sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Recordar o Raizonline - Trabalhos de números de Arquivo - Coluna Poética de Sá de Freitas - Marcas em nossas mãos; Ainda há tanta vida a ser vivida; A INTERESSEIRA; SOFREMOS MUITO?



Recordar o Raizonline - Trabalhos de números de Arquivo - Coluna Poética de Sá de Freitas -  Marcas em nossas mãos; Ainda há tanta vida a ser vivida; A INTERESSEIRA; SOFREMOS MUITO?
 
 Marcas em nossas mãos
 
 Olhando para as nossas mãos veremos,
 Em suas palmas, indeléveis traços,
 De lutas, de vitórias, de fracassos
 E de outras coisas mil que já fizemos.
 Nelas descobriremos que deixamos
 Indícios de afagos, de agressões,
 De pedras que atiramos, de lesões

Ainda há tanta vida a ser vivida
 
 Quantos sonhos ficaram no caminho,
 Quando viemos do «ontem» para o «agora»!
Quantos momentos bons já foram embora;
 Quantas dores chegaram de mansinho!
 Quantas promessas, quantos desenganos!
 Quantos grandes amores fenecidos!

A INTERESSEIRA

 Quantas vezes te vi e não me viste;
 Poemas tantos te escrevi, não leste;
 Quantos suspiros meus, de amor, ouviste;
 Quantas promessas fiz e tu não creste.
 Quantos beijos te dei, não os sentiste;
 Quanto te amei e tu não compreendeste;
 Quando parti chorando tu sorriste,

SOFREMOS MUITO?
 
 A cruz que arrastas pela vida afora,
 Tal qual a minha, às vezes pesa tanto,
 Que nos provoca o mais copioso pranto
 E a esperança nossa se evapora.
 Mas se olharmos com atenção lá fora,
 Veremos com piedade e com espanto,
 Que há cruz maior que a nossa, em cada canto;
 Que há gente que soluça, grita e implora.

Leia este tema completo a partir de 24/10/2011

Poesia de Ana Barbara Santo António - NO TEU DESEJO



Poesia de Ana Barbara Santo António - NO TEU DESEJO

NO TEU DESEJO

No teu desejo
Abrem-se pétalas
De um colibri sedento
A língua em gume
De mil vontades
Que por dentro
Saboreiam agrume
De sensualidades
Engelhando a pele
Abrigando
Sentidos
Despertados
Sabem a mel
Adocicados
No rubro da boca
Mordem a florir
Desejos provocados
Vontade louca
Olhar do sentir

Leia este tema completo a partir de 24/10/2011

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NA PEDRA OU NA AREIA



Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NA PEDRA OU NA AREIA

NA PEDRA OU NA AREIA
A indiferença,
Obriga-me a pensar solidão.
A inveja,
Obriga-me a pensar desilusão.
Por isso,
Escrevo na pedra
A amizade pura.
Por isso,
Escrevo na areia
Tudo que se me afigura fútil;
Tudo que julgo não ter conteúdo.
Por isso,
Deixo muitas vezes
De manifestar minha opinião
E escrevo, escrevo...
Quando nasci,
Morreu minha inteligência,
Porém,
Não morreu meu coração!
Por isso,
Penso dizer tudo que meu coração sente;
Por isso,
às vezes me excedo;
Por isso,
Clamo por uma mão que me conduza;
Por uma mão que me dê a mão.
Ah,
Pobre coração que fazes tremer meu chão;
Este chão que piso, cheia de medo!
Ponho um pé,
Ponho outro pé...
Dói-me um pé,
Dói-me outro pé...
A distância entre o ontem e o hoje é abismal.
é incomensurável a diferença,
O desajuste,
O tremelicar das pedras...
As vozes dos pássaros deixaram de existir,
Ou partiram para lugar incerto.
Estou aqui abraçada à solidão,
Mas corre-me nas veias
O sangue das horas de ontem.

Leia este tema completo a partir de 24/10/2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Conto - O último cigarro no deserto Gaúcho - Por Emerson Wiskow



Conto - O último cigarro no deserto Gaúcho - Por Emerson Wiskow

Julio e Rodrigo estavam em dúvida se atravessavam o famoso deserto do Rio Grande do Sul. Nunca colocaram os pés naquelas paragens. Ouviram falar. E só. O deserto ficava no centro-oeste do Estado. Não era habitado, e pouca ou quase nenhuma água havia.
Dando sorte poderiam encontrar um poço d’água. Com azar a água que levariam acabaria antes do previsto e sem encontrar os tais poços morreriam de sede. Chuva, seria milagre. E milagres não costumam acontecer à toda hora.

