quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


O lago

O lago permanece ali, há séculos plantado
Um corpo de água, aparentemente plácido.
Dizem-no triste, esse lago tão negligenciado.
Não lhe gabam o singular esverdeado translúcido

Da sua tona, nem o brilho do Sol ardente
Que apaixonadamente o beija todo o dia
Primeiro de mansinho, depois como um demente
Até que o anoitecer lhe encurta a estadia

Dizem que o lago não merece admiração
Que a sua tona até ao vento é impassível
Que nem um tornado podia incutir-lhe emoção

Mas esquecem-se, esses que tanto falam
Das suas profundezas onde poucos se aventuram
Onde o mundo singular que se encontra é inesquecível!


Uns e outros

Para uns o fado é a tristeza
Arrastam consigo o sofrimento e a saudade
Outros caminham pela Vida com leveza
E despedem-se sem lágrimas nem contrariedade

Uns carregam no peito as lágrimas de uma vida
E trazem o olhar húmido de melancolia
Outros trazem no peito uma alegria incontida
E no olhar um sorriso sem hipocrisia

Uns passam pelos dias sem nada vislumbrar
Outros abraçam a Vida com alegria
Uns tornam-se cegos pela cortina de lágrimas no olhar

Outros caminham como quem dança
Mas uns e outros são irmãos no dia da morte
Cadáveres apenas, qualquer que tenha sido a sua sorte.


Inverno

Entranha-se na pele e na alma este frio extremo
O ar glacial que sopra sem descansar nem amansar
O vendaval que não posso negar que temo
O gelo que se incrusta nos ossos sem se apiedar

Encharca-me a pele e a alma esta chuva incessante
A água que se agita num feroz redemoinho
Como lágrimas que parecem brotar do meu peito suplicante
O manto de água que cobre toda a terra no seu caminho

O Sol que nunca vem para me aquecer os ossos cansados
Que nunca escorre a água do meu longo cabelo
Que nunca me liberta dos meus mantos pesados…

Cubro a alma de mantos e véus e rezo pelo degelo
Vergo-me à violência da chuva e sonho com um leito seco que me acalente
Porque esta alma tão cansada ainda é a de uma sobrevivente!







Texto de Miriam de Sales Oliveira - O QUE ESPERAR DE 2015


O QUE ESPERAR DE 2015

Texto de Miriam de Sales Oliveira

Qualquer coisa será melhor que a decepção dos 7xI da Copa de 2014,diz um amigo ainda desolado.

Pois é ,provamos um prato amargo que  pôs abaixo uma velha ilusão:não,nós não temos o melhor futebol do mundo.Depois disto nossas esperanças desceram ladeira abaixo,como uma pluma ao vento.

Mas,passada a dor da desilusão  aprendemos que nossa vida  é  constituída  de ciclos: infância,juventude,maturidade ,velhice e morte.Tudo tem início ,meio e fim.O tempo é inexorável.

Estaria nosso país vivendo o fim de um ciclo?

Temos que voltar a crescer,temos que ouvir mais as ruas,temos que combater a corrupção,temos que nos livrar de velhos dogmas,como este do futebol,por exemplo,que estilhaçou nossa autoestima.Afinal,quem somos nós? Que país  queremos ser?

Uma coisa é certa,temos que deixar de ser o “país do futuro” e passarmos a pensar no presente.Deveremos ser mais responsáveis e mudar o que precisa ser mudado.Doa a quem doer.

Criticar não  resolve nada.Mas,realizar,sim.Que tal levantarmos o traseiro da poltrona,arregaçar as mangas e entrar na luta?Somos o povo que detém o poder,somos um conjunto de cidadãos ,a sociedade civil capaz de realizar mudanças,a começar pelo voto consciente e pela análise profunda dos acontecimentos.Mahatma Gandhi   nos aconselha:”-Seja você a mudança que deseja ver no mundo. “

2015 sinaliza para a maior participação popular, para uma maior consciência em relação aos direitos e deveres,para cobranças pacíficas e para o fortalecimento das instituições.

Temos “quase” tudo,só nos falta um povo esclarecido e consciente.

Miriam de Sales Oliveira



Conto Crónica de Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU


O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

Conto Crónica de Daniel Teixeira


O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.

Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras.

Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.

Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.

A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.

Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.

No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...

Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.




Conto Crónica de Daniel Teixeira - O casal hippie


Conto Crónica de Daniel Teixeira


O casal hippie

Quando da minha travessia por Espanha nos anos 60 apanhei boleia de um casal hippie que tinha tudo aquilo que normalmente se diz que os hippies tinham.

A moça era simpática, tinha uma cara mesmo linda, lourinha, mas via-se que o cabelo havia tempo que não via água o que me fez depressa adivinhar que o resto do corpo dela também não, embora aquele intenso perfume marroquino, o patchouli, no qual ela parecia ter-se banhado, afastasse qualquer onda de outro adivinhável mau cheiro.

