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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Tabuí e seus Causos



Tabuí e seus Causos

A MENINA E AS CABRAS

Numa manhã tranquila numa cidadezinha do sul das Minas Gerais, o padre estava em frente à igreja quando viu passar uma garotinha de uns nove ou dez anos, pés descalços, franzina, meio subnutrida, ar angelical, conduzindo umas seis ou sete cabras.

Era com esforço que a garotinha conseguia reunir as cabras e fazê-las caminhar.

O padre observava a cena. Começou a imaginar se aquilo não era um caso de exploração de trabalho infantil e foi conversar com a menina.
– Olá, minha jovem. Como é o seu nome?
– Rosineide, seu padre.
– O que é que você está fazendo com essas cabras, Rosineide?
– É pro bode cobrir elas, seu padre. Tô levando elas lá pro sítio de seu João.

– Me diga uma coisa, Rosineide, seu pai ou seu irmão não podiam fazer isso?
– Pode não, seu padre! Já fizeram… Mas num dá cria… Tem que ser um bode mesmo!



ACARMÔ?!…

Numa estradinha, o mineirim, dono de um alambique, vem dirigindo seu carrim véio e “entra com tudo” na traseira de uma BMW novinha em folha.
O dono da BMW sai que é uma fera pra cima do mineirim, que diz:
– Carma moço, tudo se resorve…
– Resolve nada, seu mineirim duma figa!

– Carma, moço! Toma uma aqui da minha fazenda, é da boa… o sinhô vai si acarmá logo.
O cara toma uma.
– Acarmô?
– Acalmei nada!

– Então toma mais uma…
E assim foi. Depois de uma meia dúzia, o mineirim pergunta:
– Acarmô?
– Sim, agora sim!

– Intão agora nóis vamu sentá aqui, chamá a pulícia pra fazê o tar di bafômetro, pramodi vê quem tá errado, tá bão?


MARIDO MADRUGADOR

O Euzébio era danado pra chegar em casa tarde da noite, depois de ter tomado umas no Copo Sujo e ficado na esbórnia. Chegava, tirava os sapatos e ia bem devagarzinho pra cama, pois que a sua mulher, a Fadalarete era famosa por ter o sono pesado.

Mas naquela madrugada, assim que o Euzébio tropeçou no penico esmaltado, Fadalarete virou-se na cama, exatamente quando ele desabotoava a camisa pra se deitar. Confundindo tudo, ela perguntou:

- Onquiocê tá ino tão cedo, meu bem?
- Ah, amô... Pensano bem, cê sabe quiocê tem razão? Vô é durmi mais um tiquim, né?


CALENDÁRIO DE CONFISSÕES

Padre Anacleto tava cansado de todas as manhãs ter que ouvir os pecados das suas ovelhas. Idoso, saúde precária, barriga grande, pernas inchadas...

Era sacrifício demais ouvir os mesmos pecados e dar os mesmos conselhos pras mesmas ovelhas, algumas de todos os dias.

Depois de muito craniar, teve uma ideia. Organizou um roteiro para as confissões e já no domingo seguinte comunicou à comunidade em forma de cartaz, pregado pelo sacristão na porta de saída da igreja.

“A partir de agora as confissões devem obedecer ao seguinte calendário, de acordo com o pecado:

Segunda-feira – fofoqueiras e mentirosas

Terça-feira – preguiçosas e ladras

Quarta-feira – quem fala mal da vida alheia

Quinta-feira – infiéis ao marido e portadoras de maus pensamentos

Sexta-feira – bêbadas e comilonas

Sábado – hipócritas e outros pecados

Domingo – descanso do padre”

Desse dia em diante a turma do confessionário diminuiu drasticamente, sobrando mais tempo para o padre Anacleto descansar e curtir as suas doenças.

©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos
 




Lendas- Mani


Lendas

Mani

Numa aldeia no meio da Amazônia, vivia uma tribo de índios que se dedicavam à caça e à pesca. A vida era tranqüila e pacífica, longe das disputas e das guerras entre tribos vizinhas.

Um dia a paz da aldeia foi abalada por uma novidade, a bela filha do cacique apareceu grávida. O chefe da aldeia soltou um grande grito diante da sua desonra. Era preciso saber quem era o autor do ultraje e puni-lo com a rigidez que exigia a honra.

Furioso, ele interrogou a filha, tentando saber a identidade do infame. Passivamente, ela respondeu que não tinha tido relação alguma com os índios da aldeia e da vizinhança. Quanto mais a jovem negava revelar com quem se deitara, mais enfurecido ficava o chefe da aldeia.

Enlouquecido, espancou a filha, confinou-a em uma caverna escura, deixou-a sem comer por dias... Nenhum castigo ou ameaça surtia efeito, a jovem continuava a afiançar a sua inocência de que jamais conhecera um homem na intimidade do amor.

Amargurado, o cacique chegou ao fim do dia com uma certeza, era preciso punir a sua desonra. Se a filha continuava a recusar a delatar o índio que lhe engravidara, então era preciso matá-la. Ao recolher-se na oca, deitou-se sobre a rede, com a decisão de no dia seguinte lavar a honra com o sangue da filha.

Ao adormecer, o chefe teve o sono invadido por Tupã, que tomando a forma de um homem branco, revelou-lhe a verdade, a filha era inocente, jamais se deitara com índio algum. Quando despertou, o cacique tinha o coração aliviado, toda a amargura e ódio tinham sido dissipados pelo sonho.

Assim, o ventre da jovem cresceu, como se dele fosse sair mais de uma vida. Ao fim do nono mês, após todos os sofrimentos sofridos, a bela índia deu à luz a uma menina de uma beleza rara, trazia uma tez branca que jamais fora vista naquela aldeia ou em qualquer lugar da Amazônia.

Ao saber do nascimento de tão diferente criança, todos os índios da aldeia vieram vê-la e admirá-la. A notícia espalhou-se por todas as nações indígenas da floresta amazônica, motivando uma peregrinação sem fim à aldeia. Todos queriam ver a bela criança de raça desconhecida e nova à humanidade.

A menina foi chamada de Mani. Mostrou-se uma criança com estranhos poderes, pois falou e andou precocemente. Quando completou um ano, parecia ter cinco. Um ano depois, quando a Lua completou todos os ciclos, Mani deitou-se sobre a rede, cerrou os olhos e calou-se para sempre. Faleceu sem apresentar qualquer doença ou sentir dor. Simplesmente adormeceu no manto da morte.

Com grande tristeza, os índios enterraram Mani dentro da oca onde vivia com a mãe. Seguindo os costumes da aldeia, todos os dias a sepultura de Mani era descoberta e regada pelos índios. Passados alguns dias, começou a brotar da cova uma estranha planta, desconhecida de todas as nações indígenas das ribeiras amazônicas. Diante de planta tão rara, os índios decidiram não arrancá-la da sepultura de Mani.

O tempo passou, a planta cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros foram os primeiros a comer os frutos da planta desconhecida. As aves mostraram-se tontas e embriagadas, o que despertou a atenção dos índios, aumentando o suspense e mistério que ladeavam a planta.

Um dia a terra em redor da planta fendeu-se. Os índios cavaram o local e debateram-se com uma raiz branca, como era a bela Mani. A misteriosa criança índia tinha se transformado na raiz. Ao comê-la, o povo descobriu aquela que se tornaria a sua principal alimentação.

Aprenderam a extrair da planta o cauim, bebida que servia para as iniciações místicas e religiosas. Do tubérculo, um saboroso alimento nutria todos os índios.

Passaram a chamar a planta de mandioca, que significava Mani-Óca, oca de Mani.


 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


O Manel entrou no bar

O Manel entrou no bar por volta das 20 horas.
Sentou-se ao pé de uma loira esplendorosa quando começavam as notícias do dia.
A reportagem cobria a notícia de um homem que estava prestes a atirar-se do alto de um enorme edifício.

A loira voltou-se para o Manel e disse:
- Acha que ele vai saltar?
O Manel respondeu:
- Aposto que sim.
A Loira respondeu:
- Eu aposto que não salta.
Manuel pôs uma nota de 20 euros na mesa e exclamou:
- Vamos apostar?
- Sim!

Logo que a loira colocou o seu dinheiro na mesa, o homem atirou-se e morreu no momento em que se esborrachou no solo.
A loira ficou muito aborrecida, mas aceitou a derrota:
- Aposta é aposta. É justo. Fique com os meus 20 euros.
Manuel respondeu:
- Não posso aceitar o seu dinheiro. Eu já tinha visto o incidente no noticiário das 18 horas. Eu sabia que ele iria saltar.

A loira respondeu:
- Eu também vi, mas nunca pensei que ele saltasse outra vez!


Um Padre e uma Freira

Um Padre e uma Freira tinham saido de um convento.
Ao cair da noite, avistaram uma cabana a meio do caminho, e decidiram entrar para pernoitar e prosseguir viagem no dia seguinte.

Ao entrarem na cabana, viram que havia apenas uma cama de casal.
O padre e a freira entreolharam-se e, depois de alguns segundos de silêncio, o padre disse:
Irmã, pode dormir na cama que eu durmo aqui no chão.
E assim fizeram. No entanto, a meio da madrugada a irmã acordou o padre:
Padre! O senhor está acordado?

O padre, bêbedo de sono:
Sim, irmã, precisa de alguma coisa?
Tenho frio...pode dar-me um cobertor?
Sim, irmã, com certeza! O padre levantou-se, foi buscar um cobertor ao armário e cobriu a irmã com muita ternura.

Uma hora depois, a irmã acorda o padre novamente: Padre! Ainda está acordado?
O padre: AH? Irmã ... O que foi agora?
É que ainda estou com frio. Pode dar-me outro cobertor?
Claro irmã, com certeza!

Mais uma vez, o padre levantou-se, cheio de amor e boa vontade, para atender o pedido da irmã.
Outra hora passou e, mais uma vez, a irmã chamou pelo padre:
Padre. O senhor ainda está acordado?
O padre: Sim, irmã! O que foi agora?!
É que eu não estou a conseguir dormir. Ainda estou com muito frio.

Finalmente, entendendo as intenções da irmã, o padre então disse:
Irmã, só estamos aqui nós dois, certo?
- Certo!
O que acontecer aqui, ou deixar de acontecer, só nós saberemos e mais ninguém, certo?
Certo!

