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segunda-feira, 27 de abril de 2015

O MEU ÚLTIMO CIGARRO FOI HÁ 27 ANOS - Por Joaquim Nogueira


O MEU ÚLTIMO CIGARRO FOI HÁ 27 ANOS

Por Joaquim Nogueira

“… tudo aconteceu num ápice, num momento normal da vida… era cerca do meio dia e meia hora do dia 18 de Abril do ano de 1988 e encontrava-me de pé encostado ao balcão do café do Luís a comer uma tosta mista e a beber uma cerveja… de repente, a minha vista esquerda deixou de ver… tapei o olho direito com a mão e apenas via um cinzento prateado e uma mancha escura para o lado esquerdo…

calmamente, continuei a comer, comi mais um bolito e bebi o meu café… saí normalmente, segui para o meu escritório e fui lavar a cara e deitar água para a vista… mas nada aconteceu, tudo se manteve na mesma…

a pé, dirigi-me para a Clínica Santo António, ali perto, entrei, segui até ao balcão e com uma calma tremenda disse à funcionária: - Desculpe, estou a perder a visão, estou a sentir-me mal e a entrar em pânico… por favor, vá transmitir isto ao Médico (por acaso, havia Oftalmologia e havia um em serviço àquela hora)…

a moça, muito atónita a olhar para mim, lá se levantou da sua cadeira e seguiu em direcção ao gabinete clínico… quando regressou, um minuto depois, disse-me: - venha se faz favor que o senhor doutor atende-o já…
 
depois de agradecer lá segui para a sala de espera… de dentro do gabinete saiu um doente e eu entrei de imediato… contei o que se estava a passar, fui bem examinado e o diagnóstico foi-me dado logo ali: - o senhor acaba de ter um AVC e precisa de ir imediatamente para a Neurologia. Aguarde um momento que eu vou ver se o meu colega está de serviço…

ali fiquei a aguardar… a calma aparente obrigou-me a acender um cigarro, o último que fumei, seriam cerca das 15 horas desse dia… quando o oftalmologista regressou levou-me para o gabinete da neurologia onde o especialista me examinou e confirmou o diagnóstico anterior… passou-me um relatório e disse-me para ir ao Delegado de Saúde carimbar o chamado P1 para poder ir fazer de imediato um TAC…

assim fiz… no dia seguinte, de manhã, obtido o documento segui para o Porto onde fiz o dito exame… deitei-me na bela marquesa do túnel do terror e surge um enfermeiro de seringa na mão… aí eu disse: - Um momento por favor: o que vai fazer?... ao que ele me explicou ir injectar-me o iodo para contraste e que iria sentir um ardor na cara que desceria pelo peito até às pernas e que desapareceria nos pés…

(assim, na verdade, aconteceu) mais descansado, fiquei estático com a cabeça presa por uma fita e disseram-me para não me mover e olhar para uma luzinha vermelhinha que estava por cima da minha testa… e, pronto, ao fim de uns minutos, saí do túnel e mandaram-me esperar para ver o resultado…

havia, na verdade, sofrido um pequeno acidente vascular cerebral provocado por arteriosclerose tabágica (durante 27 anos havia fumado 2 maços diários)…

mandaram-me embora com a famosa receita da Aspirina 100 e que deveria ser seguido pela especialidade e fazer uns campos visuais de quando em vez… entretanto, a cegueira foi abrandando apesar de ter durado 33 horas…

segui os conselhos e, nunca mais fumei…

faço assim, hoje, 27 anos sem tabaco… creio que foi uma vitória apesar de a ter conseguido por ter apanhado um dos maiores sustos da minha vida…

e aqui acabei de contar a minha odisseia de como parei de fumar…”

Joaquim Nogueira




domingo, 26 de abril de 2015

Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)


Anedotas recolhidas na Net (Facebook sobretudo)

 
Negócio Alentejano...

Um velho alentejano agricultor, com sérios problemas financeiros, comprou uma mula de outro agricultor por 100 Euros.

Concordaram que a entrega da mula seria no dia seguinte.
Entretanto, no dia seguinte, o agricultor chegou e disse:
- Desculpe, mas tenho más notícias. A mula morreu.
- Bom, então devolva-me o dinheiro.
- Não posso. Já gastei tudo.
- Tudo bem. Mas, entregue-ma na mesma.
- E o que e que vai fazer com uma mula morta?
- Vou rifa-la!
- Você não pode rifar uma mula morta!
- Claro que posso! Só que não vou dizer a ninguém que o bicho está morto...

Um mês depois, os dois agricultores encontram-se e o que vendeu a mula perguntou:
- Então, o quê que aconteceu à mula morta?
- Rifei-a como lhe tinha dito. Vendi 500 números a 2 Euros cada e tive um lucro de 998 Euros.
- E ninguém reclamou?
- Só o fulano que a ganhou na rifa. Devolvi-lhe os 2 Euros...


A CULPA É DA CHUVA....

Um homem entra na igreja e vai ao confessionário.
"Perdoa-me, padre, porque eu pequei", diz ele.

"Qual é o seu pecado, meu filho?", pergunta o padre.
"Bem, um mês atrás, eu estava na biblioteca até à hora de fechar, e quando quis ir embora, começou a chover muito, sem parar. Depois de algum tempo, a bibliotecária e eu fomos ficando mais confortáveis e... bem... fizemos festa a noite inteira, se é que o senhor me entende."

"Não foi correto mas também não foi horrível, meu filho", disse o padre. "Se foi apenas um único deslize, Deus vai perdoá-lo."

"Aí é que está", disse o homem, "mais ou menos uma semana atrás, eu dei uma ajuda à minha vizinha e consertei as persianas dela, e quando ia pra casa, começou a chover muito, muito, sem parar, e... bem... o senhor sabe, foi festa a noite inteira."

O padre ficou em silêncio por alguns segundos.

O homem cobriu o rosto com as mãos e, em soluços, perguntou: "O que eu devo fazer agora, padre?"

"O que você deve fazer?", berrou o padre, "Você deve sair já daqui antes que comece a chover!"


Dois alentejanos vão à feira de Beja

Há dois alentejanos que vão à feira de Beja e compram dois porcos, um para cada um. Então, chegam à aldeia e metem os dois porcos na mesma pocilga. Entretanto, anoitece e um dos compadres começa-se a lembrar: - "
-Os dois porcos estão na pocilga. Temos que fazer um sinal aos porcos para saber qual é o porco de um e o porco do outro."

No outro dia, diz um compadre para o outro: -
-Compadre, temos que fazer um sinal aos porcos para saber qual é o porco de um e o porco do outro! - Tá bem! No outro dia encontram-se, e diz um para o outro: -
-Então compadre, já fez o sinal ao porco? -
Já sim senhor! Cortei-lhe metade do rabo. -

-Ó compadre, você não quer lá ver que eu fiz o mesmo ao meu?! - Não há problema compadre! A gente faz outro sinal. No outro dia: -

-Então compadre, qual foi o sinal que fez desta vez ao porco? - Olhe compadre, cortei-lhe metade da orelha direita! -
-Ó compadre, você não quer lá ver que eu fiz o mesmo ao meu?! -
-Mas olhe! Deixe lá isso, você fica com o branco que eu fico com o preto!...

Mas que parvalhões!...


Um rapaz de 16 anos chega em casa com um Porsche

Um rapaz de 16 anos chega em casa com um Porsche e os pais gritam:
-Onde conseguiu isto ?
Ele calmamente responde:
-Acabei de comprar.
- Com que dinheiro? perguntam.
Sabemos quanto custa um Porsche !

- Bem, ele disse, este custou 15 dólares.
E os pais esbracejaram ainda mais:
- Quem venderia um carro destes por 15 dólares ???
- A senhora logo acima na rua.

Não sei seu nome, mudou-se recentemente para cá. Ela me viu passando de bicicleta e perguntou se queria comprar o Porsche por 15 dólares.
- Santo Deus! gemeu a mãe, deve abusar de crianças.
Quem sabe o que fará depois?

José, vá lá imediatamente, para ver o que está acontecendo.
O pai foi até à casa da senhora e ela calmamente plantava petúnias no jardim.

Ele se apresentou como pai do rapaz a quem ela vendeu o Porsche e perguntou por que ela havia feito aquilo.
- Bem, disse ela, pensei que meu marido estivesse viajando em serviço, mas descobri que ele fugiu para o Havai com a secretária e não pretende voltar...
Esta manhã ele me ligou e pediu que vendesse o Porsche e lhe enviasse o dinheiro...

Então eu vendi...

As mulheres são ou não são maravilhosas?!


Quatro homens católicos

Quatro homens católicos e uma mulher católica tomam café na Praça de
São Pedro, em Roma
O primeiro homem católico diz aos seus amigos:
- O meu filho é padre. Quando ele entra numa sala, toda a gente diz:
"Reverendo!"

O segundo sussurra:
- O meu filho é bispo. Quando ele entra numa sala, as pessoas dizem "Excelência Reverendíssima!"

O terceiro disse:
- O meu filho é cardeal. Quando ele entra numa sala, toda a gente diz:
"Eminência!"

O quarto homem disse orgulhosamente:
- O meu filho é o Papa. Quando ele entra numa sala, as pessoas dizem
"Santidade!"

