domingo, 1 de janeiro de 2012

Conto de Cremilde Vieira da Cruz - Avómi - A CORRIDA DA BARATA E DO CARACOL



Conto de Cremilde Vieira da Cruz - Avómi - A CORRIDA DA BARATA E DO CARACOL

Certo dia, logo ao romper da manhã, uma Barata começou o seu passeio no jardim. Ainda estava um pouco escuro e ela andava às apalpadelas, porque não via bem; passava sobre uma flor, na terra fria, subia uma parede, voltava a descer...

 Mais tarde, já cansada, sentou-se um bocadinho à beira dum muro. Foi olhando em redor de si e, a dada altura, viu um Caracol que se deslocava lentamente. Como já tinha descansado um bom bocado, sentia-se pronta para novo passeio e pensou:
- Vou convidar o amigo Caracol, para fazer uma corrida. Está a apetecer-me uma corridinha, porque está frio e preciso de aquecer!

- Bom dia, amigo Caracol! Então que faz por aqui?
- Oh amiga Barata, acordei cedo e resolvi dar um passeio pelo jardim, mas hoje está uma manhã fria e já estou arrependido de não ter ficado na caminha. Estava tão quentinha!!!
- Está muito frio, está! - Exclamou a Barata - Por isso, estava mesmo agora a pensar convidá-lo para uma corridinha.

- Excelente ideia! - Exclamou o Caracol, sem medir as palavras - Mas ficou a pensar e, antes que ela voltasse a falar, disse:
- Oh amiga Barata, não acha que é uma competição que me vai deixar envergonhado?


Lenda de Natal - Por Ivone Boechat



Lenda de Natal - Por Ivone Boechat 
Conta-se que os animais descobriram que Jesus ia nascer. Ficaram preocupadíssimos e foram procurar o leão, rei da floresta, para as providências necessárias. Afinal, a notícia não era um fato comum e alguma coisa precisava ser feita.

Foi marcada uma reunião na floresta e todos os animais foram convidados. Movimentação total! O rei leão, muito compenetrado da responsabilidade, explicou, detalhadamente, os motivos da assembléia:

- Vocês já sabem que Jesus vai chegar? Gostaria de apelar para que colaborassem com uma oferta para a grandiosa festa de sua chegada. Uma visita muito importante. Temos o dever de tratá-la com todas as honras. Aqui na floresta, gostamos de receber o Bem de braços abertos!

Cada convidado levantava-se e oferecia um presente. O boi se desculpou de ser tão pobre, mas colocou a estrebaria à disposição de Nosso Senhor; o carneiro ofereceu a lã; a galinha disponibilizou seus ovos; o jumentinho se dispôs a levar nosso Senhor por onde precisasse e, assim, cada animal ofereceu o melhor que possuía.


A Viola Cabocla - Crónica / divulgação de António Carlos Affonso dos Santos - Acas - ANATOMIA DA VIOLA

A Viola Cabocla - Crónica / divulgação de António Carlos Affonso dos Santos - Acas - ANATOMIA DA VIOLA

A viola compõe-se das seguintes partes: caixa de ressonância, boca, braço e palheta.

CAIXA DE RESSONANCIA

 A caixa de ressonância é conhecida pelas seguintes designações: caixa, bojo, ou corpo.
 A caixa é composta de um aro e duas tampas. O aro pode ser inteiriço, ou em dois pedaços, sendo coladas as suas extremidades quando na forma, ficando a emenda embutida no taco de segurança do cavalete. Usam cola vegetal de sumbaré. O aro é que tem as curvas. Para execução dessas curvas, uns fabricantes usam formas, outros fazem a «olho». Aliás o «olhômetro» é o grande aparelho de precisão com patente nacional brasileira.

Na tampa da frente, ou «peito da viola», ficam o cavalete e a boca, isto é, uma abertura, que põe em comunicação a caixa de ressonância com o exterior. Paralelamente ao cavalete fica o rastilho, peça não fixa de taquara. A tampa posterior ou «costa» é inteiriça, uma tábua só sem emenda.

Na construção da caixa de ressonância entram as seguintes peças: 3 travessas para sustento da tampa posterior, 2 travessas para sustento da tampa anterior, taco de segurança do cavalete, armação para o braço (ficando para o lado de fora o gastalho). O aro, onde internamente são grudadas as viras de filete, para resistência, ou contra-fortes, onde serão coladas as tampas.

Empregam-se as seguintes madeiras no aro: guaiuvira (preferivelmente), jacarandá, canela saçafrás. A espessura do aro é de 2 mm. Nunca é mais grosso porque a madeira tem que entrar na forma fazendo as curvas, quanto mais fina, mais flexível. As tampas são feitas preferivelmente de pinho, porque dá maior sonoridade. O tampa das costas às vezes pode ser feita de cedro ou canela, mas a da frente sempre é de pinho.