Então, tenho uma sugestão ... Que tal se fingirmos ser marido e mulher ?
A freira então pula de alegria na cama e diz :
SIM! SIM !!!

Então o padre muda o tom de voz e grita :
ENTÃO, PORRA ! LEVANTA-TE E VAI BUSCAR A merda DO COBERTOR !


Numa conhecida vinícola da serra

Numa conhecida vinícola da serra, o degustador havia falecido e o proprietário começou a procurar alguém que fizesse o trabalho.
Um velho, jeito de antigo malandro, bêbado e mal vestido, apresentou-se para solicitar o lugar.
O proprietário, que não gostou do candidato, procurou arranjar maneira de livrar-se dele.

Então, na presença de outros dirigentes da empresa, mandou dar-lhe um copo de vinho para ele testar. O velho provou e disse:
- É um Moscatel de três anos, elaborado com uvas colhidas na parte norte da região, guardado em um barril inox. É de baixa qualidade, porém, aceitável.

-Correto - disse o chefe. Outro copo por favor.
- É um cabernet, safra 2008, com uvas colhidas nas encostas ao sul da região, guardado em barril de carvalho americano a oito graus de temperatura. Ainda faltam uns três anos para que alcance sua mais alta qualidade.

- Absolutamente correto. Um terceiro copo.
- É um espumante elaborado com uvas chardonnay, completada com 15% pinot noir, de alta qualidade e exclusiva - disse o bêbado.

O proprietário não acreditava no que estava vendo e fez um sinal com os olhos para sua secretária e pediu a ela que fizesse algo. Ela saiu da sala e regressou com um copo de urina.

O malandro provou e, calmamente, disse:
- É de uma ruiva de vinte e seis anos de idade, com três meses de gravidez e se não me derem o emprego, digo quem é o pai!”


Num escritório, o telefone toca.

Num escritório, o telefone toca.
-Bom dia! Poderia falar com o Dr. Marcelo?
-Desculpe senhor, no momento, o Dr. Marcelo está a cagar!

O homem fica horrorizado, desliga o telefone e decide avisar o Dr. Marcelo sobre a maneira como foi tratado pela secretária:
-Dr. Marcelo, hoje de manhã, liguei para o seu escritório e a sua secretária disse-me que o senhor estava a cagar; isso é um absurdo, o senhor é Presidente de uma Multinacional, trata com pessoas importantíssimas.
-A sua secretária deveria ter mais educação!

O Dr. Marcelo então diz:
-Ó Flávio, muito obrigado pelo toque, vou falar com ela, podes ficar descansado...
-Não fiques chateado, ela é novata mas muito esforçada, com o tempo aprende...

Passados alguns dias, o mesmo homem liga para o escritório e, novamente, a secretária atende:
-Bom dia, em que posso ajudá-lo?
-Bom dia, poderia falar com o Dr. Marcelo?
A secretária responde:
-De momento o Dr. Marcelo está ocupado...

Flávio gostou da resposta, pois percebeu que a secretária havia mudado de atitude.
Então..., perguntou novamente:
-E ele vai demorar muito?

A secretária respondeu:
-Ah..., da maneira que ele passou por aqui aos peidos, vai levar uns bons três quartos d"hora!!!


Uma delícia ...

Anita, de sete anos, regressa a casa vinda da escola.
Tinha tido a primeira aula de educação sexual.
A mãe, muito interessada pergunta:
- Como é que correu?
- Quase morri de vergonha! - respondeu a pequena Anita.
- Porquê? - perguntou a mãe.

Anita respondeu:
- O Zezinho, o menino com o cabelo ruivo, disse que foi a cegonha que o trouxe.
- O Marco, da livraria, disse que veio de Paris.
- A Cristina, a vizinha do lado, disse que foi comprada num orfanato e o Tó disse que foi comprado no hospital.
- O Paulinho disse que nasceu de uma proveta
- O André disse que nasceu de uma barriga de aluguer.

A mãe de Anita respondeu quase sorrindo:
- Mas isso não é motivo para te sentires envergonhada...
- Não, já sei, mas não me atrevi a dizer-lhes que como nós somos pobres, tiveste que ser tu e o pai a fazer-me...!!!


No Convento...

... a madre superiora chama as 100 freiras para um aviso importante. Com a cara marcada pela preocupação, ela diz:

Madre Superiora: Ontem foi cometido um pecado aqui no convento.
99 freiras: Oh, não!
1 freira: hi hi hi!

Madre Superiora: Hoje eu encontrei uma cueca.
99 freiras: Oh, não!
1 freira: hi hi hi!

Madre Superiora: Eu também encontrei um preservativo.
99 freiras: Oh, não!
1 freira: hi hi hi!

Madre Superiora: E foi usado!
99 freiras: Oh, não!
1 freira: hi hi hi!

Madre Superiora: E tem um furo!
1 freira: Oh, não!
99 freiras: hi hi hi!


Um casal que não conseguia ter filhos

Um casal que não conseguia ter filhos, sabendo que o padre da sua paróquia ia para Roma, pediu-lhe que rezasse pela sua conceção.
O padre disse-lhes:
- Não se preocupem. Logo que chegue a Roma tratarei de acender uma vela por vós.

Três anos depois, o padre regressa à paróquia e vai visitar o casal.
Ele encontra a mulher com três filhos pequenos, dois dos quais gémeos, e já grávida novamente.

Diz ele:
- Mas que maravilha! Finalmente conseguiram ter filhos! Onde está o seu marido? Tenho que lhe dar os parabéns!
- Foi a Roma!
- A Roma?

- Sim, ver se apaga a vela!


A barba está " na moda masculina"

A barba está " na moda masculina"...cuidado!
Júlio está no Motel com a amante, relaxando e saboreando o
pós-coito, quando ela interrompe o silêncio e diz:
– Júlio, por que não cortas essa barba?
– Ah… se dependesse só de mim… Sabes que
minha mulher seria capaz de me matar se eu aparecesse sem barba…
ela gosta de mim assim e não quer que a corte!

– Ora, querido – insiste a amante – Faz isso
por mim, por favor…
– Não sei não, querida…. sabes, a minha
mulher ama-me muito, não tenho coragem de a decepcionar…

– Mas sabes que eu também te amo muito…
pensa no caso, por favor…
O tipo continua dizendo que não dá, até que não resiste às súplicas da
amante e resolve atender ao pedido.
Depois do trabalho ele passa no barbeiro, em
seguida vai a um jantar de negócios e quando chega a casa a esposa
já está dormindo.

Assim que ele se deita, sente a mão da esposa afagando o seu rosto
lisinho, sem a barba e com a sua voz sonolenta diz:
– Duarte!!! Ainda estás aqui? Vai-te embora… O barbudo está quase
a chegar e ainda te apanha aqui!!!


Tempos de crise...

O telefone toca e a dona da casa atende:
- Estou ?!
- Queria falar com a Sra. Silva, por favor.
- É a própria .

- Daqui é o Dr. Arruda, do Laboratório de Análises. Ontem, quando o médico do seu marido enviou a biópsia aqui para o laboratório, chegou também uma biópsia de um outro sr. Silva e agora não sabemos qual é a do seu marido... e infelizmente, os resultados são ambos maus...

- E o que é que o Sr. Dr. quer dizer exactamente com isso?

- Um dos exames deu positivo para Alzheimer e o outro deu positivo para HIV. Nós não sabemos qual é o do seu marido.
- Que horror! E vocês não podem repetir os exames?
- Não, a Segurança Social só paga estes exames caros uma única vez por paciente. Agora com os cortes...

- Bem, o que é que o senhor me aconselha a fazer?

- A Segurança Social sugere que a senhora leve o seu marido para um lugar bem longe de casa e o deixe por lá. Se ele encontrar o caminho de volta... não faça mais sexo com ele.


O MECÂNICO

À porta do céu, um tipo furioso protestava perante o S.Pedro.
Meu bom santo, o que fiz eu para estar aqui? Tenho 35 anos, estou em
plena forma física, não bebo, não fumo, faço uma vida de acordo com as
regras dos bons costumes, e agora estou aqui! Certamente houve um
engano!

O S.Pedro responde:
- Bom, não é usual nós cometermos erros, mas enfim, vou verificar!
- Como te chamas?
- Vicente, João Diogo.

- Sim? Profissão?
- Mecânico!

- Ok, cá está a tua ficha. João Diogo Vicente, Mecânico! Tu morreste de
velhice!
- De velhice ?! Mas não é possível, eu tenho somente 35 anos?

- Isso eu não sei, mas fazendo as contas a todas as horas de
mão-de-obra que faturaste aos clientes, isso perfaz 123 anos!


Num bar, James Bond senta-se ao lado duma morena fenomenal

Num bar, James Bond senta-se ao lado duma morena fenomenal. Ele lança-lhe um olhar e de seguida olha para o relógio. Ela pergunta:
- A mulher que espera está atrasada?
- Não - responde Bond - Ganhei este relógio high tech e estou a testá-lo...

- Ah é? - pergunta a morena - E o que esse relógio tem de especial?
- Ele usa ondas alfa para se comunicar comigo - explica Bond.
- E o que ele lhe está a dizer agora? - pergunta a morena curiosa.
- Ele disse-me que você está sem cuequinhas.

A mulher dá uma gargalhada e responde:
- Pois o seu relógio não funciona! Eu estou com cuequinhas.

O James Bond mexe o relógio, dá-lhe umas pancadas e diz:
- Bolas! Está adiantado uma hora!


 

FALAR DE MONTANHEIROS - Texto de Daniel Teixeira


FALAR DE MONTANHEIROS

Texto de Daniel Teixeira

Tenho lido amiúde e de forma dispersa no tempo e nos temas alguma coisa sobre as denominações e terminologia própria dos Montes do Interior algarvio e embora não tenha consultado o Dicionário do falar algarvio de Brazão Gonçalves e não sabendo portanto se esta terminologia que vou referir vem lá expressa e desenvolvida vou escrever esta crónica com base naquilo que conheço por ouvir dizer (pronunciar) e isto ainda sem dar uma atenção específica àquilo que li noutras fontes.


