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quinta-feira, 16 de abril de 2015

A evolução da Linguagem e a Gramática - Por: Daniel Teixeira


A evolução da Linguagem e a Gramática



Por: Daniel Teixeira

Os antigos discutiam muito sobre se a gramática seria «empeiria», isto é, experiência em acto, pura e simples, ou técnica (tecnhé), quer dizer, um complexo de regras, de noções, coordenadas por um critério e destinadas a preencher uma finalidade. Todos facilmente concordaram que Gramática era uma técnica e procuraram por conseguinte construir o respectivo sistema.

O carácter normativo que acompanha a prática do ensino linguístico tinha forçosamente de levar a esta definição do conceito de gramática como um complexo de noções destinadas a um fim. Pelo próprio facto de pretender pôr o discente em condições de se servir de um meio expressivo mais cuidado e aperfeiçoado, e portanto diverso em medida maior ou menor do que lhe era fornecido pelo ambiente natural imediato, esse ensino desenvolve-se através de aperfeiçoamentos que vão das particularidades de pronúncia e da propriedade lexical, à esquematização normativa da estrutura da frase e do período em que se desdobra a actividade discursiva.

A intenção didáctica surgiu, sem qualquer espécie de dúvida, da necessidade de compreender os valores semânticos escondidos em tantas fórmulas da poesia homérica, que, com o tempo, se haviam tornado incompreensíveis.

Nunca devemos esquecer que a consciência crítica acorda na Grécia em função da exegese e da compreensão dos dois poemas que se impõem à totalidade do mundo grego como a primeira nascente de todas as verdades ( Ilíada e Odisseia ).

Enquanto a aquisição da língua se desenrola no âmbito da «empeiria» (experiência), e tendo-a por guia a tal ponto que se processa o impulso da imitação instrutiva, desde volitiva a determinado sistema expressivo, surge a necessidade de uma norma na qual o acto linguístico possa encontrar a sua plena justificação.

Neste aspecto cumpre esclarecer um pouco mais aquilo que se pretende afirmar nesta parte do texto: o facto de a aquisição da língua se processar no domínio da experiência (empeiria) não implica que a referida experiência (imitação) não tenha por pano de fundo um processo consciente e racionalizado. Não confundir experiência com costume, embora as fronteiras entre uma e outro nem sempre sejam nítidas.

Aliás, no domínio da experiência (empeiria) podemos encontrar desde o processo coordenador das sensações a que Kant chamou de pensamento até à sensação simples, ou seja, sem qualquer processo de reflexão / comparação / dedução. Que a experiência, entendida neste plano, não é acto de razão, ou seja, acto filtrado pelo intelecto , parece-nos claro.

De reparar que a gramática, pelo menos a formalização da mesma através de regras mais ou menos fixas, é posterior ao começo da escrita e da fala. Em certo sentido pode entender-se que os gramáticos, inicialmente, mais não fizeram do que recolher e ordenar as regras espontâneas já existentes e através das quais se movia já a linguagem.

A assunção da gramática, como facto definido e determinado, não nega a existência de uma gramática espontânea. O mesmo aspecto pode encontrar-se na linguagem gestual: ou seja, ela existe enquanto tal e contém em si já algumas regras que, ainda que não totalmente descritas ou fixadas, acabam por funcionar como parâmetros mínimos sistematizadores da linguagem gestual: a uns parâmetros e aos outros referidos atrás chamam-se parâmetros naturais.

A sistematização gramatical surge, assim, por necessidades didácticas. Não se pode ensinar ou aprender algo que não contenha em si um sistema seguro e a gramática esclarece a funcionalidade do sistema, fixando-o no esquema ideal, e todavia real, da norma.



JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva


JORNADA CREPUSCULAR - Por Mário Matta e Silva

Crónica a Bocage



Só nas memórias te encontro Bocage

Vem de veludo vestido o crepúsculo que desce sobre nós em traços de ouro fino, em ondas de volúpia, e vai escurecendo tão lentamente que o sol se apressa a esconder atrás de uma nuvem mais aveludada ainda e mais macia.

Parado, à porta de um café conhecido de Lisboa, imobilizo ali comigo a memória, que arrasta tempos, datas, pessoas, que o passado devorou, sem comiseração dos nossos semblantes pesados e das rugas insistentes, que se cruzam na pele que o tempo crestou.