Uma mulher católica estava a tomar o seu café em silêncio. Os quatro homens perguntaram-lhe então ironicamente:
"E você?"

Ela respondeu com orgulho:
- Eu tenho uma filha, elegante, alta, 95 de peito, 60 de cintura, 90
de anca e, quando entra em qualquer sítio, as pessoas dizem: "Meu Deus!"


Um lisboeta e um alentejano...

Um lisboeta e um alentejano foram parar à mesma barbearia, no tempo em que ainda lá se fazia a barba.
Lá sentados, com um barbeiro a atender cada um deles, não se falou uma palavra.

Os barbeiros temiam iniciar qualquer conversa, pois poderia descambar em discussão.
Terminaram a barba dos seus clientes mais ou menos ao mesmo tempo.

O barbeiro que tinha o lisboeta na sua cadeira estendeu o braço para pegar o after-shave, no que foi interrompido rapidamente pelo seu cliente:
- Não obrigado, a minha esposa vai sentir esse cheiro e pensar que eu estive numa casa de p**** disse o lisboeta.

O segundo barbeiro virou-se para o alentejano:
- E o senhor? - indagou.
E o alentejano respondeu:
- Ponha bastante! A minha mulher nunca lá esteve e não sabe como é o cheiro de uma casa de p****...


Pois, e as mulheres sempre a queixarem-se dos homens...

Um grupo de mulheres reuniu-se num seminário sobre como melhorar a sua vida conjugal.
Em fase introdutória, foi-lhes questionado: "Quais de vós ainda amam os seus maridos?”
– Todas levantaram a mão!

De seguida foram inquiridas sobre qual a última vez que teriam dito aos seus maridos que o amavam.
– Algumas responderam "Hoje”, outras ;"Ontem” a maioria não se recordava!

Por fim fizeram um teste e pediram-lhes que todas agarrassem no respectivo telemóvel e enviassem um sms aos seus maridos dizendo "Amo-te muito Querido.”

Depois foi-lhes pedido que mostrassem as respostas dos respectivos Maridos.

Estas foram algumas das respostas:

– Mãe dos meus filhos! Tu estás bem?

– Que foi? Bateste com o carro outra vez?

– Que fizeste agora? Desta vez não te perdoo!

– Que queres dizer?

– Não andes com rodeios, diz-me só de quanto precisas.

– Estarei a sonhar?

– Se não me dizes para quem era este sms, juro que te mato!

E a melhor de todas:
– Quem és?


No Bar...há limites para tudo...

Um homem sem os dois braços chegou ao balcão do bar e pediu:
- Sirva-me uma cerveja.
- Perfeitamente - disse o barman, e encheu um copo de cerveja ao freguês.

- Queira desculpar - falou o aleijadinho -, mas não tenho os dois braços. Quer ter a gentileza de segurar o copo para que eu possa beber?
- Com todo o prazer - e o barman segurou o copo na posição adequada.

- Agora, será que pode tirar o lenço do bolso das minhas calças e limpar a espuma dos meus lábios?

Novamente, o barman atendeu-o.

- E do bolso esquerdo das calças pode pegar no dinheiro para pagar a cerveja?

O barman tirou o dinheiro, registou na caixa e colocou o troco no bolso das calças do aleijadinho, que logo desabafou:

- É duro ser assim aleijado. Fico sempre encabulado por ter de pedir às pessoas para fazerem as coisas para mim. Por falar nisso, onde fica a casa de banho?

- Não temos - apressou-se a dizer o barman.


Não sei que horas são...

Um tipo sai bêbado de uma discoteca às 7 da manhã e mete-se no carro. No entanto, tem um momento de lucidez e decide dormir no carro antes de se meter ao caminho. Estaciona então ao lado de um jardim e adormece.

Minutos depois um tipo em fato de treino que anda a correr bate à janela do carro, acorda-o e pergunta-lhe que horas são.
- Sete e cinco - resmunga ele.

Cinco minutos mais tarde outro desportista volta a bater-lhe à janela do carro para perguntar as horas.
- Sete e dez - responde ele.

Nessa altura saca de um papel e de uma caneta e escreve em letras grandes:
"Não sei que horas são!"», e pendura o letreiro na janela do carro.

Cinco minutos mais tarde um tipo que vai a passar bate-lhe à janela do carro e diz-lhe:
- São sete e um quarto!

 
O cão inteligente


Um indivíduo vai com o seu cão ao cinema. O sujeito da cadeira ao lado, começa a ficar espantado ao ver que o cão ria e batia palmas, como se estivesse realmente a compreender o filme. Diz o sujeito para o dono do cão:

- Estou admirado, o seu cão percebe o filme todo.

- Ai está admirado?! Mais admirado estou eu!

- Então... mas porquê?

- É que ele... leu o livro e não gostou!...


A MOTO E A MULHER


O inventor da moto Harley-Davidson, Arthur Davidson, morreu e foi para o céu. Ao chegar lá, São Pedro disse-lhe:
- Meu filho, foste um bom homem e as tuas motos mudaram o mundo, podes fazer um pedido:
Arthur pensou um pouco e disse:
- Quero encontrar-me com Deus!

São Pedro levou Artur até a sala do trono e apresentou-o a Deus.
Deus reconheceu Arthur e disse-lhe:
- Então inventaste a Harley-Davidson? Arthur respondeu:
- É verdade, fui eu ..

Deus comentou:
- Não foi uma boa invenção... É um veículo instável, barulhento e poluidor. Manutenção complicada, alto consumo...

Arthur ficou aborrecido com o comentário e retrucou:
- Desculpe-me, mas não foi o senhor que inventou a mulher?
- Sim, fui eu! - Responde Deus.

- Bem, aqui entre nós, de profissional para profissional, você também não foi nada feliz na sua invenção! Há muita inconsistência na suspensão dianteira; É muito barulhenta e tagarela em altas velocidades; Na maioria dos casos, a suspensão traseira é muito macia e vibra demais; A área de lazer está localizada perto demais da área de reciclagem; Os custos de manutenção são exorbitantes.

Deus reflectiu e respondeu:

- Sim, é verdade que o meu invento tem defeitos, mas de acordo com os dados que levantei, há muito mais homens montados na minha invenção do que na tua...


Logo no começo

Depois de uns dias, o Senhor chamou Adão e disse:
— É tempo de você e Eva começarem o processo de povoar a Terra. Portanto, quero que você a beije.
— Sim, Senhor — concorda Adão — Mas o que é um beijo?

Então o Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é um beijo. E Adão tomou a mão de Eva e a levou atrás de um arbusto.
Alguns minutos depois, Adão voltou e disse:
— Obrigado, Senhor. É muito bom!

E o Senhor respondeu:
— Eu sei, Adão. Eu imaginei que você iria gostar. Agora eu quero que você faça umas carícias em Eva.
— Mas o que é uma carícia, Senhor? — perguntou Adão.

O Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é uma carícia e Adão voltou atrás do arbusto com Eva. Alguns minutos depois, Adão voltou com um sorriso nos lábios e disse:
— Senhor, isso é muito melhor que beijo.

— Você está indo muito bem, Adão — respondeu o Senhor — Agora eu quero que você faça amor com Eva.
— O que é fazer amor, Senhor?

Então o Senhor deu a Adão uma breve descrição do que é fazer amor e Adão levou de novo Eva para atrás do arbusto. Só que desta vez ele voltou depois de poucos segundos.

— Senhor, o que é dor de cabeça?


Milagre!

Pela primeira vez na minha vida, na semana passada fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e partilhei as práticas e orações dos presentes.

De repente, o Pastor se aproximou do lugar onde estava. Olhou-me fixamente e apontou-me o dedo.
Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as suas mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: -Você vai caminhar.

Eu respondi-lhe baixo: -Mas não tenho nenhum problema de locomoção.

Ele ignorou minha resposta e quase gritando, voltou a exclamar: -Irmão, você vai caminhar!

Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a chorar: -Você vai caminhar!

Mais uma vez, tentei explicar que não tinha nenhum problema com meus membros inferiores, mas foi em vão.

Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: -Você vai caminhar!!! enquanto a Assembleia em transe gritava ainda mais forte: -Irmão, você vai caminhar!!!!

Optei por me calar e não dizer mais nada.

Quando o acto acabou deixei a Assembleia e, acredite ou não, o maldito pastor tinha razão:

Tinham-me fanado o carro!!!




A importância na observação - Por Daniel Teixeira


A importância na observação

Por Daniel Teixeira

O termo voyeur é uma expressão normalmente vista numa perspectiva crítica ou depreciativa e é utilizado para definir, ou simplesmente episodicamente referir quem gosta de ver ou quem dá alguma primazia ou valor ao acto de observar outras pessoas ou coisas, entendendo-se aqui que essa observação do outro ou da coisa deverá ter implícita pelo menos alguma ligação com o observado.

Eu explico melhor esta última parte que pode aparecer como sujeita a confusão: em princípio não se observa apenas para observar; um astrónomo amador observa as estrelas, por exemplo, porque pretende compor a sua ideia sobre aquilo que é uma estrela, a sua forma, o seu brilho, a constelação onde se encontra, etc. Isto quer dizer que o observador deve ter um fim em vista e mesmo quando o faz por mera curiosidade diletante tal acto acaba por fazer suscitar em si um desejo por uma ou mais particularidades do ou dos objectos observados.