Ele não lhe ficava atrás embora não me parecesse que usasse o tal perfume.Tinha cheiro a suor puro, intenso e devia ser gorduroso também, pois, de barba desgrenhada, o cabelo derramava-se sobre os seus ombros em pastéis de cabelo colado tal como a barba.

Os caracóis dele e uma fita vermelha a barrar-lhe a fronte disfarçavam um pouco o desarrumado pessoal composto ainda por um colete em imitação de cabedal com negruras gordorosas nas mangas, nos bolsos, no colarinho e sabe-se lá onde mais.

Tinham uma daquelas carrinhas volkswagen (pão de forma) e na parte traseira, que foi onde ficámos os dois, eu e ela, havia um colchão preso por elásticos à parte lateral do furgoneta. Talvez por simpatia ela optou por vir fazer-me companhia na parte traseira, o que achei bem, mesmo que ela tivesse aproveitado a oportunidade para acender um charro e tentado partilhar com o condutor e comigo uma passa ou duas.

Eu não aceitei e simpaticamente disse quer era asmático e ainda tossi rouco um bocado para confirmar, mas para ela tudo bem, era verdadeiramente uma simpatia e resolveu fazer a parceria exclusivamente com o seu cara metade.

Fizemos cerca de duas horas de viagem juntos, o carro não era propriamente um fórmula 1 como se entende e acabámos por parar uns minutos enquanto eles entusiasmados tiravam fotos a uma enorme e solitária estátua de um pastor de ovelhas numa região perto de Vitória que teria esse seu símbolo.

Mais à frente à beira da estrada um indivíduo fardado fazia sinal para parar com a mão em palma o que assustou um pouco os meus companheiros ocasionais que começaram a murmurar «polícia, policia». Mas à medida que nos aproximávamos reparei que ela aí deitar qualquer coisa pela fresta da lateral porta de correr.

Eu já tinha achado estranho que a polícia, mesmo a espanhola e para mim estrangeira, não trabalhasse em patrulha dupla e à medida que nos aproximávamos vi que era um soldado, um tropa que teria vindo passar o fim de semana a casa e que aproveitava a farda para conseguir boleia através daquele interessante expediente.

Enquanto que eu e todo o usuário deste meio de deslocação metia o polegar à estrada, ele fazia o alto, tipo polícia mesmo e safava-se, pelos vistos. Ali safou-se...

Depois de eu ter dito que era «apenas» um soldado o «material» voltou ao lugar donde tinha saído, algures de entre as inúmeras saias que a jovem trazia vestidas e «acabámos» por dar boleia ao rapaz, que por acaso depois mostrou ser bastante humilde e de bom trato.

Largámo-lo nos arredores de Vitória, onde próximo deveria ser o seu quartel e foi depois dele se ter ido embora que eles me começaram a agradecer pela informação, que lhes tinha salvo o material que levavam e que seria difícil e dispendioso arranjar de novo.

Isto é uma pequena história, que tem um fundo moral, apesar de eu ter ajudado numa coisa que não é muito regular embora na altura fosse relativamente usual entre aquele pessoal.

O que me faz imaginar esta história é que aqueles dois ainda miúdos, de dezoito vinte anos no máximo, certamente fizeram como quase toda a gente daquela altura que eu conheci: tiraram um Curso Superior e transformaram-se ou em empresários ou quadros superiores de qualquer empresa.

De quase certeza um dia encontrarão num baú esquecido num sótão as tais fotografias da estátua do pastor de ovelhas, que depois largarão rindo muito alguns segundos porque estão com pressa. É fim de semana e têm de sair com os filhos e os netos.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Texto de João Furtado - A CARTA AO ANO NOVO


Texto de João Furtado

A CARTA AO ANO NOVO

DO ANO VELHO PARA O ANO NOVO

Meu filho estou quase no fim da minha vida e tu brevemente vais nascer e reinar durante 365 dias. Espero meu filho, que os teus 365 dias sejam melhores que os meus. Duvido muito que seja, mas faço votos para que não aconteça contigo, o que aconteceu com o meu antecessor. Com o antecessor do meu antecessor, etc… E o que aconteceu comigo.

No meu primeiro dia do ano, foi dedicado a PAZ e tive a infelicidade de assistir guerras e mais guerras. Assisti cessar-fogo e durante o mesmo, muitas mortes. Cada vez mais os homens procuram maneiras de matar.

Este ano resolveram atacar crianças e estudantes para serem conhecidos. Na Nigéria surgiu um grupo “Bokaran” raptaram meninas, foram violadas e obrigadas a se converterem à força para outra religião.

