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domingo, 17 de maio de 2015

Crónica por Martim Afonso Fernandes - O JOVEM VOADOR


Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

O JOVEM VOADOR

Ícaro Passos de Araújo, era o nome de um rapazola de mais ou menos seus treze anos. Gostava muito de aventuras e mais ainda de fazer diabruras.
Não perdia filmes que pudessem lhe sugerir algo de importante e curioso. Certa ocasião sonhou que estava a voar. E resolveu começar um projeto voador!

Em primeiro lugar saltou de cima de uma casa com um guarda-chuva aberto, que deu-lhe alguns segundos de prazer, deslocou-se uns cinqüenta metros, mas a armadura metálica do sombreiro não resistiu e virou ao contrário.

Depois, a continuar suas experiências, pegou um pato, ave caseira, e começou a jogar para cima e a observar os movimentos das asas. A abrir e a fechar.

Com uma cartolina, resolveu desenhar modelos de asas e passou para a construção. Preparou uma armação de bambu e cobriu-a com tecido. Colocou o aparato sobre suas costas e os braços dentro dos suportes para acionar os movimentos de bater as asas.

Chegou o dia do teste. Chamou os colegas para ajudá-lo a fixar aquela armação móvel, que estava bem comentada na cidade e na escola onde estudava. Sua residência situava-se numa rua de declive bem acentuado. Tudo pronto. O Icaro sonhador partiu para a realização de seu grande projeto.

Ao se projetar do telhado de sua casa, a euforia e os aplausos dos presentes foram grandes, mas duraram pouco tempo. Faltou energia para que seus braços pudessem deslocar o ar e galgar uma distância e uma altura para completar o percurso de seu desejo. Por proteção de anjos, não chegou a quebrar-se muito, sua aterrissagem fé-lo cair de pé e sair a rolar pelo mato rasteiro que por ali existia.

Ao completar maior idade, Ícaro foi prestar serviço militar na Força Aérea Brasileira, podendo assim realizar uma parte de seu sonho. Não voou com asas próprias, mas com asas metálicas, com aviões a propulsão, motorizados ou turbinados.

Este jovem passou para a história. Dava seus longos passos no ar, cortando os ares que na sua infância tanto sonhara atravessar. Mais uma vez o homem sonhou voar. E realizou seu grande sonho.

Seria seu nome e seus sobrenomes que o incentivaram a querer subir às alturas? Aqui no Brasil chamamos aos tripulantes de navios de marujos, por andarem no mar. E, para completar, não ficaria nada mal chamar de araújo a quem anda pelos ares.

Ícaro, após terminar seu tempo de prestação ao serviço militar, retornou à vida civil. Há muitos anos passados, reencontrei um amigo nosso de infância e ao perguntar-lhe sobre alguns companheiros de nosso tempo, lembramo-nos entre outros das diabruras que fazíamos e do rumo profissional que cada um tomou. O nome do rapazola que acabou voando veio-nos à mente. Daí o nosso papo:

-Que rumo tomou o Ícaro? Meu amigo respondeu:
-Aquele encapetado trabalha numa fábrica de industrialização de carne de siri para exportação, numa cidade vizinha daqui.

Aí interroguei meu colega:
-Ele formou-se em química?

-Não, disse meu colega. Hoje ele é operador de caldeira para geração de vapor do sistema industrial. E o mais engraçado é que foi usada uma locomotiva antiga a vapor servindo para decoração da indústria que ele trabalha.

Ao ouvir esta resposta, dei aquela minha gargalhada que ecoa aos pés da montanha. Meu amigo assustou-se com o troar do barulho e me interrogou: -Por que tamanha gargalhada, homem?

Ao que respondi: - Se Ícaro ainda tiver aquela vontade doida de voar e fechar todas as válvulas de segurança da caldeira, com a pressão alta da mesma, ela explodirá e leva tudo para o espaço sideral!!!





Camões em Macau pelo Padre MANUEL TEIXEIRA ( Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia)


Camões em Macau

pelo Padre MANUEL TEIXEIRA

Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia


Reza a tradição que Camões esteve em Macau e que o seu retiro predilecto era a estância do Patane, para os lados de Sto. António, sítio na verdade aprazível e pitoresco, que foi baptizado com o nome do poeta, chamando-se-lhe, ainda que impropriamente, Gruta de Camões.

Esta tradição pluri - secular foi acatada e respeitada por todos os historiadores e biógrafos do poeta, havendo apenas divergências acidentais da parte de Teófilo Braga, Juromenha e Storck quanto à data da sua vinda e outras minúcias, ficando, porém, de pé o facto principal, a estada do poeta em Macau.

Mas nos primeiros anos do século positivo, em que vivemos, em 1907, houve quem pretendesse contestar este facto e relegar a tradição para os domínios da lenda.

1. Já antes, em 1899, o ilustre orientalista J. F. Marques Pereira, expusera bem fundadas dúvidas sobre a estada de Camões em Macau como Provedor dos defuntos e ausentes 2. Ora, há aqui duas questões que importa não confundir:
l.ª -Esteve Camões em Macau ?
2.ª-Foi Camões Provedor dos defuntos e ausentes em Macau ?

À primeira respondemos afirmativamente com a tradição.

À segunda respondemos negativamente com razões históricas.

Esteve Camões em Macau ?

Responde afirmativamente toda uma plêiade de brilhantes e profundos historiadores dos séculos passados; começou a negá-lo João Frick em 1907, o qual aventou a hipótese de o poeta ter ido morrer, «com a espada na mão, ao lado do seu rei nos campos de Alcácer-Quibir.»


Depois deste, apareceram alguns articulistas a copiar as suas objecções; o mais ilustre defensor da tese negativa foi o Dr. Luiz da Cunha Gonçalves que, no seu livro Camões não esteve em Macau

3 - ampliou a tese que João Frick, com o pseudónimo de Gonçalo da Gama, publicara no Portugal.

Nós somos pela tradição, e, não nos convence nenhum dos argumentos dos que a atacam. Assim, João Frick diz que Camões não esteve em Macau porque, à data, Macau não existia, não passando dum covil de piratas; Cunha Gonçalves diz que «entre 1556 a 1559, não havia chinesas cristãs, como não existia a cidade de Macau»

4. - Ora tudo isto é redondamente falso, pois que nessa época já existia a colónia portuguesa de Macau e já existiam chinesas e chineses cristãos. Para não nos repetirmos, remetemos o leitor para o nosso estudo sobre o Estabelecimento dos Portugueses em Macau, publicado no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Dezembro de 1939, pp. 273-297, pelo qual se pode ver que, imediatamente depois da paz firmada em 1553 ou 1554 pelo Leonel de Sousa, com os chineses, os portugueses se estabeleceram em Macau, donde em 20 de Novembro de 1555  Mendes Pinto escreveu uma carta para Goa.

O sobrenatural escreve:

O poeta Luís de Camões vivia em Macau numa espécie de desterro, provocado por invejas e inimizades em Portugal. As intrigas obrigaram-no também a deixar aquela terra, tendo embarcado como prisioneiro na famosa Nau de Prata, nos finais de 1557.

Luís de Camões despediu-se da famosa gruta de Patane, em Macau, que tinha escutado o eco dos seus sonhos e do seu desespero, e apresentou-se ao capitão da Nau de Prata. Interrogado sobre o papel enrolado que levava na mão,

Camões respondeu que era toda a sua fortuna e que talvez fosse aquela a sua herança para todos os Portugueses. Tratava-se da epopeia Os Lusíadas que contava a história do seu povo e que, segundo a lenda, terá sido escrita naquela gruta.

Escritos com toda a alma e toda a saudade de português, injustamente privado da pátria, aqueles versos eram o maior de todos os seus tesouros e os únicos companheiros do seu infortúnio. Da amurada da nau, estava Camões a despedir-se da gruta, quando ouviu uma voz de mulher que o interrogava sobre a sua tristeza.

Era uma nativa de Patane, que o conhecia, e em quem ele nunca tinha reparado, apesar da sua extrema beleza. Tin-Nam-Men era o nome da nativa que, na sua língua, significava Porta da Terra do Sul - a Porta do Paraíso.

Tin-Nam-Men tinha observado Camões, durante muito tempo, sem nunca se atrever a falar-lhe até àquele dia. Perdidamente apaixonada por Camões, tinha-o seguido até ao barco.

Partindo com o poeta, conta a lenda que, na Nau de Prata, nasceu mais uma relação amorosa na vida já tão romanesca de Luís de Camões, até ao trágico dia em que uma tempestade irrompeu nos mares do Sul.

Como a Nau de Prata estava condenada a afundar-se, embarcaram as mulheres num batel e os homens salvaram-se a nado. Camões, de braço no ar, segurando Os Lusíadas, nadou até terra, mas o barco onde seguia a linda Tin-Nam-Men foi engolido pelas ondas.

Foi à bela Dinamene, como o poeta lhe chamou, que Camões terá dedicado os seus belos sonetos «Alma minha gentil, que te partiste...» e também «Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste».






Coragem de optar pela arte - Crónica da Laé de Souza


Coragem de optar pela arte

Crónica da Laé de Souza

Há quem diga que a responsabilidade maior foi do pai, que numa viagem ao nordeste o presenteou com um berimbau. Outros acham que a culpa foi da mãe que, enjoada do din-din-din-don , trocou o instrumento por um violão de plástico e cordas de náilon.

Embora. muitos acreditem que ele já tenha vindo de nascença com um parafuso a menos e que essas coisas não tenham influenciado em nada. O que é certo, e concorde a todos, é que o Gertulino não tem um pingo de juízo.

Os pais, coitados, na verdade a gente sabe que fizeram de tudo para que ele se endireitasse, mas foi perda de tempo. Arrumaram uma vaga num escritório de contabilidade, mas qual nada. Na mala de boy , levava suas revistas de partituras e letras que cantarolava no ônibus e na fila do banco.

No guichê, enquanto o caixa autenticava, ele tamborilava com uma bic no vidro do balcão. Não reclamava do salário, mas chiava quando tinha de catar milho na Olivetti para preencher de uma guia e também não queria nem saber de débito/crédito. O contador lhe apontava exemplos de quem entrou pequeno e agora era chefe de departamentos e ele, nem aí. Já bem crescido foi despedido por faltas. Trabalhava um, faltava dois dias.
 