Claro que aqui interessa referir que deve haver alguma constância no acto de observar, até porque através da ocasionalidade será impossível detectar-se uma qualquer simpatia ou empatia para com o outro ou com a coisa observada. Jean Paul Sartre, nalguns desenvolvimentos que faz para definição do grupo pode dar-nos aqui uma pista comparativa até porque mais à frente voltaremos a falar dele.

Resumidamente, um conjunto de pessoas que apanha um autocarro no mesmo local com o mesmo destino não constitui um grupo, mas um conjunto de pessoas que participa numa deslocação programada, de autocarro, por exemplo, com partida e chegada ao mesmo local, embora se disperse de novo depois, antes durante e logo depois do decorrer da viagem é um grupo. Ora uma observação para o ser tem de equivaler a esta ideia acima referida: ser constante ou continuada.

As conotações dadas ao termo «observar» parecem esquecer o platonismo, ou o vulgarmente chamado amor platónico presente no diálogo Simpósio (Banquete). Embora a temática desenvolvida neste diálogo possa ser entendida como menos própria, trata este velho filósofo de destrinçar entre amor e (um pouco forçado) amor sem amor, sem apego, sem afeição.

Platão parece simpatizar com a segunda fórmula, até porque esta não distrai o observador dos verdadeiros interesses do saber e do conhecimento aos quais dá a primazia, que são do domínio do cérebro (pensamento) e não do domínio do corpo ou da paixão amputadora da racionalidade, como o primeiro. No seu entender é claro.

Assim, e voltando a Sartre acima, teremos que de forma grosseira Platão tenderia para a ocasionalidade e não para o grupo (ou agrupamento) definido acima. Assim, platonicamente, sem querermos ser muito rigorosos, observar (de forma correta, para ele) seria não se envolver com o observado. Refiro que se trata de analogias lógicas e não propriamente de análises consubstanciadas caso a caso.

Ora, observar, todos gostamos, penso eu. Aliás penso até que é uma das actividades à qual nos dedicamos por uma maior fracção do nosso tempo de vida. Na verdade, com excepção dos invisuais, somos dotados de visão e seria pouco compreensível que não exercêssemos essa actividade. O mundo à nossa volta está pleno de movimento, de seres e não-seres, de cores, de luz e sombra, breve, acho que é impossível escapar ao acto de observar.

Observar é um fenómeno que tem sido referido ao longo da literatura e mesmo na filosofia: Jean Paul Sartre por exemplo utilizou o termo para dizer que não se pode ser espectador e actor ao mesmo tempo, questão que eu acho discutível mas que não vou aqui discutir, porque na realidade o actor observa ainda que o faça de acordo com o interesse que tem na pessoa ou nos objectos com os quais interage.

Na verdade, Sartre distingue quase o mesmo que Platão acima: o envolvimento torna-nos actores e não podemos observar, pelo menos de forma «limpa / imparcial» aquilo em que estamos envolvidos. Vamos passar à frente a questão da subjectividade empregue ou não no envolvimento para lembrar o ditado de que não se pode ser juiz / julgar em causa própria.

Por sua vez e num outro paradigma de pensamento, um escritor americano (salvo erro Erskine Caldwell) relata num dos seus romances a luta entre dois indivíduos pela «posse» de um buraco na parede de um armazém naqueles ambientes um pouco surrealistas do campesinato americano dos anos 20 ou 30, com homens de calças de presilhas à jardineiro e ausência de banho anual.

Pois o dito buraco dava para a apreciação não de qualquer coisa extremamente escandalosa, não para a visão intromissora em algo de íntimo e pessoal, para algo em movimento que despertasse um desejo de seguir a sua continuidade, mas sim para uma extensa pradaria, vazia e sem qualquer significado se fosse vista da porta do dito armazém.

O importante era, pois, o buraco, a visão que era proporcionada pelo filtro do buraco, o facto de haver algo a separar o espectador da paisagem, a sensação diferente que era ter de mexer o corpo, e o olho, para olhar para a esquerda ou para a direita, enfim...se seguíssemos o raciocínio tratava-se de ver através daquele buraco na parede do armazém ... nada diferente, em sentido rigoroso. Mas o que interessou ao escritor foi descrever que é possível ver diferente vendo a mesma coisa de duas maneiras: através da porta e através do buraco na parede.

Quando se trata de obras, sobretudo as públicas, é frequente ver-se nos taipais pequenos furos, apenas suficientemente largos para que uma ou mais pessoas possam espreitar e não sei se por piada se por filosofia empresarial aparecem por vezes os dizeres, acompanhados de seta a feltro :«Espreite por aqui.»

Ora, estes elementos todos e mais alguns que fui recolhendo ao longo dos anos, de forma desinteressada e sem objectivo desde logo definido, levam-me hoje a fazer a reflexão que se impõe sobre a «magia» do buraco.
 
Há de facto algo de solene espreitar pelo buraco mesmo que aquilo que se vê seja precisamente aquilo que se pode ver de forma «livre» e aberta.
 
O buraco soleniza as coisas, faz aquela separação que Nietzsche chama de separação entre actor e público, nas suas Origens da Tragédia. Aquela sensação de não estar por dentro soleniza aquilo que está por fora e a prova está nas referências literárias que fiz acima.

Mas, mais que isso, o pessoal que trabalha numa obra, e isto é importante, mesmo muito importante, não é objecto de crítica se por acaso estiver encostado à bananeira a deixar passar o tempo até ao apito de saída. Se perguntarmos a um «espreitante» usual ou não o que acha disso ele dirá que não tem nada com isso, está ali para espreitar e nada mais, o andamento da obra não lhe interessa: basta que do outro lado haja gente em movimento, máquinas, paredes e valas abertas.

Ora, e como vimos isso acontece a quem ou à coisa que está para além do buraco. Acontece com aquele que tem uma separação nítida e impeditiva de marchar à sua frente, aquele que não se pode fundir com o observado, aquele que não faz parte do mesmo «ambiente» funcional. Opta então essa pessoa pela ausência da crítica.

Não sendo esta uma questão transcendente é quanto a mim no entanto significativa sobretudo porque se aplica em diversos domínios da nossa forma de pensar e ver as coisas embora nem sempre lhe demos a devida importância, nomeadamente e como exemplo quando frequentamos redes sociais.





sábado, 25 de abril de 2015

GRANDES FEITOS-UMA ODISSEIA


GRANDES FEITOS - UMA ODISSEIA


Impelidos pelo espírito aventureiro que os caracteriza, os pescadores olhanenses lançam-se no comércio marítimo pelos portos do Norte África e do Mediterrâneo, a comerciar os produtos da sua safra, com relevância para o peixe e seus derivados. 

Esse comércio trouxe a fortuna a várias famílias que fizeram engrandecer física e historicamente a sua querida Olhão. Poucas memórias encontramos desse período de aventura, em que o caíque de vela latina foi figura principal, juntamente com o pescador pertinaz da Terra, protagonistas de feitos, que, se passados a obra escrita, configuraria uma GRANDE ODISSEIA ou uma GRANDE EPOPEIA MARÍTIMA. 


A colonização olhanense no Sul de Angola abrangendo o séc. XIX e princípios do séc. XX foi outra glória histórica deste povo audaz. Infelizmente desconhecemos qualquerdiário de viagem que comprove sequer uma dessas aventuras cheias de peripécias e perigos. Quais os mares mais rebeldes que poderiam pôr à prova a intrepidez, a audácia desses intérpretes de aventuras, intemeratos e audaciosos? Quantos sonhos e vidas soçobraram nos mares da Serra Leoa onde as águas e os ventos estão em constante revolta? Como puderam contornar as rochas que quase despontam à superfície do mar no arquipélago de Bijagós, Guiné? Como contornaram essa armadilha sob as águas que só uma sonda poderia avaliar? Quantos medos no alto das vagas gigantescas de tempestades medonhas ou nos abismos côncavos dessas vagas? Quanta fome, quanta sede suportaram nossos avós nessas viagens intermináveis? Esse desconhecimento remete-nos irremediavelmente para a história incompleta e esquecida na sua vertente essencial: a Humana.


Cento e quinze anos após o início desses feitos épicos, a história quis devolver à Mãe Pátria Portuguesa os descendentes daqueles valentes pescadores de XIX e XX e todos aqueles que apostaram o seu futuro na emigração e naquele destino no Sul de Angola tomando, alguns, após chegada, outros destinos no território. A guerra civil chegou no decurso do ano de 1975. 

Nada mais havia a fazer senão a saída intempestiva ou organizada quanto possível de uma terra onde a ação do homem europeu e africano, lado a lado, tornou próspera e progressiva. As traineiras procuraram sair, no maior segredo, dos portos de pesca para a viagem da salvação de pessoas e bens. 

Uma nova Odisseia ía-se iniciar, a "ODISSEIA do REGRESSO", não em caíques do séc XIX à vela, que fora passado, mas em prósperas traineiras do séc. XX, na conquista do futuro, odisseia documentada "vaga a vaga", à escala de um diário, por quem a viveu. 