Não se trata de um exercício egoísta ou de desconsideração sobre aquilo que outros já escreveram sobre estes termos (que não são muitos na minha memória) mas trata-se sim de os manter enquadrados nos momentos próprios e ambientes em que eles foram ditos de forma isolada ou repetida na minha presença.


A minha avó por exemplo não sabia, não conseguia e não queria dizer «máquina» referindo-se a uma qualquer ou tão simplesmente à máquina de costura: para ela era «mánica» e nem as constantes correcções nossas a faziam demover da sua ideia: «é máquina que se diz avó!!» mas ela mantinha-se na sua, não por birra, conforme me fui apercebendo, mas porque fazia parte dela já esse termo.


Infelizmente não tive oportunidade (convenhamos, era uma criança...) de comparar com o que as outras mulheres, sobretudo, diziam sobre estes objectos mas lembro-me de que anos mais tarde ter ouvido que «as mánicas da tropa arranjaram alguns caminhos do Monte de Alcaria Alta» misturado com algumas «máquinas».


Tive de percorrer no Google um relativamente longo caminho para encontrar num sítio de anedotas sobre alentejanos alguma coisa que me desse para escrever mais umas linhas sobre este assunto. E é assim: «- Oh pai, isto éi uma mánica , daquelas muito sufisticadas para cortar as árvores , faz logo o trabalho todo . Fui agora mesmo buscá-la á do Fialho a Evora . Querem vê-la a trabalhari !?»


Há também em Italiano algumas coisas que referem esta terminologia mas com base diferente uma vez que se referem à posse: talvez minha = ma + coisa = nica sendo este conceito bem mais geral no sentido português do «é minha!!» com algum sentido também do conjunto «é minha e eu sou o que é meu», isto visto numa forma muito geral e só para ilustrar.


Ora embora se possa chegar à conclusão de que se trata de uma deturpação do termo base «máquina» (pelo menos a acreditar no falejar da anedota alentejana) certo me parece ser que a primeira vez que a minha avó deve ter visto «mánicas» foi precisamente nos períodos de ceifa nas Herdades do Alentejo.


A tentação de juntar estas coisas faz parte da natureza humana, certo, mas vamos admitir que esta propensão para a utilização do termo «mánica» em vez de «máquina» tenha a sua origem no calão alentejano, pelo menos neste caso.


«Pial» que eu tenho visto referido nalguns textos sobre os Montes do Concelho de Alcoutim não me lembro de o ter ouvido: sempre me foi referido «sente-se aí no poial» - por exemplo e embora se admita uma redução geral algarvia pelo «comer» de sonoridades de mais difícil pronúncia nunca ouvi. Arreata por exemplo é bem mais difícil de pronunciar do que rédea e não foi «comida» ou substituída pelo seu equivalente.


Há aqui uma questão de estatuto também, rédea é de animal nobre, cavalo, e arreata dá para os humildes burros e mesmo para os híbridos muares. Será a questão do estatuto suficiente para levar à separação das utilizações? Já «escaleiras» em vez de escadas vem nitidamente do espanhol e não me lembro de se utilizar o termo escadas.


Ora, comecei pelo termo «mánica» e por ele irei terminar, ainda que num outro plano: os animais, sobretudo os muares (e mesmo os cavalos) tinham de ser tratados com «pezinhos de lã» no que se refere a sustos ou coisas que os assustassem. Os asininos também sofriam de um descontrole em face do desconhecido que os fazia entrar em parafuso mas eram relativamente controláveis: baixinhos, bastava desmontar mesmo a salto e tratar do assunto depois.


Ora nos cavalos era preciso aguentar a parada (empinar e correria) e para isso era preciso ter experiência de montar e treino suficiente para não fazer asneira. Os muares, quando em carroça, neste caso em dupla, dos lavradores Vilão, que foi os que conheci neste plano entravam em processo de «espanto» (dizia-se espantaram-se) com aquilo que na altura achávamos ser uma coisinha de nada.


Como eram dois a puxar a gente parava o carro e virava-os de forma a que não vissem o objecto do potencial espanto, mas como eram dois bastava que um visse para que o processo fosse comum. Neste caso que vou contar, talvez o mais grave que nos aconteceu dado o acidentado do terreno da disparada dos dois animais, um indivíduo de Giões resolveu comprar uma «mánica» motorizada em vermelho vivo que até a mim me assustaria.


Ora um tio meu estava de férias no Monte e não havendo ainda telefone em Alcaria Alta e tendo ele um estabelecimento em Lisboa um dos empregados telefonou para Giões por uma questão qualquer que precisava de uma solução do proprietário.


Simpaticamente o tal homem da motorizada vermelha ofereceu-se para dar um saltinho a Alcaria Alta dizer-lhe que de lá tinham pedido para ele ligar para Lisboa.


Pois bem «apanhámos» (nós e os muares) a motorizada vermelha à nossa saída do Monte em frente à Cerca do Toril na parte que era da minha Tia Bia e as duas mulas entraram em disparada enveredando em direcção aos Farelos. Quem conduzia era o Manelito Vilão e cá atrás na caixa íamos três: a gente na nossa inocência achámos piada porque íamos num carro de corrida.


O carro dava saltos (eram ainda rodas de aro de madeira) e só nos apercebemos de que a coisa podia ser grave quando ele nos disse para nos deitarmos no fundo do carro porque o carro podia virar.


O Manelito Vilão (já falei do falecimento dele por ataque cardíaco aqui no Hospital de Faro) gaguejava um pouco mas a ordem de nos deitarmos e agarrarmo-nos bem veio toda sem gaguejo.


Ele lá conseguiu controlar os animais ao fim de bastante tempo, mas quando me relembro de tudo penso que o carro a virar-se era indiferente estarmos deitados ou de pé: os animais continuariam na sua correria arrastando a carroça e muito pouca coisa nos salvaria estando dentro dele.


O susto demorou a passar: ficámos ali um bom bocado a respirar fundo. Depois encetámos o caminho de regresso. Pois bem...felizmente que o nosso destino inicial era uma horta frondosa a cerca de 50 metros da estrada. Achei estranho ele meter o carro em maior velocidade minutos depois correndo-se em direcção às árvores da parte traseira da horta até que olhei para o Monte e para a serpenteada estrada. Lá ao longe vinha a «mánica» vermelha.


Chegámos mesmo a tempo de tapar da vista dos animais o até para mim insólito objecto. E lá ia ele, com o meu enorme e pesado tio na boleia quase arrastando os pés pelo chão.


Levámos muito mais tempo que o costume a regar a horta, a sachar, a limpar as árvores. Só faltou dar-lhes brilho...e só saímos dali depois do regresso do meu tio e do regresso a Giões do motociclista.



domingo, 28 de junho de 2015

Crónicas da Minha Terra - Por Arlete Piedade - Festa na Aldeia


Crónicas da Minha Terra

Por Arlete Piedade

Festa na Aldeia

 
(Nota: Este texto foi escrito recordando as festas populares da minha aldeia, que animaram a minha infância e adolescência, e que recordo como os momentos mais felizes e animados, que durante todo o ano esperava ansiosamente).

Pouco passava das sete horas da manhã e já estalavam foguetes no ar, uns a seguir aos outros, fazendo um barulho infernal que deixava todos os habitantes da aldeia em alvoroço.

São as tradições da terra, amigos! – Temos que saudar o dia que chega com muitos foguetes para os vizinhos das outras aldeias virem todos para a festa e trazerem muitas ofertas para o Santo! – Esclarecia o dono da casa, sorridente, para os seus espantados convidados que tinham acordado assustados.

- Ofertas para o Santo? Para quê? – Perguntaram os dois convidados que tinham chegado na véspera de Lisboa e queriam saber todas as tradições da aldeia, para poderem comparar com as da sua terra.

- O Santo da aldeia é o S. Silvestre! – Respondeu o anfitrião, que acrescentou:
 - O santo protege os animais contra as doenças e os donos dos rebanhos vêm com as cabras, ovelhas e vacas dar umas voltas á capela, para agradecer a protecção do santo!

- Que engraçado isso! E que música é esta que estamos a ouvir a aproximar-se? – Perguntaram os dois amigos, que adoravam musica.
 - Ai meu Deus! – Deve ser a banda que já aí vem, com os festeiros para levantarem a oferta! – Exclamou o amigo, com um ar de aflição que fez rir os convidados.
 - Não riam! – Tenho que ir ver se está tudo em ordem! – Até já amigos! Sentem-se á mesa e comam. Não esperem por mim!

Mas os hóspedes queriam ver e acompanhar tudo e seguiram o amigo até á entrada da moradia, onde ele tinha disposto as ofertas para o Santo. Já se via ao longe na rua, o cortejo que se aproximava, com os festeiros á frente.

Vestiam fatos tradicionais com um colete de flanela vermelha por cima. Na mão esquerda traziam estandartes, com uma bandeira com a imagem do santo, na mão direita traziam sacos de veludo preto com que recolhiam as ofertas e dinheiro.

Outros traziam recipientes metálicos, onde levariam o azeite oferecido – foi explicando o anfitrião, aos dois amigos!

Mas á frente do cortejo, vinham os lançadores dos foguetes que iam deitando alguns para o ar mesmo em frente á casa , enquanto paravam e a banda tocava alegremente.

Mas a pedido do dono da casa, cessaram de lançar os foguetes para o ar, a banda calou-se e os festeiros que eram os habitantes da aldeia, encarregues da festa, aproximaram-se para recolherem a oferta já preparada.

Depois de dar uma quantia substancial em notas, que os amigos não viram bem, mas calcularam que seria cerca de 100 contos (100.000$00 escudos ou 500 euros pela moeda actual), o amigo ofereceu também 10 garrafões de azeite que seriam depois vendidos, e cujo valor revertia para a comissão de festas.

Os dois amigos, não querendo fazer má figura, perguntaram se aceitavam cheques, e foram buscar cada um, um cheque no valor de 50.000$00 (250 euros), que ofereceram aos festeiros para colaborarem conforme podiam.

Depois do cortejo se afastar, voltaram para a cozinha onde a mesa estava posta para o pequeno almoço, mas mal tinham acabado de sentar-se, ouviram lá fora o tropel dos rebanhos que se aproximava para irem dar a volta á capela do santo, e os primos quiserem ir ver a capela e a festa.

