domingo, 6 de novembro de 2011

Presente de Natal - Conto de Arlete Piedade



Presente de Natal - Conto de Arlete Piedade 

Era uma noite chuvosa e fria e o vento uivava lá fora açoitando os altos muros e insinuando-se furioso pelas ameias e seteiras do velho castelo.
 Sozinha, na antiga e atarracada casa de pedra encostada á face exterior da muralha voltada a norte, onde continuava a viver, a filha do falecido caseiro, estremecia de medo.

Esperava ansiosamente a chegada do filho que tinha saído em viagem, para vender aos ricos castelões a norte, alguns dos arcos por si fabricados.
 Eram arcos robustos, fabricados com a madeira dos teixos centenários que rodeavam o castelo e que constava terem sido plantados pelo seu fundador.
 
Ela não acreditava nisso contudo, pois que o castelo devia ter milhares de anos e mesmo sendo as árvores centenárias, como podia tal história ser verdadeira? Lendas e ditos de gente antiga sem dúvida.
 Enquanto espevitava a pequena chama alimentada a azeite, na candeia de ferro que tinha colocado na beira larga e alta da janela estreita do seu casebre, para assinalar ao filho o caminho do lar, ia recordando.
 
Como tinham sido alegres outros Natais passados na companhia do falecido esposo quando o seu filho era um menino que gostava de trepar aos teixos e de se esconder nas altas ramadas para ela o procurar desesperada e aflita, pensando que tinha sido raptado pelos caminhantes da noite.
 Agora que o menino estava um homem feito, temia o dia em que ele voltasse com uma esposa das suas muitas viagens, alguma filha de um rico castelão que lhe roubaria o seu rapaz e a deixaria sozinha.
 
No entanto era assim a vida! – Pensava ela conformada com o seu destino, enquanto olhava a mesa posta com as parcas iguarias de que dispunha ali naquele fim do mundo.





 

CARTAS DA EUROPA - Por Dulce Rodrigues (Suiça) - Belezas da Suíça – o Jungfraujoch



CARTAS DA EUROPA  - Por Dulce Rodrigues (Bélgica) - Belezas da Suíça – o Jungfraujoch

Este ano, contrariamente ao que tem acontecido nos últimos tempos, não fiz nenhuma viagem a países longínquos. Tenho ficado pela nossa velha Europa – um pouco pelo nosso belíssimo Portugal, uma ou outra escapadela de fim-de-semana ou uma simples ida e volta no mesmo dia a Londres, Paris ou Bruxelas para ver uma exposição. As idas ao Luxemburgo não contam, porque fica aqui ao lado.

Mas, mesmo assim, tinha de passar alguns dias de malas na mão. Esses dias foram o presente de aniversário que os meus filhos me ofereceram este ano: um pequeno circuito em comboio – adoro viajar de comboio – através de alguns sítios lindíssimos da Suíça.

A Suíça é um grande pequeno país que sempre me encantou . Um terço do tamanho de Portugal, a Suíça apresenta, tal como o meu belo país, todos os tipos de paisagem – só não tem praias marítimas, mas sabe aproveitar com qualidade e harmonia as praias fluviais junto aos lagos; e estes, em contrapartida, não temos nós.

O meu pequeno circuito turístico começava em Montreux e terminava em Lucerna. O principal circuito da chamada linha «Goldenpass». Mas, o meu circuito turístico incluía também uma excursão ao Jungraujoch, a estação de comboios mais elevada da Europa – 3,454 m de altitude – sítio normalmente conhecido em literatura turística como o cume da Europa.







Poesia de Maria da Fonseca - Dia da Saudade; Terreiro do Paço (Lisboa); Redondilha Maior



Poesia de Maria da Fonseca - Dia da Saudade; Terreiro do Paço (Lisboa); Redondilha Maior

 Dia da Saudade

 Já partiram tantos dos que eu amava,
 Perde-se esta memória a contá-los.
 Pais, Mestres, Amigos, mencioná-los
 é tributo que minha alma agrava.

Neste Dia à Saudade devotado,
 As lindas flores murcham de tristeza
 Ao serem colocadas de surpresa
 Junto dos túmulos do meu passado.