Tinha acabado de ver de novo a estátua imponente de Bocage, ali dentro do Nicola, e este imortal poeta de Lisboa desventrada e crua, traça-me caminhos percorridos, com a gravação a ouro velho do seu nome, que em tertúlias poéticas, lança o brilho dos seus cristalinos desabafos, em poesia, e sempre, sempre aquele murro no estômago feito de polémicas, que em sua memória sabem a liberdade.

O vento sopra fino e áspero nas minhas faces enquanto se dá a jornada crepuscular que me leva até a esse poeta de olhos doces, gingão mas altamente arrojado. Muitos dizem que o conhecem, mas vão-lhe buscar apenas a primeira faceta, a de gingão, esquecendo-se que foi dos primeiros, que, arrojadamente, em pleno Despotismo (Absolutismo) arrancou gritos de apelo à liberdade, à igualdade, à fraternidade.

O nosso Vate Sadino, como não se esquece de lembrar a amiga Maria América Miranda, trás em uníssono aqueles que conhecem bem o Bocage dessa estirpe de homens que antes quebrar que torcer…

Ouve-se um trovão, aclara-se o fim de tarde com um relâmpago breve mas respeitável, e chove miudinho, em pleno tombar da bruma crepuscular… então ocorre-me a tertúlia no átrio do Teatro D. Maria II, as discussões que dela saiam, os poemas que se diziam a meio das tardes, sempre na euforia dos enaltecidos rompantes bocageanos.

Rio-me ao puxar pela memória, pois nela registei também os espectáculos, em nome e homenagem a Bocage, e organizados por essa mesma tertúlia, no padrão dos descobrimentos, que traziam o Vate Sadino pelos caminhos da decência, enquanto, pelas livrarias e bibliotecas continuava a ver coisas horrorosas sobre pouco mais do que as anedota do mesmo Poeta (diga-se até que algumas lhe foram convenientemente atribuídas).

Velhacarias, penso eu, de quem só sabe ver o lado escuro dos sobejados dias que caem, que nem morfeus, nos braços tépidos das diáfanas crepusculares de Setembro (mês em que Barbosa du Bocage nasceu).

Passaram anos, tempos que nos separam ou aproximam, em grupos de debate, tertúlias de poesia, várias e animadas, e voltamos de quando em vez a esse romântico, arremessado à devassa pela maldade, dos que fazem dessa figura delgada e pálida, exaltado e corajoso, metido a ferros, por apelo às liberdades, as piores acusações.

Ainda não há muitos meses uma série televisiva dava, sobre a vida de Bocage, o golpe de misericórdia, não só nesse exemplar poeta, mas até numa sociedade inteira, dos finais do Século XVIII, mostrando só depravação, imoralidade, ruelas de entulho, de bêbados, de prostitutas, de devassos etc… como se fossemos crivados por um certo fado feito de «orgulho» balofo, enfiado na imundice de Lisboa.

Que foi dos primeiros arautos do romantismo e das liberdades não se falou, e nem se enalteceu o motivo mais próximo que esteve na base das acusações que lhe foram feitas por Pina Manique, até o encarcerarem no Limoeiro.

Só nestas memórias te encontro Bocage, num abraço fraterno, orgulhoso de ti! O crepúsculo, esse, visto também pelo seu lado menos risonho, é um manto aveludado mas escuro que nos engole…e a maldição dos homens também!



terça-feira, 14 de abril de 2015

O POLITICAMENTE (IN)CORRECTO - Por Manuel Fragata de Morais


O POLITICAMENTE (IN)CORRECTO

Por Manuel Fragata de Morais



Se alguém te enganar uma vez, a culpa é dele;
 Se te enganar duas vezes, a culpa é dos dois;
 Se te enganar três vezes, és o único culpado.
 (Ditado popular alemão)

O conceito do politicamente correcto ainda é relativamente novo entre nós, para não dizer quase desconhecido. Já corrigimos algumas posições, chegamos aos deficientes físicos em vez de aleijados, já dizemos com deficiência visual e invisuais, em vez dos cegos. E um passo que abre o caminho a novas reflexões, que poderão levar à alteração no nosso uso da linguagem, e não só, em relação ao próximo.

A medida que as sociedades evoluem, assim evoluem os conceitos, as tradições e a visão que fazemos do mundo e do nosso lugar nele. O que em outra hora levou cientistas à fogueira ou à renúncia pública das suas convicções, são hoje leis reconhecidas da física, da astrofísica, da física quântica, da matemática, etc. Todavia hoje, no terceiro milénio e no século XXI, ainda encontramos conceitos, frases soltas, palavras que, de tão banalizadas, não ferem a nossa sensibilidade de humanos, de cristãos, ou puramente de pessoas de fé e da fé, seja ela qual for.

