quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Conto Crónica de Daniel Teixeira - O casal hippie


Conto Crónica de Daniel Teixeira


O casal hippie

Quando da minha travessia por Espanha nos anos 60 apanhei boleia de um casal hippie que tinha tudo aquilo que normalmente se diz que os hippies tinham.

A moça era simpática, tinha uma cara mesmo linda, lourinha, mas via-se que o cabelo havia tempo que não via água o que me fez depressa adivinhar que o resto do corpo dela também não, embora aquele intenso perfume marroquino, o patchouli, no qual ela parecia ter-se banhado, afastasse qualquer onda de outro adivinhável mau cheiro.

Ele não lhe ficava atrás embora não me parecesse que usasse o tal perfume.Tinha cheiro a suor puro, intenso e devia ser gorduroso também, pois, de barba desgrenhada, o cabelo derramava-se sobre os seus ombros em pastéis de cabelo colado tal como a barba.

Os caracóis dele e uma fita vermelha a barrar-lhe a fronte disfarçavam um pouco o desarrumado pessoal composto ainda por um colete em imitação de cabedal com negruras gordorosas nas mangas, nos bolsos, no colarinho e sabe-se lá onde mais.

Tinham uma daquelas carrinhas volkswagen (pão de forma) e na parte traseira, que foi onde ficámos os dois, eu e ela, havia um colchão preso por elásticos à parte lateral do furgoneta. Talvez por simpatia ela optou por vir fazer-me companhia na parte traseira, o que achei bem, mesmo que ela tivesse aproveitado a oportunidade para acender um charro e tentado partilhar com o condutor e comigo uma passa ou duas.

Eu não aceitei e simpaticamente disse quer era asmático e ainda tossi rouco um bocado para confirmar, mas para ela tudo bem, era verdadeiramente uma simpatia e resolveu fazer a parceria exclusivamente com o seu cara metade.

Fizemos cerca de duas horas de viagem juntos, o carro não era propriamente um fórmula 1 como se entende e acabámos por parar uns minutos enquanto eles entusiasmados tiravam fotos a uma enorme e solitária estátua de um pastor de ovelhas numa região perto de Vitória que teria esse seu símbolo.

Mais à frente à beira da estrada um indivíduo fardado fazia sinal para parar com a mão em palma o que assustou um pouco os meus companheiros ocasionais que começaram a murmurar «polícia, policia». Mas à medida que nos aproximávamos reparei que ela aí deitar qualquer coisa pela fresta da lateral porta de correr.

Eu já tinha achado estranho que a polícia, mesmo a espanhola e para mim estrangeira, não trabalhasse em patrulha dupla e à medida que nos aproximávamos vi que era um soldado, um tropa que teria vindo passar o fim de semana a casa e que aproveitava a farda para conseguir boleia através daquele interessante expediente.

Enquanto que eu e todo o usuário deste meio de deslocação metia o polegar à estrada, ele fazia o alto, tipo polícia mesmo e safava-se, pelos vistos. Ali safou-se...

Depois de eu ter dito que era «apenas» um soldado o «material» voltou ao lugar donde tinha saído, algures de entre as inúmeras saias que a jovem trazia vestidas e «acabámos» por dar boleia ao rapaz, que por acaso depois mostrou ser bastante humilde e de bom trato.

Largámo-lo nos arredores de Vitória, onde próximo deveria ser o seu quartel e foi depois dele se ter ido embora que eles me começaram a agradecer pela informação, que lhes tinha salvo o material que levavam e que seria difícil e dispendioso arranjar de novo.

Isto é uma pequena história, que tem um fundo moral, apesar de eu ter ajudado numa coisa que não é muito regular embora na altura fosse relativamente usual entre aquele pessoal.

O que me faz imaginar esta história é que aqueles dois ainda miúdos, de dezoito vinte anos no máximo, certamente fizeram como quase toda a gente daquela altura que eu conheci: tiraram um Curso Superior e transformaram-se ou em empresários ou quadros superiores de qualquer empresa.