Na noite da partida Julio checou a água e os mantimentos, Rodrigo os cigarros.
- Caralho Rodrigo, eu preocupado com a água e a comida e tu com os cigarros!
- Morro de sede mas não morro sem degustar um último cigarrinho - retrucou Rodrigo.
- Tá legal, enfia esses cigarros na bunda e vamos embora.
Os dois se foram. O dia mal surgia no horinzonte como uma suave camada de luminozidade e os dois já sentiam o calor. Rodrigo praguejou pela primeira vez durante o caminho e acendeu um cigarro. Deixou a fumaça encher os pulmões e ao soltá-la sorriu sozinho.
- Cacete, esse lugar deve ser o inferno! - disse Rodrigo.
- Ainda não estamos bem no deserto - disse Julio.
Os dois continuaram. Dois dias depois estavam em pleno deserto gaúcho. O inferno. Rodrigo bebia como um desesperado. Julio tentava controlar-se. O sol ardia. Nada no horizonte, nada por ali. Uma vastidão de nada. Apenas sol e areia. Os dois descansavam à noite. Exaustos. O céu pintado de estrelas. Muito claro.
Quatro dias e Rodrigo bebeu o último gole d’água. Cigarros restavam oito.
- Temos que achar um poço - disse Julio num tom sombrio.
- Caralho, nunca devíamos ter vindo! - praguejou Rodrigo. - Estou quase sem cigarros.
- Estamos sem água - disse Julio.
Os dois continuaram. Sem água e com sete cigarros. O sol queimava, o calor sufocava. Nada de poços d’água. Nada de chuvas. Nada de milagres. Rodrigo fumou outro cigarro. Mais alguns dias e os dois arrastavam-se. Na boca seca surgiam feridas. Julio teve alucinações. Primeiro grandes dragões que cuspiam fogo e riam, depois montanhas de carros velhos retorcidos que criavam vida. Nada de água. Nada de poços.
- Vamos morrer - disse Julio num fio de voz.



 

São Paulo em Minicontos - ATO PRIMEIRO - Fuzuê no Buzão - Figura Central -



São Paulo em Minicontos - ATO PRIMEIRO - Fuzuê no Buzão - Figura Central -  

ATO PRIMEIRO

Em São Paulo, tudo é possível! Se existe, está na 25 de Março! Foi lá, na 25, que dona Maria encontrou a tal fantasia de «oncinha»...
Na Ipiranga, altura da República, estirado na calçada, um corpo que é só coro e osso: Corpo Semimorto, pois a vida, impiedosa, não lhe concede distanciamento da morte: Na calçada da Ipiranga, uma mulher jogada ao chão, irritadíssima, coça a cabeça, cujo cabelo agora é uma espécie de escultura que aponta para o céu, pedindo-lhe socorro certamente!
No Terminal Bandeiras, num estado quase terminal, outra mulher com duas longas e brancas tranças jaz na escada que dá acesso à Rua Maria Paula. Sempre sentada na escada: Agora, as pernas lhe são muito pesadas: Trombose! As unhas, sempre pintadas de branco! Quem as pinta?! Certamente, ela mesma! E por que prefere a cor branca para suas unhas?!
Como pode uma mulher, uma mulher muito doente, morar na escada de um Terminal de Ônibus! Meu Deus, por que a vida é tão implacável com uns?!

Fuzuê no Buzão

O ônibus «Campo Limpo - Praça Ramos» é a única linha que liga o bairro do Campo Limpo ao centro da cidade, de modo que este só anda hiperlotado.
A bem da verdade, há outra linha: O Terminal Bandeira, mas esse dá o maior «rolê» pelo Morumbi e quando chega à Cidade Jardim/Nove de Julho para acessar o «corredor», o trânsito dá um nó: «nó cego», e aí, haja paciência!
Sendo assim, todos preferem a linha Campo Limpo - Praça Ramos, que segue em relativa tranquilidade pelo corredor Francisco Morato -Rebouças - Consolação, porém cheio até a tampa: Lotadíssimo! Para quem gosta de «calor-humano»” é uma «viagem» inesquecível!
Volta e meia, rolam homéricos «bate-bocas» entre os passageiros mais estressados. O motivo mais corriqueiro para os tais «arranca-rabos» são os «jovens passageiros» que, sem cerimônia alguma, ocupam os assentos destinados aos «passageiros especiais» - despertando, assim, a fúria dos «politicamente corretos». Depois de muitos insultos, os assentos são cedidos aos «passageiros especiais». Um Brinde à Cidadania!



 

A cegueira de Abdala - Um Conto de Daniel Teixeira



A cegueira de Abdala - Um Conto de Daniel Teixeira
Abu Abdala, tal como fazia todos os outros dias em Beja, estudava a obra de Al Gazali. Para o lado de fora da janela do seu quarto, naquela tarde quente de mais um Agosto alentejano, o mundo que via aparecia-lhe como um quadro pincelado com rebanhos acostados às árvores, como se, sendo eles os barcos daquele mar terreno, procurassem assim fugir à vermelhidão quente de um solo que expelia serpentes de vidro.

