serviam de depósito para armazenar farinha de mandioca, que era exportada para a Alemanha, para confeccionar matéria plástica, armazenar trigo, sal e granéis.

Os moinhos eram equipados com máquinas de beneficiamento de embalagem de farinha.

O referido cinema ficava entre dois armazéns. Era comum os moinhos funcionarem dia e noite.

Embora os ventiladores do cinema funcionassem durante as sessões, mesmo assim o talco da farinha, o amido, era muito fino e sempre se espalhava pelo salão.

Deixava vestígios bem acentuados nas roupas escuras, nas cabeças, nos chapéus, não dando para negar a quem assistia ao filme, que não esteve no cinema.

Não era preciso nem esperar que o filme terminasse, pois nos intervalos para troca de bobinas do filme, as luzes eram acesas, e ali já se via o talco branqueando as cabeças.

Era só o moinho funcionar quando passasse o filme para os telespectadores branquearem.

Mais ou menos em 1950 foi construído um novo salão para o cinema, no Centro Comercial, com maior espaço e modernidade, inclusive com palco para a apresentação de teatros, shows de mágicos, palestras, etc.

Era opcional ir assistir o filme, ou encontrar amigos e amigas, Também se arriscava ir ao encontro de uma namorada, pois o que não faltavam eram moças e moços para abrilhantar o movimento.

Também era um ponto para casais renovarem amizades. O cinema tornou-se o símbolo da comunicação ao vivo.

Com a vinda da TV, depois do videocassete e o DVD, chegou ao fim toda aquela amizade que se construía dando espaço à falta de comunicação e ao isolamento.

Hoje em dia, principalmente nas cidades menores, não se encontra uma sala de cinema, a não ser naquelas que tem seus shoppings centers completos.

O Filme Italiano, Cinema Paradiso, bem retrata a saudade e o romantismo dos cinemas.

E eu, assim como muitos, sinto saudades dos namoros no escurinho dos cinemas!!!



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Texto de Liliana Josué - EU VI UM SAPO…


Texto de Liliana Josué

Decidi colocar um conto/crónica da minha autoria como início do ano 2015, sem fotos, só letrinhas.
Hesitei em colocar o nome do Hospital mas pensando melhor vou colocá-lo aqui mesmo: HOSPITAL DE S. JOSÈ

EU VI UM SAPO…

Joana, minha amiga desde o tempo das fraldas, sempre teve problemas asmáticos. A sua infância e juventude foram bastante acidentadas por esse mesmo facto, embora tivessem existido períodos de acalmia com muita felicidade e brincadeira. Apesar de tudo, era uma miúda cheia de vida e entusiasmo. Franzina mas rija.

Lembro-me de quando a ia visitar nas alturas das crises asmáticas, acamada e sem qualquer possível tratamento (pois naquele tempo não havia os recursos que existem hoje), apenas mezinhas caseiras como os pachos de algodão embebido em álcool ou papas de linhaça colocados, com duvidosas esperanças de melhoria, sobre o peito. Os lábios tornavam-se roxos apertados pela boca cerrada, narinas muito abertas e silvos saltando do peito, o qual parecia um fole nervoso e descompassado. Não conseguia falar.

Por vezes sentavam-na à janela do quarto para apanhar ar. O pai chegou a levá-la de carro , já um tanto “démodé”, abrir as janelas e correr com ela a cidade para que o vento lhe batesse forte na cara e ela se sentisse melhor. Hoje sabemos que isso nada faz, mas naquela época não, naquela época aquilo tinha de lhe fazer bem ou pelo menos fazê-la sentir melhor.