Entretanto no enorme fogão a lenha, coziam já as galinhas mortas de véspera, para fazer a canja. Também tinham abatido um porco e um borrego, e as mulheres descascavam batatas para disporem nos enormes tabuleiros de barro, onde já se encontravam pedaços de carne temperada com banha e massa vermelha feita de pimentos esmagados.

Depois de tudo regado com azeite e vinho, colocaram os tabuleiros nos fornos do fogão, onde ficariam a assar.

Enquanto isso, os convidados de Lisboa, acompanhados do amigo aldeão, estavam a entrar na pequena capela da aldeia. Ao fundo no altar, a imagem de S. Silvestre, que segundo lhes explicou o festeiro encarregado da capela, tinha sido um papa natural de França.

Mas antes de ser religioso, fora soldado ao serviço do imperador romano e como tal era afeiçoado aos cavalos e outros animais que protegia e curava de doenças.

Os donos dos animais, quando tinham algum animal doente, faziam promessas a S. Silvestre pedindo a cura do animal doente.

Assim no dia da festa, compravam uma pequena estatueta do animal que se tinha curado, a qual era colocada no altar, para atestar o poder do Santo.

Admirados os dois amigos, primos viram o altar cheio das pequenas estatuetas, e na sacristia ao lado, filas de prateleiras com mais figurinhas, representando vários animais em miniatura.

Depois de darem uma volta pelo arraial, voltaram a casa, onde os esperava o almoço juntamente com dezenas de convidados, que iam enchendo o jardim e o pátio fronteiro á casa.

Depois de devorarem a suculenta canja, e esvaziarem as travessas de carne assada com batatinhas e salada de alface, foi a vez dos doces e sobremesas.

Arroz-doce, pudim de ovos, salada de frutas e leite-creme foram servidos e devorados por aquelas pessoas que aparentavam não comer há uma semana tal a gula com que devoraram tudo que lhe era colocado á frente.

Foi a vez dos bolos confeccionados nos últimos dias pela dona de casa, serem cortados em fatias e colocados em pratos de vidro na mesa, bem como as filhoses cobertas com açúcar e canela e dispostas em enormes travessas intercaladas com os pratos de bolos.

O dono da casa, tinha ido buscar bebidas finas, tais como vinho do Porto, licor de amêndoa amarga e uísque para acompanharem os bolos. As senhoras de Lisboa, preferiram fazer café na máquina expresso que tinham trazido, o qual começaram a servir aos convidados que faziam fila esperando a sua vez.

Findo o almoço todos se dirigiram ao largo da aldeia, onde centenas de pessoas estavam aglomeradas, conversando em grupos, os mais novos dançando ao som da banda que tocava num palco improvisado ao fundo, os homens em grupos cumprimentando os amigos das aldeias vizinhas, as mulheres olhando os vestidos umas das outras para ver qual era a mais bem vestida, as crianças brincado e comendo pinhões em cordões.

Os namorados dançavam, outros jovens e pessoas de todas as idades, acotovelavam-se ao balcão da quermesse para comprarem rifas e verem se tinham sorte em serem premiados com bugigangas diversas que as fábricas e lojas tinham oferecido para serem sorteadas e leiloadas e o dinheiro arrecadado reverter a favor do Santo e da comissão de festas, o que era quase a mesma coisa.

Ao fim da tarde, todos se dirigiam para casa, os convidados para casa dos anfitriões que os tinham recebido, outros de regresso ás suas aldeias, enquanto os habitantes da aldeia se apressavam para irem servir o jantar, porque depois haveria baile e ninguém queria perder a actuação do famoso conjunto musical que tinha sido contratado para a noite de passagem de ano, a noite de S. Silvestre.

Por isso depois do jantar foram de novo para o largo da festa, os miúdos felizes com os brindes que tinham conseguido ganhar na quermesse e que eram uma bola de futebol branca e azul, um carro de bombeiros telecomandado que apitava e buzinava, e uma estatueta de barro que representava um casal de crianças que brincavam.

Agora era a vez de lançarem um balão de ar quente, que já estava pendurado no alto, por cima de uma enorme fogueira destinada a enchê-lo de ar aquecido.

Curiosos, todos se aproximaram, mas ainda iria demorar, só perto da meia-noite seria o lançamento programado. Então dirigiram-se para o salão de baile de onde chegava o som do conjunto musical a afinar os instrumentos.

Daí a pouco começaria o baile, ponto alto das festividades pelo qual todos os jovens esperavam ansiosamente para dançarem com as namoradas os que já namoravam, para arranjarem ou tentarem conquistar uma namorada, os que ainda não tinham.

Em volta do recinto de dança, em duas filas de cadeiras e algumas mesas, as mães vigiavam, enquanto os pais no bar ou no café conversavam de assuntos de homens.

A meia-noite o baile foi interrompido para irem ver subir o balão que se perdeu no céu escuro, e em seguida o baile prosseguiu até de madrugada.

No dia seguinte todos se levantaram tarde depois dos festejos da véspera. Era dia de Ano Novo, mas a seguir ao almoço, enquanto a festa continuava o grupo preferiu regressar a Lisboa.

A chuva tinha recomeçado a cair, anoitecia cedo e o trânsito devia estar caótico na auto-estrada, depois do fim - de - semana de festas.

Arlete Piedade



QUANDO AS FOLHAS CAEM - Texto de Liliana Josué


QUANDO AS FOLHAS CAEM

Texto de Liliana Josué

 O velho Manuel era um homem alto e pesado; olhos pequenos, ligeiramente rasgados e brilhantes, de tom pardo e vivos como os de uma criança.

Os cabelos brancos ainda se mostravam um tanto vaidosos do seu vigor, emoldurando graciosamente as aquelas faces bordadas de rugas.

 Suas mãos eram mapas de gelhas, salpicadas de largas sardas acastanhadas mas ainda com alguma destreza. As pernas é que já não tinham a agilidade de antigamente e os pés arrastavam ligeiramente pelo chão.

No entanto, o seu porte era ainda contornado de certa virilidade.

 Cansado de olhar as grandes vespas do jornal, pois a vista para pouco mais dava, levantou-se do puído sofá, outrora verde, adornado de outonais folhas castanhas, saindo em direcção ao jardim perto de sua casa.

 Enquanto caminhava lentamente, nesse fim de tarde, ouvia os pássaros num cântico murmurado de saudade pelos apetecidos dias de verão.

 Manuel sentou-se num banco de madeira pintado de verde, debaixo de uma grande amoreira. As folhas fustigadas por ligeira aragem, cantarolavam nostálgicas melodias de despedida, e num recato de fim de tempo caíam uma a uma, no seu amarelo envelhecer, enquanto se ofereciam dóceis , em tapetes macios, aos pés daquele homem.

 Na relva verdejante, bandos de crianças corriam e gritavam, como pássaros acabados de aprender a voar, no seu entusiasmo de brincadeiras que só a elas diziam respeito.

 Havia ainda cães brincando com seus donos em corridas e saltinhos, de rabito espetado, numa felicidade sem limites. Enquanto outros, de pelo frouxo e olhar triste, fugiam de cauda encolhida na certeza de não serem desejados.

 Manuel tudo via e entendia. Inclinou um pouco a cabeça para trás, observando o céu acinzentado, e um leve sorriso marcou-lhe a boca de lábios finos. «Os eternos contrastes e desigualdades».

Um vento mais forte soprou num uivo de lobo, e o tapete de folhas mexeu-se num seco rostilhar, chamando a atenção daquele homem. Este olhou-as, agora atentamente, vergando lentamente o corpo.

Os seu pés mal se viam submersos naquele acolhedor tapete matizado. Numa admiração de velho que pensara já nada o perturbar, reparou serem elas também velhas mas belas.

 Esticou os braços e segurou algumas nas suas mãos. Chegou-as ao rosto inalando emocionado seu cheiro a terra, enquanto duas lágrimas traiçoeiras lhe rolaram pelas faces molhando as folhas quase mortas.

 Em atitude de abandono, ali permaneceu num abraço de cumplicidade, esperando serenamente algo de que sempre tanto medo tivera. Afinal a outra parte escura da vida também podia ser bela e repousante.

 Eis que uma nuvem de lindas folhas castanhas, amarelas e encarniçadas desceram suavemente pela árvore envolvendo totalmente o ancião, adormecendo este em doce serenidade.






 

Inesquecível Carrossel - Conto de José Pedreira da Cruz


Inesquecível Carrossel

Conto de José Pedreira  da Cruz

Era grande o movimento de gente que chegava para a festa da padroeira. A cidade já estava muito alegre e até o sino da igreja parecia musicado e mais festivo. As crianças corriam pra cima e pra baixo; pra lá e pra cá, alegrando a todos.

Um velho caminhão pára no centro da praça e dele desce um homem gorducho, carregando algumas ferramentas. A criançada, cheia de curiosidades, cerca o caminhão e tão logo se vai embora. Apenas uma ficou de plantão: o Chiquinho.

- Moço! O que está fazendo?

O homem de joelhos no chão, parou de cavar. Enxugou o suor da testa com a costa da mão, encostou a cabeça no cabo da cavadeira e, olhando para o menino, calmamente lhe respondeu:

- Estou cavando um buraco.

- Pra quê? Pra quê você quer esse buraco? - Insistiu o garoto.

- Para plantar um brinquedo. - Respondeu-lhe com um largo sorriso e voltou a cavar.

- O que é que tem em cima desse caminhão, moço?

- Um brinquedo! Um lindo carrossel!

- A gente pra brincar nele paga?

- Sim! Só duas moedinhas, um Real.

O menino ficou a se perguntar: - como será um carrossel? - E com um olhar inquieto começou a vistoriar aquele caminhão, enorme, coberto com uma lona amarela; parado na praça; bem na frente de sua casa. Ele via aquele caminhão como se fosse um brinquedo gigante e não parava de alisá-lo e de se olhar reflectido na pintura da boléia. Tudo lhe era novidade. E enquanto o homem cavava buracos na praça para erguer o carrossel, o menino fazia-lhe companhia e embaraçosas perguntas.

Suas curiosidades e a vontade de brincar no carrossel, eram tantas, que Chiquinho passou a desobedecer a sua própria mãe.