Baldomiro Soares natural da Ilha da Culatra, frente a Olhão, e emigrado em Luanda, depois de ter vivido alguns anos no Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, hoje Namibe, era bancário e viveu-a, com o seu pai, mestre Sabino, homem de muito saber acumulado ao longo de 50 anos na pesca e com muita navegação costeira, mas sem o conhecimento de navegação de longo curso, seu irmão Sabino, delegado de propaganda médica e sua cunhada Rosa Maria, bancária. O Bala e o Teco os cães da família os acompanhavam. 

Pareciam sentir as angústias dos seus donos nos momentos em que o perigo de soçobrar superava a esperança de sobreviver. Um deles era da raça "Baía dos Tigres" adaptado à convivência humana e por isso manso. (A raça "Baía dos Tigres" é uma raça de cães existente naquele local do sul de Angola em estado selvagem e que se julga terem ido ali parar em consequência de um naufrágio).

Para quem acredita em milagres, foi um milagre de sobrevivência esta aventura iniciada em Luanda até Olhão. Rodeada de vagas gigantescas e a navegar só, sem qualquer apoio à vista, a pequena traineira Sabino I de 14,40 metros, construída em Luanda em 1971, ía resistindo àquele mar sempre furioso, qual Adamastor a assoprar ventos e agitar vagas, apostado em sepultar para sempre aquele minúsculo barco e seus quatro tripulantes nas entranhas do seu mar. Instrumento de bordo para localizar no mapa o "ponto" do mar em que se encontravam não existia. 

Um mapa, uma sonda e uma bússola eram os instrumentos disponíveis mais o saber do velho lobo do mar, mestre Sabino. Este livro é um compacto de 269 páginas, esmiuçado dia a dia no fervor da contenda com o Mar. Cabe-me aqui alertar para esta obra que transcende qualquer ficção por ser real, verdadeira e talvez única naquele cenário atlântico. "ODISSEIA MARÍTIMA-Luanda-Olhão-35 Dias no Regresso em Traineira".


Em Luanda e nos preparativos para a viagem, Baldomiro Soares e seus companheiros jamais pensaram que precisariam de todas as suas forças, toda a fé num Deus todo poderoso e omnisciente para superarem uma natureza hostil e superior. Segundo os cálculos, com o combustível reunido, poderiam atingir as Canárias contando com a solidariedade dos navios que encontrassem ou no acolhimento de um porto de mar amigo. 

Escreve Baldomiro: «Eram duas e meia da manhã do dia 24 de Agosto de 1975, com luar aberto, nada propício a uma fuga, junto ao anúncio da Cuca, na Ilha de Luanda, com o motor a meia força que iniciámos a viagem. A embarcação levava as redes de pesca à vista e a chata a reboque para dar a entender que íamos para a pesca, caso fôssemos detetados por autoridades dos partidos políticos, já que andavam em cima dos pescadores, proibindo a saída de barcos para Portugal». 

«Os dois primeiros dias de navegação foram calmos e pacíficos, o que nos deu a oportunidade de nos organizarmos. Começámos por determinar o tempo de leme que era distribuído entre mim e meu irmão, fazíamos leme de quatro em quatro horas, ficando o nosso pai, com o cuidado de verificar o motor de hora a hora e fazer leme e cozinhar sempre que possível. 

Nas primeiras horas de leme deu para recordar os últimos dias em Luanda, cidade que se encontrava sob o recolher obrigatório devido ao desentendimento entre os partidos políticos que, fortemente armados, se guerreavam constantemente, provocando o caos e a desordem, jamais vistos em território ainda dito nacional». 

A situação em Luanda era caótica com prisões arbitrárias sob a indiferença dos militares portugueses que deveriam reagir e repor a ordem. O fim trágico de uns e o desaparecimento de outros (portugueses e angolanos) determinou a decisão de fuga não só em Luanda mas em todo o território de Angola, de norte a sul. 


Aquelas horas ao leme com mar manso muitos pensamentos fluíram. Aquela traineira fora conseguida com a venda de bens em Portugal. Tudo fariam para chegarem a Olhão e reatarem uma nova vida. Estavam imbuídos da coragem necessária, da vontade indómita dos homens do mar que tanto labutaram no Mar Mediterrâneo, no Mar de Larache em Marrocos, na costa de África (Angola, Gabão, S. Tomé, Congo Francês). 

Mestre Sabino conhecera algumas dessas viagens. Fizera ao Mar de Larache antes de ir para África e ao Gabão quando estava em Luanda. Foi nessas viagens ao Gabão que fizera o cálculo do combustível para chegar a Olhão, mas não foi possível reunir tal quantidade, ficando em falta 3000 litros, para além da insuficiência de óleo e de alimentos na quantidade desejável, que em Luanda já eram escassos. 

Pensavam na sorte que acompanha os audazes e na fé dos navegadores. Baldomiro fizera uma promessa à Senhora dos Navegantes: quando chegasse a Olhão compraria uma imagem para colocar na capela da Ilha da Culatra, promessa que foi cumprida integralmente depois de vender a chata. Levavam 300 litros de água potável para beber e cozinhar.

 TERCEIRO DIA-O INÍCIO DAS TEMPESTADES


Escreve Baldomiro: «No terceiro dia fomos surpreendidos por forte tempestade que nos desviou da rota arrastando a embarcação para dentro do Golfo da Guiné, o Golfão da Guiné, como era conhecido pelos antigos navegadores. Segundo os nossos cálculos, atravessámos a linha do Equador que passa a norte do Gabão. 

 

O mar, verdadeiramente encrespado, com chuva e vento soprando fortemente de sudoeste, estragou parte da comida fresca que trazíamos dentro de caixotes em cima do convés, ficando, apenas alguns produtos enlatados. Verduras e frutas foram arrastadas pelas águas da chuva e das vagas que entravam pela proa do barco. 

Aproveitámos um queijo açoreano que levámos para dentro da cabine, para secar naturalmente... Por volta das dezasseis horas o vento amainou e o pai verificou que havia muita água dentro da cabine do motor, o que não era normal, e providenciou que a bomba elétrica funcionasse em pleno, voltando tudo à normalidade, admitindo que se tratava de água da chuva que tinha entrado pela porta da cabine».

Assi dizendo, os ventos, que lutavam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relampados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vem representando
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,
Consigo os elementos terem guerra.

(Lusíadas, canto VI-84)

Com o mar calmo e já no quinto dia de navegação avistaram os contornos de terra e cruzaram-se com um arrastão japonês. O comandante do arrastão era um indivíduo simpático, falava inglês e deu a indicação da posição no mapa. Cedeu-lhes sessenta litros de óleo. Aceitaram um balde cheio de peixe fresco que durou dois dias. Cometeram um erro gravíssimo, habituados a não "pedinchar", não pediram gasóleo. Essa falta fez-se sentir dias depois levando a que o barco ficasse no meio do Oceano parado, sem combustível, e longe da costa. Sem rádio não tinham como pedir ajuda nessa emergência.

Foi no décimo-oitavo dia de navegação que o motor parou sem gasóleo, diz-nos Baldomiro. Era uma quarta-feira do dia 10 de Setembro daquele ano fatídico de 1975. A sorte tinha sido madrasta no antigo porto do Congo Francês, hoje Mauritânia, Port-Etienne, hoje Nouadhibou e não puderam arranjar o almejado gasóleo que os fizesse chegar a um porto amigo no Sahára Espanhol. 

Escreve Baldomiro: «Antes de saltar para terra afim de prender as cordas aos cabeços de amarração que ali se encontravam para esse efeito, fomos logo visitados por dois homens fardados, e um indivíduo que parecia ser polícia se dirigiu a nós, falando em francês. Ficámos sem pinga de sangue. Tínhamo-nos enganado. Não estávamos em território espanhol. Aquilo que mais temíamos aconteceu. 

Como não entendíamos o seu falar o polícia foi chamar um espanhol para servir de intérprete. Depois de nos identificarem fomos imediatamente presos e os documentos do barco apreendidos. Presos pelo motivo de não termos hasteado a bandeira do país e por não haver relações diplomáticas com Portugal». «Quando entramos num porto estrangeiro devemos hastear a bandeira desse país».

 
 «Prometemos comprar uma bandeira, no dia seguinte, se nos devolvessem o dinheiro, o que não veio a acontecer». «Depois de muitas explicações, alegando que estávamos desorientados naquela entrada, levaram-nos presos para a Capitania do porto. Como já passava das cinco horas da tarde, por sorte nossa, já estava fechado». 

«O funcionário de serviço devolveu-nos os documentos e mandou-nos para o barco, debaixo de prisão, com um polícia de serviço, exigindo a nossa presença no dia seguinte às 8 horas da manhã». «Acompanhados do cidadão espanhol e a nosso pedido, levou-nos a um escrítório de uma companhia italiana de assistência às pescas, que se encontrava localizada no cais, e à qual solicitámos ajuda com gasóleo e comida até chegarmos a Portugal, que depois mandaríamos o dinheiro...

Fomos bem recebidos mas a resposta foi negativa. Pediram-nos 103 contos na nossa moeda por 6000 litros de gasóleo. O pouco dinheiro que tínhamos ficou na posse do guarda marítimo. Voltámos para o barco desanimados». O espanhol era comandante de um barco espanhol de pesca com contrato para pescar na Mauritânea e não poude dispensar gasóleo porque este era fornecido pelo estado, o que seria preso caso fosse descoberto e denunciado. 