Assisti a violações à Mãe Natureza e senti a fúria dela em chuvas torrenciais, tufões, tremores de terra e vulcões. Secas prolongadas e mortes por fome e desnutrições.

Meu filho não pode deixar de ver terrorismos e extremismos. Embora nunca notasse grandes diferenças entre os humanos, eles passaram o ano todo em guerras para que o mais forte se conseguisse impor a sua supremacia.
O dinheiro gasto nas muitas guerras talvez pudesse minimizar os efeitos da Ébola.

Tive momentos de alegrias também, embora poucas… Houve copa de futebol e os homens se confraternizaram… Gestos de apoio e de louvar, mas, meu filho… O mal foi infelizmente maior.

Dai à 13 dias vou te dar as boas vindas, és o Ano Novo, és o 2015.
Espero que tenhas uma entrada de PAZ e que durante os teus 365 dias os extremistas, todos eles: “Talibans”, “Bokaran” e outros, não poucos adormeçam. Espero que os homens se identifiquem neles mesmos e não existam execuções sumárias. Espero que a Natureza seja a complacente com o Planeta Azul.

Muita felicidade e muita saúde te desejo. Ano Novo 2015!

João P. C. Furtado

Praia, 19 de Dezembro de 2014

http://joaopcfurtado.blogspot.com 


Texto de Maria Álvaro - Contradição


Texto de Maria Álvaro

Contradição

Ontem o dia fora compensador. Era o silêncio dos quartos adormecidos, e ainda em mim o palpitar entusiasta dos ecos de um rodopio sonoro que havia marcado os meus passos sonhadores na aula de dança das duas horas anteriores. Em meu leito, ainda em júbilo, os olhos bem abertos e vivazes, estavam direcionados para um alvo no escuro...a mente lúcida, os pensamentos fugazes...

Inicio, então, um deslizar involuntário e súbito por corredores, escadarias e salas de aula íntimas, muito íntimas.... Ouço o som monocórdico e agudo de múltiplas e simultâneas vozes femininas juvenis, risadas e ecos que ressoam fortes no meu peito. Ouço clamar e ecoar o meu nome : Maria Álvaro... álvaro... al-va-ro...! Voz que vem não sei de onde e nem para quê...

Mas vejo! Vejo as minhas colegas de turma, as minhas companheiras de estudo e de devaneios de tantos anos atrás, todas de bata branca e fitinha colorida ao peito. Vejo todos os rostos risonhos, irreverentes e sonhadores. Vejo a expectativa, vejo o entusiasmo estampado em cada olhar...

Vejo as carteiras de madeira onde as mocinhas se sentam e ocultam seus misteriosos enlevos, o estrado temeroso com seus degraus gélidos e escarpados, tal Alpes em dias invernosos... Vejo o quadro negro gigantesco empoado de branco, vejo os pedaços de giz pousados, esperando as mãos inquietas que irão fazer deslizar nele reproduções nervosas dos temas estudados... ou não ...Vejo um apagador que apaga erros e incertezas, mas não as notas atribuídas... Vejo o ponteiro de madeira tal enorme dedo condenatório e repressor, que mais do que apontar, intimida... Vejo o mapa- mundo autoritariamente pendurado na parede.
 
Exerce na perfeição a função de acentuar a localização e a geografia das "colônias", que, agora, não podem mais ser assim denominadas. Diz-se que são as "províncias ultramarinas", no dever de negar a atribuição de colonialista ao nosso País... No entanto, o mapa não nos desperta para a dimensão de isolamento absoluto que vivemos em relação às outras regiões da Europa e do Planeta...É um mapa que mente, um mapa que oculta!...

Vejo a professora de rosto seráfico e de voz emproada, como deusa em seu altar, este nada mais sendo do que a escrivaninha também de madeira onde repousam um tinteiro, com caneta de tinta permanente, o livro de ponto de um lado e a caderneta preta das notas do outro...

Vejo as janelas com as persianas de correr...Vejo o dia lá fora solarengo e as árvores da mata convidando para uma escapada...aquela escapada que nunca vem...Lembro-me da Feira de Faro, que está em curso... Penso na escapada de novo... _ "Vamos? Faltamos à aula de Inglês!...Depois a gente copia a matéria!", combinámos entre nós três... Hesito. Penso nas consequências... Mas o que é que isso interessa agora?! A Liberdade nos espera lá fora...na Feira!!!...

Na escuridão cega do meu quarto, a tudo assisti com tranquilidade. Não sofri, não desejei o regresso a esse cenário do passado...A música da minha aula de dança de duas horas atrás ainda ecoava como pano de fundo nesse palco juvenil da minha lembrança de outros tempos... Estava confortável, e prestes a ceder ao peso das minhas pálpebras ...