- Chiquinho! Oou Chiquinho. Eu vou te bater, entra! - Ela gritava a todo instante, para que o menino parasse de amolar ao homem e voltasse para casa. Mas ele dava pouca importância as ameaças de uma surra, pois o que mais lhe preocupava era ver o carrossel e nele poder brincar.

- Moço! Como é o carrossel?

- É grande! Tem luzes, cavalos, leões e elefantes. Você vai brincar nele? - Questionou-lhe o gorducho, enquanto, furiosamente, arremessava a cavadeira no buraco.

O menino fez cara de tristeza e aquietou-se. Ficou olhando para os cabelos esbranquiçados da barba do gorducho. Por pouco não lhe veio uma lágrima.

- Não! Não tenho dinheiro. Mamãe não tem dinheiro. Lá em casa, ninguém tem dinheiro. - Disse e depois se calou. Após um curto silencio o gorducho lhe consolou: - dinheiro você arranja. É fácil! Muito fácil. É só pedir

A noite não demorou e as luzes do carrossel piscavam dentro de seus olhos como se fossem estrelas. Muitas fantasias corriam em sua mente, mas sua felicidade era nula: todas as crianças do lugar brincavam nos cavalos, leões e elefantes, menos ele que, apenas, a tudo assistia correndo em volta do carrossel.

- Moço me dê uma moeda! Por favor, moço, me dê um dinheiro!

A resposta era-lhe sempre a mesma:

- Não.

- Moço deixa-me entrar! - E o bilheteiro dizia-lhe categórico:

- Não.

Aquele “não" deixava-o triste e magoado. Chiquinho percebia claramente que o caminhão iria embora e nunca brincaria num carrossel.

A festa acabou e todos se foram.

O homem desmontou o brinquedo e o cobriu com a mesma lona sobre o velho caminhão. Depois sumiu na curva da estrada, deixando para Chiquinho apenas o som de sua buzina como única recordação.

O menino voltou para casa e chorou.







José Pedreira da Cruz




 
Servidor Público do Estado de São Paulo.

Nasceu em 05 de Janeiro de 1948 em Sátiro Dias-Bahia/Brasil. Iniciou a escrever contos, crónicas e poesias aos cinquenta anos e, a cada letra que acrescenta a seus escritos, se sente mais prazeroso com a vida. Possui dezenas de textos em jornais, revistas e sites de literatura.




LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS


LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS

Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Tenho tido inúmeras oportunidades para constatar que a minha memória é dotada de uma selectividade muito peculiar. Interessa-se sobretudo por guardar sensações e impressões, elidindo muitas factualidades. Quantas vezes quero contar uma história minha e só consigo traduzir apontamentos sensitivos. Este fenómeno manifesta-se sobretudo com os amantes e as leituras. Não sei dizer se a compulsão voraz de certas leituras influencia, mas a verdade é que às vezes sou incapaz de recordar o enredo de uma história que li há muitos anos, embora possa enumerar com toda a nitidez as sensações que tal livro me provocou no corpo.

Yukio Mishima é um dos autores que me surge envolto numa nebulosa de sensações. Li-o nos tempos da licenciatura, há uns 11 ou 10 anos, e recordo que a sua escrita me afectou de um modo algo delirante, como se as suas palavras me colocassem no umbral do Indizível. Volvidos vários anos, não consigo encontrar essas histórias dentro de mim. Já a sensação que o meu corpo experimentou ao lê-las surge-me de pedra e cal, qual estátua. A única maneira de a comunicar é dizer que se apresentava como um mistério solene de mãos em posição de oração, depois de um grande combate silencioso.

 


Com a colectânea de contos A MORTE EM PLENO VERÃO, recuperei parte desse tumulto interior. Falar de cada conto é tarefa quase inútil, os temas e os acontecimentos narrados servem apenas para aflorar esse grande mistério indizível que compõe as emoções humanas. Posso dizer que o conto A MORTE EM PLENO VERÃO se inspira em De Quincey (a epígrafe do conto pertence a Baudelaire mas a colusão poética do verão com a morte remonta de facto às confissões de De Quincey, que Baudelaire tão atentamente leu e reescreveu) para nos contar uma tragédia balnear e dissecar com toda a mestria as várias fases do luto.

- A culpa foi toda minha – disse ela. Aquelas eram as palavras que Masaru mais desejava ouvir.

(…)

Embora não o soubesse, estava desesperada com a pobreza das emoções humanas. Haverá algum bom senso em que choremos a morte de dez pessoas como choramos a morte de uma só?


Posso dizer que dizer que os remates de O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR e AS SETE PONTES são deliciosamente enigmáticos. E que TRÊS MILHÕES DE IENES insinua em nós uma pergunta quantitativa de difícil resposta: quanta sordidez é necessária para assegurar uma estabilidade inocente? Ou que o conto GARRAFA-TERMOS me recordou de algum modo a atmosfera de certos filmes do Wong-Kar Wai e também Marguerite Duras.

Apurando o ouvido para a conversa, Asaka tirou o casaco e colocou-o no regaço. Só o pescoço, com que ela agora não tinha de se preocupar como quando era gueixa, mostrava a negligência da mulher profissional que voltara a ser amadora. Trazia o cabelo puxado para cima e Kawase ficou admirado com a escuridão da sua pele.

- Não são muito simpáticas mas trabalham muito – disse Asaka em voz alta, olhando para as criadas. Kawase gostou de ver nos olhos vivos todo o entusiasmo que ela tinha pelo seu novo trabalho. Ela tinha sido sempre bela, pensou ele, mesmo quando a olhava como se estivesse a admirar um fogo distante.

(…)

O café tinha o cheiro peculiar americano, meio higiénico, a remédios, meio doce e pegajoso a corpos. Os clientes eram mulheres, na sua maioria de meia-idade ou mais velhas, com olhos orgulhosos e lábios pintados, atacando grandes bolos e sanduíches. Apesar do barulho e da azáfama da loja, havia qualquer coisa de solidão em cada mulher e nos seus apetites. Triste, só, como a actuação de tantas máquinas consumidoras.

Posso, sem dúvida, dizer que a perfeição formal de PATRIOTISMO é de uma beleza imbatível. Mas o mais essencial será que cada leitor se ofereça a esta leitura como um piano virgem e possa escutar em si a ressonância inesperada de cada harmonia sombria.



My Blueberry Nights - crônicas da madrugada.- Lua, nua, lua...- Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - crônicas da madrugada.

Lua, nua, lua...

Por Cynthia Kremer

Eu sou mesmo uma mulher lunar.

É impressionante, mas desde bem pequena tenho a sensação de que todos os chatos vão dormir cedo. Assim como os escoteiros, não fumantes, crentes, adeptos da vida saudável e todos os seres aborrecidos da mesma linhagem.
Outro dia estava assistindo um filme que adoro, chamado “Todas as Mulheres do Mundo” – e de repente me dei conta do teor de um diálogo do personagem do ator Paulo José, comentando com o amigo que a mulher dele estava deprimida, que há dias não saía do quarto e como ele dizia, havia dois tipos de mulher: as solares e as lunares; ele temia que sua mulher fosse uma mulher lunar...

Mas eis que de repente ela (Leila Diniz) aparece magnífica e cheia de vida na praia bem ao alcance da vista do marido - que aliviado - desabafa ao amigo: “ela é uma mulher solar!" Aquilo me soou quase como uma crítica, como um desprezo a minha condição de mulher lunar!

Mas a noite é minha amiga fiel. Traz-me aconchego, paz e vontade de fazer as coisas. Este é o problema; pouco do que quero e tenho ânimo, posso fazer à noite. Mudaria o mundo às três da madrugada! Mas aí chega o dia, que implacavelmente, apaga, como o sol a um letreiro de neon, as minhas vontades. Mas não reclamo. Faço o que posso e gosto ao longo das madrugadas.

Ouço minhas músicas, leio jornais, escrevo muito, mando e-mails atrevidos para lugares impensáveis, entro em blogs aleatoriamente, me afilio a ONGs de proteção animal e ambiental, etc. Fico meio pirada depois das três horas da madrugada! Sei que alguns dirão: "coitada, é solidão..."

Pois eu lhes asseguro: é paixão! Paixão pelo desconhecido, por uma sensação de algo suspenso no ar, pela quietude das coisas, das árvores, das ruas e de tudo em volta. É nesta hora que a minha percepção fica mais aguçada e as idéias fluem com mais facilidade.

Há um verso “Nox”, de Antero de Quental, (meu tio-trisavô), que pelos poemas e sonetos, era também um amante da noite.

NOX

Noite vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, Inalterável,
Caindo sobre o Mundo, Esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quantal - in Sonetos





quarta-feira, 24 de junho de 2015

Comportamento seguro - por Tom Coelho


Comportamento seguro

por Tom Coelho


“Aprendemos pela amarga experiência que a segurança

somente para alguns é a insegurança para todos.”

(Nelson Mandela)



Seja em trânsito, no trabalho, em casa ou em um espaço público, a segurança é um fator rotineiramente negligenciado. Assim, dirigir dez quilômetros acima da velocidade permitida em uma via é tido como normal e até aceitável, afinal, está inclusive dentro da tolerância dos radares eletrônicos para caracterização de multa. Subir em uma banqueta para trocar uma lâmpada, sem usar luvas ou óculos de proteção e sem desligar a alimentação de energia elétrica, é praxe em qualquer residência.


Segundo o Ministério da Previdência Social, por meio de seu Anuário Estatístico, os acidentes laborais notificados no Brasil ultrapassam a marca de 710 mil, com mais de três mil óbitos todos os anos. Isso significa cerca de duas mil ocorrências por dia, ou seja, enquanto você lê este artigo, ao menos três pessoas se acidentaram em algum lugar de nosso país. E os números certamente são ainda maiores, pois muitos eventos simplesmente não são registrados.


O principal fator é o desrespeito com relação ao risco. As pessoas acham que nada de ruim lhes acontecerá, afinal, o mal está sempre ocupado com outrem. Por isso, as empresas precisam tanto insistir na obediência a regras, normas, procedimentos, sinalização e uso de equipamentos de proteção, combatendo permanentemente a famosa “gambiarra”. Esta é a retórica constante durante as SIPATs (Semana Interna de Prevenção de Acidentes no trabalho) organizadas pelas empresas em cumprimento à legislação.