Estas, depois de se elevarem da pele rugosa da terra desapareciam naquele vazio que os filósofos e os poetas diziam comportar tudo não sendo coisa nenhuma. Assim afirmava Al Gazali - pensava Abdala: «O vazio é o espaço que não é coisa nenhuma e que pode comportar tudo o que há na terra.» E, aquelas serpentes de calor tinham partido do ventre da terra e esgueiravam-se rasteiras por entre as placas crestadas do solo alentejano, que ele via da sua janela, para o vazio que tudo pode conter.

Talvez tivesse sido a sensação de um vazio igual ao vazio do espaço que o tinha feito deter ali, em Beja. Talvez ele mesmo se tivesse também sentido vazio por dentro, sem se aperceber desse vazio, antes de conhecer Al Gazali. E Alba... antes de conhecer Alba... também.

Talvez tivesse sentido um vazio como aquele que sentia agora , só que hoje tinha plena consciência disso; conhecia-o. Abdala era, pois, um ser consciente que tinha consciência do vazio que o preenchia. A sensação que sentia naqueles momentos em que reflectia sobre si mesmo e sobre o vazio que o ocupava parecia ser a sensação de conter em si um espaço sedento de preenchimento, que ele tentava suprir metodicamente dia a dia sem nunca chegar ao fim da sua tarefa. E no dia seguinte tudo recomeçava. Mas tudo começava do princípio - ou quase do princípio - não sabia muito bem.

Aquela cidade onde vivia, e as razões que o levavam a ali viver prestavam-se, e eram a razão, para toda a necessidade que sentia de responder às suas próprias perguntas com interpretações que acabavam por suscitar novas perguntas. Ou talvez fossem sempre as mesmas perguntas com novas formulações. Abdala não sabia. Abdala não sabia nada sobre aquilo que se passava consigo, senão que tinha um vazio para preencher e procurava as respostas em Al Gazali e o esquecimento em Alba.

Na verdade - perguntava-se infinitas vezes - que fazia ele, rico comerciante que conhecera durante muitos anos muitas rotas e muitas terras, que conhecera perigos e mares revoltos, que entrara em batalhas e que defendera o que ia possuindo, tantas vezes com a lâmina da sua espada (?) ; que fazia ele numa cidade que fora romana e goda, numa cidade onde tinham progredido os infiéis e onde viviam ainda aqueles que não tinham como verdade a palavra do Profeta?! Que fazia ele, Abdala, naquela cidade e porque estava ele ali havia já cinco anos quando nas suas anteriores viagens mais não fizera do que ficar o tempo suficiente para cobrar os dinheiros que investira nos mantimentos das guerras?!




José Varzeano - A Moura do Cerro das Relíquias



José Varzeano - A Moura do Cerro das Relíquias
Se nisto de encantamentos fosse possível fazer cronologia, classificaria esta das mais distantes, o que não evitaria que a considerasse das mais enraizadas no concelho de Alcoutim.
Como é próprio das suas características, o local do encantamento é um roqueiro castelo, só possível identificar através de escavações, o que em parte foi feito pela Professora Doutora Helena Catarino.

O cerro das Relíquias situa-se a cerca de quatro quilómetros da aldeia de Giões e sobranceiro à ribeira do Vascão. Aí tinha existido uma capela, além de uma fortificação que fazia parte de uma linha colocada ao longo da faixa piritosa alentejana.

O Cerro das Relíquias foi possivelmente o primeiro local onde o homem se fixou nesta zona, como atestam alguns achados arqueológicos, havendo uma ligação estreita ao monte de Clarines.

De tudo o que resta nesta simbiose Relíquias/Clarines, pensamos que sobressai o aspecto lendário, traduzido pela existência de uma lenda que através dos tempos tem tido várias derivações.
(Cerro das Relíquias, escavações arqueológicas, 1990)
A lenda da moura encantada no Cerro das Relíquias é-nos apresentada por Ataíde de Oliveira, em As Mouras Encantadas e os encantamentos do Algarve, Editado em 1898 (1). Dedica-lhe cinco folhas e foi-lhe transmitida pelo gionense, António Joaquim Teixeira, da antiga família Teixeira. Além do aspecto lendário são transmitidos factos concretos e a indicação de achados arqueológicos.

Estas lendas têm sempre várias versões. Num interessante trabalho executado pela Escola Básica Integrada de Alcoutim, (7º ano, 1996/97) li duas, referidas como Lenda da Moura Encantada (Serro das Relíquias) e Lenda do Serro de Arreliques (Clarines), numa recolha do aluno João Dias.