O cidadão espanhol aconselhou sairem de madrugada do porto porque ali não havia maneira de obterem ajuda e porque poderiam ficar retidos meses, e isso se o assunto se resolvesse, pois os mauritanos costumavam ficar com os barcos apreendidos. «O susto foi tão grande que começámos a planear a fuga». 

«O espanhol José, assim como alguns tripulantes espanhóis daquele barco, oferecem-nos, às escondidas dos nativos/tripulantes do seu barco, alguma comida para aquela noite». «Mais tarde, já de madrugada, aparece-nos na nossa traineira com um saco cheio de pão e comida que bem nos valeu para as surpresas que ainda iríamos encontrar, dando preciosas indicações para sair de noite daquele porto de pesca. 

Os espanhóis diziam que tínhamos tido muita sorte em chegar àquele porto, devido aos baixios perigosos no meio da baía o que dificultava muito quem por ali passasse e esta era somente para pessoas muito experientes naquela área marítima». «Seja o que Deus quiser». «Encontrar um bom samaritano no meio do mar que nos desse algum gasóleo para chegar pelo menos a Vila Cisneiros!»

«Por volta das duas horas da manhã, o polícia de vigia ao nosso barco encostou-se a alguns caixotes e deixou-se dormir...Como estávamos alerta para este momento, libertámos a amarração e a embarcação foi arrastada pela correnteza e a leve briza de vento, afastou-nos do cais, durante longos e ansiosos minutos. Quando nos encontrávamos já bem afastados, verificámos que bem perto de nós um arrastão tinha saído do porto e dirigia-se ao alto mar para a faina de pesca. Não perdemos tempo em segui-lo. 

O pai pôs o motor a trabalhar e, imediatamente à força toda, fomos atrás daquele barco, até avistarmos ao longe boias de sinalização. Por razões que desconhecemos o arrastão voltou atrás, regressando ao cais, mas nós seguimos em frente até passarmos bem pertinho das primeiras boias de sinalização... Ainda vimos o polícia acordar de sobressalto e começar a correr até o perdermos de vista...».

«São sete horas da manhã, os primeiros raios de sol surgem no horizonte e as nuvens teimosamente não se querem desvanecer e, já bem afastados de terra, encontrámo-nos no mar alto, direcionando a bússola com rumo ao norte». «Navegámos mais um dia quando encontrámos um enorme barco de pesca chinês "Five Oceans 125". Aproximámo-nos e, por gestos pedimos gasóleo. Tínhamos combustível apenas para mais algumas horas! 

Aquele que nos pareceu ser o comandante veio ao convés com gestos pouco amigáveis para nos afastarmos. Ainda conseguimos navegar ao lado do barco cerca de uma hora, pedindo insistentemente ajuda. Um dos marinheiros ou comandante, ameaçando-nos, pareceu-nos exibir uma arma, pelo que desistimos e acabámos por seguir a nossa viagem, tristes e desanimados».

«Aproximámo-nos mais de terra, que nos pareceu ser um lugar deserto, pois não vimos sinal de vida, quando por volta das oito horas o barco parou por falta de gasóleo.»...«Fundeámos a cerca de dez braças de profundidade e calculámos estar distanciados três ou quatro milhas de terra, esperando que algum bom samaritano nos veja»...«Verificámos que estávamos fundeados em cima de rochedos e que os cabos de amarração não iriam aguentar muito tempo». 

A sonda tinha deixado de funcionar e não existia maneira de saber a altura de mar que poderia pôr em causa a segurança do barco na maré vazia. A solução foi encontrada por mestre Sabino e pelo processo antigo: com uma corda e uma chumbada. O resultado foi tranquilizador: estavam a cinco braças das rochas. Escreve Baldomiro: «Ao longe um navio passa por nós e lançamos um pedido de socorro com sinal luminoso (o único que tínhamos a bordo) mas não deu resultado. 

Nas noites seguintes, mal o sol se punha, começávamos por acender archotes, com roupa embebida em gasóleo que se encontrava no cavername da casa do motor, para chamar a atenção dos barcos que navegavam ao largo da nossa posição. Todo esse esforço foi em vão e acabámos por queimar toda a roupa que tínhamos, ficando apenas com a roupa do corpo. Mais uma noite à nossa frente com o frio incomodativo do deserto do Sahara, esperando por nós. A alimentação estava já muito reduzida e quase no fim, e a água racionada». 

À DERIVA ATÉ AO SALVAMENTO

A manhã do vigésimo terceiro dia (15 de Setembro-2ª. feira) o dia amanheceu límpido, mas o vento soprava fortemente. Baldomiro pressentia que algo de transcendente ia acontecer. Mestre Sabino deu mais folga à amarração para evitar o roçar nos rochedos. Se os cabos rebentassem andariam à deriva e seriam arrastados sem possibilidade de comandar o barco. 

Naquele momento estavam somente fundeados com uma âncora pois as outras os cabos tinham rebentado por roçarem nas rochas. «Tomámos a decisão de apetrechar a chata com o motor de popa, um pequeno mastro com uma vela e dois remos. A intenção era   ir ao encontro dos barcos que diariamente avistava e pedir auxílio. Vamos aguardar pelas três horas da tarde e ver se os barcos de pesca aparecem, como habitualmente». ... «Não sei se terei forças para remar na chata em caso de necessidade». 

 

Uma extrema fraqueza tinha-se apoderado daqueles corpos que mal se alimentavam, e de água só tinham meio galão. «Quinze horas e lá estão eles, os dois barcos navegando para terra. Na mesma direção que diariamente temos registado. Não perdemos mais tempo. Estão a mais de cinco milhas de distância. Embarcámos na chata sob ondulação muito forte e com o motor de borda a funcionar, soltámos a amarra que prendia ao barco. 

O motor apenas funcionou alguns minutos, acabando por se avariar. Estamos a alguns metros do barco e tentamos apanhá-lo novamente, mas não conseguimos lá chegar. A corrente é muito forte e a chata afasta-se rapidamente da embarcação». Um dos remos partiu-se tal o esforço despendido. 

Mestre Sabino que tinha ficado na traineira com Rosa Maria, tentou lançar uma corda, em vão. Fez um gesto para se atirar ao mar o que foi impedido por Rosa Maria. Teria sido um suicídio dado as condições do mar e a extrema fraqueza de todos. Com a chata à deriva viram desaparecer rapidamente a Sabino I de vista. 

«Devido à grande ondulação, tão pouco víamos os barcos de pesca que tanto ansiosamente procurámos descortinar no horizonte e que possivelmente estariam mais a sul. O meu irmão perdeu as forças e não mais conseguiu levantar-se. Eu ia manobrando a chata à vela procurando não atravessar nas ondas, evitando que se voltasse. Quando caíamos na cova da onda, víamos ao lado, acima da chata, na crista da onda, vários tubarões, que gulosamente nos rodeavam». 

«A chata começou a meter água e num esforço inacreditável consegui esgotar a água e manobrar a vela ao mesmo tempo. Não sei como Deus me deu tanta força e coragem». «Tristes e desanimados e com o sol prestes a nos deixar qual monstro sagrado, repentinamente, vimos à nossa frente, o primeiro barco de pesca que já tínhamos identificado enquanto estávamos a bordo do nosso barco. 

Passou bem perto de nós. A alegria que sentimos depressa se desvaneceu. Navegando lentamente cortando a forte ondulação que se fazia sentir, foi passando por nós sem parar. Ficámos desesperados, acenando e gritando para que nos vissem ou ouvissem, mas não vimos marinheiros em cima do convés. 

O contra-mestre ao leme, não deu pela nossa presença. O mar encrespado e o vento forte não permitia uma visualização clara para o homem que vai ao leme. Quase que fomos abalroados....O arrastão passou e com ele a esperança do salvamento foi-se desvanecendo...».

«...Minutos depois, à nossa frente, o segundo barco de pesca quase nos afundou. O meu irmão gritava loucamente. Ninguém ouvia os nossos gritos. Os marinheiros iam todos recolhidos nos camarotes e o homem do leme não prestou atenção à chata. Certamente, como nos disse mais tarde, nunca iria imaginar encontrar aquela "casca de noz" no meio do mar tão revolto. 

O meu irmão caiu de joelhos até encostar a cabeça à amurada da chata, com o rosto sulcado de lágrimas que não procurou ocultar, sem forças de tanto gritar»...«Navegando lentamente o navio vai-se afastando cada vez mais, quando a cerca de 10 metros de distância, de repente, em cima do convés, na popa do barco, estava um marinheiro africano com os olhos esbugalhados pela surpresa, olhando para o nosso desespero. 

O homem perdeu a fala. Não compreendia o que se estava a passar. Em pleno mar alto, uma pequena chata com dois homens a bordo prestes a afundar-se!». «O marinheiro atónito reagiu aos nossos gritos angustiantes, quando, repentinamente, apercebendo-se do perigo que corríamos, correu apressadamente até à cabine do comando, dando o alarme do seu achado em cima da água...Estamos salvos...»

 


«...Em 26 de Setembro chegámos ao farol de Santa Maria».

Escreve Baldomiro: «Por incrível que pareça a nossa odisseia foi recheada de tempestades, desde o terceiro dia até poucas horas antes da chegada a Olhão, parece-nos que Deus dos Oceanos, Neptuno, mais uma vez se sentiu profanado, pelo atrevimento e coragem das gentes olhanenses».