A atenção deve ser permanente, seja no exercício da atividade profissional, sobretudo em tarefas operacionais e naturalmente com caráter repetitivo, seja ao subir e descer escadas, ou transitando com crianças em centros de compras, onde recorrentemente menores se acidentam e até perdem a vida em escadas rolantes.


Outro aspecto é a responsabilidade pessoal. No acidente mencionado no início do texto, o próprio motorista consentiu ter ciência de que trafegava em horário não permitido, acima do limite de velocidade e falando ao celular. Lamento por ele e por seus familiares, mas o fato é que isso não poderia ser tratado como crime culposo, quando não há a intenção de matar, mas sim doloso, pois ao infringir todas as regras acima o condutor estava conscientemente praticando delitos. Aliás, foi esta conjunção de fatores que o impediu de observar que a caçamba estava levantada.


Precisamos urgentemente colocar a segurança como uma prioridade. Ela precisa ser inserida na carta de valores das empresas, nas políticas de treinamento, nas aulas no ensino fundamental. Desenvolver uma cultura de prevenção não é algo que se alcança de um dia para outro. É um processo, árduo, lento e trabalhoso que, como tal, precisa de um primeiro passo. Afinal, na atitude de cada um está a segurança de todos.



* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.





A Liberdade - Texto de Maria Álvaro


A Liberdade

Texto de Maria Álvaro

A Liberdade nunca é absoluta porque a própria natureza humana a condiciona, mas ela será tanto maior quanto mais educado, no sentido pleno, for o cidadão e quanto mais adequadas e dignas forem as suas condições de vida.

Liberdade não é a simples permissão para se dizer o que se pensa. E Educação não é a simples absorção do conhecimento. Ambas incluem também, e talvez principalmente, o desenvolvimento do espírito crítico, da criatividade e da cidadania, isto é o respeito pelos outros.

O exercício da Liberdade implica em Responsabilidade, que nos vem com a Educação.

Infelizmente, nas sociedades pouco educadas, e num mundo de individualismo extremado, em que os bens materiais são divinizados e os Governantes detêm, não apenas o poder político e administrativo, mas também o poder econômico, atrelado ao poder legislativo e ao executivo (adaptados estes aos seus próprios interesses), então a prática da Liberdade fica, assim, muito comprometida, pois as regalias são exclusividade dessas minorias e a restante população fica entregue a carências porque sofre os efeitos desses verdadeiros golpes sociais.

Além disso, ainda se regista a dramática existência de verdadeiros guetos étnicos e migratórios em muitos países, gente que, por sua vez, é também cruelmente marginalizada e explorada pelos preconceitos e interesses das restantes camadas das populações...

Na realidade não se detém uma verdadeira Democracia porque a maioria dos cidadãos não tem acesso a uma vida tranquila, não foi devidamente educada e está presa nos nós de uma rede gigantesca de interesses. Lutam, desesperada e ingloriamente, pela continuidade do pão nosso de cada dia. Poucos são os independentes, aqueles que tenham o privilégio de poder viver fora dessas malhas...

Como se poderá afirmar, então, que se vive, hoje, uma plena Democracia e como se pode defender a absoluta Liberdade de Expressão nestas precárias condições de Educação, Vida e Respeito pelo outro, quer seja numa boa parte dos países da Europa quer na África, na Ásia, na América ou na Oceania ?! O mundo precisa de mudança e o quanto antes!

Maria Álvaro





Lendas - Rolando e a Durindana


Lendas

Rolando e a Durindana

Rolando, sobrinho preferido do imperador Carlos Magno, era o mais valente de todos os cavaleiros do seu tempo. Sem temer os inimigos, combatia bravamente em nome da fé cristã. Trazia sempre consigo a Durindana, espada inquebrável, originalmente pertencente a Heitor, bravo guerreiro de Tróia, sendo-lhe presenteada por Carlos Magno, quando completara dezessete anos.

No punho de ouro da espada, encontrava-se um dente de São Pedro, gotas do sangue de São Basílio, um fio do cabelo de São Denis e um fio do manto da virgem Maria. Sob o fio da lâmina da Durindana, muitos infiéis sarracenos tombaram.

Por sua valentia, Rolando foi designado por Carlos Magno a combater os sarracenos que se instalavam por toda a península Ibérica. Assim, com a Durindana em punho, montado em seu valente e veloz cavalo Vigilante, o jovem vassalo partiu para a Ibéria, em nome da sua fé e do seu imperador.

Na empreitada, foi acompanhado pelos também vassalos do rei, Ganelão e Oliveiros. Sob os seu comando estava o mais poderoso dos exércitos, formado pelos paladinos conhecidos como os Doze Pares da França.

De Saragoça a Pamplona, Rolando venceu os invasores sarracenos. Por onde passava, adquiria fama, temor e respeito. Mas quis o destino que o valente vassalo de Carlos Magno fosse traído por Ganelão. O traidor fez um pacto com o rei Marsílio, de Saragoça, para acossar o exército de Rolando e, conseqüentemente, ceifar-lhe a vida.

A grande emboscada aconteceu nos Pirineus, na passagem de Roncesvales. Ali, foram surpreendidos pelos sarracenos. Aos poucos, Rolando viu cair sob a espada inimiga, os seus fiéis soldados. No meio de tão sangrenta batalha, o bom amigo Oliveiros, prometido de Auda, irmã de Rolando, pediu para que ele soasse o olifonte, alertando assim, o exército maior de Carlos Magno, fazendo com que viessem socorrê-los.

Mas as súplicas de Oliveiros foram inúteis, pois Rolando, garboso e destemido cavaleiro, não poderia manchar a sua honra mostrando medo, e recorrendo à ajuda do real do tio.

Em reposta, atirou-se ferozmente aos inimigos, matando dezenas deles. Entre os seus mortos estava o filho do rei Marsílio. O próprio monarca teria a mão decepada pela Durindana. Ferido, o rei partiu com parte dos seus soldados. Morreria mais tarde, devido à hemorragia que sofrera. Antes de cerrar os olhos na morte, o rei ordenou que os seus homens vingassem o seu martírio e o do seu filho.

Sob a paisagem dos Pirineus, a batalha entre os sarracenos e o exército de Rolando enchia os campos de sangue. Um a um, Rolando viu tombar os seus valentes soldados. Por fim, assistiu à morte do cavalo Vigilante. Já no final da luta, Rolando decidiu soar o olifonte. Vendo que a morte estava próxima, ele ainda tentou quebrar, em vão, a Durindana, para que não caísse nas mãos dos infiéis. Em um último ato, cravou a espada mágica em uma rocha.

Ao ouvir o olifante soar, Carlos Magno saiu em socorro do sobrinho. Chegara tarde demais, Rolando jazia inerte no chão de Roncesvales. O rei ajoelhou-se diante do corpo do cavaleiro, cobrindo o seu rosto com as suas lágrimas. Jurou ao morto que vingaria a sua morte.

Assim, Carlos Magno venceu os líderes sarracenos, executou o traidor Ganelão e conquistou Saragoça. Em silêncio absoluto, moveu o corpo de Rolando até Blaye, enterrando o maior dos heróis dos Doze Pares de França.

A Durindana ficou cravada, para sempre, numa rocha no meio do nada, à espera de um novo cavaleiro digno de usá-la.




terça-feira, 23 de junho de 2015

O ESPAÇO, O TEMPO E O SILÊNCIO.- Texto de João Brito Sousa


CRÓNICAS PREMIADAS QUE EU ESCREVI...

O ESPAÇO, O TEMPO E O SILÊNCIO.

Texto de João Brito Sousa

É por esta via que podemos chegar à felicidade. Pelo menos depreendi isso, num texto que li no Jornal Expresso, quando o articulista se mete a explicar o binómio caçador/ caça, e, lá para às tantas, depois daquelas reuniões de amigos, tanto do seu agrado, onde não se fala de mulheres, nem de política, nem de cinema, nem de literatura mas apenas de caça e de caçadores, surge esse momento mágico no encanto da noite.
Depois de terminada a refeição com os amigos, um copo inofensivo na mão esquerda, um puro na mão direita, uma soleira de porta alentejana para se sentar, o espaço, o tempo e o silêncio, fazem desse, o momento magnânimo e único que apetece viver.

O espaço, esse local onde não se passeiem as multidões e que nos permite olhar e respirar, onde nos possamos encontrar a nós próprios, sem medo e com total confiança, que nos pode até conceder a patente de donos do mundo. Naquele momento tudo é nosso. O espaço é fundamental para a nossa afirmação, para a concretização dos sonhos no silêncio das noites.

O tempo, no sentido intrínseco do termo, é o local onde a vida se vive, onde os nossos sonhos se manifestam, onde nos reputamos presentes, é aí o domicílio da nossa vida. O tempo, essa dádiva que nos é concedida e é imprescindível, sem ele não há nada, nada de nada, nem sequer a esperança. O tempo vive-se melhor no silêncio. E às vezes vive-se sem tempo porque não temos tempo para ter tempo.

È bom viver. Em qualquer circunstância, mesmo naquelas condições do caçador que na hora da deita se lembrou que no dia seguinte tinha uma letra no banco a pagamento. Lembrou-se e gemeu. O colega da caçada, perguntou-lhe, o que é isso ó Fernando, o que é que tens? E ele, amanhã…

Ou aquela cena, em que o bancário visitou o cliente que dormia a sesta, lá para as catorze e tal e a esposa foi-lhe dizer, está aí o homem do banco. E o cliente interrompeu a sesta e veio dizer ao bancário que estava a descansar e que ele, bancário, não tinha o direito de o vir acordar. E ainda lhe perguntou: ouviu o que eu disse?

O espaço, o tempo e o silêncio, funcionam como irmãos na família da vida e às vezes constituem o que há de melhor na nossa existência. O espaço é liberdade, o tempo é liberdade e o silêncio é liberdade. Nessa trilogia espaço, tempo e silêncio o homem encontra-se consigo próprio, estabelece padrões de vida, pensa e age, perspectiva situações, analisa e admite que pode ser feliz. Ou que um dia será. E às vezes até se julga poeta. E escreve umas palavras num papel e chama-lhe poesia. Nesse momento tudo lhe é permitido.