Quero hoje falar-vos de uma dessas aberrações, ligada à cor da maioria das pessoas do nosso continente, ou seja, a negra, e que nos passa despercebida, nestes dias do politicamente correcto. O dicionário que consultei, traz 26 palavras com o radical negro, e delas, uma ou duas únicas não contêm a conotação negativa, o conteúdo pejorativo. Não vou aqui mencionar todas, mas sim algumas daquelas que nos são mais conhecidas e aceitáveis e que, por esse facto, nos tornaram cegos face a nós mesmos, independentemente da coloração da nossa epiderme.

Para começar, quem não tem na família uma ovelha negra? Para nós, aqui em Africa, pela razão epidermicamente inversa, faria muito mais sentido termos uma ovelha branca na família quando o parente não encaixasse, não é?

Quem de nós nunca esteve, ou está, numa lista negra, por aquilo que pensou, que disse, fez ou que escreveu? Acho que, neste caso, a lista deveria ser da cor do papel em que foi elaborada ou, para os mais artísticos, às bolinhas azuis com riscas castanhas.

Quem nunca ouviu falar das famosas caixas pretas dos aviões, mesmo sendo elas de facto amarelas?
 Quando necessitamos de trocar o dinheiro em situações que nos são mais avantajadas, não vamos fazê-lo no mercado negro, quer seja na Mongólia quer na Patagónia?

E quando a vida nos cria situações que só são o resultado da iniquidade ou da falta de sorte, não corremos lestos para o mestre kimbanda as eliminar recorrendo à magia negra? E se o técnico mestre falha, não ficamos frustrados numa danada de maré negra?

Por fim, o diabo, o demo, o belzebu, o satanás, embora a tradição cristã o apresente como um chifrudinho vermelho vermelhinho até ao enroscado rabo, é geralmente tido como negro. E o pecado, sua mais vistosa arma, assim o sendo de igual modo.

Foram pois estas, a nível do pensar e da expressão, parte das mensagens subliminares que determinada civilização criou para impor durante largos séculos sobre outras mais beneficiadas com melanina, seus vários ditames.

Estamos na era do politicamente correcto, para além da própria tomada de consciência, para se começar na família, nas escolas, nas igrejas sobretudo, enfim, em todo o lugar, a irradiar esses conceitos e atitudes, sem receios.

As únicas situações que conheço, e não digo que não haja mais, em que radical negro é usado positivamente, são a negritude, como corrente ideológica e cultural surgida modernamente entre os povos negros africanos, de luta contra a opressão colonialista e de valorização da civilização africana, enfim, do mundo negro em geral.

Os que trabalham com números e contas sabem que contabilisticamente estar no preto é óptimo (to be on the black), já que quando há insolvência está-se no vermelho, pois esta é(ra) a cor da tinta que se usa(va) para o efeito.

E, finalmente, como estou a fazê-lo aqui, pôr o preto no branco sobre o que penso desta questão, negritando-a a fim de que sobressaia.



 Publicada por FRAGATA DE MORAIS


Do livro de Crónicas Memórias da Ilha




Prosa poética de Joaquim Nogueira


Prosa poética de Joaquim Nogueira



 ... A MEDIDA DO AMOR; … o tempo demasiadamente lento; …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto 



... A MEDIDA DO AMOR



...um dia, há milénios passados, perguntei se amar tinha medida, ou peso, ou tamanho; nessa altura, a minha caminhada ainda era prematura e ainda muito «verde» nos caminhos da vida… e nunca ninguém me soube responder e eu, ainda que repetindo a pergunta muitas vezes, nunca sabia «como» amar; se amar deste tamanho, se amar com este peso, se amar de determinada forma ou feitio… se amar tivesse medida eu queria amar com o máximo que ela tivesse...

um dia, há milénios passados, deixei de me preocupar com a forma, com a medida do Amor; pela simples razão de que, durante toda a minha demanda, jamais houvera encontrado essa mesma bitola, essa fita métrica ou essa balança... e foi nesse momento, quando deixei de procurar como é que deveria Amar, de que forma é que deveria «usar» o Amor (como que fosse um componente para se fazer um bolo), que eu descobri que o Amor não tem medida...

o Amor jamais se pode medir, o Amor apenas, é... é amando, é dando-nos completamente numa entrega absoluta, que se consegue amar... e quem o conseguir fazer, para além de tudo o que possa transmitir aos outros, será ele mesmo, uma pessoa inteiramente feliz... não, não amo muito... não, não amo com todas as forças da minha alma... não, não enlouqueço...
 ...amo, apenas...