De quase certeza um dia encontrarão num baú esquecido num sótão as tais fotografias da estátua do pastor de ovelhas, que depois largarão rindo muito alguns segundos porque estão com pressa. É fim de semana e têm de sair com os filhos e os netos.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Texto de João Furtado - A CARTA AO ANO NOVO


Texto de João Furtado

A CARTA AO ANO NOVO

DO ANO VELHO PARA O ANO NOVO

Meu filho estou quase no fim da minha vida e tu brevemente vais nascer e reinar durante 365 dias. Espero meu filho, que os teus 365 dias sejam melhores que os meus. Duvido muito que seja, mas faço votos para que não aconteça contigo, o que aconteceu com o meu antecessor. Com o antecessor do meu antecessor, etc… E o que aconteceu comigo.

No meu primeiro dia do ano, foi dedicado a PAZ e tive a infelicidade de assistir guerras e mais guerras. Assisti cessar-fogo e durante o mesmo, muitas mortes. Cada vez mais os homens procuram maneiras de matar.

Este ano resolveram atacar crianças e estudantes para serem conhecidos. Na Nigéria surgiu um grupo “Bokaran” raptaram meninas, foram violadas e obrigadas a se converterem à força para outra religião.

Assisti a violações à Mãe Natureza e senti a fúria dela em chuvas torrenciais, tufões, tremores de terra e vulcões. Secas prolongadas e mortes por fome e desnutrições.

Meu filho não pode deixar de ver terrorismos e extremismos. Embora nunca notasse grandes diferenças entre os humanos, eles passaram o ano todo em guerras para que o mais forte se conseguisse impor a sua supremacia.
O dinheiro gasto nas muitas guerras talvez pudesse minimizar os efeitos da Ébola.

Tive momentos de alegrias também, embora poucas… Houve copa de futebol e os homens se confraternizaram… Gestos de apoio e de louvar, mas, meu filho… O mal foi infelizmente maior.

Dai à 13 dias vou te dar as boas vindas, és o Ano Novo, és o 2015.
Espero que tenhas uma entrada de PAZ e que durante os teus 365 dias os extremistas, todos eles: “Talibans”, “Bokaran” e outros, não poucos adormeçam. Espero que os homens se identifiquem neles mesmos e não existam execuções sumárias. Espero que a Natureza seja a complacente com o Planeta Azul.

Muita felicidade e muita saúde te desejo. Ano Novo 2015!

João P. C. Furtado

Praia, 19 de Dezembro de 2014

http://joaopcfurtado.blogspot.com 


Texto de Maria Álvaro - Contradição


Texto de Maria Álvaro

Contradição

Ontem o dia fora compensador. Era o silêncio dos quartos adormecidos, e ainda em mim o palpitar entusiasta dos ecos de um rodopio sonoro que havia marcado os meus passos sonhadores na aula de dança das duas horas anteriores. Em meu leito, ainda em júbilo, os olhos bem abertos e vivazes, estavam direcionados para um alvo no escuro...a mente lúcida, os pensamentos fugazes...

Inicio, então, um deslizar involuntário e súbito por corredores, escadarias e salas de aula íntimas, muito íntimas.... Ouço o som monocórdico e agudo de múltiplas e simultâneas vozes femininas juvenis, risadas e ecos que ressoam fortes no meu peito. Ouço clamar e ecoar o meu nome : Maria Álvaro... álvaro... al-va-ro...! Voz que vem não sei de onde e nem para quê...

Mas vejo! Vejo as minhas colegas de turma, as minhas companheiras de estudo e de devaneios de tantos anos atrás, todas de bata branca e fitinha colorida ao peito. Vejo todos os rostos risonhos, irreverentes e sonhadores. Vejo a expectativa, vejo o entusiasmo estampado em cada olhar...