Agora sob as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro,Bóreas, Áquilo queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos os raios em que Pólo todo ardia.                                                                                                     

(Lusíadas, canto VI-76)

                                                             
«Hoje com os pés em terra, olhando para trás e para todas as adversidades por que passámos, humildemente só temos uma palavra. Deus. Obrigado meu Deus».

 

Entre trombas de água andamos navegando
Com o irado céu a água já sugando,
E o mar, apavorando, todo enfurecido
A engolir-nos parecia decidido

E o Bala e o Teco porfiados,
Na proa cortadora vigiando,
Eram pilotos a isso elevados
No oceano perigoso navegando.

Por isso foi que Sabino, o Capitão,
Os promoveu a marinheiros,
Por ver tão clara aptidão
Animando os próprios companheiros.

(Autor: Baldomiro Soares)

Em Olhão esperava-o a sua muito dedicada esposa Cristina Estrela, filha de mestre Estrela, e seus filhos. Cristina e Baldomiro conheceram-se em S. Martinho da Baía dos Tigres onde mestre Estrela fixou residência e permaneceu durante vinte anos. Era natural de Santiago de Tavira mas foi para Olhão com oito meses. Considerava-se, por isso, um olhanense de gema.

AGRADECIMENTO E HOMENAGEM

Baldomiro Soares quis com esta obra homenagear e agradecer os seus salvadores. São bem sentidas as suas palavras:

«Esta obra é uma homenagem de eterna gratidão ao nosso salvador, o jovem marinheiro do barco de pesca espanhol "Tela I", bem como ao seu comandante e marinheiros, num dos momentos mais dramáticos da nossa viagem.

Um profundo agradecimento à Marinha de Guerra Espanhola, instalada em Vila Cisneiros, Sahara Espanhol (1975), aos seus Oficiais, Sargento mecânico e Marinheiros da corveta "Centinela W-33"

Um profundo agradecimento ao Patrão de Costa D. Tomaz Suarez Santana e sua ilustríssima esposa, pela recepção que nos dispensaram.

Ao povo de Vila Cisneiros pela calorosa recepção como jamais tive em minha vida.

Os Homens de grandeza Moral é que fazem as grandes nações.

Muito ... e muito Obrigado...»

«Dedico este livro à minha esposa, filhos e netos por todo o apoio e carinho que sempre me dedicaram e ainda ..................ao meu saudoso Pai, meu querido Herói...............»

O produto da venda desta obra é canalizado para instituições de caráter humanitário. Baldomiro Soares divide-se, hoje, pelo País que o acolheu, os Estados Unidos da América e a sua querida e eterna Olhão, Ilha da Culatra, onde nasceu, e Santa Luzia, onde moravam os seus avós.

Os olhanenses da diáspora teem uma forte ligação à sua Terra. Por mais que andem por este mundo jamais se esquecem do lugar onde nasceram, onde formaram o seu caráter aguerrido, patriota e profundamente humano. 



sexta-feira, 17 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 267 de 13 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira

25 de Abril


Numa altura em que se aproxima o Dia 25 de Abril, ao qual todos devemos esta coisa tão simples que é escrever livremente, será bom lembrar que para além da liberdade de expressão muito pouco se ganhou em termos sociais, políticos e económicos com isso.

Na verdade, como é costume dizer-se nestas ocasiões, que já foram  repetidas «n» vezes ao longo da nossa história portuguesa e da humanidade em geral, estabilizadas as elites e recompostas as estruturas de autoridade, a mudança (se isso se pode chamar) é apenas uma mudança de tom no baton e organização cosmética geral.

Na verdade continuamos a ser comidos periodicamente ao longo dos séculos, servindo em altura própria como carne para canhão, tipo bucha,  e expelido o projéctil lá vamos nós atrás, por vezes rodando no ar, até que a força da gravidade (a tal recomposição da autoridade) nos faça estampar no solo, algures entre uma pedra e um caule ou mesmo o defecado de um animal qualquer que por ali tenha passado.

Chateiam-se as pessoas, é um facto, e acredito que nunca tenha sido tão lembrada a tal de liberdade de expressão como nas alturas em que as pessoas levantam a sua voz, algures no recôndito dos seus lares, nas chamadas redes sociais ou até mesmo em cafés e esplanadas. 

Que alegria «deitar cá para fora» aquilo que nos vai na alma, utilizar em tão pleno quanto possível essa mesma liberdade de expressão e regressar a penates com o estômago pleno e adormecer no sofá após o término da telenovela, do debate, do discurso. Amanhã será outro dia e a vida recomeça, sempre da mesma forma: livremente livre, alegremente sem peias. Que mais pode desejar o ser humano ?

Talvez o século seguinte que este já começa a chatear.

Daniel Teixeira




quinta-feira, 16 de abril de 2015

BRINCANDO COM PAPAI - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)


BRINCANDO COM PAPAI

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
 Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS



João Vaz já tem casaco - Conto / Crónica de João Furtado


João Vaz já tem casaco

Conto / Crónica de João Furtado


Os últimos anos não foram dos piores, mas também não poder-se-iam afirmar que eram cor de rosas. Dava para comer e tinha alguma palha que servia para dar aos animais. Já tinham havido muitos outros anos piores. Os melhores anos serviam para que se pudessem casar, baptizar e crismar os filhos. Quem os pudessem fazer. Os outros contentavam com a esperança de que o próximo ano seria melhor e poderiam realizar os seus mais íntimos sonhos.

Até para morrer o felizardo era aquele que morresse pelo menos num ano igual ao que era aquele. Tinha a esperança de saber que a sua morte seria chorada e que as inesperadas visitas teriam o mínimo para comer durante as cerimónias fúnebres. Se bem que uma certeza levava. Todos iriam chorar as suas mortes. As mulheres os seus maridos. As filhas as suas mães. As irmãs os seus irmãos. As mães os seus filhos. As comadres os seus compadres. As amantes e rivais iriam aproveitar para se exporem as suas desavenças acumuladas.

Os parentes e familiares também iria aproveitar para se posicionarem e se darem a conhecer todas as pequenas mágoas do dia a dia. Mas o funeral seria digno dos anais da história, embora ele, a figura principal, pouco se destacaria.

A casa era a peça fundamental. Ninguém poderia sair das barras da saia da mãe, sem ter o seu funquinho (1) . Ainda que o mesmo funquinho servisse para cobrir a cabeça e deixar a chuva e vento o corpo. Bem, a chuva… era um bem quase esquecido. Embora os últimos anos não se pudesse afirmar a total ausência dela, mas também não se podia dizer que a bonança tinha enfim visitado as Ilhas. Todos tinham seu funquinho sim, «quem casa quer casa» não era apenas um adágio popular na Ilha, era uma realidade.

Não poder-se-ia afirmar era que as casas eram efectivamente casas. A maior parte delas de casas só tinham nome, mas enfim eram casa. Algumas pedras sobrepostas e cobertas de palhas. A maioria, por dentro, se tanto a sala era calcetada.

Mas para casar. Casar, mesmo casar, com padre e tudo de direito, eram muito poucos. Casar como o João Vaz pretendia oferecer a Isabel Lopes, era preciso o casaco. O casaco não estava ao alcance de qualquer um. Por isso muito casamentos eternos não passavam de arrumação dos trapinhos na esperança de que o próximo anos seria melhor e haveria a cerimónia com tudo de que era o direito da família. A esperança que transitava de ano para ano.

O João Vaz estava a namorar com Isabel Lopes anos e anos. A Isabel Lopes consciente da realidade estava disposta a «fugir» numa noite qualquer e no funquinho feito a pressa formar seu casamento. Sem roupa de princesa a varrer o chão, sem padre, sem padrinhos, sem nada. A Isabel Lopes não esperava ter o pedido de casamento. Ela sabia da realidade da terra.

A Isabel Lopes era namorada do João Vaz, embora ninguém oficialmente podia dizer com certeza. Todos sabiam que eles, ela a Isabel Lopes e ele o João Vaz tinham «suas aguas sujas» (2) mas como ninguém os viu próximos um de outro a mais de dois metros, como mandava a digna tradição dos mais velhos, podia afirmar que namoravam. As «conversas» com os olhos eram os únicos indícios visíveis. E, também eram as únicas recriminações da mãe da Isabel Lopes. No tempo dela havia mais respeito. Muito mais respeito.

A Isabel Lopes sentia-se mulher, não queria continuar nas barras da saia da mãe. Varias vezes fez o João Vaz saber disto por meio da prima, a pombo-correio dos dois. O João Vaz respondia sempre da mesma maneira:
 -Diga a Isabel Lopes que ela é a minha rainha, quero entrar com ela na igreja. Só me falta o casaco. Já tenho algum dinheiro, vou completar e comprar o casaco.

A Isabel Lopes esperava o casaco do João Vaz, esperava e desesperava. Os tempos não permitiam ao João Vaz a compra do casaco, por mais que se esforçasse.

O João Vaz trabalhava desesperadamente para comprar o casaco. A Isabel Lopes desesperava para deixar a casa da mãe e ter seu próprio funquinho. A Isabel Lopes mandou outro recado:
 - Diga ao João Vaz que não estou a aguentar mais, para ele arranjar o casaco o mais rápido que puder!