A situação embrulhava-me em tristeza e até em algum medo mas, mesmo assim, gostava de estar com ela. Lia-lhe livros de contos de fadas adornados com lindos desenhos que a minha amiga tanto gostava de colorir, ou lia páginas da coleção “As Aventuras dos Cinco”, cuja personagem Zé era disputada por ambas. Falava-lhe do meu gato amarelo ou do cágado que eu tinha no meu quintal, e também do meu vizinho guloso que me espreitava pelas janelas . Algumas vezes acompanhava-a no seu choro amargo e aflito, mas o meu era discreto para não a assustar ainda mais.

Já mais crescida, ou mesmo adulta, aquela erva daninha e corrosiva enraizada no seu peito abrandou as tenazes e a minha amiga tornou-se muito menos receosa, caminhado pela vida com um passo quase firme. 

Divertíamo-nos com imensas coisas, uma delas era fazermo-nos passar por estrangeiras nos parques da cidade, e muita gente acreditava. Eu era uma rapariga alta e de formas bem marcadas, dava nas vistas. Sem ser bela tinha um gracioso palminho de cara, não desvalorizando a minha inteligência que igualmente fazia parte do meu charme. 

A Joana era baixa, magra, pele muito branca, sardas no rosto, olhos esverdeados um pouco tristes, mas bonitos, e um invejável cabelo arruivado, mas era o seu sorriso que nos enternecia a alma. Quanto à sua inteligência também era patente, no entanto diferente da minha, era mais observadora e intuitiva. 

Os rapazes rondavam-nos como gatos com cio, e nós apimentávamos a situação fingindo-nos não portuguesas, os nossos tipos davam para fazer isso. Eles arregalavam os olhos enquanto perguntavam de risinho cobiçoso: “Vocês são francesas… ? inglesas…? alemãs…?” .

O tempo foi passando e agora já maduras a minha amiga voltou a ter crises asmáticas bastante violentas. O horizonte voltou a tornar-se triste e cinzento. Ontem deu entrada, de urgência, num hospital público. 

Foi rapidamente atendida, quanto a isso nada a dizer, fizeram-lhe todo os exames médicos considerados necessários e aplicaram-lhe os tratamentos mais indicados. Até aqui tudo bem, apesar do seu mal, mas depois… .

Como sua acompanhante estive quase sempre junto dela, pois até dá jeito para ajudar. O seu corpo arquejante afundou-se na cadeira embrulhado em toda uma parafernália de equipamentos médicos, alguns deles colocados por ela própria, por exigência dos serviços, mas ela não sabia que assim que tinha de ser. Ouvi um voz ao fundo: “então quando coloca o tubo do oxigénio no nariz? Está sentada mesmo em cima dele”. 

A minha amiga meio amedrontada e admirada procurou fazer desajeitadamente o que lhe diziam. Eu, infelizmente, também pouco podia acrescentar quanto ao manuseamento dos utensílios visto ainda menos perceber do assunto. Mas até se percebia tanto mau humor do pessoal pois o trabalho era muito e para além do mais estava-se num domingo. 

Caramba, que chatice ter de se estar ali no domingo, ainda por cima tudo gente nova que o que mais queria era estar a dormir ou a divertir-se, ou mesmo a namorar! 

Não compreendi o porquê mas realmente eram todos muito jovens, onde estariam os mais velhos? Se lá se encontrassem alguns até podia ser que tivessem um pouco mais de mais paciência, quem sabe…? Sim, quem sabe…?. 

Joana fechou os olhos lacrimejantes aguardando meio resignada pelo bom sucesso dos tubos, fios e frascos enquanto eu ia observando todo aquele espectáculo. Volta e meia uma idosa gritava com dores na perna e agonias. Muito chata, é certo, mesmo muito chata, mas também muito idosa. Como o seu “show” não pegava resolveu então fazer uma voz doce e melada de submissão canina dizendo: “ ó minha querida, não me arranja uma pomadinha e dava-me uma massagem na perna?”. 

A funcionária que se situava mais perto dela olhou-a furiosa e disse: “fricção, eu…? eu…? eu…?” e virou-lhe as costas indignada. Mas talvez até fosse por bem que ela não lhe fez a fricção, quem sabe…?

Outro idoso que mal se podia mexer, e mesmo sentado se apoiava numa bengala tinha uma bata vestida, daquelas próprias dos hospitais feias e deprimentes, era esquelético , feio e um nadinha rezingão, pretendia com muito custo, ajustar a mesma aos ombros pois a dita tinha-lhe sido vestida à pressa. Dizia com cara de poucos amigos: “tenho frio”. 

Ora lá estava outro chato! E não queriam que os pobres funcionários se aborrecessem, mas que abuso e falta de compreensão. É claro que o débil protesto pouco lhe adiantou, ficaria mesmo assim, desconfortável e com frio se o vizinho do lado, também ele idoso e muito doente, não lhe tivesse estendido a mão e a muito custo o ajudasse a puxar um pouco mais a bata. 

Eu senti-me bastante indignada comigo própria por nada fazer, mas estava a acompanhar a minha amiga e não as outras pessoas que não tinham ali os acompanhantes, para além do mais tinha medo de ofender os funcionários, de modo que os meus pés não se descolavam do chão.

Uma outra senhora igualmente de provecta idade queria ir à casa de banho, pediu muitas vezes, mas muito tempo teve de esperar. Até que um auxiliar mal encarado chegou com uma cadeira de rodas e puxando-a por um braço a quis levantar e sentar na dita (até eu sei que não é assim que se agarra uma pessoa sem forças), mas pelos vistos o pobre homem não sabia, coitado, não sabia, e então…? e quase berrando à mulherzinha disse-lhe: “ olhe que se não se segura bem cai aqui mesmo”. 

E não é que ia caindo mesmo!..? tal como um outro tinha caído noutra cadeira de rodas?! Mas aí, sejamos honestos, a culpa tinha sido da cadeira pois rompera-se sozinha. Um segundo auxiliar viu a cena e deu uma ajuda mais vigorosa à senhora. 

Entretanto a tal funcionária histérica remoía entre dentes: “estão mal é habituados, têm é muitos luxos.” No entanto eu achava curioso que em certas alturas esta mesma funcionária olhava para mim e atirava-me um sorriso de compaixão e simpatia, eu correspondia não fosse ela zangar-se. Muito mais eu vi e a minha amiga também, instalando-se dentro de nós uma revolta silenciosa e comungada.

Hoje fui visitá-la a casa, está melhor felizmente, e vai ficar totalmente restabelecida, certamente. Os olhos deixaram de estar mortiços e o peito sem chiadeira nem solavancos. Tudo estava a entrar na normalidade, mas a nódoa negra marcada a socos nos nossos corações por aquele hospital, essa, não vamos conseguir curar.

Liliana Josué




Poesia de Mário Matta e Silva


Poesia de Mário Matta e Silva


A face e a folha

Eu recolhi uma folha tricolor
Atirada para o chão do meu jardim
Feita de suspiros outonais
De veios firmes, desiguais
Com duas faces que olham para mim.

Eu acariciei as faces de um róseo rosto
Serenas e com aroma a romã
Na excitação duma pele sedosa e morna
Com a lágrima que vai de mansinho e torna
A descer docemente nas brisas da manhã.

Eu envolvi-me nestas duas maravilhas
Exultando os meus sentidos
Brandos, cálidos e um tanto divinais 
De assombros tamanhos, sensuais 
E os meus dedos são raios de sol destemidos.

29 de Outubro de 2014 

Mário Matta e Silva


Aventureiro

Esta vida é uma aventura
Uma aventura pegada
Eu sou nela aventureiro
Um aventureiro mais nada…

Eu vivo desta aventura
Exaltando de paixão 
Sentindo tua ternura
Acalmar o meu coração.

Vou andando o dia-a-dia
Nesta tormenta teimando
Num só bem que em mim porfia
Na luta que estou travando.