Vejo as carteiras de madeira onde as mocinhas se sentam e ocultam seus misteriosos enlevos, o estrado temeroso com seus degraus gélidos e escarpados, tal Alpes em dias invernosos... Vejo o quadro negro gigantesco empoado de branco, vejo os pedaços de giz pousados, esperando as mãos inquietas que irão fazer deslizar nele reproduções nervosas dos temas estudados... ou não ...Vejo um apagador que apaga erros e incertezas, mas não as notas atribuídas... Vejo o ponteiro de madeira tal enorme dedo condenatório e repressor, que mais do que apontar, intimida... Vejo o mapa- mundo autoritariamente pendurado na parede.
 
Exerce na perfeição a função de acentuar a localização e a geografia das "colônias", que, agora, não podem mais ser assim denominadas. Diz-se que são as "províncias ultramarinas", no dever de negar a atribuição de colonialista ao nosso País... No entanto, o mapa não nos desperta para a dimensão de isolamento absoluto que vivemos em relação às outras regiões da Europa e do Planeta...É um mapa que mente, um mapa que oculta!...

Vejo a professora de rosto seráfico e de voz emproada, como deusa em seu altar, este nada mais sendo do que a escrivaninha também de madeira onde repousam um tinteiro, com caneta de tinta permanente, o livro de ponto de um lado e a caderneta preta das notas do outro...

Vejo as janelas com as persianas de correr...Vejo o dia lá fora solarengo e as árvores da mata convidando para uma escapada...aquela escapada que nunca vem...Lembro-me da Feira de Faro, que está em curso... Penso na escapada de novo... _ "Vamos? Faltamos à aula de Inglês!...Depois a gente copia a matéria!", combinámos entre nós três... Hesito. Penso nas consequências... Mas o que é que isso interessa agora?! A Liberdade nos espera lá fora...na Feira!!!...

Na escuridão cega do meu quarto, a tudo assisti com tranquilidade. Não sofri, não desejei o regresso a esse cenário do passado...A música da minha aula de dança de duas horas atrás ainda ecoava como pano de fundo nesse palco juvenil da minha lembrança de outros tempos... Estava confortável, e prestes a ceder ao peso das minhas pálpebras ...

E, no entanto... subitamente...um detalhe aguçou o meu intelecto antes de me entregar definitivamente ao mundo dos sonhos ... Foi um detalhe que me deixou extremamente intrigada!... Intrigada porque, (imagine-se!) sem qualquer origem ou razão, sem qualquer emoção envolvida, sem o costumeiro nó na garganta em situações de comoção, sem o mínimo aperto no peito.......de repente .... uma lágrima viscosa, espessa, dolente,volumosa e contraditória começou a escorrer muito lentamente pelo canto de um único olho meu, deslizando injustificada pelo meu rosto imóvel e atónito...

Maria Álvaro




Conto de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz) - O NATAL DOS COELHINHOS AZUIS


Conto de Avómi (Cremilde Vieira da Cruz)

O NATAL DOS COELHINHOS AZUIS

Numa coelheira amarela viviam cinco Coelhinhos azuis que às vezes se vestiam de cores garridas, como vermelha, verde alface, amarela e outras cores que agora não me recordo, mas que davam muito nas vistas.

Aproximava-se o Natal e os Coelhinhos começaram a andar numa azáfama, fazendo compras para os familiares e amigos mais chegados. Ainda o Natal vinha sei lá onde, já eles andavam na floresta à procura dum ramo de árvore bonito, para fazerem a Árvore de Natal que, diziam eles, iriam enfeitar de maneira bem diferente do que haviam feito no Natal anterior.

Este Natal, - dizia o Coelhinho Tiago, havemos de fazer uns enfeites bem diferentes! concordam comigo? A nossa Árvore de Natal terá a enfeitá-la muitos bonequinhos e outros brinquedos que depois distribuiremos pelos nossos amiguinhos que não têm a sorte de ter tantos brinquedos como nós.