E, no entanto... subitamente...um detalhe aguçou o meu intelecto antes de me entregar definitivamente ao mundo dos sonhos ... Foi um detalhe que me deixou extremamente intrigada!... Intrigada porque, (imagine-se!) sem qualquer origem ou razão, sem qualquer emoção envolvida, sem o costumeiro nó na garganta em situações de comoção, sem o mínimo aperto no peito.......de repente .... uma lágrima viscosa, espessa, dolente,volumosa e contraditória começou a escorrer muito lentamente pelo canto de um único olho meu, deslizando injustificada pelo meu rosto imóvel e atónito...

Maria Álvaro




Conto de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz) - O NATAL DOS COELHINHOS AZUIS


Conto de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)

O NATAL DOS COELHINHOS AZUIS

Numa coelheira amarela viviam cinco Coelhinhos azuis que às vezes se vestiam de cores garridas, como vermelha, verde alface, amarela e outras cores que agora não me recordo, mas que davam muito nas vistas.

Aproximava-se o Natal e os Coelhinhos começaram a andar numa azáfama, fazendo compras para os familiares e amigos mais chegados. Ainda o Natal vinha sei lá onde, já eles andavam na floresta à procura dum ramo de árvore bonito, para fazerem a Árvore de Natal que, diziam eles, iriam enfeitar de maneira bem diferente do que haviam feito no Natal anterior.

Este Natal, - dizia o Coelhinho Tiago, havemos de fazer uns enfeites bem diferentes! concordam comigo? A nossa Árvore de Natal terá a enfeitá-la muitos bonequinhos e outros brinquedos que depois distribuiremos pelos nossos amiguinhos que não têm a sorte de ter tantos brinquedos como nós.

- Boa!!! – Disse o Coelhinho Miguel – Tiveste uma excelente ideia.
Fixe! – Exclamou a Coelhinha Rita – Afinal, vocês são mais inteligentes do que eu pensava! Não é que me considere a mais inteligente, mas às vezes vejo-vos fazer certas palermices e penso assim: - Estes dois Coelhinhos são tolinhos! Ainda bem que me enganei e que vocês até pensam nos Coelhinhos menos afortunados.

- Eu também penso! – Disse o Coelhinho Diogo –Julgam que eu não sou amigo de todos os Coelhinhos? Até já dei brinquedos meus a alguns que não têm tantos como eu!

- Vocês são mesmo “Daaaah.” – Acrescentou a Coelhinha Margarida – Não sabem que o Pai Natal só passa pelas nossas coelheiras mesmo no dia de Natal? Ele é muito pontual e vem sempre à meia-noite trazer os brinquedos que distribui por todos os Coelhinhos que lhe escreveram uma cartinha com o seu pedido!

- Às vezes O Pai Natal não deixa exactamente o que os Coelhinhos gostariam, mas isso é porque ele também tem muito em que pensar, e esquece-se – disseram os mais velhos.
- Eles estão a brincar connosco e não vão fazer nada do que estão a dizer? - disse a Coelhinha Rita - Eles são uns marotos e passam o tempo a tentar enganar-nos. Além disso, estão sempre à espera que os pais façam todas as tarefas, sejam elas quais forem. O que eles se esquecem é que, apesar de sermos mais novos, gostamos de ajudar os nossos pais e até de surpreendê-los, de vez em quando, por isso, vamos pedir-lhes para sermos nós a organizar tudo o que é alusivo ao Natal, incluindo a ceia. Eles vão aceitar a sugestão, não acham?

- Nós sabemos bem como convencê-los! – disse o Coelhinho Diogo – Não é verdade Coelhinha Margarida?

- Sim, sim! – exclamou a Coelhinha Margarida muito satisfeita - Poremos um bonito ramo, aquele mais bonito que encontrámos há dias na floresta e faremos uma bonita Árvore de Natal. Enfeitá-la-emos com muitos presentes, faremos uma Ceia de Natal à maneira com todas as iguarias que habitualmente se fazem nesta época.Terá que ser em muito maior quantidade, pois havemos de convidar os Coelhinhos das redondezas, cujos pais não têm possibilidades de fazer a Ceia de Natal.

- És uma boa Coelhinha! – Exclamaram todos, dirigindo-se à Coelhinha Margarida, pela ideia que teve.
- Obrigada, mas esta ideia partiu da Coelhinha Rita que pensa muito nos Coelhinhos que não têm brinquedos. Foi ela que me ensinou a pensar assim.

- Estou muito contente por teres memorizado as coisas que te tenho ensinado! – disse a Coelhinha Rita, à Coelhinha Margarida, com um sorriso de orelha a orelha.

- Ó Coelhinha Rita, pensas que eu sou alguma “Dah”? – Venham daí para darmos início às tarefas que temos em mente, ou daqui a pouco chega o Natal e não teremos nada feito. – Já agora, meninos Coelhinhos Miguel e Tiago, não pensem que vão passear e não nos ajudam...!

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)