 

 … o tempo demasiadamente lento

 … o tempo demasiadamente lento… as horas e os dias demoram eternidades… sente-se a pressa e as saudades… é preciso que as horas voem… é preciso que a manhã do dia seguinte surja rápida com a certeza de mais um dia que passou… é menos um dia na contagem voraz de quem sente desejo de um novo encontro para sentir a tal paz…

a serenidade do abraço que nada tem de sereno mas de forte, de pura ternura e ao mesmo tempo de paixão… rege-se então a dádiva da presença… gostosa… imensa… e os corpos se abraçam num rodopiar sem fim, num beijo prolongado, doce, com sabor a jasmim… e a ternura e o amor não termina ali… prolonga-se na alma do sentir que se ama… perde-se então a noção do tempo que se ganhou na espera…

é um momento mágico aquele em que enlaçados, deixamos de ser o que somos para passarmos a ser o beijo de um tão doce e eterno desejo…

 

 …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto

 ...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso… a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim… brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras… a beleza em ti não residia nem morava … era!…

A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar… a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia sensual de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade… e tu, demoravas…

da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam… e a tua cama, ansiava pela tua presença… e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo… levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença… olhaste de soslaio e sorriste… sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria…

Tiraste os teus pezinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito… a tua cama nem sequer se moveu… aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder… a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento… deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos…

Teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligares... os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia… e a tua cama sentia… na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão… olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente… avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento…

a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente… em suas mãos te acabavas de entregar… e o sono chegou…. adormeceste… não sei mais o que se passou… a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu… a tua cama não se movia, com receio de te acordar... abraçava-te sempre para não te deixar fugir… sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali… tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas… a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha… sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia… nada mais desejava… queria apenas ser o teu sonho…




Valores reais - Daniel Teixeira


Valores reais


Daniel Teixeira


Este titulo e uma parte do texto / argumento é «emprestado» pela nossa amiga e colaboradora do Jornal Raizonline, Renata Rimet, residente na Baía (desculpem lá escrever à portuguesa) e que tem um poema precisamente com este titulo colocado de forma poetizada.

Peço desculpa de não ir agora ver qual a forma exacta utilizada por ela mas esse poema foi publicado no jornal e o que me interessa aqui (para além de plagiar pelo menos parte do título e a ideia de parte do seu conteúdo) é fazer a destrinça que ela faz no seu poema de uma forma mais alongada.

Como sabem não sou poeta nem sintético: poeta gostaria de ser mas ser sintético / sumarizador já é outra coisa e francamente não vou mudar, provavelmente nunca.

O poema da Renata retrata um assalto a um autocarro (não me lembro como se diz no Brasil e estou mesmo atrasado neste texto e não dá para andar a fazer pesquisa - aliás tenho horror ao termo, parece-me que é onibus...

Bem, continuando: no referido assalto o autor do mesmo não leva nada dos valores que quer, mas rouba, segundo a Renata - e com toda a razão - sentimentos às pessoas. Intimidade exposta (quer dizer aquelas coisas que por vezes se levam nas malas ou nas algibeiras ou nas mochilas e que fazem parte da nossa intimidade e que não gostamos que os outros vejam), devassa dos nossos pertences (algumas coisas compradas nos chineses aqui em Portugal, por exemplo e que são conotadas com a penúria pessoal por as termos comprado, o que é paradoxal, mas já veremos isso).

Bem, o que está em causa na descrição poética da Renata é o facto de uma determinada atitude ou comportamento (neste caso um assalto à mão armada ainda por cima) trazer prejuízo a quem o sofre mesmo que não traga, como não traz, vantagem ao outro ou ao criminoso - neste caso.

Pois por mais estranho que lhes possa parecer e tomando a posição do outro (sem crime como é claro) eu posso não obter nada do que quero, retirar (comprando) a outro algo, mas, por uma posição de escala de valores isso não me servir para nada ou para muito pouco.

Se fizerem uma viagem com os olhos - não precisam mexer-se do sofá - verão à vossa volta pelo menos dezenas de coisas que não servem absolutamente de nada e nem sequer já para regalo da vista, como foi o caso daquele pote chinês que se comprou quase compulsivamente num dado dia, que se adorou durante uma semana ou um mês e que acabou por ser arquivado no nosso circuito de atenção.