Franklin Cascaes por correspondência - De Arlete Deretti Fernandes - Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa para obtenção do título de Bacharel em Letras - Franklin Cascaes por correspondência



Franklin Cascaes por correspondência - De Arlete Deretti Fernandes -  Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa para obtenção do título de Bacharel em Letras - Franklin Cascaes por correspondência

Franklin Cascaes por correspondência

 Franklin Joaquim Cascaes nasceu em Itaguaçu, antigo município de São José, a 16 de outubro de 1908. Professor do Ensino Industrial Básico desempenhou em 1963, a função de Coordenador de Ensino. Quanto à atuação artística, é significativa a exposição de Cascaes em 1959, que a convite do Museu de Arte Moderna de Florianópolis, expôs um conjunto de motivos folclóricos da Ilha. Igualmente é reconhecido em 1978 no circuito artístico nacional, ao representar a arte catarinense na Bienal Latino-Americana de Artes, realizada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Em 1983 Franklin Cascaes falece em conseqüência de uma cirurgia de cálculo renal.

CAPITULO I
1.1. AUTOR E OBRA

 Franklin Joaquim Cascaes trabalhou o universo cultural e econômico dos colonizadores da Ilha do Desterro na genuinidade deste povo, na sua oralidade, no seu modo singelo e natural de viver. Escreveu sobre os assuntos do dia-a-dia, as crendices e costumes, as festividades religiosas, os brinquedos, as atividades do povo para o próprio sustento, o artesanato, a arquitetura, as ferramentas de trabalho, as benzeduras, as receitas medicinais e culinárias. Cascaes como pesquisador registrou as tradições da Ilha como herdeiro dessa cultura. Escreveu sobre o imaginário popular e o fantástico recriado através dos personagens mitológicos dos ilhéus, vindos das assombrações e superstições e deu-lhes vida e animação, nos interessantes «causos» contados e nas valiosas figuras esculpidas ou desenhadas. Entre os temas de Cascaes encontram-se questões da vida diária na sobrevivência das pequenas comunidades, como as farinhadas, as receitas culinárias, as pescarias e as questões mitológicas e religiosas.

Cristina Castellano, Diretora da Divisão de Museologia do Museu Universitário da UFSC diz o seguinte a respeito do autor:

Sobre Franklin Cascaes muito se tem falado sem no entanto, existir um consenso. Ora o chamam de artista, ora de pesquisador ou de cientista, ou de organizador de nossa cultura popular. Alguns o tratam como mito, um bruxo ou um folclorista. Para nós, o adequado é tratá-lo como sintetizador de uma cultura, que vivenciou e registrou de uma maneira ímpar.

Cascaes preferiu sempre denominar a Capital do Estado de Santa Catarina de Nossa Senhora do Desterro e nunca de Florianópolis, em razão dos crimes bárbaros do Marechal Floriano Peixoto, não considerando justo nossa Ilha ter recebido este nome em homenagem ao grande tirano.

Os registros de Cascaes fazem parte da memória de nosso povo. Para Marilena Chauí (1995, p.125), «a memória é uma evocação do passado. é a capacidade humana para reter e guardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total. A lembrança conserva aquilo que se foi e não retornará jamais.»


Coluna de Manuel Fragata de Morais - O FANTASTICO NA PROSA ANGOLANA - MANUEL RUI - ALICE NO PAIS DELA!



Coluna de Manuel Fragata de Morais - O FANTASTICO NA PROSA ANGOLANA - MANUEL RUI - ALICE NO PAIS DELA!
 


Alice tinha regressado do país das maravilhas.

Regressara num avião boeing. Chegara à sua terra «senhores passageiros».

E contava à família tudo de maravilhoso que ela vivera no país das maravilhas. E Alice era, agora, a pessoa mais importante da família. Todos a rodeavam para lhe ouvir as maravilhosas estórias que ela vivera no país das maravilhas.

Os mais velhos, então esses, pasmavam de olhar na Alice e seu pai e a sua mãe era só orgulho mimado a desbaratar-se de rosto babado. Que filha exemplar!

Que deixou o país das maravilhas nesse voltar o coração para ao pé dos seus. Pobres. Quase sem rumo. Sempre na espera de qualquer coisa nova. E Alice era uma novidade.

E, por isso, quando se começou a fazer da terra de Alice um país e se arranjou um rei, insígnias e bandeira, logo alguém pensou que aquele país estava dotado para ser das maravilhas. Porque era muito rico, falavam. E as pessoas tinham muita esperança.

Daí que o rei convidasse logo Alice para ocupar a pasta da economia, o que Alice aceitou e tomou posse.

Mas Alice não se deu com essa pasta e, em menos de três meses, quase arruinou o ministério.