Um dia virá em que não haverá mais espaço nem mais tempo nem mais silêncio. Mas tudo continua, igual ou talvez não, num outro local, que pode ser na porta ao lado. Com uma mão vazia e outra cheia de nada, como disse a poetiza Irene Lisboa. Os poetas dizem cada coisa. Tinha que ser um poeta a dizer. E tinha que ser um poeta a escrever. Descobri agora que sou poeta, que tenho essa qualidade de ver as coisas por um lado diferente.

Gostava de ir à caça amanhã e usufruir desse tal momento mágico onde o espaço, o tempo e o silêncio fossem de minha propriedade. Única.

Nunca se sabe o que nos pode acontecer. Por enquanto o palco é aqui, neste espaço, neste tempo e neste silêncio.

João Brito Sousa




Para quem tem mais de 65 anos - Ivone Boechat


Para quem tem mais de 65 anos

Ivone Boechat (autora)


1 - Tome posse da maturidade. A longevidade é uma bênção! Comemore! Ser maduro é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique falando toda hora: “estou velho”. Velho é coisa enguiçada. Idade não é pretexto para ninguém ficar velho. Engane a você mesmo sobre a sua idade, porque os psicólogos dizem que se vive de acordo com a idade declarada!

2 - Perdoe a você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? Deus já o perdoou e não se lembra mais. Mas você fica remoendo o passado... Não se importe com o julgamento dos outros. Só há dois times no Universo: o do Salvador e o do acusador.  Neste último você sabe quem é goleiro. Continue no time do Salvador.

3 - Viva com inteligência todo o seu  tempo. Viva a sua vida, não a do seu marido, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos... Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto de vida!

4 - Coma muito menos; durma o suficiente; não fique o dia inteiro, dormindo, dando desculpa de velhice. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem metálica, nem baixinha; seja agradável!

5 - Poupe seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize o que foi bom.   Experiências caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta. Não transforme poltrona em divã, ouvido em descarga.

6 - Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve.

7 - Escolha bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente. Faça uma faxina na sua farmácia doméstica.

8 - Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome no mínimo oito copos de água por dia e o sol da manhã é indispensável. O crime não compensa, mas o creme compensa!

9 - Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você. Tudo o que se economizar com você será para quem? No dia em que você morrer, vai ser uma feira de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas usadas, bijuterias cafonas, ouro velho... prataria preta, troféus encardidos, placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou vender todas as suas bugigangas, apurar um bom dinheiro e viajar?

10 - A maturidade não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos outros ou no self-service (com os outros pagando); falar de boca cheia, ou palitar os dentes na mesa de refeições (insuportável).
 
11 - Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinho.

12 - Aposentadoria não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que lhe dê prazer. Trabalhar traz muitas vantagens para a saúde mental, além do dinheiro extra para gastar, também com você.

13 - Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas, as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de tudo. Amigo é amigo.

14 - Leia. Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

15 - Não acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição. Cuidado com a maquiagem, se for pesada, você vai ficar horrível.

16 - Seja avó do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação, inglês, vôlei... Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que torna os outros irresponsáveis.

17 - Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de neto e o abandono dos filhos casados...

18 - Não seja uma sogra chata. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele. Você agora é parente! Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidado. Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É melhor dizer: Deus o abençoe meu filho.

19 - Cuidado em atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você responder  “estou levando a vida como Deus quer”; “a vida é dura”; “estou preparando a partida”; “estou vencendo a dureza”; você vai ver que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

20 - A maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade, promiscuidades, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de tudo o que você sempre sonhou: a felicidade.

               (Extraído do livro Educação- a força mágica)









A porta de vidro - Crónica de Abilio Pacheco


A porta de vidro

Crónica de
Abilio Pacheco
 
Semana passada, fui ao chaveiro tirar cópias de umas chaves. O molho tinha três chaves. Segurei duas delas e disse que gostaria de uma cópia de cada. Era uma senhora. Ela recolheu das minhas mãos, sumiu e depois voltou segurando a que não era para copiar e disse: duas cópias, certo? Não, senhora – respondi – uma de cada das outras duas. Ela revirou o chaveiro e fez cara de quem entendeu mas não gostou.

Colocou uma das chaves num suporte. Depois tirou e disse: É de uma porta de vidro. Como não disse nada, ela insistiu: Não é de uma porta de vidro!? Eu lhe disse que não. Ela puxou um huuummmm prolongado. Meditou e quis saber de onde era a chave. Disse-lhe que era da porta do apartamento. De vidro? Não, senhora. De madeira. Aprumou matriz e chave lisa no esmeril, resmungou: porta de vidro. Enquanto tirava a cópia da outra chave, dizia: De vidro. É de uma porta de vidro.

Aparou arestas das duas chaves e voltou-se para mim segurando a chave como brandindo: Esta chave é de uma porta de vidro! Convenci-me que não adiantaria discutir. Em qualquer outra situação, eu iria insistir que estava certo, mas havia rodado mais de 170 km (Capanema-Belém), eram quase 16h e tinha alguma fome. Além do mais, não me parecia haver motivo para insistir. Resolvi não teimar. Conforme ela me estendia a chave, eu confirmava que era. Era de uma porta de vidro. Eu pegaria as chaves, pagaria pela cópia e iria para casa.

Ela puxou de uma vez: Afinal, o senhor não disse que a porta era de madeira!? A mulher me desmontou de vez. Não quisera teimar, mas tergiversar parece que não fora a melhor opção. Estiquei um ééééé… Ela inclinou o rosto para um lado como quem dissesse ‘tô te vendo!’. Respirei calmo e disse, procurando um caminho no meio daquela armadilha. Senhora, a chave (hum!!) é de uma porta de vidro (ãh), mas a minha porta é de madeira (ah!).

Ela parecia ter se desarmado e ia me entregando a chave quando recuou novamente e perguntou onde eu morava. Cruzando minha resposta ela emendou a pergunta se eu estava indo para lá. Naturalmente, sim. Essa sua história está estranha, viu moço! Eu vou lá com o senhor. E foi. No caminho, resmungou outros problemas de clientes como eu. Aquilo não era somente uma cópia de chave errada. Seria caso de polícia. A chave era de uma porta de vidro. Conhecia bem aquelas chaves, seus formatos…

Chegamos à porta e lhe mostrei a madeira. Pegou a chave, ela mesma. Enfiou na fechadura e girou. Olhou-me aborrecida. Cobrou-me pelas cópias e pela visita. Paguei sem reclamar. Ela pegou o dinheiro, fez um rolinho e levantou alto como fosse uma vareta e vibrou o braço bradando. A chave é de uma porta de vidro. E ainda de costas reclamou: de vidro!

Belém/Capanema, 07 de fevereiro de 2013.

Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.




segunda-feira, 22 de junho de 2015

Chama devoradora - John Steinbeck - Resenha crítica de Daniel Teixeira


Chama devoradora

John Steinbeck

Resenha crítica de Daniel Teixeira

Com este título, Chama devoradora, aparentemente da autoria da tradutora da Livros do Brasil - Lisboa, Virgínia Motta, em data incerta dos anos 60's, baseado no volume de Steinbeck de 1950 «Burning Bright», relemos recentemente mais uma obra deste nobelizado (1963) autor.

O título em português não é dos mais felizes, na nossa opinião, havendo algumas alternativas possíveis que correspondessem melhor quer a um sentimento literário menos catastrófico quer à própria temática do livro, mas por ora fiquemo-nos por aqui.

Na verdade há todo um conjunto de especificidades neste volume que é preciso desde logo referir, na medida em que se não trata directamente de romance (embora o seja no seu conjunto) mas sim de um conjunto de novelas entrelaçadas que se constituem num trama romanceado.

Mas ninguém melhor que o autor para nos explicar porque escreveu desta forma e não de uma outra:

«Decidi-me por este tipo literário por várias e diferentes razões. A leitura de peças teatrais parece-me difícil e o mesmo pensa muita gente. As peças que se dão à estampa são lidas exclusivamente pelas pessoas que se encontram ligadas ao teatro, pelos estudante ou estudiosos da arte dramática e por um grupo relativamente reduzido de leitores a quem o teatro fascina.

Daí a primeira razão da forma literária que adoptei: o desejo de produzir uma peça capaz de atrair um número substancial de leitores, uma vez que o livro é apresentado como um romance vulgar, ou seja, dentro de um género mais familiar ao grande público» (...)»

Quanto à segunda razão apresentada pelo escritor no seu prefácio iremos resumi-la desta forma: trata-se de fornecer de forma mais acessível um conjunto de informação ao actor, ao director, ao produtor e ainda ao leitor, em diversos aspectos, alargando o leque informativo sobre as personagens, coisa que uma peça de teatro escrita ou declamada não faz desde logo, no entender do autor, permitindo por isso uma liberdade interpretativa ao encenador, aos actores e ao público que pode não corresponder àquela intensidade ou forma que inicialmente era pretendida pelo autor.

Steinbeck divide esta peça novela em quatro actos, cada um deles passado em cenários diferentes, com as mesmas personagens base e um argumento que se entrelaça nos momentos relevantes de cada um dos anteriores.

Assim, o primeiro acto passa-se num circo, o segundo acto numa quinta, o terceiro que se prolonga pelo quarto acto entre o mar (um barco atracado num porto) e um nascimento.

Quem conhece Steinbeck sabe que este autor deu uma importância relevante à relação de família e ao relacionamento familiar e tanto neste romance como noutros a transmissão de sangue ou da continuidade afectiva e memorial está de alguma forma sempre presente: lembra-mo-nos de «A um Deus desconhecido» por exemplo (que curiosamente teve pouco sucesso quando da sua publicação primeira em 1933) ou mesmo «Ratos e Homens» que é considerada a sua obra prima ou ainda «As vinhas da Ira» (1939) entre outros.

Neste romance/peça de teatro o tema basilar trata de um indivíduo que tem um verdadeiro problema sobre a necessidade de deixar descendência, o que se torna de alguma forma obsessivo. Compreender Steinbeck e o tempo em que escreve é também ter a tentação de referir o chavão que se acopla normalmente ainda hoje ao povo americano em geral que é a busca de uma identidade comum americana (USA).