Pois a sociedade de consumo é assim: as coisas são compradas (e não roubadas (!); a Renata aqui entra de férias neste texto) muitas vezes por impulso. A nossa necessidade natural de novidade, de ver ou fazer diferente, é excessivamente explorada pela nossa envolvência, seja ela comercial ou não.

Depois existe também uma tendência também quase natural para seguir e por vezes perseguir o outro: na minha infância por exemplo lembro-me bem que as coisas desejadas, mesmo de melhor qualidade, se enquadravam quase sempre no necessário: quer dizer, comprar uma mobília ou um colchão melhor, um sofá, uma televisão com um ecrã maior (naquele tempo - agora é com maior fidelidade de imagem), enfim...mesmo que já houvesse uma descolagem do reino do aperfeiçoamento do necessário ameaçando a descambada no supérfluo, ainda havia uma relação com a base que se foi depois afastando progressivamente. Agora andamos constantemente de avião, neste plano...

Perseguir o outro foi a fase seguinte à fase primitiva: começámos a desejar não só o que nos fazia falta como começámos também a desejar o que fazia falta aos outros (vizinhos, familiares, meros conhecidos e os meros desconhecidos que colocavam coisas nas montras - todas elas apetitosas diga-se).

Ficámos assim despojados dos valores reais, dos reais valores, com os quais ainda temos alguma ligação que muitas vezes falseamos oportunistamente: uma coisa não nos faz falta mas dentro das caves do nosso raciocínio encontramos presto para ela uma «utilidade». Esta estante ficava mesmo a matar ao lado da outra que temos naquela  nossa cave onde só vamos duas vezes por ano para borrifar o insecticida.

Breve...temos, de uma forma geral, e descrita de forma exagerada como se requer, uma necessidade grande de «comprar», de ter novo ou diferente...

Ora, sem que isto se aplique senão de forma abstracta, porque razão não direccionamos nós esta forma de desejar para aquilo que mesmo sendo considerado por vezes supérfluo, faz de facto também falta, como a cultura (?) ...

Porque aceitamos (generalizo de novo) melhor um novo modelo de automóvel do que um filme bom? (que até sai bem mais barato...).

Bem, no fundo todos sabemos porquê: é mais fácil encontrar um plasma numa casa relativamente degradada do que uma estante de livros: um é um símbolo de poder o outro é um símbolo do saber e o saber já não se usa. Usa-se a esperteza e essa compra plasmas, carros ultimo modelo e tudo o resto.

Por isso (mas não só por isso) estamos como estamos um pouco por todos os lados deste nosso planeta. A esperteza no entanto é um «bem» de carreira curta, sempre o foi e os espertos nunca acreditaram nisso e ainda não acreditam.

Daniel Teixeira






sábado, 11 de abril de 2015

O Fantasma Caminhante (Conto) - Por Arlete Piedade Louro


O Fantasma Caminhante (Conto)

Por Arlete Piedade Louro

Numa terra muito distante, bem ao norte da velha Escócia, no pico mais alto de uma montanha gasta pelo tempo e erodida pelos temporais que chegavam do mar do Norte, erguia-se um castelo sombrio de torres altaneiras e espectrais.

Não se sabia se o castelo era habitado, nas montanhas em redor não havia ninguém que o pudesse saber, mas velhas lendas passadas por tradição oral de pais para filhos, relatavam que era assombrado por fantasmas como aliás todo o castelo escocês que se preze.

Constava que há centenas de anos, quem sabe até milénios, o castelo era habitado por um orgulhoso conde, senhor de todas as terras em redor, até ao mar a norte, a ocidente e oriente, e até á grande cidade a sul.
 
Dizia-se que ele era rebelde e de cabelos vermelhos, e que os seus antepassados tinham chegado pelo mar, da terra dos Vikings.
Um dia uma princesa infeliz chegou àquelas paragens, para curar seus males de amor e esquecer um casamento imposto por conveniências da corte real e o seu séquito ficou alojado no castelo do nobre senhor.

Seguiram-se passeios e cavalgadas, pelas terras selvagens e cobertas de urzes até ao mar, em que a infeliz princesa era acompanhada pelo Senhor do Castelo, com um pequeno séquito que os seguia até que um dia, o conde dispensou o séquito, alegando que não havia qualquer perigo naquelas paragens solitárias.

