domingo, 15 de janeiro de 2012

O Estacionamento - Conto por Arlete Piedade



O Estacionamento - Conto por Arlete Piedade

A mulher saiu mecanicamente da estrada, entrando para o parque de estacionamento do hipermercado, de uma forma tão igual a todos os dias, que quem andasse por acaso a vigiá-la... - que ideia...quem se importaria com os locais sempre iguais e monótonos que aquela mulher já de idade madura, frequentava? - mas se por acaso esse alguém existisse...diria que um pensamento fixo, quase obsessivo, guiava os seus passos....ou melhor dizendo...rodas...do seu carro, sempre para aquele mesmo lugar do estacionamento - sempre o mesmo - do hipermercado - sempre o mesmo hipermercado - que todos os dias visitava.

 Será que ela ia fazer compras, sempre compras, todos os dias e ainda mais em tempo de crise instalada? Será que ia beber café, ainda mais agora com o IVA a 23%, não seria assim tão disparatado não senhor...porque aquele era o único hipermercado da meia dúzia que existiam na cidade, onde o café ainda se bebia a cinquenta cêntimos, malgrado os escárnios e maldizeres que o seu dono vários vezes milionário, andava a ser alvo.

 Bem, fosse o que fosse, uma coisa era certa. A mulher estacionava o carro - um modelo pequeno, velho e popular igual a alguns milhares que ainda circulavam pelas estradas portuguesas - sempre no mesmo lugar do estacionamento. Porquê?

O voyeur invisível, como todos o são aliás, ou deviam ser, via-a sempre ficar alguns minutos dentro do carro, sem nada fazer, aparentemente a pensar na morte da bezerra - se por acaso nestes tempos ainda existem bezerras para se pensar na sua morte - antes de sair do carro, como se estivesse a ganhar coragem para sair ou se sentisse confortável, naquele local, sentada no banco, com a janela semi-aberta...ou seria semi-fechada?

 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Charolas - Freguesia de Santa Bárbara de Nexe



Charolas -  Freguesia de Santa Bárbara de Nexe

As Charolas na Freguesia de Santa Bárbara de Nexe (Faro - Algarve - Portugal) têm características próprias e são a manifestação cultural mais tradicional e genuína desta Freguesia e únicas no Algarve e em Portugal.

As Charolas e as tradições da Freguesia, a sua identidade comunitária e o reforço das dinâmicas culturais e da cooperação cultural e social são factores importantíssimos potenciadores de intervenção cívica e coesão social.

As Charolas são onde o passado, o presente e o futuro se encontram num espaço simbólico para expressar e afirmar a identidade colectiva, através da festa, do improviso, da vivacidade das músicas, da evocação da tradição, amizade, união e fraternidade.


Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XX - Por Daniel Teixeira - O relevo das pessoas em Alcaria Alta



Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XX - Por Daniel Teixeira - O relevo das pessoas em Alcaria Alta 
Este tema pelo seu título pode prestar-se a alguma consideração prévia menos apropriada mas no fundo o que eu pretendo é descrever aquelas pessoas que conheci e que, por uma razão ou outra, por vezes não muito, se fizeram realçar num Monte onde de uma forma geral os níveis de sociabilidade eram parelhos.

Ser rico, e a riqueza é bem relativa aqui, ou ser pobre, e a pobreza é também bem relativa aqui, não tinha uma divisão por estratos acentuada: as pessoas respeitavam-se entre si na sua aparente riqueza ou na sua aparente pobreza e mesmo os então serviçais que ainda conheci eram considerados de uma forma  geral como família e protegidos na sua medida quando eram «poucochinhos» (quer dizer eram excessivamente ingénuos ao ponto de aflorarem a oligofrenia moderada).
 As excepções, quer dizer, os destaques da normalidade, serão assim vistas em dois planos: o destacado é aquele que da lei da morte se liberta nem sempre por obras valorosas e algumas vezes destaca-se precisamente por não ter feito de facto obra, naquele sentido construtivo e produtivo a que a sociedade moderna nos habituou.
 Temos uma colaboradora nossa, Arlete Deretti Fernandes, que é de Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil que ainda recentemente apresentou uma história de mendigo vagabundo bastante considerado pelas populações residentes nos sítios por onde parava cujo epitáfio verbal terá sido dito da seguinte forma: «Fulano, faleceu sem nada ter feito nem de bem nem de mal ao longo da vida.» Convenhamos que é difícil conseguir este equilíbrio comportamental ao longo de uma vida e ser notado, precisamente por não se ter feito notar.

Em Alcaria Alta havia muitas pessoas que numa outra medida que não a da vagabundagem entrariam dentro desta definição: nunca fizeram nada de mal e o bem que fizeram foi terem vivido na sua medida. Em certo sentido passaram pela vida mais do que a vida passou por elas. Sem menosprezo para ninguém, é claro, governaram a sua vida sem se fazerem notar. Plantaram aquilo que colheram e mesmo que episodicamente precisassem de ajuda dos seus vizinhos nomeadamente em ração para os animais isso era tomado como absolutamente normal na medida em que mais tarde ou mais cedo o vizinho ajudante acabaria por necessitar de uma ajuda também.