- Boa!!! – Disse o Coelhinho Miguel – Tiveste uma excelente ideia.
Fixe! – Exclamou a Coelhinha Rita – Afinal, vocês são mais inteligentes do que eu pensava! Não é que me considere a mais inteligente, mas às vezes vejo-vos fazer certas palermices e penso assim: - Estes dois Coelhinhos são tolinhos! Ainda bem que me enganei e que vocês até pensam nos Coelhinhos menos afortunados.

- Eu também penso! – Disse o Coelhinho Diogo –Julgam que eu não sou amigo de todos os Coelhinhos? Até já dei brinquedos meus a alguns que não têm tantos como eu!

- Vocês são mesmo “Daaaah.” – Acrescentou a Coelhinha Margarida – Não sabem que o Pai Natal só passa pelas nossas coelheiras mesmo no dia de Natal? Ele é muito pontual e vem sempre à meia-noite trazer os brinquedos que distribui por todos os Coelhinhos que lhe escreveram uma cartinha com o seu pedido!

- Às vezes O Pai Natal não deixa exactamente o que os Coelhinhos gostariam, mas isso é porque ele também tem muito em que pensar, e esquece-se – disseram os mais velhos.
- Eles estão a brincar connosco e não vão fazer nada do que estão a dizer? - disse a Coelhinha Rita - Eles são uns marotos e passam o tempo a tentar enganar-nos. Além disso, estão sempre à espera que os pais façam todas as tarefas, sejam elas quais forem. O que eles se esquecem é que, apesar de sermos mais novos, gostamos de ajudar os nossos pais e até de surpreendê-los, de vez em quando, por isso, vamos pedir-lhes para sermos nós a organizar tudo o que é alusivo ao Natal, incluindo a ceia. Eles vão aceitar a sugestão, não acham?

- Nós sabemos bem como convencê-los! – disse o Coelhinho Diogo – Não é verdade Coelhinha Margarida?

- Sim, sim! – exclamou a Coelhinha Margarida muito satisfeita - Poremos um bonito ramo, aquele mais bonito que encontrámos há dias na floresta e faremos uma bonita Árvore de Natal. Enfeitá-la-emos com muitos presentes, faremos uma Ceia de Natal à maneira com todas as iguarias que habitualmente se fazem nesta época.Terá que ser em muito maior quantidade, pois havemos de convidar os Coelhinhos das redondezas, cujos pais não têm possibilidades de fazer a Ceia de Natal.

- És uma boa Coelhinha! – Exclamaram todos, dirigindo-se à Coelhinha Margarida, pela ideia que teve.
- Obrigada, mas esta ideia partiu da Coelhinha Rita que pensa muito nos Coelhinhos que não têm brinquedos. Foi ela que me ensinou a pensar assim.

- Estou muito contente por teres memorizado as coisas que te tenho ensinado! – disse a Coelhinha Rita, à Coelhinha Margarida, com um sorriso de orelha a orelha.

- Ó Coelhinha Rita, pensas que eu sou alguma “Dah”? – Venham daí para darmos início às tarefas que temos em mente, ou daqui a pouco chega o Natal e não teremos nada feito. – Já agora, meninos Coelhinhos Miguel e Tiago, não pensem que vão passear e não nos ajudam...!

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)



Poesia de José Carlos Moutinho


Poesia de José Carlos Moutinho

Mas é Natal...

Dezembro, mês frio, especial
Porque é de festa,
Dizem que é o mês do Natal...
E este, significa amor, partilha e união!
Paradoxo...
Se afinal, tantos têm fome,
Sem uma côdea de pão para a mitigar!
Quem se lembra desses seres de Deus,
Em corpos que se enregelam,
Embrulhados em mantos de morte,
Pela carência de abrigo e alimento?
Gente enjaulada por ideias humanitárias,
Injustiças criadas em nome de Deus,
Por este mundo... De Deus!