O João pouco podia fazer. O dinheiro não havia maneira de crescer, ia sempre para um remédio aqui, um grogue ali, dava emprestado ali e nunca mais recebia. Estavam nisto. Todos juntavam seus trapinhos. O João Vaz queria entrar na igreja com a sua rainha.

O José de Almeida tinha uma vida mais abastada. Não era muito melhor que os outros. Era menos pobre. Tinha pelo menos dois casacos. O João Vaz sabia disto, foi procurar o José de Almeida e propôs a comprar de um dos casacos. O José de Almeida mostrou os casacos. Dois ao todo. Eram apenas dois casacos. O João Vaz escolheu o castanho. O José de Almeida perguntou-lhe a cor das calças e dos sapatos. O João Vaz disse que as calças eram pretas e os sapatos… bem, não haviam sapatos! Era normal, os sapatos não eram importantes. O casaco sim. O José de Almeida disse que o preto era melhor. Descalço, com calças pretas e casaco castanho não deveria ser grande ideia. Depois chegou a hora de falarem de pagamento.

O José de Almeida queria dinheiro. O João Vaz só podia pagar com trabalho. O José de Almeida disse: -Esta bem, pode ser com trabalho, mas só levas o casaco depois de estar tudo pago. Não havia problemas, até porque o João Vaz não tinha onde guardar o casaco. Trabalhou, trabalhou e trabalhou. Fez de tudo. Não havia como acabar de pagar o casaco. Ia de manha e só regressava a noite morto de cansado a casa, mas não havia forma de acabar com a divida e levar para a casa o casaco.

Propôs trabalhar também de guarda. Passou a dormir lá. Trabalhava de dia, guardava de noite. Só assim poderia um dia levar o casaco para a casa.

A Isabel Lopes deixou de ver o João Vaz. Os olhos deixaram de se conversarem. Os sorrisos disfarçados e comprometedores deixaram de ser feitos. Os sonhos começaram a esfumarem-se. A pombo-correio da prima bem se esforçou, mas nada de João Vaz.

O assédio do Manuel Ferreira que nunca foi tomado em conta começou a ter resultado. As mesmas acções começaram a aparecer de novo. A pombo-correio da prima retomou as idas e vindas por algum tempo, mas o destino passou a ser outro.

Numa manha normal, como outra qualquer, ouve-se choros e gritos na casa da mãe da Isabel Lopes. Todos pensaram no pior e correram para ajudarem e aproveitarem para chorarem os seus mortos. Graças a Deus não era o pior. Foi um alívio e uma decepção. Mais alívio que decepção. Os mortos podem esperar mais alguns dias para serem chorados. A Isabel Lopes havia «fugido».

Todos pensaram que ela estava na casa do João Vaz, mas não estava. Passados os prazos da praxe que a situação exigia ela apareceu, toda envergonhada acompanhada da família do Manuel Ferreira.

Esta, a família do Manuel Ferreira, toda contrita com a situação delicada, colocada pelo doidivanas do filho que não havia pensado nas consequências do acto:
 -Agora somos uma família – dizia a mãe do Manuel Ferreira e sogra da Isabel Lopes – eles já fizeram o que não deviam. Agora temos que os deixar organizarem. Dou a minha palavra de honra que irão casar na próxima «as aguas» (3)!

Houve choro. Era o fim do nojo inesperado e curto. Depois veio a festa. Houve matança de porcos. A mandioca e o cuscus (4) não faltaram. Estavam preparados. Ninguém sabia. Mas o recado recebido uma semana antes «no próximo sábado iremos ai!» era esclarecedor, Já estavam a espera. A festa durou toda a noite.

Enfim o João Vaz conseguiu pagar o casaco. Tomou a casaco. Fez questão de vestir e ir passar mesmo a frente da casa da mãe da Isabel Lopes. Queria que a Isabel ou a prima o visse vestido de casaco. Iria arranjar uma delegação de pedido da noiva.

Quando aproximou-se ouvi o barulho das batucadeiras (5) . Havia festa na casa da mãe da Isabel Lopes. Perguntou o que estava a passar. Todos sabiam do namoro de João Vaz com a Isabel Lopes. Não tiveram pena dele, deram a noticia o mais cruel possível:
 -Isabel Lopes saiu de casa com Manuel Ferreira e foi apresentada a casa dos pais ontem.
 O João Vaz caiu estatelado no chão. Desmaiou. Mas ainda pode dizer:
 - Eu já tenho o casaco!

O João Vaz nunca mais tirou o casaco. Nem de dia, nem de noite. Dizem que passou a dormir com casaco. A frase dita no momento de desespero tornou-se popular.

Ainda hoje diz-se sempre que alguém tenha algo que muito desejou e não havia conseguido antes – DJON BAZ DJA TEN KASAKU – o que quer dizer, João Vaz já tem casaco.

Sim João Vaz conseguiu casaco, mesmo que lhe tenha custado a perda da sua rainha, Isabel Lopes.



(1)- Funquinho – cubata de pedras, normalmente em forma circular, coberto de palha.
 (2) - aguas sujas – segredos, gostavam um do outro
(3) - As Aguas - Época das chuvas. Época produtiva
 (4) - Cuscus – Pão de farinha de milho cozido a vapor.
 (5) - Batucadeiras- Mulheres que tocam batuco. Colocam pano dobrado sobre a perna, onde com as mãos, no ritmo cadenciado do batuco, batem sobre o pano.

João Furtado



Assédio Sexual - Por Laé de Souza


Assédio Sexual - Por Laé de Souza

Nos tempos atuais, corre-se grande risco em uma simples paquera, que pode ser interpretada como assédio sexual, com direito à vítima de ação de indenização por danos morais. O problema maior é que geralmente a coisa toma uma dimensão com publicidade, fazendo a vítima ser mais vítima e o incriminado ser mais vilão ainda, e recriminado com veracidade mesmo pelos homens que, quer queira ou não, já deram uma paqueradinha , mesmo que descompromissada .

O Mike Tyson que cumpriu pena pelo crime, e viu-se acusado novamente de assédio. Certamente deixará de freqüentar boites e casas noturnas.

O Luxemburgo está sendo acusado de assédio, se bem que para mim, do jeito que foi contado pela distinta senhora, o ato se apresenta mais como tentativa de estupro do que assédio, pois segundo ela, o treinador após insinuar-se, tentou agarrá-la. Chamar uma manicura para fazer o trabalho em seu quarto, sem dúvida é expor-se a risco. Por isto, Casa de Massagem, só freqüento com uma pessoa do lado como testemunha de que a mulher praticou seu oficio sem ser molestada.

Dias atrás um médico foi filmado, quando no exercício de suas funções de ortopedista, para examinar o joelho de uma paciente-repórter, mandou que ela se despisse. Ficando a paciente só de calcinhas e com um avental aberto às costas, ele por trás, em cena constrangedora, foi acusado de boliná-la. Questionar que a moça insinuou-se e estimulou a ação é problema da defesa e não nos compete, principalmente pelo excesso, mas deve ser considerado.

Recordo-me com saudade das várias cantadas na Ritinha , para que conseguisse grandes noitadas, e que não me arriscaria hoje. E certamente com uma só ela não iria; Das flores enviadas para a Claudine, com discreto cartão; Dos olhares meloso para Dirce; Dos cumprimentos com beijos longos na Carol ; Dos constantes elogios aos cabelos da Marlene. E outras e outras que deram certo. Coisas do passado. É preferível ser chamado de bobo por não perceber "bolas" de uma mulher a responder um processo e ser apontado como desavergonhado. Esta proliferação, cria inibição e se solteiro fosse, não teria coragem de convidar minha própria mulher para um início de namoro.

Diante dos acontecimentos, criei certas precauções, que embora contra a minha natureza procuro seguir: Não convido uma mulher para dançar por mais de uma vez; não olho para uma mulher nos olhos ou nas pernas; evito estar sozinho e entrar em elevador cheio; se der carona, ela tem que sentar no banco de trás; não me dou a gentilezas que prenuncie exageradas; não convido nenhuma para tomar um sorvete ou um chope e recuso convites. Claro que por conta disto, deixaram de ocorrer romances e histórias de amor. Mas também, tem uma: Se levar cantada de alguma, deixo de lado meus princípios, faço alarde e denuncio por assédio, por que daqui para frente os direitos são iguais.




SUBTILEZAS - Conto / Crónica de Liliana Josué


SUBTILEZAS

Conto / Crónica de Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

 Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

 Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

 Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

 Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

 Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

 A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
 Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

 A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

 Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

 Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

 A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

 Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.




O último voo do Flamingo - Por Arlete Deretti Fernandes


O último voo do Flamingo

Por Arlete Deretti Fernandes

Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu na Beira, Moçambique, em 1955. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique, da Revista Tempo e do Jornal de Notícias de Maputo.

Tornou-se nestes últimos anos um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de Língua portuguesa. O seu trabalho sobre a língua permite-lhe obter uma grande expressividade, por meio da qual comunica aos leitores todo o drama da vida em Moçambique após a independência. Os seus livros estão traduzidos para o francês, inglês, alemão, italiano e espanhol. Publicou: Poesia, Contos, Crônicas e Romances.

Sobre o Texto de «O Ultimo Vôo do Flamingo»

Tizagara, nos primeiros anos após guerra. Nesta vila parece que tudo corre bem.