Arrumaram-lhe um emprego numa metalúrgica . Na prensa, com o pé livre batia duas vezes no chão e no do pedal batia uma, em ritmo de valsa. Puseram-no para rebitar , e o chefe o dispensou por não agüentar mais o bater compassado e a quarta batida mais forte, sempre.

Daí para a frente só fez bicos. Na maioria das vezes era encontrado em casa, fechado no quarto com seu violão, repetindo várias vezes a mesma música e descobrindo as notas de um solo. Começou tocar nuns barzinhos e até recebia acanhados aplausos. Quando perguntado pelo filho, seu Agildo, respondia que ele estava trabalhando. Mas quem ouvia os acordes vindos do quarto, dava uma risadinha e dizia que o Gertulino não tinha jeito mesmo.

Seu Agildo também achava que não era certo o proceder do filho, mas saiu a investigar se era só ele quem tinha filho doido.

O filho do padeiro era encafifado com negócio de pegar pedaços de pau e ficava horas e horas esculpindo. Às vezes até que fazia alguma coisa bonita, da qual o pai ignorava a beleza para não estimular a loucura. O filho do açougueiro era metido com coisas de teatro e vivia correndo atrás de roupas velhas.

Perdia horas e horas em ensaios inúteis, fazendo cenários de papelão, perucas, narizes e, de vez em quando, junto com outros doidos dava um show na praça. O filho de um seu Geraldo ficava horas e horas como que fora do mundo, pintando um quadro. O filho da professora , era poeta e não fazia outra coisa senão rabiscar um caderno espiral de capa gasta. Assim, seu Agildo viu tantos malucos pelas noites que chegou a duvidar se era mesmo loucura.

Ele descobriu que existiam outros doidos e tentou adivinhar que espécie de doença é essa que ataca a mente, fazendo abandonar futuros planejados, por caminhos incertos. E nós, até com certa inveja, perguntamos de onde nasce essa força tão grande que faz com que alguns tenham coragem de optar pela arte.




A PENSÃO EM MARTINLONGO


A PENSÃO EM MARTINLONGO

Conto / Crónica de Daniel Teixeira


Ao longo destas minhas crónicas tenho falado já algumas vezes sobre o sacrifício que era para nós deslocarmo-nos de Faro a Alcaria Alta devido às muito más condições das estradas e ao deplorável estado dos arcaicos e desprezados pelas companhias, transportes públicos. Entre as diversas variantes para tentar adocicar o suplício do enjoo tínhamos uma que era ir até Martinlongo numa linha de transporte, passar lá a noite e seguir no dia seguinte na camioneta que partia de Martinlongo para Vila Real de Sto António logo manhã cedo. Ou seja, chegávamos por volta das 22 horas, dormíamos e partíamos de novo cerca das 8 da manhã.

Ficávamos então na Pensão da Dª Letícia que era a esposa do «ferrardorzinho» como lhe chamávamos porque era baixote e era ferrador entre outras coisas como aguadeiro nos períodos mais fracos e trabalhador de jorna noutras alturas. Era a única pessoa que conheci por aqueles lados com o chamado cabelo «cor de cenoura»: um dos filhos dele o H. também tinha essa cor de cabelo. Havia mais filhos e não me lembro quantos mas o casal era conhecido também pela sua grande contribuição para a natalidade do lugar. Um outro anda aqui por Faro também, o G. mas temos pouca lidação. O H. esse conhecemos bastante bem mas na altura era com eles todos que brincávamos quando lá íamos dormir à Pensão.

Sem vontade de comer nada acabávamos sempre com uma açorda com ovos escalfados, com umas migas de alho, uma canja quando havia galinha e conseguíamos brincar um bocado enquanto a minha mãe (ela também uma vítima do enjoo como nós) conseguia por a conversa em dia. A minha mãe levava sempre umas latas de leite condensado, um quilo ou dois de arroz e rebuçados para os miúdos.

Interessante como me lembro de coisas e como elas ficam gravadas em desfavor de outras, seguramente: os miúdos (como nós) embora fazendo parte de uma larga família onde claramente os meios não abundavam eram simplesmente impecáveis no trato, prestáveis ao ponto de irem connosco até à camioneta no dia seguinte ajudando na bagagem, corriam atrás da camioneta fazendo adeus e respeitavam a mãe de forma exemplar embora esta em muitos períodos do ano fosse sozinha em casa dadas as ausências para «ferrar» pelos Montes do marido.

No dia seguinte tínhamos pois de novo camioneta : eram só 10 Kms sensivelmente de Martinlongo à placa de Alcaria Alta mas o terror faria o seu efeito nem que fossem só 500 metros: o efeito psicológico era enorme e bastava aproximarmo-nos da garagem que era estação de chegada e de partida para o estômago começar às voltas. Como a estrada era direita já no planalto normalmente não havia problema de maior neste segundo troço mas o stress era bem pesado e só abrandava cá fora.

Ora, nestas condições porque íamos todos os anos a Alcaria Alta? Por um lado era bom estar por lá mas havia sempre a esperança de que «nesse ano se não vomitasse». Tínhamos quase uma escola com direito a Licenciatura sobre o enjoo. Um primo meu foi o teórico da na prática inaplicável teoria do estômago/copo cheio de água, os comprimidos mais diversos alegadamente contra o enjoo tinham marcas e composições renovadas todos os anos garantia-nos o farmacêutico, a estrada era melhorada também todos os anos sabia-se em boato, e havia um condutor, o Zé Mário, que sabia fazer muito bem as curvas: certo ou não isso nunca produziu efeito real visível e ele mesmo tinha o seu baldinho ao pé do assento não fosse o diabo tecê-las. Mas todos os anos havia uma renovada esperança...

O H. esteve uns quantos anos na Alemanha e penso que o G. também e outro cujo nome não fixo tem uma barbearia. Todos acabaram por se estabelecer, cada um em seu ramo: dos restantes não sei nada mas também não tenho perguntado e penso que havia também uma menina, talvez a mais velha, que já ajudava a mãe nas lides da casa.

O pai deles, o ferradorzinho, corria de Monte em Monte no seu labor de calçar os animais: gostava de ver quando ele estava em Alcaria Alta, normalmente um dia inteiro outras vezes mais. O posto de ferragem era encostado à taberna da Ti Inácia (e depois do Chico Artur também). Depois acabou por ser levantado naquele recanto um galinheiro rudimentar onde foram colocadas entre outras aves as exóticas galinhas de angola.

Para ferrar era preciso ter alguma prática e alguma experiência e, arrisco dizer, algum conhecimento da psicologia animal. Era preciso fazer um inventário dos tiques das bestas e do seu significado e era sobretudo preciso ganhar a confiança dos animais, aproveitar para fazer um estudo sumário do seu comportamento e regular-se muito pelo arquivo mental construído com muitos episódios já vivenciados.

Por vezes o ferrador passava a outro animal esperando que aquele acalmasse a sua estranheza, mudava-o de lugar de espera, alterava-lhe a orientação cardeal, enfim...eu acho que aquilo era uma verdadeira ciência.

Era também preciso saber quando se devia interromper a tarefa de descascar os cascos para que o animal pousasse a pata para descansar e escapar lesto quando de costas com uma pata traseira do animal entre as suas pernas sentia algum estremeção mais forte. Nas patas dianteiras os trabalhos eram menores e de menor risco, mas era sempre arriscado.

Não sei como as coisas são agora mas tenho um primo que foi fazer um desses cursos da CEE (como ainda se diz) para tratar das unhas das vacas: como toda a gente deve saber chegou-se á conclusão que vaca bem manicurada produz mais leite.

Ora ele descreveu-me que se mete o animal numa espécie de gaiola que se inclina com manivela a jeito em noventa graus e que depois se trabalha nas calmas...sentadinho.

Não sei até que ponto isso é aplicável a bestas mas na altura o sistema teria feito muito jeito ao ferradorzinho que contou ao que soube com pelo menos meia dúzia de coices, felizmente para ele e para a sua família nas partes «almofadadas» do corpo.



sábado, 16 de maio de 2015

LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS


LIÇÕES ESPIRITUAIS PARA SAMURAIS MELANCÓLICOS

Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»



Tenho tido inúmeras oportunidades para constatar que a minha memória é dotada de uma selectividade muito peculiar. Interessa-se sobretudo por guardar sensações e impressões, elidindo muitas factualidades. Quantas vezes quero contar uma história minha e só consigo traduzir apontamentos sensitivos. Este fenómeno manifesta-se sobretudo com os amantes e as leituras. Não sei dizer se a compulsão voraz de certas leituras influencia, mas a verdade é que às vezes sou incapaz de recordar o enredo de uma história que li há muitos anos, embora possa enumerar com toda a nitidez as sensações que tal livro me provocou no corpo.

Yukio Mishima é um dos autores que me surge envolto numa nebulosa de sensações. Li-o nos tempos da licenciatura, há uns 11 ou 10 anos, e recordo que a sua escrita me afectou de um modo algo delirante, como se as suas palavras me colocassem no umbral do Indizível. Volvidos vários anos, não consigo encontrar essas histórias dentro de mim. Já a sensação que o meu corpo experimentou ao lê-las surge-me de pedra e cal, qual estátua. A única maneira de a comunicar é dizer que se apresentava como um mistério solene de mãos em posição de oração, depois de um grande combate silencioso.

Com a colectânea de contos A MORTE EM PLENO VERÃO, recuperei parte desse tumulto interior. Falar de cada conto é tarefa quase inútil, os temas e os acontecimentos narrados servem apenas para aflorar esse grande mistério indizível que compõe as emoções humanas. Posso dizer que o conto A MORTE EM PLENO VERÃO se inspira em De Quincey (a epígrafe do conto pertence a Baudelaire mas a colusão poética do verão com a morte remonta de facto às confissões de De Quincey, que Baudelaire tão atentamente leu e reescreveu) para nos contar uma tragédia balnear e dissecar com toda a mestria as várias fases do luto.

- A culpa foi toda minha – disse ela. Aquelas eram as palavras que Masaru mais desejava ouvir.
(…)
Embora não o soubesse, estava desesperada com a pobreza das emoções humanas. Haverá algum bom senso em que choremos a morte de dez pessoas como choramos a morte de uma só?

Posso dizer que dizer que os remates de O SACERDOTE DO TEMPLO DE SHIGA E O SEU AMOR e AS SETE PONTES são deliciosamente enigmáticos. E que TRÊS MILHÕES DE IENES insinua em nós uma pergunta quantitativa de difícil resposta: quanta sordidez é necessária para assegurar uma estabilidade inocente? Ou que o conto GARRAFA-TERMOS me recordou de algum modo a atmosfera de certos filmes do Wong-Kar Wai e também Marguerite Duras.

Apurando o ouvido para a conversa, Asaka tirou o casaco e colocou-o no regaço. Só o pescoço, com que ela agora não tinha de se preocupar como quando era gueixa, mostrava a negligência da mulher profissional que voltara a ser amadora. Trazia o cabelo puxado para cima e Kawase ficou admirado com a escuridão da sua pele.
- Não são muito simpáticas mas trabalham muito – disse Asaka em voz alta, olhando para as criadas. Kawase gostou de ver nos olhos vivos todo o entusiasmo que ela tinha pelo seu novo trabalho. Ela tinha sido sempre bela, pensou ele, mesmo quando a olhava como se estivesse a admirar um fogo distante.
(…)
O café tinha o cheiro peculiar americano, meio higiénico, a remédios, meio doce e pegajoso a corpos. Os clientes eram mulheres, na sua maioria de meia-idade ou mais velhas, com olhos orgulhosos e lábios pintados, atacando grandes bolos e sanduíches. Apesar do barulho e da azáfama da loja, havia qualquer coisa de solidão em cada mulher e nos seus apetites. Triste, só, como a actuação de tantas máquinas consumidoras.

Posso, sem dúvida, dizer que a perfeição formal de PATRIOTISMO é de uma beleza imbatível. Mas o mais essencial será que cada leitor se ofereça a esta leitura como um piano virgem e possa escutar em si a ressonância inesperada de cada harmonia sombria.


http://1.bp.blogspot.com/-mX_6m08VFCo/VUedkGZ9ExI/AAAAAAAABac/7ps87TmwbYM/s1600/Morte%2Bem%2BPleno%2BVer%C3%A3o%2Be%2BOutros%2BContos-Yukio%2BMishima%2B001.jpg

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


O que é a política ?

O filho fala para o pai:
- Pai, eu preciso fazer um trabalho para a escola, posso fazer uma pergunta?
– Claro meu filho. Qual é a pergunta?
– O que é Política, pai?

– Bem, vou usar a nossa casa como exemplo:
Sou eu quem traz dinheiro para casa, então sou o "Capitalismo".
A tua mãe administra (gasta) o dinheiro, então ela é o "Governo".
Como nós cuidamos das tuas necessidades, então tu és o "Povo".
A empregada é a "Classe trabalhadora", e o teu irmão bebé é "O Futuro".
Entendeste, meu filho?

– Mais ou menos, pai. Vou pensar...
Naquela noite, acordado pelo choro do irmão bebé, o miúdo foi ver o que se estava a passar. Descobriu que o bebé tinha sujado a fralda e estava todo sujo.
Foi ao quarto dos pais mas a mãe estava num sono muito pesado. Então, foi ao quarto da empregada e viu, através da fechadura, o pai na cama com a empregada. Como os dois nem percebiam as batidas que ele dava na porta, voltou para quarto e dormiu.

Na manhã seguinte, na hora do café, ele falou pró pai:
- Pai, agora acho que entendi o que é Política!
– Óptimo, filho! Então explica-me...

– Bom pai, enquanto o Capitalismo "come" a Classe Trabalhadora, o Governo dorme profundamente. O povo é totalmente ignorado e o Futuro está todo cagado!



Jesus Cristo num Hospital português...

Jesus Cristo, cansado do tédio do Paraíso, resolveu voltar à terra para fazer o bem.
Procurou o melhor lugar para descer e optou pelo Hospital de S. Francisco Xavier, onde viu um médico a trabalhar há muitas horas e a morrer de cansaço.

Para não atrair as atenções , decidiu ir vestido de médico.
Jesus Cristo entrou de bata, passando pela fila de pacientes no corredor, até atingir o gabinete do médico.
Os pacientes viram e comentaram: Olha, vai mudar o turno...

Jesus Cristo entrou na sala e disse ao médico que podia sair, dado que ele mesmo iria assegurar o serviço. E, decidido, gritou: O PRÓXIMO!

Entrou no gabinete um homem paraplégico que se deslocava numa cadeira de rodas. Jesus Cristo levantou-se, olhou bem para o homem, e com a palma da mão direita sobre a sua cabeça disse: LEVANTA-TE E ANDA!

O homem levantou-se, andou e saiu do gabinete empurrando a cadeira de rodas.

Quando chegou ao corredor, o próximo da fila perguntou: Que tal é o médico novo?
Ele respondeu: Igualzinho aos outros... nem exames, nem análises, nem medicamentos... Nada! Só querem é despachar...



A descendência ...

Uma garotinha perguntou à sua mãe:
- "Mamã, como é que se criou a raça humana?"
A mãe respondeu:
- "Deus criou Adão e Eva e eles tiveram filhos, netos, bisnetos e assim se foi formando a raça humana".

Dois dias depois, a garotinha fez a mesma pergunta ao pai. E o pai respondeu:
- "Há muitos anos existiram macacos que foram evoluindo até chegarem aos seres humanos que vês hoje".

A garotinha toda confundida foi ter com a mãe e disse-lhe:
- "Mamã, como é possivel que tu digas que a raça humana foi criada por Deus e o Papá diga que a raça humana resultou da evolução a partir dos macacos?"

A Mãe, depois de pensar um pouco, respondeu:
- "Olha, minha querida filha, é muito simples. Eu falei-te da minha família e o teu pai falou da dele!"


Como não se livrar de um gato


Um homem queria livrar-se do gato. Levou-o até uma esquina distante e voltou para casa. Quando chegou a casa, o gato já lá estava.
Levou-o novamente, mas desta vez deixou-o mais longe. Quando regressou, o gato já estava em casa antes dele.

O homem continuou a fazer isto, deixando o gato cada vez mais longe, mas o animal chegava sempre a casa antes dele.
A dada altura, já farto destas caricatas situações, vendou o gato, amarrou-o, meteu-o num saco e atirou-o para a mala do carro. Fez dezenas de quilómetros com curvas e contra-curvas e foi parar a meio de uma floresta, onde finalmente largou o gato.

Passados dois dias, o homem liga para casa pelo telemóvel e fala com a mulher:
- Olha, o gato já chegou?
- Sim, chegou ontem. – Responde-lhe a mulher.
E diz o homem:
- Óptimo! Agora deixa-me falar com ele porque eu estou perdido…


 
Um português, um francês e um americano conversam entre eles

Um português, um francês e um americano conversam entre eles. Diz o americano:

- Na América temos um porta-aviões que alberga 10000 aviões.
Diz o francês:

- Na Franca temos um hotel que acomoda 20000 pessoas.

Diz o português:
- Lá na minha rua há um gajo com uma pila onde cabem 200 passarinhos empoleirados.

Passado um bocado diz o americano:
- Eu exagerei... O porta aviões só leva 500 aviões!

Diz o francês:
- Eu também exagerei: o hotel só dá para 300 pessoas!

Diz o português:
- Eu confesso que também exagerei... O último passarinho já fica com uma patinha de fora...


O Ti Zé Chaparro

O Ti Zé Chaparro, aproveitando a viagem a Mértola, foi ao médico fazer um ’xécápi’.

Pergunta o médico.
- Sr. José, o senhor está em muito boa forma para 40 anos.
- E eu disse que tinha 40 anos?
- Quantos anos o senhor tem?
- Fiz 57 em agora em Março.

- Não me diga! E quantos anos tinha o seu pai quando morreu?
- E eu disse que meu pai morreu?
- Oh, desculpe! Quantos anos tem o seu pai?
- O velho tem 81.

- 81? Que bom! E quantos anos tinha o seu avô quando morreu?
- E eu disse que ele morreu?
- Sinto muito. E quantos anos ele tem?
- 103, e ainda anda de bicicleta.

- Fico feliz em saber. E o seu bisavô? Morreu de quê?
- E eu disse que ele tinha morrido? Ele está com 124 e vai casar na semana que vem.

- Agora já é demais! – Diz o médico revoltado.
- Por que é que um homem de 124 anos ainda querer casar?

- E eu disse que ele QUERIA se casar? Não queria nada, mas engravidou a moça!..


Azares de uma avó moderna


Paulinho com 9 anos foi passar uns dias em casa da Avó.
Estava ele a brincar na rua com alguns colegas e, passado algum tempo, entrou em casa perguntando:
- Avó, como se chama aquilo quando duas pessoas dormem no mesmo quarto e ficam uma em cima da outra?

A Avó, assustada com a pergunta, pensou e achou que seria melhor dizer a verdade:
- Bem, Paulinho, isso chama-se uma relação sexual, fazer amor ou como se diz agora, dar uma queca...

Paulinho, satisfeito com a resposta, voltou para a rua, para brincar.

Poucos instantes depois, ele entra em casa novamente, todo esbaforido, e diz:
- Avó aquilo que eu lhe perguntei, afinal chama-se BELICHE e a mãe do Toninho quer falar com a Avó!


De quem é a culpa?

Depois de notas tão negativas em História, o inspector vai falar com um dos alunos, na presença da professora.
Diz o inspector:
- Quem incendiou Roma?

O miúdo não responde e o inspector torna a perguntar:
- Então? Quem incendiou Roma?
O miúdo continua a não responder e o inspector torna a perguntar:
- Quem é que incendiou Roma?

O rapaz, muito aflito, diz:
- Eu não fui...

O inspector manda-o sair e diz à professora:
- Você já viu isto? A dizer que não foi ele?
- Sim, mas ele não costuma mentir. Se ele diz que não foi ele, é porque não foi mesmo.

O inspector fica atónito com esta resposta e vai falar com o director da escola.
Mal conta o sucedido ao director, este diz-lhe:
- Bem, mas deixe lá... O rapaz é de boas famílias, e se tiver que pagar os estragos ele paga...


Truques e manhas...

Um pai de família judeu chama o seu filho, na ante-véspera do Ano Novo da sua religião e lhe diz:
- Jacózinho, eu odeio ter que estragar o teu dia, mas tenho que te dizer que a tua mãe e eu vamo-nos divorciar, depois de 45 anos de convivência.

- Papai, o que você está dizendo?! – grita o filho.
- Não conseguimos mais nem nos olhar um ao outro – disse o pai, e completou: – vamos-nos separar e acabou. Liga para a tua irmã Raquel e conta-lhe sff.

Desvairado, o rapaz liga para a irmã, a qual explode no telefone.
- De maneira nenhuma os meus pais se divorciarão!! Chama o pai já ao telefone!

Quando o velho atendeu ela disse-lhe aos berros:
- Não façam nada até nós chegarmos aí amanhã. Estou a chamar o Moisés, que está em viagem, e amanhã mesmo estaremos aí, percebeste?!!! – e bateu o telefone sem deixar o pai responder nada.

O velho colocou o telefone no lugar, virou-se para a mulher e sorridente disse:
- OK Sara, afinal eles sempre estarão cá no Ano Novo e não temos de lhes pagar as passagens!!!


ISTO É QUE É MARIDO HONESTO…


Uma mulher foi presa por roubar no supermercado.
Quando estava no tribunal, o juiz perguntou-lhe:
-O que é que a senhora roubou?

Ela respondeu:
- 1 lata pequena de pêssegos.
O juiz perguntou-lhe o motivo do roubo, e ela respondeu:
-Porque estava com fome.
O juiz então perguntou à senhora quantos pêssegos tinha a lata:
-Tinha 6 pêssegos.
O juiz então disse:
- Vou mandar prendê-la por 6 dias, 1 dia por cada pêssego.

Mas antes que o juiz pudesse terminar a sentença, o marido dela perguntou
se poderia ter uma palavra com o juiz sobre o acontecido.
O Juiz disse que sim, e perguntou o que queria ele dizer.
Então o marido disse:

- Ela também roubou uma lata grande de ervilhas!




O resgate da inocência - por Tom Coelho


O resgate da inocência

por Tom Coelho

“Crianças, ao contrário dos adultos,
sabem aproveitar o presente.”
(Jean de la Bruyère)


Tive o prazer de desfrutar de uma experiência singular: a primeira apresentação de balé de minha filha de quatro anos.

O evento, idealizado e organizado com carinho e competência por Patricia Famá, reuniu mais de 50 alunos de sua escola distribuídos em quatorze performances temáticas. Mas um detalhe em especial levou-me a uma reflexão que gostaria de compartilhar: a diferença entre as apresentações infantis e juvenis.

As exibições das crianças, com faixa etária de quatro a doze anos, mas notadamente daquelas com até sete ou oito anos de idade, foram marcadas por características similares. As pequenas bailarinas entravam no palco com um sorriso contagiante no rosto. Reunidas em grupos de três a sete participantes, era comum observá-las se entreolhando, perguntando umas às outras sobre o enredo esquecido, e buscando guarida na professora, que escondida por detrás da cortina, estava sempre a postos para caprichosamente orientá-las.

Durante o espetáculo, era possível notar o desenvolvimento da técnica e o aprendizado pelo qual cada aluna passou. Entretanto, em virtude da tenra idade, era natural que não houvesse uma sincronia nos movimentos. Para os convidados, isso pouco importava. Claro que ali estavam pais, mães, irmãos e avós prontos para aplaudir a qualquer cena. Mas o fato primordial era a alegria daquelas crianças por estarem ali maquiadas, vestidas com um figurino especial, entre amigas e diante de seus familiares.

Já as exibições dos adolescentes tinham outras nuances. A preocupação primordial era a técnica, a obediência à coreografia, a perfeita sincronia. Era perceptível o preparo, o treinamento, a entrega daqueles jovens. Analogamente, a plateia também assistia com outros olhos, pois o que presenciava eram futuros profissionais da dança.

Todavia, aquele sorriso espontâneo, eventualmente até permeado por um diálogo aberto entre duas pequenas amigas em pleno palco, era substituído por feições mais contidas nos adolescentes. Certamente havia alegria em seus corações, porém os semblantes transmitiam, sobretudo, responsabilidade e até mesmo a dor física do esforço da dança.

Entre as crianças, um erro na coreografia era imediatamente acolhido pelas demais que procuravam ajudar à colega. E o público se divertia, sentindo a leveza daquele tratamento, como que aprendendo uma nova maneira de lidar com as vicissitudes, dando-lhes importância na medida exata de sua adequação. Já entre os adolescentes, um equívoco era recebido com olhar de censura ou pedido de atenção. E novamente o público se identificava, possivelmente reconhecendo ali um padrão de comportamento adotado nos palcos da vida.

Isso nos faz refletir sobre como a vida adulta se torna chata na medida em que nossas pernas crescem. Compromissos, deveres e responsabilidades depositam tamanha carga sobre nossos ombros que substituímos a espontaneidade pela artificialidade, a emoção pela razão, o prazer pela obrigação.

Precisamos resgatar, com brevidade, um pouco da inocência perdida, inspirando-nos na pureza das crianças.


* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.






quinta-feira, 14 de maio de 2015

My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer


My Blueberry Nights - Crônicas da madrugada- Por Cynthia Kremer

O nada absoluto

Pelo que tenho lido e assistido em documentários na TV, parece que os cientistas ainda não chegaram a um consenso a respeito do que seria composta a matéria escura e no que, exatamente, ela interfere.

Os paradoxos da mecânica quântica evidenciam a relatividade de tudo; o que para nós chama-se, ou melhor, chamamos de antimatéria, pela nossa incapacidade de decifrá-la, por sabermos apenas que ela é um espelho de todas as partículas de matérias dotadas de massa, só que um espelho inverso dessas mesmas partículas que estão por toda parte.

Se nós somos constituídos de matéria estelar, (partículas) o que seria para nós uma colisão, um esbarrão na antimatéria? Talvez na nossa atual compreensão, uma implosão, a ausência de consciência, o NADA. Quem poderia conceber o conceito do nada?

O nada, a princípio, é a nossa incompreensão, a nossa ignorância a respeito de qualquer coisa: se desconheço um compositor magnífico, nunca ouvi suas obras, até então, ele é para mim inócuo, é nada. Se me falam sobre ele em teoria, ele passará a existir apenas em conceito, como um nome solto no espaço. Ainda não terei a consciência de sua obra. Saberei apenas de sua existência sem grandes vislumbres. Mas isso já não significa que ele não exista, que talvez ele seja brilhante e que muitos o admirem, posso conjecturar. Mais, sobre ele, não saberei.

Não seria esse mesmo processo que se dá no meio científico, que caminha pouco a pouco e vai retirando véus e pondo à luz da consciência conceitos concretos e existenciais?

Eles - os cientistas - estão ainda no "escuro" quanto ao que significa para o universo e para nós, a interação da matéria escura, (não à toa a sua nomenclatura, "escura") ela é percebida escura por ser quase desconhecida, assim como aquele compositor do qual nenhuma obra ouvi em nada me influenciou.

Experimentar a existência de algo dotado de matéria por uma primeira vez, já é um insight. Imagine o que seria (seria?) experimentar a ausência de tudo, até que essa ausência fosse desvendada uma grande presença, que se mostrasse dotada de massa?

Para a consciência do ser humano, essa passagem, a do consistente para o etéreo absoluto, o que chamamos de antimatéria, matéria negativa ou escura, o intangível, o nada, é apenas até onde podemos chegar nesse momento por não termos capacidade de desvendá-lo, traduzi-lo - que somente achamos que assim o é - porque ainda não os colocamos sob a luz da consciência.

É possível que haja o inconcebível no anteriormente, "nada".

É possível que ultrapassada essa linha de percepção, a antimatéria que sabemos hoje, seja muito mais palpável e tenha um papel muitíssimo mais importante e dinâmico no universo e em nós mesmos.

É possível que pelo estreito ponto de vista da ciência, ela, a antimatéria, a matéria escura, seja – ainda - apenas uma nomenclatura que não lhe fará jus num futuro próximo.


Cynthia Kremer




Lendas - Hildebrando


Lendas

Hildebrando

A fama de valente acompanhou toda a vida heróica de Hildebrando.
Emocionando por voltar a sua terra, o velho cavaleiro cavalgava solitário. Sentia o vento frio da primavera a bater no seu rosto austero, curtido pelo sol e pelas marcas adquiridas nas batalhas que lhe fizeram a fama.

Próximo do seu reino, Hildebrando viu, ao longe, a figura de um jovem guerreiro, com um porte da mais alta estirpe. O jovem preparava a armadura e a lança, pronto para conduzir o seu exército. Diante daquela cena que se armava em campo de batalha, Hildebrando correu a lembrança por todos os momentos da sua vida.

Quando novo, dedicara-se à educação de Teodorico, fazendo dele um dos maiores reis dos ostrogodos. Casara-se com a mulher mais bela do seu povo. Do ventre da amada, nascera um filho. Hildebrando, já cavaleiro de Teodorico, tendo a vida marcada por longas batalhas em favor do seu rei, só queria viver a paz de amar a mulher e contemplar o crescimento do filho.

Mas o destino soprou-o na direção contrária à paz. Um dia surgiu o sanguinário Odoacro, que ao pôr fim ao Império Romano do Ocidente, tornara-se o primeiro rei bárbaro em Roma. Para escapar da fúria de Odoacro, Teodorico fugiu, seguido dos seus cavaleiros.

Sempre fiel, Hildebrando acompanhou o seu rei, deixando às costas, a mulher e o filho. Por trinta anos o cavaleiro sofreu com a ausência da família. Seus olhos firmes marejavam ao se lembrar que não acompanhara o crescimento do filho. Sonhava com o dia em que voltaria a abraçá-lo, tê-lo contra o peito, finalmente.

Ao lado de Teodorico, Hildebrando invadiu a península Itálica e, bravamente, derrotaram Odoacro em Verona. O cavaleiro já poderia voltar para a família.Sob o seu cavalo, Hildebrando viu, tão perto, a sua terra amada.

Inesperadamente um exército, comandado por um jovem intrépido, se lhe pôs no caminho. Seria a última batalha que travaria em vida. Após o seu término, voltaria para os braços da mulher e o amor do filho. Decidira depor a lança e a espada. Na sede de encontrar a paz, Hildebrando lançou-se com fúria contra o jovem que liderava o exército que lhe obstruía a passagem.

Minutos depois, Hildebrando estava frente a frente com o jovem guerreiro. Estava pronto para desferir a sua lança, quando uma emoção estranha possuiu-lhe o coração. Mansamente aproximou-se do jovem, perguntando-lhe:

-Quem sois vós, bravo e audacioso guerreiro? De que estirpe herdai tão fervorosa coragem, tão garbo semblante?

-Sou Hadubrand, filho de Hildebrando, o mais valente cavaleiro de todos os tempos, fiel servidor do rei Teodorico de Verona. Dele herdei a coragem que me faz defender o meu povo dos bárbaros e forasteiros como vós. Armai a vossa espada e a vossa lança, que em nome do meu saudoso pai, derramarei o vosso sangue de invasor! Pela honra do sangue que se me escorre nas veias, derramarei o vosso sobre a relva espargida pela primavera.

Hildebrando sentiu o coração saltar-lhe, sendo tomado pela mais forte das emoções. Ali, no último campo de batalha que decidira travar na vida, estava o próprio filho, que deixara de ser a sombra da lembrança, adquirindo o corpo do mais valente de todos os jovens guerreiros. Com a voz embargada, Hildebrando conseguiu dizer as palavras que guardara por todos os anos de exílio:

-Não sofras mais pela saudade, Hadubrand, pois sou eu, Hildebrando, o pai ausente, que tanto te fustiga a saudade. Assim como eu, tu és o mais valente dos bravos. Não me ergas a espada e a lança, mas os braços, pois de ti quero um longo e infinito abraço.

Ao ouvir as palavras do forasteiro, Hadubrand sentiu a cólera invadir o seu coração. Leu em cada palavra proferida, uma blasfêmia à memória do pai.
-Como ousai a passar pelo mais honrado dos homens? Não vos permitirei que me vença com tão grotesco ardil. Fazei uma última prece, porque a minha lança já está pronta para trespassar o vosso coração enganador!

Furioso e incontrolável, o jovem lançou em disparada rumo a Hildebrando. De lança em punho, verteria o sangue do forasteiro, dedicando a vitória à memória do pai distante. Hildebrando viu a fúria do jovem na sua direção. Palavra alguma demoveria o valente do seu propósito.

O que fazer naquele momento, morrer nas mãos do filho? Defender-se diante da sua prole, como quem se defende de um feroz inimigo? Hildebrando sentiu o vento da lança do filho a aproximar-se do seu corpo, em um gesto instintivo, sem que se lhe apercebesse dele, ergueu a sua lança. No ar ecoou um grande grito de dor. Um corpo tombou no chão. O sangue lavou a terra das sementes da primavera. A morte já pairava no horizonte.

O cavaleiro sobrevivente desceu do seu cavalo. Era Hildebrando. Ajoelhou-se diante do corpo do filho, que emitia um último suspiro. Antes que a morte cortasse o cordão da vida, Hadubrand sorriu, reconhecera, no último instante, os olhos lacrimejantes do pai.
Hildebrando abraçou-se ao corpo inerte do jovem. Matara tantos inimigos, e, tragicamente, encerrava a sua epopéia a verter o sangue do próprio filho, como se o céu lhe cobrasse todos os seus mortos.




O mito do Quinto Império - Por Daniel Teixeira


O mito do Quinto Império

Por Daniel Teixeira


O Quinto Império, da forma que ele é entendido como irrompendo na história, é profundamente reaccionário, elitista, hegemonista e sob a capa de uma unificação tende à uniformização das sociedades. Ou seja, de um mito bíblico que tem atravessado um pouco todas as idades com diversas interpretações, retira-se não o seu valor simbólico como mito religioso, a contar com a intervenção de Deus ele mesmo e transforma-se tudo isso num acontecimento a ter lugar por previsão humana, da forma que se entende e quando se entende que deve ter lugar.

Ou seja, terá lugar esse acontecimento um dia destes cuja data o profeta não conhece mas que permanentemente vai sugerindo acontecer porque todos os traços lhe apontam nesse caminho nunca se sabendo quando está e se algum dia exacto estará preenchida a folha da vida. Só quando acontecer...se sabe!

Por outras palavras transforma-se aquilo que faz parte da crença em Deus numa crença em homens ou num homem. Em Portugal esteve o Quinto Império presente no Sebastianismo, que, e como se sabe, tem ele também percorrido os últimos tempos da nossa história com toda a sua carga de «esperança» interpretada na vontade colectiva de uma forma passiva e cuja última «demonstração» durou meio século.

Pois o Sebastianismo é uma espécie de messianismo. (...) O tipo de messianismo a que pertence o sebastianismo português é próprio de uma sociedade ainda não secularizada, digamos (embora o termo se preste a mal - entendidos) uma sociedade «sacral». Não quer dizer que seja uma sociedade eminentemente religiosa, ou que este «sacral» advenha do cristianismo. Trata-se neste caso de uma sociedade psicologicamente crente, uma sociedade que acredita (dá crédito) a uma possível eventualidade…o tal de Quinto Império neste caso.

A sociedade portuguesa, e muitas outras que não a portuguesa, têm ainda uma necessidade forte de misticismo, de esperança personificada ou não, uma forte necessidade de deixar uma larga margem das suas vivências à obra do acaso e da incerteza ou da semi-certeza.

O conhecimento de tudo e de todas as coisas que aconteceram e vão acontecer, o conhecimento absoluto de que falavam Laplace e Kant não é decididamente para nós uma hipótese aceitável ou minimamente desejável. Por outro lado o crescendo das seitas religiosas, dos milagres em directo pela Televisão, dos astrólogos, bruxos e outros que tal que enchem páginas de anúncios demonstram até que ponto esta necessidade de misticismo ultrapassa a capacidade de resposta da Igreja ou das Igrejas há séculos instituídas e com credibilidade adquirida.

Pode até dizer-se sem grande receio de errar que mesmo que hipoteticamente todas as respostas fossem dadas elas seriam sempre insuficientes.

Na verdade o misticismo como consequência aparece mais fortemente implantado em épocas de crise, nomeadamente em épocas de crise de identidade, de desnorte colectivo, de desconfiança perante o futuro. mas a estrutura que à volta dele se cria torna-o elemento interiorizado com valor (ou «vida») própria.

Nela, na sociedade sacral ou na sociedade que sente a necessidade de sagrado, seja ela portuguesa ou outra, todas as áreas da vida individual e colectiva parecem directa e constantemente permeáveis à actuação do mundo sobrenatural, quando as respostas usuais e institucionais correntes não convencem ou não acompanham o ritmo das necessidades em obter respostas convenientes ( ou mesmo que hipoteticamente as dessem como vimos trás elas seriam sempre consideradas insuficientes).

Tal messianismo é inconcebível sem uma fé religiosa, professada pela grande maioria da sociedade.(...) diz van den Besselaar. De facto o seu cimento é uma fé (um believe) e a mais implantada é aquela que mais matéria fornece.  O povo oprimido - porque tem de haver um povo ou uma classe social que se considerem oprimidos de qualquer forma para haver messianismo - pode ser uma nação inteira, ou uma determinada classe social: existe não só um messianismo nacional, como também um messianismo social.

Aquele foi, quase sem excepção, o caso do sebastianismo português (o messianismo da nação inteira ou quase inteira), ao passo que este (o messianismo das classes sociais) marcou os movimentos messiânicos que no Sec. XIX ocorreram no Brasil. Movimentos messiânicos esses que transformaram o «positivismo» de August Comte numa religião e movimentos messiânicos esses que alimentaram por via directa e indirecta a actual chamada Teologia da Libertação existente na América do Sul sem que a Teologia disso tenha alguma culpa no cartório das realidades.

E, finalmente, acrescenta o mesmo autor, o messianismo é um fenómeno tanto apropriado a fomentar a inércia e a inactividade dos indivíduos, como a estimular-lhes iniciativas particulares e actos de heroísmo. A esperada intervenção do Céu (ou do ente esperado ou da coisa esperada) pode paralisar-lhes a actividade, mas pode também incentivá-los a preparar o solo terrestre para a irrupção de Deus (ou do ente esperado ou da coisa esperada) na história. (...).

E a esperança na irrupção de Deus na história é teorizada desta forma por Espinosa na sua Ética:

«A esperança, enquanto alegria instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida, é, afirma Espinosa, indissociável do medo, que é uma tristeza instável nascida da ideia duma coisa passada ou futura, do resultado da qual duvidamos numa certa medida. Aquele que está suspenso pela esperança não possui ainda a certeza, porque imagina sempre que alguma coisa pode ainda vir a opor-se á existência daquilo que se espera vir a acontecer no futuro.

Porque está suspenso, a sua alegria não tem uma base firme e, consequentemente, viverá sempre com medo de que não aconteça o que espera. Viver no medo é não saber que coisas funestas lhe advirão duma coisa que lhe repugna. Mas quem se encontra possuído pelo medo também imagina que alguma coisa poderá vir a acontecer que contrarie tais coisas funestas. O que nos leva a concluir que entre a esperança e o medo não existe verdadeira diferença.» (Neste caso acrescentamos nós, esclarecendo).

Por outras palavras – digo – esperar é viver um estado de angústia e angustiar-se é deprimir-se.

Para fundamentação do Quinto Império os tratadistas alegam frequentemente alguns textos dos profetas Isaías e Ezequiel, que se referem à paz e harmonia universal do reino messiânico, tema por eles, geralmente, combinado com a restauração de Israel. Mais importantes, porém, são os textos apocalípticos da Bíblia.

O género apocalíptico, que floresceu entre 200 A.C. e 200 D.C., descreve em sonhos ou visões o combate decisivo entre Israel e os seus inimigos nos tempos derradeiros, e o triunfo final do povo de Deus. A descrição faz-se por meio de figuras simbólicas (Leão, Águia, Dragão, etc.) cujo significado vem a ser explicado, ou pelo próprio profeta, ou por um Anjo, ou por Deus. Entre esses sonhos cumpre salientarmos os do profeta Daniel (cap.2 e 7), referentes aos quatro grandes Impérios que no Próximo Oriente se sucederam e que a exegese tradicional identificava, respectivamente, com o dos Assírios (I), o dos Persas e Medos (II), o dos Gregos (Alexandre Magno) (III) e o dos Romanos (IV).

O primeiro sonho representava os quatro impérios sucessivos na figura de uma estátua enorme, cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de cobre, e as pernas de ferro, sendo de ferro também uma parte dos pés, mas de barro outra parte. Desprendendo-se, de repente, duma montanha uma pedra feriu e despedaçou a estátua, crescendo até se transformar numa grande montanha, que acabou por encher a terra inteira. (Vidé á frente transcrição da Bíblia, D.T.)

Esta pedra que se transformou numa grande montanha e encheu a terra inteira deu, em Portugal, origem ao «Quinto Império» e á Fifth Monarchy entre os metodistas da Inglaterra.

Eis o comentário de António Vieira: «Aquela pedra (...) que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e Quinto Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de conquistado ou destruído, como sucedeu (...) aos demais.»

O mesmo Padre António Vieira, na sua «História do futuro» fala do Quinto Império dizendo que este seria o Reino consumado de Cristo na Terra, um reino universal, com todas as raças e todas as culturas, um reino cristão e católico que havia de rematar a conversão dos hereges, maometanos, pagãos e judeus. (...) Um reino regido por Cristo mas não directamente: o governo espiritual seria exercido pelo Papa em Roma e o governo temporal por um rei português.

Convenhamos que, embora não achemos um «rei» português, ou um Presidente da República Portuguesa, menos capaz que qualquer outro rei para governar o mundo, me parece, apesar disso, uma grande peneirisse, e talvez uma notável falta de sentido das realidades andar por aí a proclamá-lo como verdade absoluta a esperar, com...esperança. E é este o famoso Quinto Império.

Mas, e para terminar, eis a base do mito que se fundamenta numa interpretação da Bíblia e que já foi objecto de centenas de interpretações neste campo. Bíblia – Daniel:

2.31: «Tu, ó Rei (Nabucodonosor), estavas vendo, e eis uma enorme estátua, que era grande e cujo esplendor era extraordinário, erguia-se na tua frente e sua aparência era atemorizante.

32:Quanto à estátua, sua cabeça era de ouro bom, seu peito e seus braços eram de prata, seu ventre e suas coxas eram de cobre,

33:suas pernas eram de ferro, seus pés eram parcialmente de ferro e parcialmente argila modelada.

34: Estavas olhando até que se cortou uma pedra, sem mãos, e ela golpeou a estátua nos seus pés de ferro e de argila modelada e os esmiuçou.

35:Nesta ocasião, o ferro, a argila modelada, o cobre, a prata e o ouro foram juntos esmiuçados e tornaram-se como a pragana da eira do verão, e o vento os levou embora, de modo que não se achou nenhum traço deles. E no que se refere á pedra que golpeou a estátua, tornou-se num grande monte e encheu a terra inteira. (...)

36:(...) e nós diremos a sua interpretação (...)

37: (...) tu mesmo (Nabucodonosor) és a cabeça de ouro.

39 E depois de ti surgirá outro reino inferior a ti; e outro reino, um terceiro, de cobre, que dominará sobre a terra inteira.

40:E no que se refere ao quarto reino, mostar-se-á forte como o ferro. Visto que o ferro esmiúça e tritura tudo o mais, assim, qual ferro que quebranta, esmiuçará e quebrantará todos estes.(...)

44: E nos dias daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos;

45 pois viste que se cortou do monte uma pedra, sem mãos, e que ela esmiuçou o ferro, o cobre, a argila modelada, a prata e o ouro. (...).

É só meter em Daniel (como o fez António Vieira) um Papa que já existia na altura e existe hoje e um Rei português que ainda existe.




domingo, 3 de maio de 2015

A maldição da idade e a sua evolução - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 268 de 3 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

A maldição da idade e a sua evolução


Hoje em dia vivemos - como sempre temos vivido só que com outras configurações - numa sociedade, por isso mesmo, hoje e sempre, paradoxal no plano das idades. Lembro-me dos tormentos passados para ver por exemplo um filme para maiores de 12 anos quando tinha 10/11 anos, da sensação de frustração ao ser barrado à entrada, de fazer esforços para revender o bilhete tornando-me candongueiro involuntário...enfim, eu queria ser mais crescido, ter mais idade, queria ver um dado filme (que na sua maior parte eram 150% mais inocentes do que os que se vêem hoje para idades menores ) ... mas enfim, isso passou e não estou aqui para saudosismos.

Ora quem me barrava a entrada para entrar no cinema, pedindo-me o B.I. eram pessoas com alguma idade já: eram todos senhores com alguma idade já que faziam de porteiros naquela velha esplanada de Cinema com bancadas em pedra para os pobrezinhos e com cadeiras e algumas mesas de metal para os «ricos» (ou menos pobres, simplesmente) que só funcionava nos 3/4 meses de Verão. No restante do ano era um outro cinema igualmente com os mesmos senhores a fazerem de porteiros e o mesmo drama dependente da maior ou menor atenção (ou disposição) dos «guardas» das idades.

Um destes senhores que referi em grupo acima, o meu certeiro barrador de entrada no cinema, nunca mais me esqueci dele, cheguei a ter-lhe raiva, daquela raiva que resulta da frustração de não poder ver uma caboiada ou mesmo o mais marcante filme de capa e espada do Conde de Monte Cristo e um outro qualquer da centena que o Jean Marais protagonizou.

Hoje encontro-o com alguma frequência e embora tenha mandado embora a raiva continuo a olhá-lo de soslaio apesar da sua seguramente já longa e respeitosa idade. Com os outros, lembro-me bem que era raro a barragem acontecer e por vezes tinha lugar porque estava alguém a supervisiona-los. Este sempre o achei impiedoso. Enfim, chegava a ir-me buscar no meio dos grupos por onde me enfiava para ser atendido por outro porteiro: o homem sumariamente topou-me para todas as vezes que eu ia ao cinema.  

Cresci  e embora não me fosse indiferente (não tinha família - irmã com idade sujeita à barragem porteiral) acabei por começar a achar normal ou rotineiro este tipo de selecção...breve, esqueci-me de que já fora daquela idade, que já fora barrado à entrada do cinema e até sentia algum prazer em exibir o BI quando solicitado. Puxava lesto da carteira «Ora toma!!» e depois ficava até ofendido pela dúvida...do ou dos velhos porteiros. Reparem que eu escrevi «velhos»...

Naquele tempo não se desrespeitavam as pessoas: eu ficava ressentido, achava talvez que aqueles outros «velhos» do cinema não sabiam ver as evidências mas tudo se passava nas calmas: aqueles velhos porteiros entre os 12 e os 15 / 16 anos meus receberam alguns murmúrios da minha revolta...nada mais. Aí quis ter mais de 17 anos...

Depois recomeçaram a sua função desagradável e dolorosa barrando-me a entrada nos filmes para maiores de 17 anos. Só aquele, este que encontro hoje ainda me persegue porque o encontro com uma frequência inusitada e por vezes imagino-o de farda e boné cinzentos, tipo marinha, a tentar agarrar-me um braço. Esta coisa de ter memória por vezes é inconveniente. 

Resumindo, até cerca dos 20 / 25 quis sempre ser mais velho...andar à frente do meu tempo de vida, não olhar para trás. Posteriormente, também e ao mesmo tempo quase, ser muito novo,com vinte ou vinte e cinco anos, em determinados empregos dava pouca credibilidade: o pessoal preferia alguém maduro, casado e com um rancho de filhos, com alguns salpicos de cabelo branco ou um apontar de calvície, mas nessa altura já era tarde para sentir essas exigências com alma: as minhas pretensões estavam já próximas da estabilização.

Estabilizei nas exigências por um período que situo talvez até aos 30/35 anos e comecei a não querer ser mais velho, ou melhor, deveria ter começado a não querer ser mais velho se a minha filosofia de vida não tivesse encontrado a grande desculpa (a mãe de todas as desculpas) de que ser maduro é bom, óptimo mesmo: o maduro é ponderado, é sabido ou julgam-no como tal.

Agora tenho por vezes a glória das glórias da maturidade: de quando em vez pedem-lhe conselhos (que normalmente pouca gente ou ninguém segue) mas neste caso o gesto (o pedido) acaba por ser tudo.

Breve, estou satisfeito e as potenciais pressões sofridas durante anos entram-me por um ouvido e saem pelo outro...desconto dado ao rebobinado incómodo que sinto quando vejo o tal ex-porteiro do cinema... 





RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES: Por Arlete Piedade Louro


RECORDANDO "AS MÃES DA MINHA VIDA", NESTE DIA DAS MÃES:

Por Arlete Piedade Louro

Há anos fui convidada a escrever um texto sobre o Dia da Mãe, que se comemorará no próximo domingo, dia 3 de Maio em Portugal e que será dirigido a leitores de Portugal, do Brasil e outros países pelo mundo. Deparo-me portanto, com múltiplas escolhas sobre o que escrever e a quem dedicar a minha prosa. Geralmente escrevemos nestes dias, sobre a nossa mãe e também se diz que Mãe há só uma!

Sim, cada um tem a sua mãe, que também foram filhas e tiveram a sua mãe, que foi a nossa avó. Das avós também se diz que são mães duas vezes. Mães dos seus filhos e dos filhos dos seus filhos. Depois temos as nossas sogras, as mães dos nossos cônjuges, aquelas que geralmente têm má fama, mas que muitas vezes é imerecida, pois acabam por ser também mães duas vezes. Mães dos seus filhos ou filhas e mães das pessoas que foram escolhidas para parceiros de vida, através do casamento - ou não - dos seus filhos (as).

As nossas sogras além de serem também um pouco nossas mães, por sermos casadas com seus filhos, são também as outras avós dos nossos filhos, que seguindo o mesmo raciocínio, são mães a dobrar dos nossos filhos, que amamos tanto.

Então segue-se que temos não só as nossas mães, como também as nossas avós e ainda as nossas sogras, todas elas com o papel de nossas mães.
Depois - e aqui falo de outros casos que não o meu - temos as mães adotivas, as mães de acolhimento, as mães afetivas, as mães de criação, as madrastas, enfim, mulheres que em alguma altura das nossas vidas, nos acolhem e nos dão a ternura e a educação que a mãe biológica, não pode dar, seja por morte, afastamento, falta de condições económicas, ou outros motivos.

Mas voltando ao meu caso, as mães da minha vida, com que intitulei esta crónica, terei que falar em primeiro lugar da minha mãe. Nasci numa pequena aldeia no interior centro de Portugal, em finais da década de 50 do século passado.

A vida era difícil, minha mãe vinha de uma família pobre, mas ainda hoje diz que nunca passou fome, ela e as suas quatro irmãs, apesar de no inverno não haver trabalho e viverem só das reservas que a terra dava e do crédito na mercearia. No verão ela e as suas irmãs trabalhavam no campo nos ranchos que vinha para a lezíria de Santarém, trabalhar para os grandes proprietários, nos trabalhos do campo sazonais, como a monda, a vindima, a apanha da azeitona e outros.

O meu avô, seu pai, era pedreiro mas naquela época, as casas eram construídas com adobes, blocos feitos com terra seca ao sol e que portanto só no verão era possível construir. Meu pai, também filho de uma família dedicada aos trabalhos no campo e a pequenos negócios, foi serrador na sua juventude.

Iam em ranchos, os homens para os pinhais da Beira Baixa, distantes mais de 100 a 200 kms, nas suas bicicletas a pedal, carregados com mantimentos, roupas e instrumentos de trabalho para ficarem fora de casa, dois a três meses, e lá ficavam cortando os pinheiros e outras árvores que serravam em tábuas, tudo á mão com trabalho manual, portanto, até poderem regressar a casa.

Era uma vida dura, o trabalho era muitas vezes feito debaixo de neve e chuva, e a comida era feita numa fogueira e mantida pendurada nas árvores em sacos, para não ser comida pelos animais e se manter por mais tempo. A única maneira de se aguentar, era o sal com que era acondicionada, nomeadamente a carne que levavam, para cozer e fazer a sopa com feijões ou grãos.

Um dia o meu pai teve uma zanga com os companheiros penso que devido a contas, e jurou que nunca mais iria serrar. Veio para casa, e foi tirar a carta de condução de motorista profissional, o que na década de cinquenta e nas aldeias, era um grande feito.

Portanto quando eu nasci, meu pai já trabalhava como motorista e minha mãe tomava conta das propriedades que cultivavam, além do trabalho da casa, de dar comida aos animais que tinham, e de ir lavar a roupa ao ribeiro, porque nem tanque tinha em casa e era hábito naquele tempo.

Era uma vida trabalhosa, mas feliz. Quando chegou a altura de eu ir para a escola primária, que era numa aldeia vizinha, sede da junta de freguesia, ia a pé com as outras crianças, através dos campos, cerca de três quilómetros, e além dos livros, levava o almoço que a minha mãe me mandava e comia frio.

Como eu era boa aluna e segundo as professoras era inteligente, foi recomendado aos meus pais, para me "colocaram a estudar". Meu pai nessa altura trabalhava numa cerâmica com um camião que ia levar materiais de construção para Lisboa, principalmente tijolos e já ganhava relativamente bem para a época. Foi portanto decidido que eu iria estudar para Alcanena, uma vila que ficava a cerca de 15 Kms, e que tinha uma escola preparatória.

Mas não era fácil. Eu tinha que ficar fora de casa todo o dia e só tinha onze anos. Saía de casa às 7 h da manhã e regressava às 20 h ou mais tarde. Levava mais uma vez o almoço numa lancheira, embrulhada em jornais, para manter o calor, mas quando chegava a hora do almoço, já estava frio.

Minha mãe ainda há dias me dizia que naquela época, levantava-se às 2 h da manhã para fazer o almoço para o meu pai levar para o trabalho, pois ele saía de casa de madrugada, a seguir levantava-se de novo às 6 h da manhã para me preparar para ir para a escola e quando regressava a casa de me ir acompanhar ao autocarro, eram horas de chamar a minha irmã mais nova, para ir para a escola primária a tal que era a 3 kms de casa, através dos campos, e para lhe fazer o almoço também para ela.

Mas chegou nova época, quando eu terminei os dois anos da escola preparatória e tive que enfrentar nova escolha para continuar os estudos. E essa escolha implicou uma mudança radical para a família, em especial a minha mãe, pois foi decidido que eu viria estudar para Santarém, a capital do distrito, onde havia o curso que eu devia seguir, ou seja o Curso Geral de Comércio.

Dada a distância, 30 kms, não era viável eu ir de autocarro e regressar a casa todos os dias. Não havia horários compatíveis e era muito cansativo para mim. Portanto a opção dos meus pais, foi a minha mãe mudar-se para Santarém connosco, eu e a minha irmã para continuarmos os estudos, enquanto meu pai permaneceu na aldeia sozinho, indo só ficar connosco á nova casa alugada na cidade, quando as viagens de trabalho lhe permitiam passar perto de Santarém e fazer uma paragem.

Meus pais venderam os animais - cabras, porcos, uma mula e a carroça que ela puxava - porque não havia quem tratasse deles, e sei como essa mudança foi dolorosa para eles. Especialmente para meu pai e também para minha mãe que estava habituada á vida da aldeia e a ter o seu marido com ela.

Mas havia épocas em que era necessária a sua presença na aldeia, para fazer certos trabalhos do campo - como a apanha da azeitona - e nessas ocasiões, vinha a mãe nº 2, a minha avó materna, para cozinhar e tomar conta de mim e da minha irmã.

Se era difícil para a minha mãe, para a minha avó, era mesmo um sacrifício, mas ela lá se aguentava, até que uma trombose a apanhou e teve que ficar acamada na sua casa na aldeia.

Novo sacrífico para a minha mãe, já que naqueles tempos, não se falava em por os pais em lares. Quando adoeciam ou ficavam velhos, os filhos revezavam-se á vez, para tomar conta deles, cuidando-os e providenciando o que fosse necessário mesmo com prejuízo da vida familiar.

Assim a minha mãe dividia os dias da semana com as outras três irmãs, que moravam junto á minha avó, sendo a minha mãe a única que morava mais longe, na cidade a trinta quilómetros, e dois a três dias, de duas em duas semanas, ia para casa da mãe, para cuidar das suas necessidades mais básicas, já que estava paralisada na cama, até que ela faleceu.

Eu e a minha irmã, ficávamos sozinhas em casa. No entanto foi a minha irmã a que mais sofreu, pois eu entretanto já tinha casado e ido para a minha casa. E em especial, o meu pai, que mais uma vez ficou sozinho e teve que fazer de pai e mãe, nesses dias de ausência da esposa.

Mas não vou contar toda a vida da minha mãe e os sacrifícios que passou pelas filhas e a família, porque também quero falar um pouco da outra mãe da minha vida, já falecida: a minha sogra.

Contrariamente ao habitual quando se fala de sogras, a minha foi sempre como uma mãe para mim. Acolheu-me na sua casa e na sua família, desde o primeiro momento em que eu apareci como namorada do seu filho, com os meus 19 anos.

Tive desde o primeiro momento, um grande carinho e admiração por essa mulher franzina, sofrendo desde sempre com graves problemas de reumatismo, que se viu viúva quando tinha cerca de quarenta anos, com sete filhos para criar, o mais velho dos quais tinha 18 anos e mais pequena, era ainda bebé.

Nessa altura, eram colonos em Moçambique, ao abrigo dum programa do governo daquela época, que cedia as terras para cultivar às pessoas pobres que quisessem ir para lá.

Como é óbvio só conheço essa história por me ser contada pela família, porque só os conheci mais tarde, mas ao regressar ao continente, com os sete filhos, teve que recomeçar sozinha a vida desde o zero. Trabalhando no campo com os filhos mais velhos, enquanto os do meio, tomavam conta dos mais pequenos, com uma casa que foi sendo construída por eles e que inicialmente, só tinha quatro paredes e um telhado, com piso térreo, num terreno alugado, conseguiu unir a família em torno de si, e todos conseguiram bons trabalhos e boas casas, e uma vida digna.

Era verdadeiramente a matriarca da família, em torno da qual tudo girava e todos se uniam, e agora que se foi, com noventa anos, o seu espírito e os seus ensinamentos e exemplos de vida continuam vivos na família.

Da minha avó paterna, guardo também carinhosamente boas recordações, mas ela faleceu quando eu tinha quinze anos e portanto só a recordo quando eu era criança e ia á noite a sua casa, com o meu pai, e estavam a jantar á luz da candeia. Geralmente eram batatas cozidas com bacalhau, pelo menos é o que recordo e sempre me convidavam para comer com eles.
Muitas vezes era apenas um pouco de pão molhado no molho do bom azeite das suas oliveiras, que ainda estão lá dando os seus frutos, mas que me sabia muito bem.

Quem teve paciência para ler até aqui, eu agradeço por poder partilhar algumas recordações das mães da minha vida, e dedico em especial á minha mãe, única que ainda se mantém viva a meu lado, esta crónica, neste Dia das Mães.

Arlete Piedade Louro

Crónica publicada no meu livro ERA NO TEMPO DE...CRÓNICAS DE OUTRAS ÉPOCAS






ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco Colaço Guerreiro


DEPOIS DA CEIFA


ABRE-TE CAMPA SAGRADA - Por José Francisco  Colaço Guerreiro


O estio tinha vindo  temporão  e os trigais aloiraram mais cedo. No ar, o cheiro dos pastos  e das  searas maduras começou a sentir-se , quase um mês antes da época devida,  quando a meio da tarde se  levantava a maré e os ventos  passavam  perfumados pelos aromas  dos campos a ressequir.

Pelos cheiros e pelas vistas, os almocreves  pressentiam o aproximar do tempo das ceifas . Olhavam os céus , miravam o horizonte e  ao por do sol , tiravam sinais. Todos os dias, entravam nas semeadas e  apanhavam uma espiga ao acaso para esbrugarem na palma da mão.  Depois sopravam  deixando  ficar só o grão e  assim  já sabiam a grada da semente, calculavam as fundalhas  , avaliavam  a oportunidade do inicio das colheitas e disso tudo,   davam  conta aos patrões.

Não tardaria a haver trabalho, durante quase dois meses, para aqueles que nas empreitadas ou à jorna, tivessem  forças para aguentar  o manusear da foice e as farpas do sol  cravadas nas costas, todo o santo dia.

Os seareiros, as mulheres e os mais idosos ficavam sempre pela aldeia, resignados às pagas fracas dos lavradores dali .

Os mais vigorosos, abalavam estrada fora, manta às costas, balsa ao ombro, direito às terras dos barros onde os suplícios do corpo podiam ter  melhor preço. Despediam-se da família como se fora para sempre, sem dia de regresso marcado, sem contactos possíveis para além de uma notícia ou outra, levada ou trazida por um portador de acaso.

Na véspera da abalada, o Florival, um cantarrista afamado, bebeu e abalou  a moda toda a tarde e noite dentro, na venda do Encarnadinho. Doía-lhe a alma por ter de  deixar a mãe velhota sem o seu amparo, sem ter quem lhe carregasse uma quarta de água, sem ter sequer quem lhe migasse as sopas. Ficava sozinha,   entregue à boa vontade das vizinhas que por ela olhariam como pudessem .

Mas os fiados que tinha eram muitos, à conta das sacas de farinha, do azeite e do petróleo, dos copinhos e das onças de tabaco, consumidos durante meses  a fio, sem ter como os pagar.

E numa madrugada lá foi ele, mais meia dúzia , cantando a moda,  rumo a norte, por caminhos sem nome, sem destino certo. A tristeza fazia-os cantar mais do que as alegrias. Sempre fora assim.

Passado mais de  um  mês de tormentas em mares de trigais e cevadas, naufragado em ondas de calor, com as roupas retesadas pelo suor destilado  nas fornalhas do trabalho, o Florival com mais meia dúzia de ganhões, estavam de volta a casa  . Vinham cantando do rijo,   ele agora satisfeito pelo regresso e  por poder pagar as dívidas com o  que   trazia  na algibeira da  garibalda,  apertada com a  pregadeira que lhe tinha tirado os  bicos dos mil cardos espetados nas mãos ao agarrar o pão para o traçar com a foice.

Mas  mal chegaram aos arrabaldes  da aldeia, a sua voz foi notada e toda a gente estremeceu. As mulheres saíram dos postigos e  vieram para a rua de mãos na cabeça. Na venda, os homens calaram a moda e  juntaram-se em magotes  cá fora.

Dois deles, mais afoitos ou com melhor perna, caminharam ao  encontro dos cantadores  ,  a passos largos, para lhes darem a conhecer a novidade.

O ar grave que levavam , antes que falassem, já tinha revelado que se tratava de uma má nova. Depois dos cumprimentos breves , um ,  disse que a mãe do Florival  tinha morrido e o outro completou a noticia, dizendo que ela se tinha afogado no poço da horta, havia três dias.

O  ganhão, varado pela dor,  sentou-se  numa rocha à beira do caminho e lá quis ficar só.

Mais tarde,   ergueu-se e lançando o olhar em direção ao cemitério da aldeia, como que retomando a moda interrompida  ou como que rezando a seu jeito,  cantou baixinho:

“Abre-te oh  campa sagrada

Que a minha mãe quero ver

Quero-lhe beijar o rosto

Antes de a terra o comer”


(Texto escrito para o ultimo CD do Vitorino e Janita Salomé )





sexta-feira, 1 de maio de 2015

As Jóias da terra - Texto de José Francisco Colaço Guerreiro


As Jóias da terra

Texto de José Francisco Colaço Guerreiro

 
As jóias da terra são os recantos onde os meninos brincam agachados, empurrando carrinhos, imaginando estradas infindas, seguindo com o olhar uma folha levada num regato como se fora uma embarcação num rio caudaloso. São as esquinas, as calçadas que se pisam amiúde e já se lhes adivinha os rebaixos e os encalhos, são os poiais que diariamente se sobem e no verão servem de assento para se apanhar o fresco depois da ceia enquanto se cavaqueia e o calor do dia se vai despegando do corpo.

 São as ruas, feitas de mil passos, das gentes que nelas andaram percorrendo a vida, andares todos diferentes que gravamos na retina e depois mais tarde, continuamos a visualizar em cenários de saudade. Ruas caiadas, de barrinhas feitas com craveiro á porta que o povo baptizava com nomes seus, por motivos relevantes, mas que as placas toponímicas chamam agora com a graça deste ou daquele que nunca sequer as pisou mas por ser de fora, por ser figura nacional, passou a ser a nossa direcção.

 Jóias da terra são os jardins onde as pessoas descansam e convivem , onde se sentem bem como em casa e por isso fazem entrar nos seus hábitos de lazer. São os largos, cheios de abraços, cumprimentos, falas e afectos, onde se faz uma pausa, se pousa o saco das compras, se dão e recebem novidades. Onde se espraia o sentimento de estarmos num lugar nosso e por isso nos demoramos sem cuidados.

 São as vendas e as mercearias, onde se compram só as precisões e ao balcão também se despacham palavras de amizade, embrulhadas em gestos carinhosos de um sentir verdadeiro, se necessário solidário, desprendido da ganância pura dos neons onde não se vende fiado.

 Jóias da terra são as rádios locais que manhã cedo nos acordam falando do que temos e daquilo que nos falta, seguem dia fora tocando as músicas de cá, afugentando tanta solidão, dando tanta companhia, e até à deita, persistem elogiando os nossos valores, enaltecendo as nossas obras, fazendo eco dos nossos sonhos.

 São os clubes e as associações, as comissões de festas, que engendram maneiras de ocupar, dinamizar, recrear e valorizar as gentes, envolvendo-as, responsabilizando-as, fazendo delas artífices do seu bem estar e não meros consumidores da animação.

 Jóias da terra são os poetas populares, os artesãos, os tocadores e os cantadores que ainda inventam brio nesta vida cinzenta para continuarem a levar por diante os testemunhos da tradição.

 Gente sem pelouros nem obrigações mas que não regateiam tempo do seu tempo para dar e dedicar às coisas que outros pensam ser já de outro tempo.

 Lembramo-nos do Antero que em Amoreiras Gare estrebucha por paixão à terra. Não tem horário nem mau jeito, nem há contrariedade que lhe trave o passo na sua caminhada para fazer valer os trunfos da cultura. Por devoção, todos os dias acende a vela da esperança de ver melhorar o pensamento que agora nos arreda daquilo que é nosso, das nossas raízes e dos nossos costumes.

 Pacientemente insiste em não se deixar ofuscar pela modernidade reinante que do passado pretende fazer terra queimada e acredita também que num futuro, não importa quando, os valores culturais locais possam vir a ser uma jóia comum e os nossos meninos já com os olhos despregados da televisão, possam imaginar grandes veleiros ao ver passar uma folha arrastada num regato.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

NOMES... - Por Miriam de Sales Oliveira


NOMES...

Por Miriam de Sales Oliveira

“Cada homem tem um nome
Dado a ele por  Deus
E dado a ele por seu pai e sua mãe”

Assim começa um belo poema israelita que descobri há  poucos dias.Verdade,nomear alguém é a primeira coisa que se cuida.Muitos nomes são escolhidos antes das crianças nascerem e podem ser para homenagear alguém ,um ancestral ou um ídolo ou nomes bíblicos,e já conheci ou soube de  pessoas com nomes de remédio,como Renagel ou estrambóticos ,como Hiena ou inventados  mesclando os nomes do pai e da mãe.

O certo é que tendo recebido o nome  a gente tem  que cuidar dele.Só teremos um ,do nascimento á morte e temos que mantê-lo honrado e respeitado.Não podemos transformar nosso nome em palavrão.

“Cada homem tem um nome
Dado a ele por sua altura e pelo jeito de andar
E dado a ele pela roupa(...)”

São os apelidos carinhosos ou não,que acompanham ou substituem o nome,seja um local de nascimento (Irmã Dulce da Bahia) ou um diminutivo (Mirinha,Jorginho,Gigi  etc) ou uma qualidade,boa ou duvidosa (João Valentão,Fio Maravilha,João de Deus,João Dólar)...

E,como a humanidade é crítica e cruel  vale-se de uma deficiência física ou moral para humilhar o oitado: Baixinho, Feioso, Coxinho, Lourinho, Jamanta ...

A altura,a cor dos cabelos,o jeito de andar e a maneira de vestir fazem parte da personalidade do indivíduo, do seu todo e contam muito quem ele é,no que acredita e como pensa.Nós somos únicos; nem gêmeos  univitelinos  são totalmente iguais.Fisicamente até somos parecidos,mas,o jeito de ser é diferente.

“Cada homem  tem um nome
Dado a ele por seus pecados
E dado a ele pelos seus anseios “

Nossos sonhos e desejos somos nós;nossas expectativas,nossas esperanças nossa régua e nosso compasso, somos nós.Nossa compreensão,nossa bondade,nosso discernimento,nossas crenças e nossas obras, nosso crescimento social.

Nossos pecados, também,assumidos ,conhecidos ou ignorados são nossos:a inveja, a maldade, a destruição,a dor que causamos,o desrespeito e seu filho mais violento,o preconceito e sua irmã,a intolerância,também,são nossos.Fazem parte do nosso caráter ou provam a falta dele.E, a nossa consciência se ressente.Se não estamos bem conosco não estaremos bem com o mundo.Pois a consciência nada mais é que a voz de Deus sussurrando nos nossos ouvidos.

“Cada homem tem um nome
Dado a ele pelo mar
E dado a ele por sua morte.”

Poema de Zelda Schneersohn – Mishkovsky

O belo poema da Zelda que descobri através do livro de Amós Oz “O Judeu e as Palavras”,em parceria com sua filha, Fania Oz Salzberger,  fala da vida e da morte. E estabelece que o modo que nos portamos na vida determina como seremos lembrados após a morte.

Como as pessoas tendem a lembrar  o lado pior sempre seremos mais lembrados pelas maldades cometidas do que pelo bem que espalharmos.Apesar de nos sepulcros só serem gravados elogios.

E ai me vem a reflexão: se tudo acaba,se a morte é democrática e dela ninguém escapa,nem o rei,nem o bispo nem o Papa e, se do mundo nada levamos,porque conspurcar nossa breve passagem por aqui, roubando, matando, prejudicando, corrompendo ou se permitindo ser corrompido,invejando,destruindo, prejudicando alguém se é assim que um dia seremos lembrados?

Eu sempre pensei que estamos aqui em viagem de turismo voltado para a aprendizagem e aprimoramento espiritual. O que significa os anos que passamos neste vale de lágrimas diante da Eternidade? Para que acumular coisas que não levaremos, dinheiro que não gastaremos, roupas que não usaremos mais?

Sugiro acumular bondades e sabedoria.

É por elas que deveríamos ser lembrados.