Mas é Natal...
Nasceu o Menino-Salvador,
Enviado pelo Divino,
Para que servisse de exemplo!
Exemplo de quê…
Da ignorância, da maldade e do egoísmo?
Mas são os agasalhados e nutridos
Que festejam esta data, com fervor,
Cheios de fé…
Que fé esta, Santo Deus?
Enganam as suas próprias consciências,
Que assim acalmam sem sentirem culpa
e ignoram os infelizes à sua volta…
Ai, Mundo este, de gente estranha!

Mas é Natal....
Que importa os que morrem de frio e fome,
Se houver abundância e fogueira acesa,
Aquecendo os lares dos privilegiados?
Importa sim, consumir desmesuradamente...
…E bastava a dádiva,
De uma mísera moeda,
Para que milhões sentissem calor,
No estômago e na alma,
Pelo menos nesta data festiva!

Mas é Natal...
Aleluia!

José Carlos Moutinho

Filosofando

No som do silêncio
aconchegam-se os sentires
na suavidade da brisa
murmuram as saudades
no prateado do luar
acalmam-se as almas
no perfume da maresia
suspiram as ilusões
na contemplação do mar
voam os sonhos
com o calor do sol
acalentam-se os corações
com o sopro do vento
soltam-se as tristezas
com as lágrimas da chuva
choram as dores
nas palavras hipócritas
desnudam-se as mentiras
no azedume da inveja
escondem-se as frustrações
no envolver dos braços
sorri o carinho dos abraços
na beleza dos sorrisos
podem nascer amizades
na sincera amizade
exaltam-se as emoções
na brancura da sinceridade
pinta-se harmonia e verdade
nas folhas secas matizadas do outono,
escondem-se mistérios que a brisa da finitude,
leva para o azul etéreo.

José Carlos Moutinho


Gosto de afectos

Pelas margens do meu rio de ilusão
Nascem flores de sonhos por sonhar,
Crescem fantasias de doce paixão
Poesia para a minha alma cantar.
 

Sou sonhador e não me envergonho
Gosto de afectos e bons abraços
A ter carinho jamais me oponho,
A qualquer pessoa eu estendo meus braços.
 

Assim é meu modo de viver e amar
Com amizade alegria e sorriso,
Pelo rio abaixo no meu navegar…
 

Tenho a certeza que deste jeito
Se eu algum dia alcançar o paraiso
todos dirão que fui bom sujeito.

José Carlos Moutinho






Crónica de Gociante Patissa - «O QUE VEJO POSSO TRANSFORMAR EM ARTE, SÓ QUE NÃO CONSIGO ESCREVER»


Crónica de Gociante Patissa

«O QUE VEJO POSSO TRANSFORMAR EM ARTE, SÓ QUE NÃO CONSIGO ESCREVER»

Quando me consegui livrar do turno, delegando tarefas ao pessoal à disposição, estava a uma hora da entrevista em directo ao programa da amiga Lena Sebastião, na Rádio Benguela.

Tinha feito trinta quilómetros ao volante entre uma cidade vizinha e a casa, o mesmo trajecto que uso para relaxar, neste gozo que é conduzir, sozinho, ouvindo o que apetece e no volume que a alma entende. Mas a fórmula estava fora de hipótese nesse exacto dia. Sim, porque, por uma causa bem justificável, embora não seja para aqui chamada, eu tinha passado a noite de sexta para sábado no assento do motorista, onde aliás me foi servido o jantar, tão-só na principal avenida do centro do Lobito.

Nesta época do ano, o litoral é quente e húmido, o que em nada alivia o stress; daí depositar esperanças na terapia do chuveiro. Posto em casa, nada de água na torneira, banho frustrado! É que, como raramente a água falha, perdi o hábito de ter alguma na reserva. Dei meia-volta em direcção ao Largo de África para tirar a poeira do carro. Apenas um “limpador” se encontrava em serviço, engajado já em outra empreitada. Não era prudente esperar pela nossa vez, dada a natureza gasosa do tempo em rádio.