E que mais sei eu pedir
Quando a manhã se desfaz
Se o passado a insistir
Me faz olhar para trás.

Morre o ano, nasce o ano
E eu sempre a desejar
Que o ano que vem nascendo
Cresça sem me destronar.

Vem a noite, foge o dia
Nesta grande cavalgada
A pedir em euforia
Que haja feliz alvorada.

Sinto a vida, fujo à morte
Como um doido desvairado
Procuro o bem e a sorte
No presente do meu fado.

Ando alegre na tristeza
De me ver envelhecer
Vou conforme a Natureza
Até que esfume meu Ser.

Ai que grande correria
Faço dos anos meu pranto
Procurando em cada dia
O que é prazer e encanto.

30 de Dezembro de 2014 

Mário Matta e Silva






Conto de Liliana Josué - Aguarela


Aguarela


Conto de Liliana Josué


Enquanto caminhava deparei com um espectáculo digno dos deuses de gostos mais requintados.

Não pela sua magnificência, mas pela singeleza, constatando que muitas vezes ali passara sem que realmente nada tivesse visto, na pressa da minha vida.

A planície era um manto longo a deixar de se ver. Papoilas vermelhas de olhar atrevido salpicavam o extenso tapete verde. O sol, estrela imponentemente e estática, ruborizava ainda mais essas frágeis criaturas, ao mesmo tempo que doirava os pequenos mal-me-queres que por ali se espraiavam.

Alguns chorões deixavam que a brisa acariciasse suas macias cabeleiras, num rostilhar de perpétuo alívio e bem estar, murmurando segredos que só ela entendia.

E os gira-sois, que seres simpáticos e divertidos, de grandes olhos castanhos enfeitados de loiras pestanas, cantavam o sol em felicidade suprema e, quando ele partia, baixavam suas cabecitas e adormeciam rezando para para que nunca lhes faltasse.

Prestei mais atenção em meu redor e deparei com duas delicadas borboletas, de sedosas asas brancas, poisando num discreto lírio cor de marfim, acasalando felizes. Todos os outros lírios viraram suas corolas em direcção ao pequeno riacho num sorriso envergonhado.

Este, corria um tanto travesso por entre as pedras, suas companheiras, vestidas de verde musgo e adornadas por avencas.

Não resisti por muito tempo a descalçar meus pés e mergulhá-los nessa água de cristal. Arregacei a comprida saia azul- marinho sarapintada de cerejas encarnadas, tirei o chapéu de palha decorado com uma fita cor-de rosa e ramo de violetas. Coloquei-o sobre a margem; manta castanha protectora do riacho.

Senti um frio que me arrepiou a espinha, olhei para baixo num pasmo estático e assim permaneci sem tempo. Em seguida, meus pés dançaram num serpentear de água, brincaram lá no fundo, sobre a condescendente areia. Meus dedos ondulantes arrebitaram como meninos traquinas. Deleitada sorri para a o riacho frio, ele numa atitude gaiata devolveu-me esse sorriso.

O arrepio desapareceu e a alegria invadiu-me.

Dei um grito de libertação enquanto meus desgostos eram levados por aquelas renovadoras águas de mistério.

Pulei para fora do riacho e corri até mais não poder, de saia esvoaçando pelo vento e cabelos flutuando pelo ar.

De exaustão deitei-me sobre a terra quente, senti seu coração a palpitar e o som da vida em permanente actividade.

Apertei-me toda contra ela e, sem saber porquê, chamei-lhe MÃE.


Liliana Josué 




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


O lago

O lago permanece ali, há séculos plantado
Um corpo de água, aparentemente plácido.
Dizem-no triste, esse lago tão negligenciado.
Não lhe gabam o singular esverdeado translúcido

Da sua tona, nem o brilho do Sol ardente
Que apaixonadamente o beija todo o dia
Primeiro de mansinho, depois como um demente
Até que o anoitecer lhe encurta a estadia

Dizem que o lago não merece admiração
Que a sua tona até ao vento é impassível
Que nem um tornado podia incutir-lhe emoção

Mas esquecem-se, esses que tanto falam
Das suas profundezas onde poucos se aventuram
Onde o mundo singular que se encontra é inesquecível!