Os capacetes azuis chegaram para vigiar o processo de paz, e a vida da população transcorre numa aparente normalidade. Porém, devido a razões que todos desconhecem, os capacetes azuis começaram subitamente a explodir.

Massimo Risi, o soldado italiano das Nações Unidas destinado para investigar as estranhas explosões, chega em Tizangara. É-lhe colocado um tradutor à disposição, e através do relato deste tomamos conhecimento dos fatos.

Entra-se num mundo de vivos e mortos, de realidade e de ficção, de feitiçarias e de sobrenatural, que passam por nós em personagens densamente construídos, do qual o feiticeiro Andorinho, a prostituta Ana Deusqueira, o padre Munhando, o administrador Estevão Jonas e a sua mulher Ermelinda, a velha - moça Temporina, o velho Sulplício, são apenas alguns exemplos...

O mistério torna-se maior. Os soldados da paz, morreram ou foram mortos? Com toda a sabedoria da Velha ??frica, Mia Couto mostra-nos, uma vez mais na ironia, no humor, no espírito crítico, na palavra cáustica, no recurso à metáfora e no simbolismo das frases, o seu absoluto domínio da escrita e da língua portuguesa, o conhecimento e o amor profundo que tem e dedica a esse belíssimo e atormentado continente, no magnífico romance, O Último Vôo do Flamingo.

PERSONAGENS:

Massimo Risi – Funcionário das Nações Unidas, italiano que veio a Tizagara investigar por qual razão os soldados da ONU estavam explodindo, ficando-lhes intatos somente o pênis.

Estevão Jonas - Administrador da vila de Tizangara, suas ações corruptas o levaram ao enriquecimento.

Narrador de Tizangara - tradutor de Massimo Risi e filho do velho Sulplício a serviço da administração de Estevão Jonas.

Chupanga – o adjunto do administrador.

Sulplício – velho pai do narrador de Tizangara.

Andorinho – o feiticeiro da Vila.

Ana Deusqueira – a prostituta da vila, que tinha uma sabedoria invejável.

Munhando – O padre de Tizangara.

Ermelinda – A mulher do administrador da Vila, amante do supérfluo, gostava de exibir suas jóias.

Temporina – era uma mulher de corpo belíssimo, mas com o rosto de velha. Ela tenta passar para Massimo as crenças africanas, segundo as quais os antepassados continuam vivos após a morte e interferem no mundo dos vivos.

Mãe do Narrador – A mulher que criou o mito do vôo do flamingo.

Momento histórico do Romance

O romance acontece no período pós guerra civil em Moçambique. Os soldados da ONU vão até lá para investigar o processo de paz e desmontar os dois milhões de minas terrestres colocadas em Moçambique durante a guerra civil de 1977 a 1992. Nesta época, que chega até o momento presente, antigos ativistas de esquerda que estão a comandar o governo, empreendem um jogo de poder, na maior parte baseado no favorecimento e na indiferença à cultura e ao povo de Moçambique.

A Linguagem do romance

Mia Couto apresenta um estilo de escrita que procura trazer as diferentes línguas do povo de Moçambique. O autor hibridiza ao máximo a língua portuguesa de Moçambique, pelo uso das palavras das múltiplas etnias do povo de Moçambique, (chanfuta, árvore – kufa mbalame, mata o pássaro; machamba, terreno agrícola, etc.)

O autor também cria vários neologismos.

Ao hibridizar, Mia Couto realiza o movimento de não desconectar as políticas lingüísticas das culturas que constituem as identidades de um país e rompe com a visão moderna em que o saber e a razão pressupõem a pureza e a gramática de uma língua.

O Foco Narrativo

O narrador de Tizangara diz: «Fui eu que transcrevi, em português visível, as falas que daqui se seguem. Hoje são vozes que não escuto senão no sangue, como se a suja lembrança me surgisse não na memória, mas no fundo do corpo. [...] Assisti a tudo o que aqui se divulga, ouvi confissões, li depoimentos. [...] Agora vos conto tudo por ordem de minha única vontade.» (p.9)

O romance aborda questões políticas, culturais, questões de raça e identidade, questões de colonialismo, questões lingüísticas, questões de ironia e questões feministas.


Natália Correia - à frente do seu tempo... - Por Maria Petronilho


Natália Correia - à frente do seu tempo...

Por Maria Petronilho

 Nasceu a 13 de Setembro de 1913, saiu da ingrata vida a 16 de Março de 1993

«Será preciso passar uma década sobre a minha morte para começarem a compreender o que escrevi. Sei-o porque o sinto. E vai ser a partir dos Açores que isso acontecerá.???

Natália Correia nasceu adiantada no tempo, para o anunciar, antecipar. Poetisa, dramaturga, romancista,, ensaísta, deputada, editora, pintora, tradutora, marcou a vida portuguesa, abalou os pés de barro dos deuses que atabafavam a cultura portuguesa.

Concebia, à semelhança de Teixeira de Pascoaes, «a poesia como uma profecia» e o «poeta como um profeta».
Na sua obra, celebra o ser humano como «andrógino» (recordemos o vocábulo que inventou, «Mátria»); o ser completo; uno e plural. O Desejado, o que contém a esperança e a resistência. Pedro e Inês, símbolos da paixão, da volúpia pela morte. Da Ilha, espaço do sagrado, da esfinge, da iniciação.

 Bate-se pela recuperação do excelso, do politeísmo, do feminismo, do barroco, do diferente. E pelo repúdio da crucificação, da massificação, do descontrolo demográfico... numa terra onde se morria de fome.

«Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros?», interrogava, interrogava-se.

A participação política foi-lhe, desde muito cedo, uma constante. Introduzida nos círculos da Oposição (fase em que foi jornalista), depressa se destacou na luta contra a Ditadura, apoiando as campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Após a Revolução dos Cravos, aceita ser deputada independente.

«Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento». Utilizando como ninguém a riquíssima tradição cultural de escárnio e maldizer da nossa poesia. As causas, as pessoas do coração e do sonho, da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação... que fazia penetrar com mestria e elegância.


«Não me mato
Antes me zango
Até ficar um cato
Quem me tocar, maldito
Que se pique»

Glória te seja dada, Natália Correia, agora e sempre... enfim! 


 
Notas Biográficas de Natália Correia

Natália de Oliveira Correia nasceu em Fajã de Baixo, na ilha de São Miguel nos Açores em 13 de Setembro de 1923, e morreu em Lisboa a 16 de Março de 1993, foi uma intelectual, poetisa e activista social, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República de 1980 a 1991, interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Foi a autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC)

 A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Foi uma figura central das tertúlias que reuniam em Lisboa nomes centrais da cultura e da literatura portuguesas nas décadas de 1950 e 1960. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.

 Notabilizou-se através de diversas vertentes da escrita, já que foi poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora, tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, com o programa Mátria, onde advogou uma forma especial de feminismo – afastado do conceito politicamente correcto do movimento — o matricismo —, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria.

 Dotada de invulgar talento oratório e grande coragem combativa, tomou parte activa nos movimentos de oposição ao Estado Novo, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do general Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, considerada ofensiva dos costumes, (1966) e processada pela responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Foi responsável pela coordenação da Editora Arcádia, uma das grandes editoras portuguesas do tempo.

 A sua intervenção política pública levou-a ao parlamento, para onde foi eleita em 1980 nas listas do PPD (Partido Popular Democrático), passando a independente. Foi autora de polémicas intervenções parlamentares, das quais ficou célebre, num debate sobre o aborto, em 1982, a réplica satírica que fez a um deputado do CDS sobre a fertilidade do mesmo.

 Fundou em 1971, com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, o bar Botequim, onde durante as décadas de 1970 e 1980 se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa. Foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), David Mourão - Ferreira («a irmã que nunca tive"), José-Augusto França («a mais linda mulher de Lisboa»), Luiz Pacheco («esta hierofântide do século XX»), Almada Negreiros, Mário Cesariny («era muito mais linda que a mais bela estátua feminina do Miguel Ângelo»), Ary dos Santos («beleza sem costura»), Amália Rodrigues, Fernando Dacosta, entre muitos outros. Foi uma entusiasmada e grande impulsionadora pelo aparecimento do espectáculo de café-concerto em Portugal, na figura do polémico travesti Guida Scarllaty, o actor Carlos Ferreira, na época um jovem arquitecto de quem era grande amiga. Na sua casa, foi anfitriã de escritores famosos como Henry Miller, Graham Greene ou Ionesco.

 Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro Sonetos Românticos. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago.

 Natália Correia casou quatro vezes. Após dois primeiros curtos casamentos, casou em Lisboa a 31 de Julho de 1953 com Alfredo Luiz Machado (1904-1989), a sua grande paixão, bem mais velho do que ela e já viúvo, casamento este que durou até à morte deste, a 17 de Fevereiro de 1989. (São já notáveis as cartas de amor da jovem Natália para Alfredo Luiz Machado.) Em 1990, tinha Natália 67 anos de idade, celebrou um casamento de conveniência com o seu colaborador e amigo Dórdio Guimarães.

 Na madrugada de 16 de Março de 1993, morreu, subitamente, com um ataque cardíaco, em sua casa, depois de regressada do Botequim. A sua morte precoce deixou um vazio na cultura portuguesa muito difícil de preencher. Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa), constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.