Música alta vinha do jardim. O dístico falava em feira do livro, quando só se viam uma tenda com livros, uma com produtos de alfaiataria e outra com artesanato. Bem, como não há meio-buraco, uma feira é feira a partir da sua intenção, deduzi. Por puro hábito, fiz algumas fotografias. Saudei duas pessoas conhecidas ali e retirei-me.

Um quarto para 16h00. Caminhava, apressado, para o carro, tão contra que sou relativamente ao atraso de convidados quando faço rádio. Para piorar, um adolescente vinha a correr em minha direcção. Inferi logo que alguém me havia referenciado a ele. «Desculpa, quanto tempo leva para escrever um livro?», questionou-me, humilde e sonhador, como se eu tivesse autoridade alguma. Numa cuidadosa selecção de palavras, tirei a coisa da esfera da contabilidade para focar na da maturidade. O importante é o exercício permanente de ler e escrever, e não já criar a pensar no livro ou no disco.

«Para mim, que tenho dificuldade na escrita, tem que ser disco, não?» Bem, eu sou mais inclinado para o livro do que para o CD de poesia. Mas é assim: a escrita é combinar a criatividade com o domínio da ferramenta de trabalho, a língua. Tens dificuldades de escrita, como? «A trombose que me fez assim - indicava a sequela do seu lado esquerdo - prejudicou o cérebro». Anda na 6ª classe do ensino especial e já reprovou duas vezes. Minhas emoções misturavam-se, tendo em conta a empatia e a crise de tempo.

Mas se não consegues ler nem escrever, como identificas a poesia? «Eu me inspiro em tudo, numa festa, jogo de futebol, num filme; tudo o que vejo posso transformar em arte, só que não consigo escrever. Por isso, penso no disco».

Neste caso, a gravação pode ser uma técnica de evitar dispersão, para mais tarde, com ajuda de alguém, cuidar da correcção. Se decidires ficar pelo CD de poesia, tudo bem, desde que seja um trabalho com maturidade. De contrário, o mercado literário pode anular o teu esforço.

Devo ter-lhe confundido ainda mais, mas não sei falar ao contrário do que penso.

Gociante Patissa, Lobito 15 de Abril de 2013




Poesia de Cremilde Vieira da Cruz


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz

 
ONDE MORAS, FELICIDADE?


Passei na rua onde moras, felicidade!
Ia ao teu encontro e deixei-te fugir,
Quando a noite, cheia de vaidade,
Veio para me castigar e denegrir.

Dia após dia, tempo sem idade,
Tentando encontrar-te sem o conseguir.
Meus olhos rasos de infelicidade,
Escondiam segredos de minha alma a fluir.

Chamava por ti, mas nunca me ouvias,
E eu procurava, procurava a medo,
A rua onde moras, ou onde vivias!

Nem sombra de ti, um gesto, ou leve rumor...
Nem a tua voz ou murmúrio em segredo
E eu tinha tanto que te dar, tanto amor!!!...

Cremilde Vieira da Cruz

 
FLORES DE SETEMBRO

Puseste a jarra no meu colo,
Quebraste meu coração.
Foi na Terra do Não,
Tempo de ocasião,
Aragem carregada de paixão.
Não foi nada, não!

Foram flores de Maio,
Ou talvez não.
Foram flores de Setembro.
Foi na Terra do Não.
Havia lágrimas nos odores da noite
E levavas-me pela mão.

Tu ias partir.
Eu ia partir.
Mas as flores,
As flores de Setembro,
Essas ficaram à beira do sonho,
Na Terra do Não,
Junto à lagoa azul,
Junto à vereda sem chão.

Bateram portas…
Estávamos à beira do vento.
Não foi nada, não,
Apenas nossa decisão.
Foi na Terra do Não.

Cremilde Vieira da Cruz