Oito meses depois de a princesa ter regressado á corte a chamado do seu marido, o príncipe, nasceu um principezinho, que foi nomeado herdeiro da coroa e a seu tempo foi aclamado rei de todas aquelas nações. O velho senhor do castelo diz-se que desesperado e solitário, cavalgou até ao mar e partiu no seu barco viking para Norte, em direção á terra dos seus antepassados, e nunca mais foi visto.

O rei que alguns diziam muito em segredo, ser filho bastardo do senhor do castelo, um dia passados muitos anos, depois da morte de sua mãe, veio em peregrinação conhecer os locais onde a sua mãe reencontrou a felicidade, mas o castelo estava deserto e só em noites em que a neblina vinda do mar, cobria os vales, se dizia que um fantasma era visto caminhando sobre as névoas em direção ao castelo.

O rei ainda subiu á mais alta penedia, no pico a sul do castelo, numa noite enovoada, o seu cabelo vermelho resplandecendo na escuridão, molhado pelo nevoeiro, mas o fantasma não apareceu.

Todos os anos o rei regressava nas noites de neblina, mas os negócios do reino, eram mais urgentes até que desistiu de encontrar o velho fantasma, que no entanto, dizem os raros habitantes, ainda pode ser visto em certas noites caminhando sobre as névoas.

Arlete Piedade Louro

Portugal.



O dono do "Bazar do Waldomiro" e a duplinha sertaneja iniciante...


O dono do "Bazar do Waldomiro" e a duplinha sertaneja iniciante...

Por Se Gyn

É lugar comum, dizer que Waldomiro Bariani Ortêncio, paulista de nascimento e, goiano por afetividade, é hoje uma das sumidades intelectuais do estado de Goiás.

Em sua interessante biografia, encontram-se a adolescência no setor de campinas (onde o pai se estabeleceu e, tinha uma serraria), a passagem pelo time do Atlético Esporte Clebe, a carreira de empresário, que começou com uma loja que acabou virando uma cadeia de loja de discos - o famoso Bazar Paulistinha - espalhada, por Goiânia e, Brasília, a experiência de radialista na Rádio Clube de Goiânia, a experiência como compositor e, depois, a consagração como uma figura proeminente, dedicada à literatura, como escritor, filólogo, e pesquisador.


A importância dele no mercado regional de gravações, pode ser medida pela sua citação, em gravações de músicas do homem do campo. Conheço pelo menos duas músicas sertanejas que fazem referência à sua figura: "Pagode em Brasília", cantada pela dupla Tião Carreiro e Pardinho - e, talvez uma das peças mais famosas e, divulgadas de seu repertório e, "Saudades de Goiás", cantadas pela dupla Belmonte e Amaraí.

Na primeira, da autoria de Teddy Vieira e Lourival dos Santos, os versos de referência são estes": "No estado de Goiás meu pagode está mandando/ O bazar do Vardomiro em Brasília é o soberano/ No repique da viola balancei o chão goiano/Vou fazer a retirada e despedir dos paulistano/ Adeus que eu já vou me embora que Goiás tá me chamando.", referência explícita à pioneira abertura de uma filial do "Bazar Paulistina" na capital federal.

Na outra referência, dizem as duas primeiras estrofes da belíssima canção composta por Goiá e Zilo: "Goiás é saudade em tudo que falo/ Às vezes me calo por essa razão/ Mas o Valdomiro Bariani Ortêncio/
Rompeu o silêncio do meu coração/ Porque em seu livro “Sertão Sem Fim”/ Mandou para mim recordação. Em seus personagens eu vi os goianos/ Que há quase dez anos não posso mais ver/ A grande saudade bateu em meu peito/ Não tive outro jeito se não escrever/ Humilde mensagem á terra querida/ Que nunca na vida irei esquecer."

A referência da segunda peça musical, não carece de muitos comentários, pois se refere já ao tempo em que ele mergulhou com êxito no mundo da literatura, falando de um romance publicado pela editora UFG, que o consagrou.

A primeira referência talvez seja interessante, pelo fato de que fala do período anterior, quando era um empresário que se dedicava ao comércio de discos, na região do centro-oeste do Brasil (do que decorria o profundo respeito e relacionamento com a turma da música sertaneja).

Eu, por exemplo, só soube da verdadeira importância e influência de Waldomiro Bariani Ortêncio no ramo, depois de ouvir umas histórias contadas pelo Dalmi, remanescente da dupla Sinval e Dalmi e, que é um membro da Orquestra de Violeiros do Estado de Goiás, atestando o quanto a formação do mercado de música sertaneja regional deve-se à atuação dele no mercado e, na sua vontade de colaborar com os músicos iniciantes.

Disse ele, que bastava uma dupla levar um cartão de recomendação do" Waldomiro" para São Paulo, que as gravadoras, confiando no seu tino e faro, chamavam as duplas sertanejas para gravação.

E aí me contou uma história muito engraçada, sobre o começo da carreira da sua dupla.


Depois de mudar-se para Goiânia, encontrar o parceiro ideal, afinar as vozes e execução dos instrumentos (sanfona e violão) e, prepapar um repertório para gravação do primeiro disco, Dalmi foi até o Bazar Paulistinha da Avenida 24 de Outubro pedir ao influente empresário que desse uma força, recomendando os dois, para a gravação do primeiro e sonhado disco - o Sinval, segundo ele me disse, era meio tímido para essas coisas, só indo mesmo ao Bazar para flertar com a  bonita e simpática gerente.

Depois de alguma exitação, Bariani deu um cartão a Dalmi, que tinha o seguinte e, breve texto, no verso: "Ao fulano da gravadora tal: ouça a dupla e, se puder, grave".

Pegaram o cartão e, se mandaram para São Paulo, levando na mala o repertório de músicas de "dor de cotovelo - muito em moda, na época", para exibir e, acabaram voltando com a notícia do disco gravado.

Chegando em Goiânia, Dalmi caprichou no penteado e no visual e, bateu para o Bazar Paulistinha com uma "prova" do disco debaixo do braço, onde pediu pra colocar para tocar. Daí, abordou o Bariani, inquirindo-o, com o seu sotaque interiano: "Hein?, Wardumiro, quantos discos da nossa dupla cê vai pedir pra gravadora, pra  ajudar?"

Bariani, não devia estar num bom dia, e só respondeu: "Eu? Esse disco aí? Não vou pedir cópia nenhuma..."

Que situação aquela. Depois de lutar para gravar o disco sonhado, a dupla não teria como vender o disco gravado, nem ter a divulgação da principal loja de discos de região centro-oeste.

Mas, passandos uns dias, Dalmi descobriu que um outro empresário estava abrindo uma loja de discos bem em frente ao mercadinho central da campininha, levou a "prova (uma cópia rudimentar, do disco)" para tocar e, logo, algumas pessoas pararam na porta, perguntando de quem era a música que tocava. E o tal empresário pediu uma remessa de 50 discos da gravadora - mas, o disco de "prova" teve que ficar, para a promoção.

Quando a encomenda chegou na loja, os discos foram vendidos em uma semana. E uma nova encomenda de mais 200 unidades foi feita.

Logo, uma das faixas já estava sendo executado pelas rádios de Goiânia, nos programas sertanejos.

Dias depois, Sinval e Dalmi, satisfeitos da vida, foram até o Bazar Paulistinha, que era um lugar onde o pessoal do mundo da música ia, para saber das novidades e, bater um papo. Na chegada, Sinval já bateu o umbigo no balcão, para prosear com a gerente e, ela virou-se imediatamente para o dono do estabelecimento, dizendo:

" - Ô seu Waldomiro, como é que faz? O povo não para de procurar o disco dos meninos aqui e, uma das músicas "tal não para de tocar nas rádios..."

E ele, respondeu, ríspido: "Ah, tá bom, tá bom! pede duzentas cópias desse disco aí!" E, encerrou o assunto.

Mais de quarenta anos depois de acontecido o fato, me contou o Dalmi que havia encontrado o amigo Bariani Ortêncio e, ele o havia convidado para a festa de seus 70 anos, exigindo, entretanto, que ele e outro levasse o acordeon, para animação da festa.

No meio de uma conversa, falando da vida, das coisas passadas e do tempo que transcorreu, Dalmi recordou essa história para Bariani, que, diz ele, ficou meio sem jeito e, respondeu:

"- Não Dalmi! Eu não fiz isso com sua dupla, não..."

E Dalmi, rindo, confiando na cumplicidade de quem se tornara admirador e amigo, confirmou:

"- Fez. Fez, sim!..."
............................
Depois de ouvir essa história, fiquei aqui pensando quantas histórias e informações interessantes devem haver resultantes dos relacionamentos e amizades deste grande escritor com o mundo da música sertaneja, e com os seus bandeirantes...