Terreiro do Paço (Lisboa)

 Farrapinhos de algodão,
 Sob um céu azul sem mancha.
 Tarde suave de Outono,
 No Tejo segue uma lancha...

Antigo Cais das Colunas,
 Dos meus tempos de criança,
 Junto a ti muito brinquei.
 Como eu guardo na lembrança!

Redondilha Maior
 
 Se é redondilha maior?!
 Eu não quero nem saber,
 E se ainda for pecado
 Não me vou arrepender.

Outra forma não vislumbro
 Pra expressar meu pensamento,
 Soletro, conto e reconto
 E não acerto outro intento.

Leia este tema completo a partir de 7/11/2011

Haicais de Se-Gyn - Nuvens - 08 haicais; Dia do Saci - 05 haicais (com texto complementar)



Haicais de Se-Gyn - Nuvens - 08 haicais; Dia do Saci - 05 haicais (com texto complementar)
 

 Nuvens - 08 haicais
 
 01. ronda à noitinha:
 um cão vadio esquadrinha
 a calçada do bar
 02. vaga a leve nuvem
 sob um paredão de nuvens --
parece um balão

Dia do Saci - 05 haicais
 
 01. no fundo do sertão
 vale a lei do murici --
é dia do Saci
02. ventou no bambú
 e tinha um saci lá dentro
 assobiando agourento
 03. vem pé de vento
 pé de pinto, pé de pato --
Saci vaga no mato

Texto: Tempos atrás, alguém encasquetou com a introdução do Hallowen no Brasil e tocou uma campanha para a criação do «Dia do Saci», como forma de preservação e prestígio das coisas da nossa cultura e do nosso folclore. Deu certo e acabou virando lei. Assim, no dia em que muitas escolas promovem a festa do Hallowen, foi estabelecido como o dia do símbolo máximo do folclore brasileiro.

Leia este tema completo a partir de 7/11/2011

Poesia de Sanio Aguiar Morgado - Contacto; Herança Além Tejo; Arquitecto do Amor



Poesia de Sanio Aguiar Morgado - Contacto; Herança Além Tejo; Arquitecto do Amor 

Contacto

Poesia é fazer contacto,
ir além dos nossos sentidos,
explorar todos os cantos,
penetrando nos seus espaços.
Esbarrar em tudo
que nossos olhos não vêm,
transportar-se ao imprevisível,
um mundo invisível e diferente.

Herança Além Tejo
Lavo a alma
nas águas do Tejo,
alma das cartas que
ficaram sem resposta.
Do tempo esquecido,
de esperanças na partida
e saudades que
ficam no horizonte.
Tejo que certo dia
se tornou um ponto,
o risco de cicatriz com
corte antigo e profundo.

Arquitecto do Amor
Sou arquitecto,
mas não uso tijolos,
utilizo estes versos.
São versos armados,
nenhum deles concreto,
não são pedras deste universo.
Há colorido nos poemas
que escrevo com as cores
do que estou sentindo.

Leia este tema completo a partir de 7/11/2011

Poética de Ilona Bastos - A ESCRITA EM MIM; FELICIDADE; PINTURAS FOTOGRAFICAS; ESCREVER OU NAO ESCREVER



Poética de Ilona Bastos - A ESCRITA EM MIM; FELICIDADE; PINTURAS FOTOGRAFICAS; ESCREVER OU NAO ESCREVER
 
A ESCRITA EM MIM

 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.

FELICIDADE
 
 Uma vez mais posso concentrar-me apenas no verde e nos caracóis brilhantes dos pinheiros, pairando encosta acima, até tocar o azul dos céus.
 Não descerá, então, o meu olhar, do luminoso aveludado da erva que a chuva alimentou e o sol torna reluzente.

PINTURAS FOTOGRAFICAS
 
 Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
 Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada.

ESCREVER OU NAO ESCREVER
 
 Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
 Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
 E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.


Leia este tema completo a partir de 7/11/2011

Textos poéticos de Joaquim Nogueira



Textos poéticos de Joaquim Nogueira
 
 ?...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso... a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim...

brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras... a beleza em ti não residia nem morava ... era!...

A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar... a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade... e tu, demoravas... da cómoda tiraste um frasquinho de perfuma e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam... e a tua cama, ansiava pela tua presença... e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo... levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença... olhaste de soslaio e sorriste... sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria.