Mostrar mensagens com a etiqueta Texto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Texto. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de junho de 2015

A porta de vidro - Crónica de Abilio Pacheco


A porta de vidro

Crónica de
Abilio Pacheco
 
Semana passada, fui ao chaveiro tirar cópias de umas chaves. O molho tinha três chaves. Segurei duas delas e disse que gostaria de uma cópia de cada. Era uma senhora. Ela recolheu das minhas mãos, sumiu e depois voltou segurando a que não era para copiar e disse: duas cópias, certo? Não, senhora – respondi – uma de cada das outras duas. Ela revirou o chaveiro e fez cara de quem entendeu mas não gostou.

Colocou uma das chaves num suporte. Depois tirou e disse: É de uma porta de vidro. Como não disse nada, ela insistiu: Não é de uma porta de vidro!? Eu lhe disse que não. Ela puxou um huuummmm prolongado. Meditou e quis saber de onde era a chave. Disse-lhe que era da porta do apartamento. De vidro? Não, senhora. De madeira. Aprumou matriz e chave lisa no esmeril, resmungou: porta de vidro. Enquanto tirava a cópia da outra chave, dizia: De vidro. É de uma porta de vidro.

Aparou arestas das duas chaves e voltou-se para mim segurando a chave como brandindo: Esta chave é de uma porta de vidro! Convenci-me que não adiantaria discutir. Em qualquer outra situação, eu iria insistir que estava certo, mas havia rodado mais de 170 km (Capanema-Belém), eram quase 16h e tinha alguma fome. Além do mais, não me parecia haver motivo para insistir. Resolvi não teimar. Conforme ela me estendia a chave, eu confirmava que era. Era de uma porta de vidro. Eu pegaria as chaves, pagaria pela cópia e iria para casa.

Ela puxou de uma vez: Afinal, o senhor não disse que a porta era de madeira!? A mulher me desmontou de vez. Não quisera teimar, mas tergiversar parece que não fora a melhor opção. Estiquei um ééééé… Ela inclinou o rosto para um lado como quem dissesse ‘tô te vendo!’. Respirei calmo e disse, procurando um caminho no meio daquela armadilha. Senhora, a chave (hum!!) é de uma porta de vidro (ãh), mas a minha porta é de madeira (ah!).

Ela parecia ter se desarmado e ia me entregando a chave quando recuou novamente e perguntou onde eu morava. Cruzando minha resposta ela emendou a pergunta se eu estava indo para lá. Naturalmente, sim. Essa sua história está estranha, viu moço! Eu vou lá com o senhor. E foi. No caminho, resmungou outros problemas de clientes como eu. Aquilo não era somente uma cópia de chave errada. Seria caso de polícia. A chave era de uma porta de vidro. Conhecia bem aquelas chaves, seus formatos…

Chegamos à porta e lhe mostrei a madeira. Pegou a chave, ela mesma. Enfiou na fechadura e girou. Olhou-me aborrecida. Cobrou-me pelas cópias e pela visita. Paguei sem reclamar. Ela pegou o dinheiro, fez um rolinho e levantou alto como fosse uma vareta e vibrou o braço bradando. A chave é de uma porta de vidro. E ainda de costas reclamou: de vidro!

Belém/Capanema, 07 de fevereiro de 2013.

Abilio Pacheco

Professor universitário, escritor de prosa e verso, revisor de textos e organizador de antologias. Mestre em Letras (UFPA) e doutorando em Literatura (THL-UNICAMP). Três livros publicados. É membro correspondente da Academia de Letras do Sul e Sudeste Paraense (com sede em Marabá), Cônsul dos Poetas Del Mundo para o Estado do Pará, Embaixador da Paz pelo Cercle Universal des Ambassadeurs de la Pax (Genebra-Suiça) e faz parte da AVSPE.




segunda-feira, 22 de junho de 2015

Chama devoradora - John Steinbeck - Resenha crítica de Daniel Teixeira


Chama devoradora

John Steinbeck

Resenha crítica de Daniel Teixeira

Com este título, Chama devoradora, aparentemente da autoria da tradutora da Livros do Brasil - Lisboa, Virgínia Motta, em data incerta dos anos 60's, baseado no volume de Steinbeck de 1950 «Burning Bright», relemos recentemente mais uma obra deste nobelizado (1963) autor.

O título em português não é dos mais felizes, na nossa opinião, havendo algumas alternativas possíveis que correspondessem melhor quer a um sentimento literário menos catastrófico quer à própria temática do livro, mas por ora fiquemo-nos por aqui.

Na verdade há todo um conjunto de especificidades neste volume que é preciso desde logo referir, na medida em que se não trata directamente de romance (embora o seja no seu conjunto) mas sim de um conjunto de novelas entrelaçadas que se constituem num trama romanceado.

Mas ninguém melhor que o autor para nos explicar porque escreveu desta forma e não de uma outra:

«Decidi-me por este tipo literário por várias e diferentes razões. A leitura de peças teatrais parece-me difícil e o mesmo pensa muita gente. As peças que se dão à estampa são lidas exclusivamente pelas pessoas que se encontram ligadas ao teatro, pelos estudante ou estudiosos da arte dramática e por um grupo relativamente reduzido de leitores a quem o teatro fascina.

Daí a primeira razão da forma literária que adoptei: o desejo de produzir uma peça capaz de atrair um número substancial de leitores, uma vez que o livro é apresentado como um romance vulgar, ou seja, dentro de um género mais familiar ao grande público» (...)»

Quanto à segunda razão apresentada pelo escritor no seu prefácio iremos resumi-la desta forma: trata-se de fornecer de forma mais acessível um conjunto de informação ao actor, ao director, ao produtor e ainda ao leitor, em diversos aspectos, alargando o leque informativo sobre as personagens, coisa que uma peça de teatro escrita ou declamada não faz desde logo, no entender do autor, permitindo por isso uma liberdade interpretativa ao encenador, aos actores e ao público que pode não corresponder àquela intensidade ou forma que inicialmente era pretendida pelo autor.

Steinbeck divide esta peça novela em quatro actos, cada um deles passado em cenários diferentes, com as mesmas personagens base e um argumento que se entrelaça nos momentos relevantes de cada um dos anteriores.

Assim, o primeiro acto passa-se num circo, o segundo acto numa quinta, o terceiro que se prolonga pelo quarto acto entre o mar (um barco atracado num porto) e um nascimento.

Quem conhece Steinbeck sabe que este autor deu uma importância relevante à relação de família e ao relacionamento familiar e tanto neste romance como noutros a transmissão de sangue ou da continuidade afectiva e memorial está de alguma forma sempre presente: lembra-mo-nos de «A um Deus desconhecido» por exemplo (que curiosamente teve pouco sucesso quando da sua publicação primeira em 1933) ou mesmo «Ratos e Homens» que é considerada a sua obra prima ou ainda «As vinhas da Ira» (1939) entre outros.

Neste romance/peça de teatro o tema basilar trata de um indivíduo que tem um verdadeiro problema sobre a necessidade de deixar descendência, o que se torna de alguma forma obsessivo. Compreender Steinbeck e o tempo em que escreve é também ter a tentação de referir o chavão que se acopla normalmente ainda hoje ao povo americano em geral que é a busca de uma identidade comum americana (USA).

Nascido este país (conjunto de estados) de um caldo (nem, sempre ou poucas vezes misturado) de nacionalidades e culturas é bastante comum encontrarem-se ainda hoje as referências identitárias originais (irlandês, italiano, judeu, latino, polaco, etc.) dos emigrantes que inicialmente povoaram a América, mantendo-se algumas comunidades com muito poucas variantes inter - culturais e relativamente pequena fusão social e familiar efectiva.

Contudo este problema relatado por Steinbeck pode inicialmente ser encarado no plano exclusivamente pessoal. Joe Saul é casado em segundas núpcias com Mordeen dado o falecimento da sua primeira esposa, tem um amigo denominado no romance de Amigo Ed, e um jovem auxiliar de nome Vítor.

Independentemente do cenário desenvolvido por Steinbeck as posições hierárquicas dos personagens mantêm-se. No circo Vítor é companheiro de trapézio do mais experiente Joe Saul, na quinta é trabalhador sob as ordens de Joe Saul e no barco é o imediato de Joe Saul e no quarto acto, interligado com o terceiro, está ausente por razões que esclareceremos mais à frente.

Mordeen ama Joe Saul cuja ânsia por ter descendência se vê constantemente frustrada e o atormenta cada vez mais porque sem o saber Joe Saul é estéril. Sabendo da esterilidade dele e desejosa de fazer cumprir o desejo do companheiro, logo no primeiro acto, em conversa com Amigo Ed, sugere levemente a possibilidade de engravidar através de uma relação secreta com o jovem Vítor que a ama sem ser correspondido por Mordeen, relação essa que vem a acontecer.

No primeiro acto ficamos com a dúvida sobre se a infidelidade de Mordeen a Joe Saul terá uma componente exclusivamente altruísta, uma vez que Mordeen também deseja ser mãe, não de uma forma tão obsessiva, mas o resultado acabará por ser o mesmo na medida em que o seu relacionamento com Joe Saul melhorará de forma significativa no seu entender cumprido que seja este seu desejo de deixar o «seu sangue» perdurar.

Nos outros actos trata-se sobretudo da gravidez e da luta de Vítor perante Mordeen para que ela assuma que o futuro filho é dele e dela, situação esta que está presente nos três actos.

No último o Amigo Ed acaba por «resolver» a insistência de Vítor jogando-o ao mar e causando a sua morte, ficando desta forma o crime sem castigo, tentando assim poupar tanto Joe Saul como Mordeen.

A parte final trata do nascimento do bebé, já sabendo na altura, através de análises que fez, Joe Saul, que é estéril e que logo o filho que nasce da barriga de Mordeen não é seu.

Joe Saul acaba por aceitar a inevitabilidade, depois de uma luta de recusa consigo mesmo, e após o nascimento do bebé acaba a peça / romanceada com o seguinte trecho:

(...) «Mordeen, gosto da criança - a voz de Joe Saul ganhou volume e foi em tom vigoroso que reforçou a sua declaração - Mordeen, gosto do nosso filho - e erguendo a cabeça, exclamou triunfante - Mordeen, gosto do meu filho.»

Depois do que dissemos acima sobre as intenções de John Steinbeck quanto à forma do seu escrito parece-nos claro que, apesar de estar bem escrito e ter um enredo suspensivo constante entre actos, com os elementos dramáticos, desconhecimento da realidade dos factos da parte de Joe Saul  e posterior conhecimento, insistência e incerteza quanto ao resultado da pressão do verdadeiro pai da criança, desfecho relativamente inesperado pela acção de Amigo Ed e a atitude final de Joe Saul que, dito tudo isto, como romance este vale mais como peça de teatro.

Na verdade pensamos que só na declamação e na actuação as personagens podem ganhar verdadeira força e intensidade dramática e que as coreografias poderão de facto ajudar bastante uma história que não sendo de todo banal, está quanto a nós longe de se constituir como sendo interessante por si só na sua forma escrita.

Daniel Teixeira


 

Luís Forjaz Trigueiros - Aquelas mãos - Por Daniel Teixeira


Luís Forjaz Trigueiros

Aquelas mãos

Por Daniel Teixeira

Conforme fizemos referência no número anterior existem no livro de contos «Ainda há Estrelas no Céu» de Luís Forjaz Trigueiros dois contos que mereceram uma maior atenção da crítica e dos tradutores fazendo desses dois contos aqueles que maior relevo merecem ainda que, e conforme dissemos igualmente quando da análise do conto «Boa noite, Pai!» existam neste pequeno volume algumas outras estórias que consideramos de igual interesse desenvolver, o que faremos noutras oportunidades. Este volume tem oito contos.

Embora e citando a contracapa do volume vejamos que na altura o autor foi referenciado como tendo afinidades narrativas com Maupassant e K. Mansfield e em termos de análise ou ambiência psicológica ele seja situado nesta introdução com Mauriac, certo nos parece ser que existe nele também influência do psicologismo russo e em análise mais detalhada talvez com Camus ou mesmo Gogol.

Na verdade as personagens deste autor são na sua larga parte elementos de uma pequena e média burguesia rotineira, que não vivem o seu tempo mas que antes o deixam passar por elas, desprovidas de objectivos substanciais, desligadas da alegria de viver, fazendo em certo sentido lembrar o Mersault de Camus no romance o Estrangeiro (não na Morte Feliz) ou mesmo na «Peste».

Por seu lado a falta de objectivos definidos na vida dos seus personagens principais fá-los viver num universo estreito: uma grande farra de aniversário é uma noite no Parque Mayer, por exemplo, a ver uma Revista... enfim, são personagens que se não encontram no tempo em que vivem (as notícias da guerra, neste conto que resumimos e procuramos analisar, de 1940, entram-lhe por um ouvido e saem-lhe pelo outro), é fundamentalmente uma desesperança de vida que neste conto encontra a sua alegria num facto sem importância que pode muito bem aceitar-se como a alegoria que é, mas que denuncia a pouca imaginação do personagem.

Bom narrador, Luís Forjaz Trigueiros, consegue uma narrativa inteligente e faz uma descrição tão detalhada quanto possível de um homem que pode considerar-se comum com ambições que vão um pouco além mas não passam do comum plano mental.

Farei algumas citações mais à frente mas noto antes que o autor procurou ele mesmo construir antecipadamente o ambiente que despoletaria o evento :na verdade por uma vez decide seguir um percurso diferente daquele que segue habitualmente de eléctrico e nele encontra duas mãos de uma jovem senhora que o cativam muito para além daquilo que seria normal.

Ora e retrocedendo um pouco na nossa análise não vemos porque razão ele não encontraria umas mãos que o cativassem numa das suas habituais viegens de casa para o emprego e deste para casa e porque as encontrou naquele dia e não num outro.

Claro que temos um alerta logo no início do conto onde ele repete para si mesmo aquilo que a sua mulher lhe diz ao que parece com alguma frequência : «Tu não me enganes! (...) Não arranjes outra.» o que pode funcionar nele como um desejo de ser tão normal quanto os outros seus colegas e amigos, mas não nos parece que o argumento tenha assim tanta força.

Na verdade «Aquelas mãos» apesar de poder considerar-se ser um conto bem escrito está fracamente alicerçado e menos alicerçado fica quando essa sua paixão por aquelas mãos em concreto se distribue na sua imaginação por várias mãos femininas. Contudo as mãos da sua mulher nunca são referidas nem positiva nem negativamente.

O problema maior que esta questão levanta é o seu convencimento de que comete infidelidade, convencimento esse que o leva a um alheamento familiar que depressa contagia os receios sempre infundados da mulher. Assim os condimentos da infidelidade conjugal reúnem-se entre os dois havendo da parte da sua mulher uma atitude de aceitação dos factos que não existem.

(...)« Foi nessa altura que comecei a olhar melhor para a rapariga que ia sentada mesmo defronte de mim. A falar a verdade, ela não tinha nada de extraordinário. Era bonita? Não me recordo bem. Creio, porém, que tinha uns olhos de tal maneira vagos que nem se cruzaram com os meus.Além disso, vestia sem espalhafato. Sem espalhafato e, com certeza, sem água de colónia absorvente da senhora do lado. Pintadinha, sim, mas com recato, sem exageros. Também não me lembro do vestido. Só me lembro- e isso muito bem - que tinha uma carteira castanha e que a segurava, com as maõs rosadas, sobre os joelhos. Mas eu olhei para as mãos da rapariga e não fui capaz de olhar para mais nada!»(...)

(...)«Até ao dia em que meti naquele eléctrico eu tinha uma cortina corrida entre mim e a vida. Tudo quanto eu via era visto apenas por detrás dessa cortina e, logo, correspondia a uma realidade incompleta.»(...)

(...)«Do meu lugar, (...) acompanhava fixamente com os olhos a vida das suas mãos. Já não eram indiferentes. Assim como eu tinha cordado para um mistério, elas tinham entrado também nesse mistério. E riam para mim, riam evidentemente, já sem conseguirem estar à vontade, persegidas pela consciência de que estavam a falar comigo uma linguagem própria, que os meus olhos talvez não vissem, mas escutavam.»(...)

(...)«Desta maneira, à medida que fitava as mãos da minha companheira de eléctrico, sem quer desviar delas esse olhar, instintivamente me lembrava da minha mulher e quase a ouvia numa reprimenda discreta e apagada como todos os seus gestos: "Firmino, não olhes para ela..." Ouvia-a falar-me assim, mas continuava a olhar. Afinal, pela primeira vez, estava a ser infiel à Lucília, infiel com frieza, conscientemente.E não tiva remorsos.»(...)

(...) « Mas assim que me levantei do meu lugar (...) chegara ao final do meu percurso (...) aquelas mãos recuperaram a sua tranquilidade, voltaram a cumprir o seu destino de existirem apenas. (...) As mãos daquel desconhecida, que eu não tornaria a ver, voltaram, de súbito, a ser silenciosas para mim.»(...)

O resto da estória já foi referida em grosso acima. Podemos sempre pensar e acreditar que se trata de ficção, claro que é, mas mesmo pela sua insignificãncia o episódio pretende descrever a eclosão de um sentimento até aí recalcado (e que continua recalcado) mas onde tudo funciona como a grande catarse desejada.

Chamamos no entanto a atenção para a imagem da cortina corrida (sobre uma vida) e o correr dessa cortina (sobre uma outra perspectiva de vida) e dizer, ironicamente, que cada um corre as cortinas que tem e as que pode ter. 


 

 

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

Um bombeiro à civil ia passeando

Um bombeiro à civil ia passeando, quando repara que do outro lado da rua, está um menino vestido de bombeiro, sentado em cima de um carrinho de bombeiros, puxado por um Cão e um Gato.
Só que enquanto o Cão tem a coleira ao pescoço, o Gato tem a coleira à volta dos testículos.

Intrigado com tal situação, aproximou-se da criança e começou a falar :

- Olá. Como te chamas?
- João.
- Olá João. Pelos vistos queres ser bombeiro?
- Pois quero.
- Sabes eu também sou bombeiro, só que não estou fardado. Foste tu que fizeste a roupa e o carrinho?
- Fui.

- Está muito bem feito. E como não tens motor, puseste o Cão e o Gato a puxar-te. Muito engenhoso sim senhor. Mas olha, se apertares a coleira do Gato no mesmo sitio onde apertaste a do Cão, vais muito mais depressa.

- Pois é, mas assim não tinha sirene.


Saía o advogado do escritório

Saía o advogado do escritório, no seu carro, quando encontrou a sua secretária, à chuva, na paragem do autocarro. Ele parou e perguntou:
– Quer uma boleia?
– Claro… – respondeu ela, entrando no carro.

Ao chegarem ao edifício onde ela mora, ele parou o carro e ela convidou-o para entrar.
– Não quer tomar um cafezinho, um whisky, ou outra coisa?
– Não, obrigado, tenho que ir para casa…
– Vá lá, o doutor foi tão gentil comigo. Suba um pouquinho…

Ele aceitou e subiu.
No apartamento, ele tomava o seu whisky quando ela foi ao quarto e voltou, em roupa interior e muito sensual.
Quem poderia aguentar? Ele não. Algumas horas de sexo depois, ele acabou por adormecer.

Por volta das 4 da madrugada, ele acordou e olhou para o relógio. Grande susto!..Pensou um pouco e disse:
– Empreste-me um pedaço de giz….
Colocou esse pedaço de giz atrás da orelha e foi para casa. Ao chegar, a mulher estava louca de raiva e ele começou a contar:

– Quando saí do trabalho dei boleia à minha secretária.
Depois de chegar a casa dela, ofereceu-me um whisky. Em seguida, foi para o quarto. Voltou para a sala com uma lingerie lindíssima e após vários copos acabámos na cama e fizemos amor. Adormeci e acordei agora há pouco…

A mulher gritou-lhe:
– Seu mentiroso! Desavergonhado! Estiveste no bar a jogar “snooker” com os teus amigos! Nem sabes mentir! Até esqueceste o giz aí atrás da orelha!!…


A professora do 6º ano

A professora do 6º ano perguntou para a sua turma:
- Qual é a parte do corpo humano que aumenta quase dez vezes seu tamanho quando é estimulada?

Ninguém respondeu, até que Natasha levantou-se furiosa e disse:
- Não devia fazer uma pergunta dessas para crianças do 6º ano! Pois eu vou contar aos meus pais e eles vão falar com o director e, este vai demiti-la, com base no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)!! E ainda vai chamar o Conselho Tutelar para te prender.

Para o espanto da Natasha, a professora não apenas a ignorou como fez a pergunta novamente:
- Qual é a parte do corpo que aumenta em dez vezes o seu tamanho quando é estimulada? Alguém sabe?

Finalmente, Rodrigo levantou-se, olhou em redor, e disse:
- A parte do corpo que aumenta dez vezes o seu tamanho quando é estimulada é a pupila.
A professora:
- Muito bem, Rodrigo!!!

Então, voltou-se para a Natasha e continuou:
- E quanto a si, “menina”, tenho três coisas para lhe dizer:
A primeira: é que tem uma mente muito suja para a sua idade.
A segunda: não leu a sua lição de casa: “Os sentidos”…
E a terceira: DEZ VEZES ??? (hahahahahaha)…Um dia a menina vai ficar muito, mas muuuuitooooooo decepcionada, sabia?


O dono de um circo colocou um anúncio

O dono de um circo colocou um anúncio procurando um domador de leão. Apareceram 2 pessoas: um senhor de boa aparência, aposentado, beirando 80 anos, e uma loura espetacular de 25 anos. O dono do circo fala com os 2 candidatos e diz:
- Eu vou directo ao assunto. O meu leão é extremamente feroz e matou os meus dois últimos domadores.
Ou vocês são realmente bons, ou não vão durar 1 minuto! Aqui está o
equipamento - banquinho, chicote e pistola. Quem quer entrar primeiro?

Diz a loura:
- Vou eu!
Ela ignora o banquinho, o chicote e a pistola e entra rapidamente na jaula. O leão ruge e começa a correr na direcção da loura. Quando falta um metro para ser alcançada, a loura abre o vestido e fica toda nua, mostrando todo o esplendor do seu corpo.

O leão pára como se tivesse sido fulminado por um raio! Ele deita-se na frente da loura e começa a lamber-lhe os pés! Pouco a pouco, vai subindo e lambe o corpo inteiro da loura durante longos minutos! O dono do circo, com o queixo caído até ao chão diz:
- Eu nunca vi nada assim na minha vida!

Vira-se para o velhinho e pergunta:
- Você consegue fazer a mesma coisa?
E o velhinho responde:
- Claro! É só tirar de lá o leão...


OPSSSSSSSsss

À porta do céu, um tipo furioso protestava perante o S. Pedro.
– Meu bom santo, o que fiz eu para estar aqui? Tenho 35 anos, estou em plena forma física, não bebo, não fumo, faço uma vida de acordo com as regras dos bons costumes, e agora estou aqui! Certamente houve um engano!

O S.Pedro responde:
– Bom, não é usual nós cometermos erros, mas enfim, vou verificar! Como te chamas?
– Vicente, João Diogo.
– Sim… Profissão?
– Mecânico!

– Ok, cá está a tua ficha. João Diogo Vicente, Mecânico! Tu morreste de velhice!

– De velhice ?! Mas não é possível, eu tenho somente 35 anos…

– Isso eu não sei, mas fazendo as contas a todas as horas de mão-de-obra que facturaste aos clientes, isso perfaz 123 anos!


Num voo internacional

Num voo internacional, como é habitual, o comandante do avião liga o microfone e fala aos passageiros:
- "Bom dia, senhores passageiros, neste exato momento estão a 9 mil metros de altitude, velocidade cruzeiro de 860 Km/hora e estamos a sobrevoar a cidade de...AAAAAAAHHHH.VALHA-ME DEUS."

Os passageiros ouvem um barulho infernal, seguido de um grito pavoroso:
- "NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!"
Depois de um silêncio sepulcral, volta a ligar o microfone e, timidamente, diz:

- "Peço imensa desculpa, mas esbarrei na bandeja e uma chávena de café caiu-me no colo. Imaginem lá como é que ficaram as minhas calças à frente!

"Prontamente, um dos passageiros gritou:

- "Filho da p…! Imagina lá como é que ficaram as minhas calças atrás!"


A entrevista da loira

Uma "loira"se candidata ao cargo de auxiliar de delegado:
O delegado pergunta na entrevista:
- Quanto é 1+1?
Onze, diz a loira.

E o delegado segue a entrevista...
- Quais são os 2 meses que começam com M?
Mês que vem e mês passado.
Irritado com o raciocínio da loira , o delegado lança um desafio:
- Quem matou Jhon Lennon ?
E a loira:
- Não sei!

Bom, vá pra casa e tente descobrir! - Diz o delegado.
Chegando em casa, a mãe da loira pergunta:
- Como foi lá na delegacia, minha filha?
A loira responde:

- A entrevista foi otima! Primeiro dia de trabalho e já estou investigando um homicídio!


Quinhentos euros mais o hotel...

Num restaurante, um homem janta só. Na mesa ao lado, uma jovem está também sozinha. A dado momento, ele levanta-se, inclina-se para ela e pede-lhe delicadamente:
- Dá-me licença que leve a mostarda?

- É lamentável o que me está a propor! - Grita a jovem. - O senhor não tem vergonha?
Todo o restaurante se vira para eles. O homem, vermelho como um tomate, balbucia:
- A senhora compreendeu mal. Eu apenas lhe pedi a mostarda...

- Nunca ouvi uma coisa como esta! O senhor é um ordinário!
O homem volta para o lugar, observado severamente por toda a gente. A mulher paga a sua despesa, vai à mesa dele e diz em voz baixa:

- O senhor desculpe a minha atitude. Tenho de lhe dar explicações. Sou socióloga e estou a preparar uma tese sobre as reações dos homens perante uma situação embaraçosa na presença de público. Eu fiz este teste e espero que não fique a pensar mal...

É a altura de o homem gritar:

- O quê? Quinhentos euros mais o hotel?! Você não vale tanto!


Um rapaz de visita a Paris

Um rapaz de visita a Paris comprou umas luvas para a namorada, mas a empregada enganou-se e ao embrulhá-las colocou lá umas cuecas.
A família da rapariga, ainda virgem, era muito conservadora! Imaginem a abertura da embalagem e a leitura da carta que o rapaz enviou...

"Querida, Sabendo que dia 14 é o dia dos namorados, resolvi mandar-te este presentinho.

Embora eu saiba que não costumas usar (pelo menos eu
nunca te vi com umas), acho que vais gostar da cor e do modelo, pois a empregada da loja experimentou, e pelo que vi, ficou óptima.

Apesar de um pouco largas na frente, ela disse que é melhor assim do que muito apertadas, pois a mão entra melhor e os dedos podem movimentar-se bem à vontade.

Depois de usá-las é bom virar do avesso e colocar um pouco de talco para evitar aquele odor desagradável.

Espero que gostes, pois vai cobrir aquilo que um dia te irei pedir, além de proteger o local em que colocarei aquilo que tanto sonhas.
Um beijo (no lugar onde irás usá-las).

PS: Não esperes pelo meu regresso para estreá-las. Quero que todos os meus amigos te vejam com elas. E depois esfrega na cara daquelas tuas amigas invejosas, pois eu nunca vi nenhuma delas com umas!




sábado, 6 de junho de 2015

Jornal Raizonline Nº 270 de 7 de Junho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O efeito borboleta


Jornal Raizonline Nº 270 de 7 de Junho de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O efeito borboleta


Daniel Teixeira

 
O efeito borboleta, por aquilo que sei, faz parte das teorias do caos, coisas para as quais nunca pendi muito em termos de pesquisa, embora tenha tropeçado em derivadas ou copiadas, várias vezes.

Por princípio o efeito borboleta é composto de uma série de eventos conjugados ou seguidos cronologicamente, intervindo num dado campo ou para um dado campo, levando à progressão aritmética e/ou geométrica do seu desenvolvimento com vista ou convergindo para um dado efeito.

Aqui há anos achei bastante piada (semi trágica, aliás) quando um responsável por uma Divisão de Obras Públicas do Estado, disse que a causa da queda de uma passadeira elevada sobre uma estrada, queda essa da qual resultaram alguns feridos e alguns carros esmagados, que essa tal de causa tinha sido uma borboleta que tinha batido as asas algures na Asia.

Isto é visto com sentido de gozo, porque pior que andar metido a debitar teorias é pensar-se que se as conhece. Pelos vistos o tal de engenheiro arranjou o argumento que só não foi mais gozado porque se tratava de uma questão séria, com gente ferida e bastantes danos materiais.

Pois, a surpresa veio depois : não é que foi feita inspecção, género necrópsia, à dita passadeira arruinada e não se chegou a qualquer conclusão sobre a causa do evento?

Enfim, não vamos aceitar agora a história da borboleta mas vamos dizer que talvez (maybe) as causas da queda da ponte apenas pudessem ser vistas antes dela cair, o que pode parecer absurdo, mas ao fim e ao cabo vai de encontro àquilo que se pretenderia, ou seja, evitar a sua queda. Por outras palavras aqui a própria queda da passadeira «apagou» as causas que originaram essa queda.

Simples...não há nada de sobrenatural aqui nem de borboletas de asear inoportuno.  As coisas, quando vistas numa perspectiva ou numa dada situação podem apresentar, e apresentam pelo menos parcelarmente, resultados diferentes.

Pois bem, eu já tinha quase jurado a mim mesmo que não falava mais na crise financeira mas não posso deixar de dizer que o que disse acima se aplica inteiramente às leituras que se fazem agora dos resultados dos inquéritos e dos julgamentos mais em voga sobre corrupção, fraude, lavagem de dinheiro, etc.

Na verdade, nestes campos atrás referidos, ainda não assisti a um único resultado de um inquérito que apontasse as causas ou as culpas de quem quer que seja sobre factos considerados pelo menos reprováveis.

A minha ideia é simples: tratando-se de dinheiro, seria lógico que uma contabilidade, ainda que ficcionada por normas unificadoras, desse para fazer o percurso inverso para se detectar o ponto crítico onde as coisas começaram a descambar, ou seja, onde a borboleta começou a bater as asas.

Mas não, em quase todos os casos - não quero generalizar - os factos reprovados ao serem realizados (quando o foram) não deixam traços que permitam a sua reconstrução para efeitos penais, pelo que, muito a contragosto, acabo por ter de acreditar na borboleta.




quinta-feira, 4 de junho de 2015

O fofoqueiro - Texto de Ivone Boechat


O fofoqueiro

Texto de Ivone Boechat

O fofoqueiro é um tecelão juramentado in delivery à procura de meias verdades ou mentiras escancaradas que possa sair anunciando por aí pra derrubar alguém. Fofoqueiro que se preze mesmo não gosta de ver nenhuma vítima de pé, fazendo sucesso.

O fofoqueiro é invejoso, mas tem outros antipredicados bem mais inexpressivos no currículo. Para cumprir a meta diária de fofoca, ele é capaz de fazer o sacrifício de parecer bonzinho. E há quem acredite e se dispõe a fazer um pacto de paz, até a decepção dar-lhe uma rasteira.

O fofoqueiro não tem pressa: fofoca hoje, fofoca amanhã, ele sabe que o importante é não perder a oportunidade. Assim sequestra a vítima com as redes da dúvida e a faz refém do disse me disse.

O fofoqueiro tem duas grandes vantagens a seu favor: a vítima não tem defesa porque ele se esconde e rói as cordas pelas costas, na penumbra. O fofoqueiro finge-se simpático, por isso é bem aceito por um bom tempo.

O fofoqueiro se faz de vítima, de ingênuo, vive travestido de coitado e consegue enganar porque é persistente: Água mole em pedra dura...

O fofoqueiro vive de plantão à procura das brechas e ninguém, como ele, sabe aproveitar as oportunidades para desestabilizar a vítima; é mascarado, logo, pode passar despercebido por algum tempo no meio das pessoas corretas.

O fofoqueiro não suporta as palavras união, paz, harmonia. Se pudesse riscaria do dicionário dos outros, porque no dele não existem. Ele não tem luz própria e usa óculos escuros para se proteger do brilho dos outros...

Toda família tem o fofoqueiro que merece. É nela que ele engorda e tem prestígio; alguns são promovidos a conselheiros; outros recebem o troféu da confiabilidade: conseguem enganar até que a verdade e a justiça cheguem de mãos dadas e acabem com a farra.

“Há alguns cujas palavras são como pontas de espada”...Pv 12:18


Ivone Boechat 




O GALOPE LENTO DO TEMPO - Texto de Daniel Teixeira


O GALOPE LENTO DO TEMPO

Texto de Daniel Teixeira

Para começar esta crónica é preciso dizer que é necessário ter vivido com burros para ter memórias sobre burros, como é lógico. Eu tenho-as e muitas e dado aquilo que hoje sei e que outros que conheço não sabem lamento que nem toda a gente tenha passado, pelo menos uma parte da sua vida, com burros, mesmo que de facto tenham passado tempo a viver com «outros» burros.

E é neste aspecto que a coisa se torna paradoxal. Existe alguma vergonha em confessar que se viveu com burros, por pouco tempo que tenha sido, porque existe uma descriminação ridícula, porque é apenas verbal e de uso, contra o nome desses pobres mas sempre aparentemente felizes animais.

De um lado são considerados pouco espertos, o que não é verdade; deve existir de facto dentro da sua mente (se é que pudemos falar assim) uma tranquilidade neuronal muito semelhante à paz que todo o ser humano desejaria ter e uma aceitação da inevitabilidade do seu destino que pode parecer depressiva mas que vive dentro deles de uma forma harmoniosa.
 
Realismo, puro e simples, é o que eu acho que é : nada de ambições para desfiladas incomportáveis nem para liberdades excessivas e uma fidelidade aos parceiros a toda a prova.

Uma vez pedi um burro emprestado ao meu primo que os tinha a pastar num restolho: o que ficou teve de ser segurado na estaca e mesmo assim coitado acabou por cair dado que estava peado: o outro levou-me onde quería, às Eiras Velhas, a nossa hortinha perto do ribeirão, mas mal me distraí saiu em desfilada. Ainda corri um bom bocado sobretudo para ver se ele se encaminhava directo para o ponto de partida e lá ia ele, galopando de regresso certeiro.

Levar os burros a espojar era um dos meus trabalhos preferidos. Arranjava-se um bocado de terreno relativamente limpo de pedras e ervas e eles acabavam sempre por perceber: rebolavam-se pelo chão, coçavam as costas, podiam levar dez minutos nisso, relinchavam com aquele som cavo a que se chama zurrar, sacudiam a terra do pelo como um cão molhado e eu acho que eles acabavam sorrindo por segundos para depois voltarem à sua condição de burros, baixando a cabeça e ficando ali, quietos, sem capacidade de se movimentarem sem que nós puxássemos por eles.

Quando comecei a ir a Alcaria Alta o meu avô já tinha passado definitivamente de cavalo para burro tanto no sentido financeiro como no sentido real. Uma viagem de retorno sem retorno à vista e assim o burro era para ele o animal do presente e o animal do futuro. Cuidava deles com cuidado embora não fosse preciso muito para os manter contentes e felizes.

Tinha dois porque para lavrar é normalmente necessário parelha, sobretudo quando se trata de burros. Lavrar com um só animal só com muares ou cavalos. Estes últimos não se «gastavam» nessa tarefa por principio, mas nem sempre eram eminentemente decorativos e as éguas iam ao cavalo o que era uma garantia relativa de gerarem cavalos.

Pode parecer absurdo e para mim foi durante muito tempo que uma égua tenha um filho burro, por exemplo, ou um muar, mas era assim mesmo. Os muares, híbridos, como se sabe, não geravam, mas tinham a vantagem de serem excelentes animais de trabalho. Uma burra podia ir igualmente ao totoloto cavalar e depois era só esperar o que saía dali. A força dos genes comandava tudo...mas o meu avô só tinha burros, mesmo burros no masculino, e serviam para o dia a dia, para lavrar e gradear.

Gradear era, para quem não sabe, tentar afastar do terreno de cultivo as pedras que durante o resto do ano «nasciam» por força das enxurradas; a terra ia com a água, as pedras ficavam. Trabalho sempre anualmente repetido e agora lembro-me de uma personagem que não me podia lembrar naquele tempo. Sísifo foi condenado pelos Deuses gregos a fazer subir uma rocha até ao topo de um monte e deixá-la depois escorregar e ir buscá-la de novo. Comparativamente era isso que o meu avô e os outros lavradores do Monte faziam. Todos os anos o mesmo, tiravam pedra e esta (outra) voltava no ano seguinte.

Quando apareceram as máquinas, os tractores que tinham alfaias para lavrar e para gradear só interessava e só era possível que eles trabalhassem em espaços grandes. O mini tractor ainda não existia e mesmo que existisse ninguém o compraria senão os lavradores e nem esses os compraram, é claro. Eram por princípio possuidores de muita terra, pouco dinheiro e mão de obra relativamente barata. Hoje já não há senão a muita terra e o pouco dinheiro.

As máquinas que havia eram compradas por profissionais com dinheiro liquido suficiente para investir, normalmente emigrantes, que se deslocavam de monte em monte à hora ou á tarefa. Quando da minha segunda volta pelo Monte, cinco, seis anos depois, havia já bastantes terrenos tratados por máquinas.

Estas, cegas como eram, na ceifa, deixavam muito grão nos solos o que fomentava a visita da passarada: as cotovias, com a sua pequena popa no alto da cabeça eram as mais abundantes. Pardais também havia, toutinegras que eram assim chamadas por terem uma mancha escura no peito branco e outros. Os pardais civilizaram-se muito rapidamente e começaram cedo a conviver com o monte, fazendo ninho no telhado da escola primária.

Esta, não sei exactamente em que data foi construída, acabou por funcionar muito pouco tempo: cedo deixou de haver crianças para irem à escola, os montes dos arredores deixaram também de fornecer criançada e voltou tudo à primeira forma, aquela que a minha mãe tinha conhecido 50 anos antes: ir à escola a Giões para o primário, fazer o secundário em Faro ou Vila Real de Santo António para os poucos que tiveram essa possibilidade, muito poucos mesmo.

Mas as minhas memórias sobre os burros estão muito acima destas questões que apelido de laterais e contêm todo um conjunto de recordações que me levam de monte em monte, de ribanceira em ribanceira, de ribeira a ribeira, de actividade de trabalho a actividade lúdica, atravessando transversalmente a minha vida.

Pode dizer-se que consegui uma parte razoável do meu conhecimento do mundo de burro e por isso lhes estou grato, muito grato mesmo. Em certo sentido posso dizer que muito do que sei do mundo e da natureza aprendi porque os burros me levaram lá, me mostraram tudo o que havia para ver e tudo o que lá havia para aprender. Com eles aprendi também que é possível ser-se feliz com muito pouco, por exemplo.

O burro é o animal quadrúpede agregado às actividades campesinas que maior confiança nos pode merecer. Não a merece toda, a confiança, mas merece muito mais confiança do que um nervoso cavalo, uma temperamental mula, ou mesmo uma chata vaca que embica os cornos na nossa direcção nas estreitas azinhagas, não para nos fazer forçosamente mal mas porque é larga e não nos deixa espaço de passagem nem consegue virar ou recuar (essa sim é mesmo burra, geneticamente, por destino, diga-se) deixando-nos como alternativa a nós, humanos ditos inteligentes, o recuo, a retirada, a vergonhosa fuga por vezes quando a proximidade é demasiado próxima e a idade curta.

Com um burro diz-se «Alto!» alto e com bom som e o animal estaca e ali fica, parado, compreensivamente imóvel, à espera que nós passemos. Mas os meus burros, os burros que conheci, tinham outras qualidades, arrisco mesmo dizer que tinham todas as qualidades exigíveis a um burro e mais algumas que seriam exigíveis a muitos bípedes.

Anunciavam a sua chegada ao monte através de um sonoro zurrar, conheciam os melhores caminhos como ninguém, graças aos arreios só tinham duas velocidades, a primeira e a segunda, facilitando assim a condução e podiam ser cavalgados em pelo, com albarda, com sela até mas mostrando nestes primeiro e último casos todo o seu respeito pela condição do seu montador apesar da ausência dos arreados travões traseiros.

Um burro deixa-se por aqui ou por ali e vai-se buscá-lo quando se precisa que ele está ali mesmo ou um pouco mais além quando algum cardo ou uma erva mais apetitosa o puxou para a desobediente deslocação de poucos metros.

Tenho inúmeras recordações de burros, de momentos em que aprendi algo com os burros, dos momentos em que os burros foram meus mestres. Contarei um dia, ou irei contando, mas devo confessar que quando me lembro disso, do quanto que aprendi com eles, que nessas alturas que não são muito raras, tenho sempre muita pena que nem todos tenham tido a possibilidade de ter burros como mestres. 

Talvez o mundo fosse melhor, quem sabe..?




Recordar é viver - por Tom Coelho


Recordar é viver

por Tom Coelho


“A vida é uma viagem a três estações:
ação, experiência e recordação.”

(Júlio Camargo)


Tenho por hábito reservar algumas horas nos últimos dias que antecedem minhas férias de final de ano para organizar papéis e arquivos diversos. São práticas triviais como descartar documentos cuja guarda é desnecessária, reunir materiais similares em pastas únicas, selecionar objetos que possam ser doados. É um procedimento que passa por gavetas, armários e até meu computador, e que embora pareça meramente operacional, reserva-me grandes surpresas...

Em uma pasta suspensa, por exemplo, deparei-me com uma grande quantidade de trabalhos escolares produzidos há cerca de uma década por meus filhos mais velhos, hoje com 18 e 16 anos. Um material singular que me conduziu a uma viagem no tempo, à época em que estavam sendo alfabetizados. Os primeiros traços e letras, os desenhos coloridos e pueris, os singelos presentes a mim ofertados em datas comemorativas.

Em outro momento, acesso um livro de ata utilizado para colher depoimentos de amigos que compareceram ao lançamento de meu livro “Sete Vidas”, há cinco anos. Palavras generosas como só os verdadeiros amigos sabem redigir. Envio um e-mail para um e telefono para outro, resgatando um pouco da relação distanciada pelo tempo e pelo espaço, porém não arrefecida em ternura.

Mas a grande viagem astral ficou marcada por um arquivo reunindo materiais de uma empresa que construí há exatos vinte anos. Anúncios em jornais e revistas, entrevistas publicadas em jornais, fotos de um tempo em que eu tinha menos barba e mais cabelo. Um jovem idealista, repleto de certezas equivocadas, que viria a se descobrir apenas uma década depois.

Entretanto, nenhum sentimento se compara à emoção de casualmente ter em minhas mãos uma caixa de sapatos contendo algumas dezenas de jogos de futebol de botão. Uma brincadeira que me acompanhou durante a infância, quando eu jogava, ora sozinho, literalmente narrando a partida, ora contra colegas com os quais promovíamos torneios. Contudo, a emoção não estava nos brinquedos, embora as lembranças fossem suficientes para fazer marejar os olhos, mas sim nas poucas palavras escritas na tampa da caixa para identificar seu conteúdo: a caligrafia era de minha falecida mãe.

Naquele momento, sentado com a caixa no colo, eu fitava o contorno daquelas letras e não podia conter as lágrimas. Quantas saudades! Como a perda de uma pessoa amada é dolorosa... Em verdade, é insuperável. Os anos passam e parece que aceitamos o fato, quando em verdade, apenas nos acostumamos e aprendemos a suportar e seguir em frente.

Nossas batalhas cotidianas são muitas e variadas, amplas e cada vez mais intensas. Nosso tempo é curto, embora a vida seja longa, mas o que realmente vale a pena é sutil, volátil e está ao nosso redor. Por isso, resgate seu passado para valorizar o tempo presente, e em lugar de presentes, ofereça sua presença aos seus amigos e familiares. Boas Festas!



* Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. E-mail: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.




quarta-feira, 3 de junho de 2015

O PRIMEIRO DIA - Crónica de Ilona Bastos


O PRIMEIRO DIA

 Crónica de Ilona Bastos


 Graça

 
Um mar de processos cobria as secretárias, donde emergiam, parecendo boiar à deriva, os monitores dos computadores e as cabeças dos funcionários.

Uma vaga de papel branco e cartolina azul suave galgara mesmo o parapeito da janela, através da qual se avistava a cidade, longínqua.

A senhora simpática, de cabelo curto e óculos, levantou-se e avançou, com deferência. Alheia aos sorrisos mal disfarçados dos colegas, guiou-a através do corredor, junto aos guichets, ultrapassou o guarda-vento, atravessou o hall de entrada, penetrou na zona reservada e, finalmente, deteve-se junto à porta de um gabinete, que abriu.

Com um baixar de cabeça agradeceu a delicadeza da senhora simpática, de cabelo curto e óculos, que se inclinava, numa vénia.

«Bem-vinda, Senhora Doutora! Este é o gabinete que lhe foi atribuído. Agora volto para a secretaria... Se desejar alguma coisa...»

«Obrigada. Se precisar, eu aviso.»

Em poucos segundos desvaneceu-se a imagem da funcionária e do corredor, apenas restando, em primeiro plano, a porta de madeira escura, fechada.

Voltando-se, deu alguns passos, progredindo em território estranho, excessivamente ocupado.

Sobre o chão frio, erguiam-se uma secretária, duas cadeiras, um pequeno armário rectangular, uma mesinha de apoio e inúmeras pilhas de processos com capa de cartolina azul celeste.

Também pelos móveis se apinhavam dossiers, livros, um telefone empoeirado e mais montanhas de processos.

Pairava sobre o relevo desordenado do aposento uma pesada camada de ar, que lhe pareceu irrespirável porque também ela impregnada de pó e, se possível, de papel, até ao tecto alto e sujo, até ao candeeiro frio, de lâmpadas fluorescentes, até às janelas subidas, de armazém, encostadas ao tecto, não deixando entrar a luz nem a brisa, mas tão somente a suspeita de uma humidade insidiosa e de uma chuva persistente...

Aproximando-se da cadeira da secretária, observou as paredes, recobertas de azulejos verdes e brancos, semelhantes aos das casas - de - banho. Estacando, de repente, escutou os ruídos exteriores e pressentiu (mais do que ouviu) o aclarar da garganta de um colega vizinho, o circular dos automóveis no alcatrão molhado e o tamborilar da chuva na calçada.

Na mesa de apoio, afastou uma resma de papel, unida em maços heterogéneos por um cordel branco. Pousou a pasta. Cuidadosamente, experimentou a cadeira, desconfiada da sua robustez, pendurou a bolsa no encosto, e sentou-se. Estendendo as mãos, pegou num processo, e noutro, e num terceiro, e nos que corriam a seus braços como crianças carentes. Soerguendo-se, colocou-os de lado, deixando à vista o tampo riscado e corroído da secretária.

Com súbito entusiasmo, rodou a cadeira, ávida da pasta e da caneta nela contida. Mas o choque com uma montanha de processos fê-los tombar, precipitando-os em estrondosa cascata que deslizou pelo chão.

Baixou-se para recolocar os processos na pilha, ao mesmo tempo que fazia balançar outros morros, de equilíbrio evidentemente instável, existentes sobre a secretária

Limpou, nas calças novas, propositadamente compradas para estrear nesse dia, as mãos já sujas de pó, levantou-se com vigor, deu dois passos e tropeçou, arrastando papel, cartolina e cordel branco pelos mosaicos pouco limpos do gabinete.

Confusamente, ouviu o telefone tocar. Com esforço, alcançou o auscultador, que aproximou do ouvido, bruscamente. Depressa, porém, a expressão do seu rosto se suavizou.

«Então, querida, está a correr tudo bem?»

Imprimiu à voz o máximo de optimismo que conseguiu reunir dentro de si:

«Ah, sim. Tudo bem!»

«E o pessoal?»

«Ah, fui muito bem recebida. Há uma funcionária especialmente amável, que se mostrou muito prestável e me trouxe ao gabinete...»

«Optimo! Viva o luxo!»

«é...»

«Tenho uma reunião agora. E depois outra, às cinco horas. Vais buscar a Clara?»

«Claro!!!»

Riu-se, aliviada com o eco de gargalhada vindo do outro lado do telefone. Era o seu (deles) trocadilho de serviço. Apto a aliviar todas as tensões (mesmo as não assumidas - especialmente as não assumidas).

«Então, até logo. E a continuação de um óptimo primeiro dia de trabalho!»

«Obrigada. Um dia feliz para ti, também. Beijos.»

Desligou, mais animada. Resolutamente, arregaçou as mangas. De olhar semi-cerrado calculou, em primeiro lugar, como arrumar os processos de forma a poder caminhar livremente pelo gabinete.

Recordou-se, com inveja, das amplas janelas da secretaria. Aí, pelo menos, os parapeitos constituíam excelentes prateleiras. No seu caso, nem dessa solução podia socorrer-se, encontrando-se, como se encontrava, num gabinete improvisado, que fora até há bem pouco tempo a sala das testemunhas.

E para quê janelas tão altas? - perguntou-se - Para as testemunhas não fugirem, aterrorizadas com as vestes negras e solenes dos magistrados, dos advogados e dos escrivães? Ou, antes, para não se escapulirem ardilosamente pela sanca exterior ao edifício e, em equilibrismos Hollywoodescos, caminharem até às vizinhas janelas da sala de audiências e, aí, através de leitura labial, tomarem conhecimento do depoimento das outras pessoas (testemunhas, peritos, partes), o que lhes era absolutamente vedado?

Metodicamente, começou a abraçar molhos de processos que carregava, toda curvada, até junto das paredes, agrupando-os, rente aos azulejos brancos e verdes, verticalmente, em torres e arranha-céus oscilantes. Os livros, alinhou-os ordenadamente em cima do armário.

Este sistema permitiu-lhe conquistar uma área considerável de território. Agora, sim, podia deslocar-se entre a secretária e as cadeiras, entre o armário e a porta e a mesa do telefone, com certa ligeireza de movimentos!

Pensou que um pano do pó e uma planta tornariam o ambiente mais agradável, e recordou-se da secretaria, onde havia luz com abundância e uma tal profusão de vasos com fetos, plantas da borracha e troncos da felicidade, que mais parecia uma estufa ou um parque tropical.

Considerou que as janelas também ajudavam - as plantas necessitam de luz e de ar - e lamentou que as suas fossem tão altas e inúteis.

Se as paredes não estivessem recobertas de azulejos poderia trazer uns quadros e decorar o gabinete. Sim, tinha lá em casa uma reprodução de um Renoir que trouxera da última viagem a Paris. Era magnífica, evidentemente... mas não lhe parecia que condissesse com os azulejos brancos e verdes!

Tomou, desta vez, a iniciativa de ligar o telefone.

Atendeu imediatamente a funcionária simpática, da secretaria

«Importa-se de cá chegar, se faz favor?»

«Com certeza, é só um momento.»

Meia - hora depois, quando, já impaciente, se preparava para tornar a telefonar, apareceu a escrivã, balbuciando da entrada:

«Peço desculpa, senhora doutora, mas estou sozinha na secretaria, apareceu um advogado para consultar um processo e tive de o procurar...

«Sim, tudo bem.»

Mudou de tom de voz, procurando ser imperativa:

«Diga-me uma coisa: para organizar melhor o trabalho quero que me indique quais destes processos aguardam despacho e quais são os que podem ser imediatamente arquivados na secretaria.»

A resposta foi imediata:

«Estão todos a aguardar despacho, senhora doutora.»

«Todos! Bom, então quero que me diga quais são os mais urgentes, para os classificar por ordem de prioridades.»

A informação não poderia ser mais precisa:

«Todos estes processos estão para despacho urgente, senhora doutora.»

«Mas os mais urgentes...»

«São todos muitíssimo urgentes!»

A funcionária simpática, de cabelo curto e óculos quedou-se junto à porta, semi-aberta, em que se apoiava. O seu rosto permanecia expectante, e mantinha-se impassível, como anteriormente. Não se vislumbrava, agora, a sombra de um sorriso. Mas também não se detectava ironia ou sarcasmo na sua atitude. Informara, simplesmente, como devia informar. Competentemente.

Por momentos, aquela figura esguia e impávida tornou-se desfocada, ténue, trémula, na visão da sua interlocutora, sentada na cadeira, do lado de cá da secretária.

Uma vertigem ensombrou-lhe o cenário de paredes de azulejo de casa - de - banho e processos, dezenas de processos, centenas de processos, às pilhas, em torres e arranha-céus, aos montes e vales, em planaltos que a cercavam, ameaçadores, de todos os lados.

Gradualmente, tudo escureceu, e assim se manteve por escassos segundos.

Depois, a paisagem foi-se recompondo, readquirindo cor, e o azul das capas de cartolina uma vez mais lhe recordou o mar, ondeante mas suave, quase tranquilo, a acariciar as margens esverdeadas, em cerâmica.

Quando voltou a observar a funcionária, já os seus contornos apareciam perfeitamente definidos, e as palavras, emanadas da sua boca, revelavam-se espantosamente claras:

«Se a senhora doutora o desejar, amanhã coloco-lhe sobre a secretária os processos para despacho de mero expediente, que são os mais rápidos», propôs. «Hoje não, que está na hora da saída. Mas amanhã a senhora doutora despacha uns dez processos. Depois de amanhã mais dez...»

«E os outros...»

A funcionária permitiu-se sorrir, com genuína simpatia.

«Os outros estão cá há muito! São decisões difíceis e resolvem-se com o tempo.»

«Sim...»

Sentia empatia no outro extremo do aposento, junto à entrada.

«Se a senhora doutora não precisar de mais nada, então, saio.»

«Obrigada, não preciso, não. Até amanhã.»

«Até amanhã, senhora doutora.»

Ao olhar para o relógio percebeu que estava na hora de, também ela, sair. Precisava de ir buscar a Clara, que acabava as aulas às seis e meia, nesse dia.

Apanhou a bolsa e a pasta, dirigiu-se à porta e, antes de apagar a luz, ainda lançou um olhar sobre o minúsculo gabinete que lhe fora atribuído. Sentia-se um pouco atordoada, mas recuperava com surpreendente rapidez.

Já no corredor, apercebeu-se de que, sem que o tivesse notado (provavelmente o caso dera-se quando, afanosamente, carregava processos de um lado para o outro do gabinete) haviam colocado uma placa na sua porta.

Um colega, que passava nesse momento, cumprimentou-a delicadamente, e do outro extremo, além guarda-vento, a funcionária simpática, levando no braço um enorme guarda-chuva vermelho, saudou-a com respeito e estima.

Ainda teve tempo de reler as palavras escritas na pequena placa de cobre, antes de alcançar o elevador:

«Juíza de Direito».

Ao impacto inicial, seguiu-se uma sensação estranha, indefinível: Seria orgulho? Felicidade? Medo? Horror?

Pelo espírito passou-lhe, fugaz, o traçado lúgubre das janelas estreitas, rentes ao tecto manchado de humidade, e visualizou os estranhos esforços de equilíbrio de um vulto absurdo que fugia pela sanca exterior do edifício...

Mas afastou o pensamento. Correu, sob a chuva forte, até ao automóvel. Abriu a porta, sentou-se, atirou a pasta e a bolsa para o banco traseiro, e apertou o cinto. Não importava mais nada, agora. Tinha de se apressar. A Clara estava à sua espera, sem guarda-chuva, e com a pesada mochila às costas, junto ao portão da escola.

Nessa noite, já estava combinado com o João, iriam todos, incluindo os pais e os irmãos, jantar fora, num restaurante de luxo, para festejar a sua promoção e o primeiro dia no exercício de funções.

Hip! Hip! Hurra!




terça-feira, 2 de junho de 2015

Os bolos da Dª Maria Teresa - Texto de Daniel Teixeira


Os bolos da Dª Maria Teresa

Texto de Daniel Teixeira


Por vezes fico com um ar de surpresa em relação a mim mesmo no que se refere a recordações e ao processo de selecção que a minha mente vai buscar como elemento que ela considera relevante e despoletador da recordação de um dado facto ou conjunto de factos.

Acho, usando um pouco do meu raciocínio (nada disto pretende ser  válido em termos científicos e nunca li isto em lado nenhum que me lembre) que a mente usa cábulas, daquelas que se usavam na escola (quem era cábula é claro) que dão início ao desenrolar consequente da mensagem arquivada na nossa mente.

Pois, (nunca cabulei, asseguro) há dias, estava eu em conversa com pessoas do meu bairro e veio à tona da conversa a Dª Maria Teresa. Fiquei surpreso, como já dei a entender acima, pelo que acho preocupante a rapidez da minha resposta no seu conteúdo: «Verdade, era uma excelente senhora...e sabia fazer bolos muito bem.»: acho que deveria ter  referido antes aquilo que mais choca nesta história, é que a Dª Maria Teresa morreu praticamente só e no anonimato mas lembrei-me desde logo que ela fazia muito bem bolos.

Fuga psicológica em frente, inserida na minha mente com o intuíto (se se pode dizer isto) de me poupar à memória imediata uma visão de uma situação pelo menos triste? Francamente acho que estas questões não têm mesmo resposta por mais que se analisem: são assim como mandamentos que surgem não se sabe como nem de onde vêm e no entanto deixam mossa psicológica depois de seguidos, mesmo que involuntariamente seguidos. Resta sempre o remorso para nos fazer à posteriori pensar naquilo que deveríamos ter pensado e não pensámos.

A D. Maria Teresa quase que terá nascido para a doçaria caseira e como tinha pouco ou quase nada que fazer dedicou-se a fundo sendo uma verdadeira e nossa muito solidária expert desde que começámos a conhecê-la: fomos vizinhos, casas lado a lado, e praticamente tinha uma fabricação continuada para consumo próprio e das amigas e vizinhas, o que muito nos alegrava, sobretudo a nós crianças e jovens.

Solteirona, coisa que não se dizia, em princípio deveria ser «Menina Maria Teresa» como é uso, mas foi nominalmente sempre «dona». A história tem aspectos bons e aspectos menos bons: ficou a cuidar da mãe, que enviuvou cedo e a Dona Maria Teresa também não deve ter feito grandes esforços para constituir família mesmo anos depois após o falecimento da mãe. Talvez considerasse que já era tarde, talvez estivesse solidificada na vida a sós, enfim...também ninguém é obrigado a casar e a constituir família.

Beata, tal como se dizia também, passava uma parte substancial do seu tempo na Igreja e em conversas com amigas igualmente «beatas»: um irmão dela, comerciante, apoiou-a sempre financeiramente e embora nunca me tenha preocupado em saber isso, o seu comércio teria sido familiar com o falecido pai, sendo o contributo dele também uma parte daquilo que supostamente seria também propriedade dela.

O irmão faleceu muitos anos depois, teria ela já cerca de 60 anos e a D. Maria Teresa ficou resumida em termos financeiros a uma reforma curta: os bolos começaram a rarear nessa altura.

O processo de queda financeira não acabou só com os bolos, praticamente acabou com tudo, acabou com ela também muito mais que o percurso normal da idade. Afundou-se, mais em termos anímicos do que em termos físicos...

Havia um sistema de comunicação entre as nossas casas: subir até à altura do muro de divisão nos quintais geminados e um outro composto de pancadas na parede, na zona da cozinha e no corredor, em que se procurava saber se ela estava bem ou não: se respondesse aos chamamentos ou ao sistema de toques nas paredes estava tudo certo, quando isso não acontecia tínhamos uma chave da casa dela: primeiro ia a minha mãe, nestes casos; a D. Maria Teresa era extremamente pudica e mesmo quando a encontrava caída sem se conseguir levantar e não tinha forças para o fazer, primeiro compunha-lhe a roupa e só depois vinha buscar ajuda.

Durou talvez cinco anos esta situação: depois acamou e foi para um lar. Fomos informados do seu falecimento por acaso, no dia em que lha íamos fazer a visita semanal já tinham passado vários dias...
 
 Daniel Teixeira




Lendas - O Caldeirão de Clyddno Eiddyn


Lendas

O Caldeirão de Clyddno Eiddyn

Merlin, foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Sua beleza seduzira, durante a juventude, às mulheres que se lhe serviram com ardor. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demônio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico.

Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur. No seu reino construído sobre os mistérios do mundo, assistiu a invasão dos saxões e, a chegada dos cristãos, que aos poucos, dominou toda a fé das ilhas britânicas.

Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.

Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da Terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte.

Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu em uma busca infindável por todas as terras das ilhas britânicas, numa saga incansável aos Treze Tesouros da Bretanha, dado pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos.

Ao reunir os treze objetos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objetos aos deuses, eles voltariam com vigor às ilhas e ao seu povo.

Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn.

O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.

Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada, que de dentro dele viria a poção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin em um carvalho, roubando-lhe tão precioso objeto.

A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as porções mágicas que aprendera com o mestre. Na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eterna, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.

Ao se libertar da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou tão poderoso talismã.

Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha. Merlin viu a suas tradições perdidas, os seus deuses extintos.




segunda-feira, 1 de junho de 2015

O ALBERTÃO, O FRANCISCÃO E O DOMINGÃO


O ALBERTÃO, O FRANCISCÃO E O DOMINGÃO

Conto Infanto / Juvenil por Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)


Encontrei estes três irmãos num dos meus passeios pela floresta africana. Quando me viram, ao contrário do que esperava, dirigiram-se a mim e olharam-me admirados, como que a dizer que o meu lugar não era ali.

Nunca tinha visto veados tão perto e foi uma sorte acontecer naquele dia, pois nos vastos passeios que dei pela floresta com esperança de encontrar estes animais de que tanto me falavam, apenas os tinha avistado a uma distância enorme.

- O que faz aqui uma avozinha solitária? - perguntou o primeiro.
- Gosto dos teus cabelos brancos! - exclamou o segundo.
- Vieste para nos conheceres? - perguntou o terceiro - Tem cuidado! Não devias andar por aqui sozinha.

Então eu disse:
- Em primeiro lugar, gostaria que me dissessem os vossos nomes, pois gosto de tratar os animais, assim como as pessoas, pelos nomes próprios.

- O meu nome é Albertão, este é o Franciscão e aquele o Domingão. - disse o primeiro.
- Muito bem! Têm nomes muito bonitos! Quem escolheu os vossos nomes?

- O meu nome foi escolhido pelo meu pai. Quando nasci era muito grande e o meu pai entendeu que, em vez de me pôr o nome de Alberto que tinha escolhido antes de eu nascer, chamar-me-ia Albertão.

- O meu nome é Franciscão. Foi o meu avô que escolheu. Apesar de eu ter nascido muito pequenino, ele entendeu que eu iria crescer muito e, por isso, achou que não deveria chamar-me Francisco, mas Franciscão.

- Eu sou o Domingão! Foi a minha mãe que escolheu. Como nasci num domingo de Céu azul e Sol radioso e ela achou que tinha sido o domingo mais belo de toda a sua vida, em vez de me chamar Domingo, chamou-me Domingão.

- Não há dúvida que, qualquer de vós é um exemplar imponente! - acrescentei.

Vou então falar-vos de mim:
Chamo-me Avómi, e quem me pôs o nome foi o meu neto, o Tiago que é um menino muito simpático. É pena que não o possa trazer aqui para vos apresentar, pois ele também gosta muito de animais e tenho a certeza que lhe agradaria conhecer-vos.

Tenho vindo aqui dezenas de vezes, sempre só, porque queria ver-vos de perto e falar convosco. Venho sempre só, porque aqueles que poderiam acompanhar-me não acreditam, quando lhes digo que me encontro com os animais e converso com eles. Dizem que sou maluquinha.

- Malucos são eles! - disse o Albertão, erguendo as hastes de que se orgulhava.
- Agradeço o apreço que demonstraste pelos meus cabelos brancos,
Franciscão. Não é vulgar gostar-se de cabelos brancos, sabes? Até há quem os pinte de castanho, de preto, de louro e de outras cores. - disse eu.
- Cada um usa como gosta, não é? - disse o Franciscão - Também há quem não goste das minhas hastes, mas eu gosto e ando sempre de cabeça bem levantada, para que se vejam bem.
- São lindas! - exclamei - Agora que as vi de perto, ainda gosto mais que antes.

Falta responder ao Domingão, o que passarei a fazer:
Agradeço o teu cuidado, Domingão! Tens razão, pois sou um bocado atrevida e desloco-me na floresta como se da minha casa se tratasse. Nunca penso no perigo que isso acarreta. Contudo, tenho tido muita sorte e todos os animais que tenho encontrado têm sido atenciosos e estimam-me bastante.

Há dias, quando vos procurava, dei comigo diante de um leão tão grande, tão grande, que pensei:
Desta vez acontecer-me-á como à Avozinha do "Capuchinho Vermelho". Mas não! O leão foi tão simpático que foi ele próprio a dizer-me que se quisesse encontrar-vos, teria que vir a esta hora.

Acreditei nele e aqui estou, muito contente por estar frente a frente com os veados mais elegantes e agradáveis que jamais tinha imaginado.

1991/10/06

Avómi

(Cremilde Vieira da Cruz)




domingo, 17 de maio de 2015

Jornal Raizonline Nº 269 de 18 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O Bullying


Jornal Raizonline Nº 269 de 18 de Maio de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira - O Bullying


Primeiro vamos à definição corrente de forma a evitar qualquer mal entendido naquilo que vou escrever neste texto:

«Bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão.»

Só por aqui temos logo matéria para desenvolver: tem de ser «agressão intencional - verbal ou física»; depois tem de ser, a (as) agressões «feitas de forma repetitiva».

O (ou os) actores agressores podem ser um ou mais que um. O (ou os) actores vítimas podem ser um ou mais que um.

O facto de aqui, nesta definição, aparecer o termo colega(s) não deve a meu ver ser levado muito em conta na medida em que uns e outros (agressores ou vítimas) podem não ser colegas.

Ora este tema tem andado infelizmente nas bocas de muita gente e a revolta, sobretudo nos casos em que as notícias difundem os factos, tem-se tornado generalizada.

Ora todos nós ou quase todos nós já andámos na escola, uns mais tempo que outros, e de uma forma geral toda a gente sabe que o bullying é uma prática com muitos anos de vida. Claro que tinha outros contornos, menos violentos, menos sádicos, menos organizados e sistematizados, mas era costume por exemplo o carolo (de punho fechado) na cabeça do caloiro (no meu tempo) e lembro-me de os mais imaginativos (ou mais sádicos) falarem em alfinetes para «picar o traseiro dos caloiros».

A diferença entre os meus tempos e os tempos de muita gente aparece agora como sendo abissal e quero crer que seja pelo menos possível que os processos se tenham desenvolvido progressivamente ao longo dos tempos.

De facto tenho dificuldade em aceitar que de um dia para o outro se passe do carolo na cabeça ao massacre sistematizado por chapada ou pontapé. Tudo se desenvolveu  no tempo e hoje, talvez porque as coisas, segundo o entendimento comum, passam excessivamente as marcas delimitadoras de alguma consciência desperta, o bullying é motivo de uma maior atenção, coisa que não foi sendo nos tempos que anteceram imediatamente estes que vivemos.

Há cerca de 15 anos, sensivelmente, estando eu indirectamente relacionado com uma escola de Faro e tendo os seus alunos (parte deles) feito uma visita de estudo a uma Escola de um outro Concelho verificaram-se durante a estadia destes alunos nesse estabelecimento de ensino cenas de violência bastante fortes que não foram notadas pelos professores acompanhantes nem pelos do próprio estabelecimento não - local.

Só se veio a saber dos factos porque eventualmente algum(a) aluno(a) se terá queixado ao então Conselho Directivo, que lamentou o acontecido e prometeu e terá tomado as providências que julgou úteis e necessárias. As cenas foram de uma extrema violência, desde pontapés na barriga das alunas a socos e  outro tipo de agressões igualmente violentas aos rapazes.Isto há 15 anos mais ou menos.

Ora a questão que se coloca dito isto é saber se as coisas vão continuar assim, ou se passada a relativa febre dos acontecimentos noticiados, alguém ou alguma entidade ou alguma instituição que tenha por função tratar destes assuntos começa a encarar este fenómeno com olhos de ver.

Normalmente a baixa escolaridade é considerada factor amputante das possibilidades de cada um singrar na vida mas começo a ter sérios receios que se comece a encarar as coisas de outra forma: quanto maior a escolaridade tanto pior.




Crónica por Martim Afonso Fernandes - O JOVEM VOADOR


Histórias da Vida Real

Crónica por Martim Afonso Fernandes

O JOVEM VOADOR

Ícaro Passos de Araújo, era o nome de um rapazola de mais ou menos seus treze anos. Gostava muito de aventuras e mais ainda de fazer diabruras.
Não perdia filmes que pudessem lhe sugerir algo de importante e curioso. Certa ocasião sonhou que estava a voar. E resolveu começar um projeto voador!

Em primeiro lugar saltou de cima de uma casa com um guarda-chuva aberto, que deu-lhe alguns segundos de prazer, deslocou-se uns cinqüenta metros, mas a armadura metálica do sombreiro não resistiu e virou ao contrário.

Depois, a continuar suas experiências, pegou um pato, ave caseira, e começou a jogar para cima e a observar os movimentos das asas. A abrir e a fechar.

Com uma cartolina, resolveu desenhar modelos de asas e passou para a construção. Preparou uma armação de bambu e cobriu-a com tecido. Colocou o aparato sobre suas costas e os braços dentro dos suportes para acionar os movimentos de bater as asas.

Chegou o dia do teste. Chamou os colegas para ajudá-lo a fixar aquela armação móvel, que estava bem comentada na cidade e na escola onde estudava. Sua residência situava-se numa rua de declive bem acentuado. Tudo pronto. O Icaro sonhador partiu para a realização de seu grande projeto.

Ao se projetar do telhado de sua casa, a euforia e os aplausos dos presentes foram grandes, mas duraram pouco tempo. Faltou energia para que seus braços pudessem deslocar o ar e galgar uma distância e uma altura para completar o percurso de seu desejo. Por proteção de anjos, não chegou a quebrar-se muito, sua aterrissagem fé-lo cair de pé e sair a rolar pelo mato rasteiro que por ali existia.

Ao completar maior idade, Ícaro foi prestar serviço militar na Força Aérea Brasileira, podendo assim realizar uma parte de seu sonho. Não voou com asas próprias, mas com asas metálicas, com aviões a propulsão, motorizados ou turbinados.

Este jovem passou para a história. Dava seus longos passos no ar, cortando os ares que na sua infância tanto sonhara atravessar. Mais uma vez o homem sonhou voar. E realizou seu grande sonho.

Seria seu nome e seus sobrenomes que o incentivaram a querer subir às alturas? Aqui no Brasil chamamos aos tripulantes de navios de marujos, por andarem no mar. E, para completar, não ficaria nada mal chamar de araújo a quem anda pelos ares.

Ícaro, após terminar seu tempo de prestação ao serviço militar, retornou à vida civil. Há muitos anos passados, reencontrei um amigo nosso de infância e ao perguntar-lhe sobre alguns companheiros de nosso tempo, lembramo-nos entre outros das diabruras que fazíamos e do rumo profissional que cada um tomou. O nome do rapazola que acabou voando veio-nos à mente. Daí o nosso papo:

-Que rumo tomou o Ícaro? Meu amigo respondeu:
-Aquele encapetado trabalha numa fábrica de industrialização de carne de siri para exportação, numa cidade vizinha daqui.

Aí interroguei meu colega:
-Ele formou-se em química?

-Não, disse meu colega. Hoje ele é operador de caldeira para geração de vapor do sistema industrial. E o mais engraçado é que foi usada uma locomotiva antiga a vapor servindo para decoração da indústria que ele trabalha.

Ao ouvir esta resposta, dei aquela minha gargalhada que ecoa aos pés da montanha. Meu amigo assustou-se com o troar do barulho e me interrogou: -Por que tamanha gargalhada, homem?

Ao que respondi: - Se Ícaro ainda tiver aquela vontade doida de voar e fechar todas as válvulas de segurança da caldeira, com a pressão alta da mesma, ela explodirá e leva tudo para o espaço sideral!!!





Camões em Macau pelo Padre MANUEL TEIXEIRA ( Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia)


Camões em Macau

pelo Padre MANUEL TEIXEIRA

Recolha e composição de António Cambeta de Macau / Tailândia


Reza a tradição que Camões esteve em Macau e que o seu retiro predilecto era a estância do Patane, para os lados de Sto. António, sítio na verdade aprazível e pitoresco, que foi baptizado com o nome do poeta, chamando-se-lhe, ainda que impropriamente, Gruta de Camões.

Esta tradição pluri - secular foi acatada e respeitada por todos os historiadores e biógrafos do poeta, havendo apenas divergências acidentais da parte de Teófilo Braga, Juromenha e Storck quanto à data da sua vinda e outras minúcias, ficando, porém, de pé o facto principal, a estada do poeta em Macau.

Mas nos primeiros anos do século positivo, em que vivemos, em 1907, houve quem pretendesse contestar este facto e relegar a tradição para os domínios da lenda.

1. Já antes, em 1899, o ilustre orientalista J. F. Marques Pereira, expusera bem fundadas dúvidas sobre a estada de Camões em Macau como Provedor dos defuntos e ausentes 2. Ora, há aqui duas questões que importa não confundir:
l.ª -Esteve Camões em Macau ?
2.ª-Foi Camões Provedor dos defuntos e ausentes em Macau ?

À primeira respondemos afirmativamente com a tradição.

À segunda respondemos negativamente com razões históricas.

Esteve Camões em Macau ?

Responde afirmativamente toda uma plêiade de brilhantes e profundos historiadores dos séculos passados; começou a negá-lo João Frick em 1907, o qual aventou a hipótese de o poeta ter ido morrer, «com a espada na mão, ao lado do seu rei nos campos de Alcácer-Quibir.»


Depois deste, apareceram alguns articulistas a copiar as suas objecções; o mais ilustre defensor da tese negativa foi o Dr. Luiz da Cunha Gonçalves que, no seu livro Camões não esteve em Macau

3 - ampliou a tese que João Frick, com o pseudónimo de Gonçalo da Gama, publicara no Portugal.

Nós somos pela tradição, e, não nos convence nenhum dos argumentos dos que a atacam. Assim, João Frick diz que Camões não esteve em Macau porque, à data, Macau não existia, não passando dum covil de piratas; Cunha Gonçalves diz que «entre 1556 a 1559, não havia chinesas cristãs, como não existia a cidade de Macau»

4. - Ora tudo isto é redondamente falso, pois que nessa época já existia a colónia portuguesa de Macau e já existiam chinesas e chineses cristãos. Para não nos repetirmos, remetemos o leitor para o nosso estudo sobre o Estabelecimento dos Portugueses em Macau, publicado no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Dezembro de 1939, pp. 273-297, pelo qual se pode ver que, imediatamente depois da paz firmada em 1553 ou 1554 pelo Leonel de Sousa, com os chineses, os portugueses se estabeleceram em Macau, donde em 20 de Novembro de 1555  Mendes Pinto escreveu uma carta para Goa.

O sobrenatural escreve:

O poeta Luís de Camões vivia em Macau numa espécie de desterro, provocado por invejas e inimizades em Portugal. As intrigas obrigaram-no também a deixar aquela terra, tendo embarcado como prisioneiro na famosa Nau de Prata, nos finais de 1557.

Luís de Camões despediu-se da famosa gruta de Patane, em Macau, que tinha escutado o eco dos seus sonhos e do seu desespero, e apresentou-se ao capitão da Nau de Prata. Interrogado sobre o papel enrolado que levava na mão,

Camões respondeu que era toda a sua fortuna e que talvez fosse aquela a sua herança para todos os Portugueses. Tratava-se da epopeia Os Lusíadas que contava a história do seu povo e que, segundo a lenda, terá sido escrita naquela gruta.

Escritos com toda a alma e toda a saudade de português, injustamente privado da pátria, aqueles versos eram o maior de todos os seus tesouros e os únicos companheiros do seu infortúnio. Da amurada da nau, estava Camões a despedir-se da gruta, quando ouviu uma voz de mulher que o interrogava sobre a sua tristeza.

Era uma nativa de Patane, que o conhecia, e em quem ele nunca tinha reparado, apesar da sua extrema beleza. Tin-Nam-Men era o nome da nativa que, na sua língua, significava Porta da Terra do Sul - a Porta do Paraíso.

Tin-Nam-Men tinha observado Camões, durante muito tempo, sem nunca se atrever a falar-lhe até àquele dia. Perdidamente apaixonada por Camões, tinha-o seguido até ao barco.

Partindo com o poeta, conta a lenda que, na Nau de Prata, nasceu mais uma relação amorosa na vida já tão romanesca de Luís de Camões, até ao trágico dia em que uma tempestade irrompeu nos mares do Sul.

Como a Nau de Prata estava condenada a afundar-se, embarcaram as mulheres num batel e os homens salvaram-se a nado. Camões, de braço no ar, segurando Os Lusíadas, nadou até terra, mas o barco onde seguia a linda Tin-Nam-Men foi engolido pelas ondas.

Foi à bela Dinamene, como o poeta lhe chamou, que Camões terá dedicado os seus belos sonetos «Alma minha gentil, que te partiste...» e também «Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste».






Coragem de optar pela arte - Crónica da Laé de Souza


Coragem de optar pela arte

Crónica da Laé de Souza

Há quem diga que a responsabilidade maior foi do pai, que numa viagem ao nordeste o presenteou com um berimbau. Outros acham que a culpa foi da mãe que, enjoada do din-din-din-don , trocou o instrumento por um violão de plástico e cordas de náilon.

Embora. muitos acreditem que ele já tenha vindo de nascença com um parafuso a menos e que essas coisas não tenham influenciado em nada. O que é certo, e concorde a todos, é que o Gertulino não tem um pingo de juízo.

Os pais, coitados, na verdade a gente sabe que fizeram de tudo para que ele se endireitasse, mas foi perda de tempo. Arrumaram uma vaga num escritório de contabilidade, mas qual nada. Na mala de boy , levava suas revistas de partituras e letras que cantarolava no ônibus e na fila do banco.

No guichê, enquanto o caixa autenticava, ele tamborilava com uma bic no vidro do balcão. Não reclamava do salário, mas chiava quando tinha de catar milho na Olivetti para preencher de uma guia e também não queria nem saber de débito/crédito. O contador lhe apontava exemplos de quem entrou pequeno e agora era chefe de departamentos e ele, nem aí. Já bem crescido foi despedido por faltas. Trabalhava um, faltava dois dias.
 
Arrumaram-lhe um emprego numa metalúrgica . Na prensa, com o pé livre batia duas vezes no chão e no do pedal batia uma, em ritmo de valsa. Puseram-no para rebitar , e o chefe o dispensou por não agüentar mais o bater compassado e a quarta batida mais forte, sempre.

Daí para a frente só fez bicos. Na maioria das vezes era encontrado em casa, fechado no quarto com seu violão, repetindo várias vezes a mesma música e descobrindo as notas de um solo. Começou tocar nuns barzinhos e até recebia acanhados aplausos. Quando perguntado pelo filho, seu Agildo, respondia que ele estava trabalhando. Mas quem ouvia os acordes vindos do quarto, dava uma risadinha e dizia que o Gertulino não tinha jeito mesmo.

Seu Agildo também achava que não era certo o proceder do filho, mas saiu a investigar se era só ele quem tinha filho doido.

O filho do padeiro era encafifado com negócio de pegar pedaços de pau e ficava horas e horas esculpindo. Às vezes até que fazia alguma coisa bonita, da qual o pai ignorava a beleza para não estimular a loucura. O filho do açougueiro era metido com coisas de teatro e vivia correndo atrás de roupas velhas.

Perdia horas e horas em ensaios inúteis, fazendo cenários de papelão, perucas, narizes e, de vez em quando, junto com outros doidos dava um show na praça. O filho de um seu Geraldo ficava horas e horas como que fora do mundo, pintando um quadro. O filho da professora , era poeta e não fazia outra coisa senão rabiscar um caderno espiral de capa gasta. Assim, seu Agildo viu tantos malucos pelas noites que chegou a duvidar se era mesmo loucura.

Ele descobriu que existiam outros doidos e tentou adivinhar que espécie de doença é essa que ataca a mente, fazendo abandonar futuros planejados, por caminhos incertos. E nós, até com certa inveja, perguntamos de onde nasce essa força tão grande que faz com que alguns tenham coragem de optar pela arte.