Uns e outros

Para uns o fado é a tristeza
Arrastam consigo o sofrimento e a saudade
Outros caminham pela Vida com leveza
E despedem-se sem lágrimas nem contrariedade

Uns carregam no peito as lágrimas de uma vida
E trazem o olhar húmido de melancolia
Outros trazem no peito uma alegria incontida
E no olhar um sorriso sem hipocrisia

Uns passam pelos dias sem nada vislumbrar
Outros abraçam a Vida com alegria
Uns tornam-se cegos pela cortina de lágrimas no olhar

Outros caminham como quem dança
Mas uns e outros são irmãos no dia da morte
Cadáveres apenas, qualquer que tenha sido a sua sorte.


Inverno

Entranha-se na pele e na alma este frio extremo
O ar glacial que sopra sem descansar nem amansar
O vendaval que não posso negar que temo
O gelo que se incrusta nos ossos sem se apiedar

Encharca-me a pele e a alma esta chuva incessante
A água que se agita num feroz redemoinho
Como lágrimas que parecem brotar do meu peito suplicante
O manto de água que cobre toda a terra no seu caminho

O Sol que nunca vem para me aquecer os ossos cansados
Que nunca escorre a água do meu longo cabelo
Que nunca me liberta dos meus mantos pesados…

Cubro a alma de mantos e véus e rezo pelo degelo
Vergo-me à violência da chuva e sonho com um leito seco que me acalente
Porque esta alma tão cansada ainda é a de uma sobrevivente!







Texto de Miriam de Sales Oliveira - O QUE ESPERAR DE 2015


O QUE ESPERAR DE 2015

Texto de Miriam de Sales Oliveira

Qualquer coisa será melhor que a decepção dos 7xI da Copa de 2014,diz um amigo ainda desolado.

Pois é ,provamos um prato amargo que  pôs abaixo uma velha ilusão:não,nós não temos o melhor futebol do mundo.Depois disto nossas esperanças desceram ladeira abaixo,como uma pluma ao vento.

Mas,passada a dor da desilusão  aprendemos que nossa vida  é  constituída  de ciclos: infância,juventude,maturidade ,velhice e morte.Tudo tem início ,meio e fim.O tempo é inexorável.

Estaria nosso país vivendo o fim de um ciclo?

Temos que voltar a crescer,temos que ouvir mais as ruas,temos que combater a corrupção,temos que nos livrar de velhos dogmas,como este do futebol,por exemplo,que estilhaçou nossa autoestima.Afinal,quem somos nós? Que país  queremos ser?

Uma coisa é certa,temos que deixar de ser o “país do futuro” e passarmos a pensar no presente.Deveremos ser mais responsáveis e mudar o que precisa ser mudado.Doa a quem doer.

Criticar não  resolve nada.Mas,realizar,sim.Que tal levantarmos o traseiro da poltrona,arregaçar as mangas e entrar na luta?Somos o povo que detém o poder,somos um conjunto de cidadãos ,a sociedade civil capaz de realizar mudanças,a começar pelo voto consciente e pela análise profunda dos acontecimentos.Mahatma Gandhi   nos aconselha:”-Seja você a mudança que deseja ver no mundo. “

2015 sinaliza para a maior participação popular, para uma maior consciência em relação aos direitos e deveres,para cobranças pacíficas e para o fortalecimento das instituições.

Temos “quase” tudo,só nos falta um povo esclarecido e consciente.

Miriam de Sales Oliveira



Conto Crónica de Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU


O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

Conto Crónica de Daniel Teixeira


O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.

Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras.

Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.

Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.

A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.

Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.

No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...

Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.