Nascido este país (conjunto de estados) de um caldo (nem, sempre ou poucas vezes misturado) de nacionalidades e culturas é bastante comum encontrarem-se ainda hoje as referências identitárias originais (irlandês, italiano, judeu, latino, polaco, etc.) dos emigrantes que inicialmente povoaram a América, mantendo-se algumas comunidades com muito poucas variantes inter - culturais e relativamente pequena fusão social e familiar efectiva.

Contudo este problema relatado por Steinbeck pode inicialmente ser encarado no plano exclusivamente pessoal. Joe Saul é casado em segundas núpcias com Mordeen dado o falecimento da sua primeira esposa, tem um amigo denominado no romance de Amigo Ed, e um jovem auxiliar de nome Vítor.

Independentemente do cenário desenvolvido por Steinbeck as posições hierárquicas dos personagens mantêm-se. No circo Vítor é companheiro de trapézio do mais experiente Joe Saul, na quinta é trabalhador sob as ordens de Joe Saul e no barco é o imediato de Joe Saul e no quarto acto, interligado com o terceiro, está ausente por razões que esclareceremos mais à frente.

Mordeen ama Joe Saul cuja ânsia por ter descendência se vê constantemente frustrada e o atormenta cada vez mais porque sem o saber Joe Saul é estéril. Sabendo da esterilidade dele e desejosa de fazer cumprir o desejo do companheiro, logo no primeiro acto, em conversa com Amigo Ed, sugere levemente a possibilidade de engravidar através de uma relação secreta com o jovem Vítor que a ama sem ser correspondido por Mordeen, relação essa que vem a acontecer.

No primeiro acto ficamos com a dúvida sobre se a infidelidade de Mordeen a Joe Saul terá uma componente exclusivamente altruísta, uma vez que Mordeen também deseja ser mãe, não de uma forma tão obsessiva, mas o resultado acabará por ser o mesmo na medida em que o seu relacionamento com Joe Saul melhorará de forma significativa no seu entender cumprido que seja este seu desejo de deixar o «seu sangue» perdurar.

Nos outros actos trata-se sobretudo da gravidez e da luta de Vítor perante Mordeen para que ela assuma que o futuro filho é dele e dela, situação esta que está presente nos três actos.

No último o Amigo Ed acaba por «resolver» a insistência de Vítor jogando-o ao mar e causando a sua morte, ficando desta forma o crime sem castigo, tentando assim poupar tanto Joe Saul como Mordeen.

A parte final trata do nascimento do bebé, já sabendo na altura, através de análises que fez, Joe Saul, que é estéril e que logo o filho que nasce da barriga de Mordeen não é seu.

Joe Saul acaba por aceitar a inevitabilidade, depois de uma luta de recusa consigo mesmo, e após o nascimento do bebé acaba a peça / romanceada com o seguinte trecho:

(...) «Mordeen, gosto da criança - a voz de Joe Saul ganhou volume e foi em tom vigoroso que reforçou a sua declaração - Mordeen, gosto do nosso filho - e erguendo a cabeça, exclamou triunfante - Mordeen, gosto do meu filho.»

Depois do que dissemos acima sobre as intenções de John Steinbeck quanto à forma do seu escrito parece-nos claro que, apesar de estar bem escrito e ter um enredo suspensivo constante entre actos, com os elementos dramáticos, desconhecimento da realidade dos factos da parte de Joe Saul  e posterior conhecimento, insistência e incerteza quanto ao resultado da pressão do verdadeiro pai da criança, desfecho relativamente inesperado pela acção de Amigo Ed e a atitude final de Joe Saul que, dito tudo isto, como romance este vale mais como peça de teatro.

Na verdade pensamos que só na declamação e na actuação as personagens podem ganhar verdadeira força e intensidade dramática e que as coreografias poderão de facto ajudar bastante uma história que não sendo de todo banal, está quanto a nós longe de se constituir como sendo interessante por si só na sua forma escrita.

Daniel Teixeira


 

Luís Forjaz Trigueiros - Aquelas mãos - Por Daniel Teixeira


Luís Forjaz Trigueiros

Aquelas mãos

Por Daniel Teixeira

Conforme fizemos referência no número anterior existem no livro de contos «Ainda há Estrelas no Céu» de Luís Forjaz Trigueiros dois contos que mereceram uma maior atenção da crítica e dos tradutores fazendo desses dois contos aqueles que maior relevo merecem ainda que, e conforme dissemos igualmente quando da análise do conto «Boa noite, Pai!» existam neste pequeno volume algumas outras estórias que consideramos de igual interesse desenvolver, o que faremos noutras oportunidades. Este volume tem oito contos.

Embora e citando a contracapa do volume vejamos que na altura o autor foi referenciado como tendo afinidades narrativas com Maupassant e K. Mansfield e em termos de análise ou ambiência psicológica ele seja situado nesta introdução com Mauriac, certo nos parece ser que existe nele também influência do psicologismo russo e em análise mais detalhada talvez com Camus ou mesmo Gogol.

Na verdade as personagens deste autor são na sua larga parte elementos de uma pequena e média burguesia rotineira, que não vivem o seu tempo mas que antes o deixam passar por elas, desprovidas de objectivos substanciais, desligadas da alegria de viver, fazendo em certo sentido lembrar o Mersault de Camus no romance o Estrangeiro (não na Morte Feliz) ou mesmo na «Peste».

Por seu lado a falta de objectivos definidos na vida dos seus personagens principais fá-los viver num universo estreito: uma grande farra de aniversário é uma noite no Parque Mayer, por exemplo, a ver uma Revista... enfim, são personagens que se não encontram no tempo em que vivem (as notícias da guerra, neste conto que resumimos e procuramos analisar, de 1940, entram-lhe por um ouvido e saem-lhe pelo outro), é fundamentalmente uma desesperança de vida que neste conto encontra a sua alegria num facto sem importância que pode muito bem aceitar-se como a alegoria que é, mas que denuncia a pouca imaginação do personagem.

Bom narrador, Luís Forjaz Trigueiros, consegue uma narrativa inteligente e faz uma descrição tão detalhada quanto possível de um homem que pode considerar-se comum com ambições que vão um pouco além mas não passam do comum plano mental.

Farei algumas citações mais à frente mas noto antes que o autor procurou ele mesmo construir antecipadamente o ambiente que despoletaria o evento :na verdade por uma vez decide seguir um percurso diferente daquele que segue habitualmente de eléctrico e nele encontra duas mãos de uma jovem senhora que o cativam muito para além daquilo que seria normal.

Ora e retrocedendo um pouco na nossa análise não vemos porque razão ele não encontraria umas mãos que o cativassem numa das suas habituais viegens de casa para o emprego e deste para casa e porque as encontrou naquele dia e não num outro.

Claro que temos um alerta logo no início do conto onde ele repete para si mesmo aquilo que a sua mulher lhe diz ao que parece com alguma frequência : «Tu não me enganes! (...) Não arranjes outra.» o que pode funcionar nele como um desejo de ser tão normal quanto os outros seus colegas e amigos, mas não nos parece que o argumento tenha assim tanta força.

Na verdade «Aquelas mãos» apesar de poder considerar-se ser um conto bem escrito está fracamente alicerçado e menos alicerçado fica quando essa sua paixão por aquelas mãos em concreto se distribue na sua imaginação por várias mãos femininas. Contudo as mãos da sua mulher nunca são referidas nem positiva nem negativamente.

O problema maior que esta questão levanta é o seu convencimento de que comete infidelidade, convencimento esse que o leva a um alheamento familiar que depressa contagia os receios sempre infundados da mulher. Assim os condimentos da infidelidade conjugal reúnem-se entre os dois havendo da parte da sua mulher uma atitude de aceitação dos factos que não existem.

(...)« Foi nessa altura que comecei a olhar melhor para a rapariga que ia sentada mesmo defronte de mim. A falar a verdade, ela não tinha nada de extraordinário. Era bonita? Não me recordo bem. Creio, porém, que tinha uns olhos de tal maneira vagos que nem se cruzaram com os meus.Além disso, vestia sem espalhafato. Sem espalhafato e, com certeza, sem água de colónia absorvente da senhora do lado. Pintadinha, sim, mas com recato, sem exageros. Também não me lembro do vestido. Só me lembro- e isso muito bem - que tinha uma carteira castanha e que a segurava, com as maõs rosadas, sobre os joelhos. Mas eu olhei para as mãos da rapariga e não fui capaz de olhar para mais nada!»(...)

(...)«Até ao dia em que meti naquele eléctrico eu tinha uma cortina corrida entre mim e a vida. Tudo quanto eu via era visto apenas por detrás dessa cortina e, logo, correspondia a uma realidade incompleta.»(...)

(...)«Do meu lugar, (...) acompanhava fixamente com os olhos a vida das suas mãos. Já não eram indiferentes. Assim como eu tinha cordado para um mistério, elas tinham entrado também nesse mistério. E riam para mim, riam evidentemente, já sem conseguirem estar à vontade, persegidas pela consciência de que estavam a falar comigo uma linguagem própria, que os meus olhos talvez não vissem, mas escutavam.»(...)

(...)«Desta maneira, à medida que fitava as mãos da minha companheira de eléctrico, sem quer desviar delas esse olhar, instintivamente me lembrava da minha mulher e quase a ouvia numa reprimenda discreta e apagada como todos os seus gestos: "Firmino, não olhes para ela..." Ouvia-a falar-me assim, mas continuava a olhar. Afinal, pela primeira vez, estava a ser infiel à Lucília, infiel com frieza, conscientemente.E não tiva remorsos.»(...)

(...) « Mas assim que me levantei do meu lugar (...) chegara ao final do meu percurso (...) aquelas mãos recuperaram a sua tranquilidade, voltaram a cumprir o seu destino de existirem apenas. (...) As mãos daquel desconhecida, que eu não tornaria a ver, voltaram, de súbito, a ser silenciosas para mim.»(...)

O resto da estória já foi referida em grosso acima. Podemos sempre pensar e acreditar que se trata de ficção, claro que é, mas mesmo pela sua insignificãncia o episódio pretende descrever a eclosão de um sentimento até aí recalcado (e que continua recalcado) mas onde tudo funciona como a grande catarse desejada.

Chamamos no entanto a atenção para a imagem da cortina corrida (sobre uma vida) e o correr dessa cortina (sobre uma outra perspectiva de vida) e dizer, ironicamente, que cada um corre as cortinas que tem e as que pode ter.