 

Poesia de Sylvia Beirute - CIDADE-RAPAZ; ENTARDECIMENTO; FORMA DE FICAR



Poesia de Sylvia Beirute - CIDADE-RAPAZ; ENTARDECIMENTO; FORMA DE FICAR

 
 
 CIDADE-RAPAZ

Escrever poemas eróticos de qualidade é muito difícil. Mas sinto-me imensamente feliz com o que exprimi neste poema.

 quero viver contigo
numa cidade - rapaz
 e jantar num restaurante situado no ombro
 talvez mais tarde um passeio pelo peito
 esconder-me contigo na floresta do peito
 oh mas nunca conhecer
esse rapaz que é cidade
 nem o seu coração que bate como trovoada
 a sua insanidade saudável
mas no final do dia

ENTARDECIMENTO
 
 nada pior do que entardecer
 na infância de qualquer pequeno nada.
 não soube guardar a criança.
 não soube iluminar o silêncio
 com palavras anónimas.
 é uma espécie de lado inverso
 da felicidade (o lado mitológico das
cidades, como diria al berto).
 e eu fi-lo.

FORMA DE FICAR
 
 os estilhaços formam números.
 como se eu não pudesse falar de outra coisa
ou de outra
 forma de ficar.
 eu posso queixar-me a cada minuto.
 eu posso ser o centro do meu universo
 a cada minuto.
 sentir a falta de paulo leminski.
e os estilhaços formam números porque
 os procuram.

Leia este tema completo a partir de 16/1/2012

Mais silêncio mais sombra - António Ramos Rosa - in Prosas seguidas de Diálogos- Edição 4 Aguas



Mais silêncio mais sombra - António Ramos Rosa - in Prosas seguidas de Diálogos- Edição 4 Aguas
 

Imperceptiblement du jeu se produit dans le système, quelque chose bouge, la vie change. Le système n’est pas omnipotent, nous changeons en lui, malgré lui. Et qui sait ce que nous serons demain?
Mikel Dufrenne, Subversion

Sempre falaram alto. Muito alto. Demasiado alto. Todos exemplares e eufónicos, erectos no seu convencimento, na segurança de si, no excesso da personalidade e da expressão. Ouvia-os e não os ouvia, ficava mudo e adiado, admirando-os, invejando-os, anulado definitivamente sem o horizonte de uma palavra. A sua sabedoria era veloz, eléctrica, transbordante. Vozes não eróticas, não silenciosas, não pedestres. Vozes, vozes de ébria sapiência, de chaves e de risos, clamor de evidências. Não os oiço já e continuam sempre, velozmente vitoriosos, incontinentes, insuperáveis. Eles continuarão mesmo depois da minha morte. Mesmo quando a sombra cai, eles continuam o seu discurso fluente e soberano. Onde quer que estejam, falam sempre alto, senhores de si, senhores de tudo. Poderei eu alguma vez dizer uma palavra? O seu discurso anulava-me, eu nunca tinha uma palavra a dizer, a não ser a que ainda seria uma continuação do discurso deles, uma excrescência de mim próprio. Porque eu admirava-os como modelos e queria integrar-me no seu sistema, queria ser como eles, um deles, um senhor também.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Exposição de Pintura de Luís Athouguia



Exposição de Pintura de Luís Athouguia
O CLUBE LITERARIO DO PORTO inaugura no dia 17 de Janeiro uma importante exposição de Pintura de Luís Athouguia intitulada «Atmosferas e Fábulas». 

Num excerto do texto da exposição, por João Aníbal Henriques pode ler-se:
 
Não existem meias-palavras na obra de Luís Athouguia. Nem palavras sequer. As linhas e as cores, transfiguradas em painéis que não esbatem o universo maravilhoso em que estamos mas que aguçam os pensamentos perdidos no meio dos nossos sonhos, são pontes efectivas que nos transportam até à verdadeira eternidade.

Não aquela eternidade ilusória em que o fim não existe e em que os tempos se vão esticando até mais não… ele vai ao princípio, à matéria primordial, e é ali, naquele cadinho da alma, que encontra a verdade suprema e a totalidade do que não pode ser concebido…

é preciso coragem para literalmente podermos mergulhar na obra dele. é fundamental que o façamos num estado de liberdade absoluto que geralmente só encontramos quando conciliamos o sono com o sonho e nos libertamos das amarras do real.


POESIAS DE VALDO SANTOS - um só único universo..; procuro neste mundo; Talvez seja um sonho



POESIAS DE VALDO SANTOS - um só único universo..; procuro neste mundo; Talvez seja um sonho 

 um só único universo..
 dois mundos tentando se encontrar
 duas vontades em comum
 juntar o desejo á vontade de amar..
 um elo em harmonia
 amor e uma imensa paixão
 dois sonhos em total sintonia
 unir o querer á convicção

procuro neste mundo um lugar para ficar
 um canto esquecido
 onde eu possa sonhar
 onde os meus sonhos
 possam crescer
 onde todos os desejos


Talvez seja um sonho talvez esteja acordado
 ou um desejo de um apaixonado
 entretanto..sinto-me já cansado
 ... aqui ,pertenço ao além
 terra de não sei mais de quem
 ou talvez ,de quem me queira bem
 entretanto ..não sou de ninguém
 sementes ,arvores ,suas folhas e minha mente
 percorro o horizonte ,tudo á minha volta
 tudo tem luz ,tudo na realidade é inexistente
 contudo ...a natureza está doente
 entretanto ..a isto não sou indiferente..

Leia este tema completo a partir de 16/1/2012