O rei, que era muito discreto, decidiu afastar Alice por conveniência de serviço, quer dizer, Alice convinha a outro serviço, quer dizer, Alice convinha a outro serviço diferente, era por ele solicitada.

E o rei falou:

«Alice. Você foi fadada para fazer carreira. Esse é o seu destino e temos pouca gente com experiência do país das maravilhas. Por isso vou colocá-la no ministério da agricultura.»

«Rei. Desculpa tratar-te por tu. Mas tu sabes, pá, que eu só aceitei porque desejo fazer carreira, pá. Estou ou não estou nomenclaturizada?»



 

Coluna de Manuel Fragata de Morais - MEMORIAS DA ILHA - CRONICAS - POPULACIONAMENTO



Coluna de Manuel Fragata de Morais - MEMORIAS DA ILHA - CRONICAS - POPULACIONAMENTO
O «Correio da Semana» último, em posição de merecido destaque, mostrava um patriarca vigoroso e benguelense que, por mares nunca antes navegados, produzira até ao presente minuto a módica ninhada de sessenta e dois filhos.

Em profundo grito de emoção, clamei orgulhoso por esta ditosa pátria que tal protonauta gerou. Quisera ter engenho e arte, para em verso fino e pleno de verve, conclamar os cidadãos a colecta pública que, de maneira impoluta, permitisse o erguer, na praça citadina maior, de reveladora estátua através da qual a pátria, tão falha de filhos, agradeceria o gesto disseminador e altruísta

Poder-me-ão chamar de cínico, brincalhão, o que quiserem, todavia juro-vos que nunca estive tão sério.

O nosso país é, e sê-lo-á por algum tempo, potencialmente rico pelo simples facto de sermos apenas cerca dez milhões de habitantes. E se considerarmos a bordoada que de momento mutuamente nos distribuímos, só me posso sentir feliz por tão baixa população.

Imagine-se, utilizando a matemática do patriarca, um homem para três mulheres, como ele fez, daria dois milhões e meio de machos garanhões e permanentemente em cio, a fazerem filhos como em linha de montagem, a sete milhões e meio de fêmeas reprodutoras, e digam lá, se a sessenta e dois filhos por tríade paridos, não haveria agora infinitamente muitos mais sopapos distribuídos, uma Jamba muito mais vasta com milhões de prisioneiros de guerra, e não só, e todo um mar por aí fora?...


José Varzeano - Pessegueiro, o «monte» mais dinâmico do concelho de Alcoutim



José Varzeano - Pessegueiro, o «monte» mais dinâmico do concelho de Alcoutim

Vamos abordar hoje o «monte» mais importante ou dos mais importantes do concelho de Alcoutim, aquele em que o decréscimo populacional tem sido menos notado.

A importância que ocupa não vem de agora e se pesquisarmos os assentos paroquiais da freguesia de Martim Longo a que pertence, verificamos que a povoação ocupa os lugares cimeiros da freguesia a nível de baptismos, óbitos e casamentos.

 Esta parte da freguesia de Martim Longo que assenta na chamada cumeada do Pereirão, cujo topónimo foi transmitido aos montes do Pereirão, Casa Nova do Pereirão e Monte Novo do Pereirão, tem a povoação do Pessegueiro como centro mais importante e a que se recorre para suprir as mais prementes necessidades. Gravitam à sua volta Zorrinhos de Cima, Tremelgo de Baixo e de Cima, todos a cerca de 3 km e um pouco mais afastado Casa Nova do Pereirão, Pereirão (4 km) e Estrada e Mestras a pouco mais de 6.

Diogo Dias e Azinhal, ainda que lhe fiquem a cerca de 5 km, poderão optar pela aldeia de Martim Longo.

 As Memórias Paroquiais (1758) referem-no como Monte do Pixegueiro, indicando igualmente os que lhe estão próximos; contudo, aparecem na mesma zona e tomando em consideração a ordem que é indicada, o Monte da Amendoeira entre o Monte do Tremelgo e o Pessegueiro (será um dos Tremelgo visto só ser indicado um?) o Monte do Azenhalinho, entre o Pereirão e a Estrada e entre este e os Relvais o Monte do Rezidouro.

Seriam montes constituídos por um fogo ou pouco mais e que teriam desaparecido na voragem do tempo, como agora está a acontecer e sucedeu o mesmo ao monte dos Relvais que em 1960 ainda tinha 9 habitantes. Pensamos que se os topónimos desapareceram a nível de núcleo habitado, possivelmente ainda existirão quanto à designação de zonas rústicas.

Quanto ao topónimo, muito vulgar no nosso país, simples ou composto, no singular ou no plural, encontramo-lo referido doze vezes, do norte ao sul, no dicionário da especialidade que habitualmente consultamos e isto só na versão Pessegueiro. (1)
 A toponímia de origem vegetal (fitonímica) é extremamente vulgar em Portugal.