Se Gyn



quinta-feira, 9 de abril de 2015

O VERBO ESCREVER - Por Miriam de Sales Oliveira


O VERBO ESCREVER

Por Miriam de Sales Oliveira

http://miriamdesalesoliveira.blogspot.pt/2015/04/o-blog-de-marcoabril2015-um-blog.html?spref=fb

Olha a página em branco e fico pensando o que escrever sobre o verbo escrever; sei que vem do infinitivo scribere,latim, é um verbo transitivo,irregular –para o dicionário,já que para mim é mais que regular,pois,regula minha vida e me põe aqui sentada neste computador todas as manhãs,religiosamente,tentando tirar ideias da memória e passá-las adiante,sem ao menos saber se alguém se interessará por elas –

Escreve-se muita  coisa ou grafa ,ou redige-se ,tudo sinônimo do mesmo verbo,intransitivo e intransigente; no tempo presente,digita-se,já que datilografar ,como era no meu tempo,é como eu mesma,coisa do passado.
Podemos escrever a nota do mercado, que alimentará a família,ou notas sobre alguém - favoráveis ou não - elevando ou destruindo reputações ou escrever versos com a maestria dos grandes poetas ou livros que marcaram a humanidade e influenciaram gerações.

Para alguns,escrever é uma necessidade; para outros,compulsão.Digo isso porque vejo o desespero de algumas pessoas que se entocam,perdem os bons momentos da vida,rebuscando textos,modificando suas próprias ideias,ouvindo opiniões críticas,preocupando-se com sinais ortográficos,como se o ato de escrever fosse uma prisão em vez de uma alegria ou expressão de si mesmo.Para mim,isso se parece com prisão de ventre:dolorosa e incomodativa,além de anti – natural,claro.Não creio que escrevam por prazer,mas,como disse uma certa mocinha a um grande escritor meu amigo,ele mesmo ,um mestre na arte da escrita:
-Escrevo preocupada com o mercado,perco noites pensando se o livro vai vender,quero ficar rica e famosa.

Meu amigo que,como eu ,nunca se preocupou com essas firulas e escreve por prazer,ficou um pouco chocado,com as opiniões dessa” cultural climber”,alpinista social,que,jamais chegará onde quer, porque,o ato de escrever é místico,tem que fluir,é como fazer xixi,como dizia outro mestre ,Lobato,que sabia que livro muitas vezes mexido e consertado,desanda como doce de leite e não consegue passar emoção,pois,o autor está preso a regras e convenções,além de falsas esperanças.

Escrever é uma necessidade que,nem sempre supre nossas necessidades  básicas,pois,uma carreira literária constrói-se ao longo de vinte anos ou mais,alguns como Melville,morrem sem ter alcançado a fama,mulherzinha venal e caprichosa ,que anda sempre rondando a “Deusa Cadela”,como D. H. Lawrence,se referia á Literatura.

Está claro ,para mim,uma coisa: escreva claro e ponha emoção no que faz,esse é o segredo da escrita.E,acima de tudo,não escreva para os outros; para mim,escrever é um diálogo  do escritor consigo mesmo,pois trás para o presente  a sabedoria que se aprendeu durante a vida.
Se Deus escreve certo por linhas tortas,porque devemos nos preocupar tanto com acentos,ortografias, porque ter medo de neologismos,brilhantemente criados por Guimarães Rosa,se a língua é móvel,como as mulheres,aliás é a língua,notou, e o povo é seu único dono e senhor?

Do latim castrense, falado errado nos quartéis,nasceu o português,nossa língua ,última flor do Lácio,inculta e bela ,como disse Bilac.





Lendas


Lendas


Martim Moniz

O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa.

O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida.

O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto.

D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz.
O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.


A Mula da Rainha Santa

A Rainha Santa a que se refere esta lenda é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II.

A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação. Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei.

Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se.

D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos.

D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja.

Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra.

Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre.

Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada.

A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu.

O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.


Lenda de Santa Joana Princesa

A princesa D. Joana, filha do rei Afonso V, revelou desde muito tenra idade uma grande vocação religiosa. Esta filha primogénita, apesar de ser obrigada a viver na Corte pela sua posição, afastava-se o mais possível de festas e convívios e passava grande parte do seu tempo a rezar e a meditar.

A princesa era, dizia-se, muito bela e teve muitos pretendentes, entre estes muitas cabeças coroadas, mas a todos recusou alegando a sua intenção de se tornar freira.

Com a autorização real, entrou D. Joana para Odivelas, mudando-se mais tarde para o Convento de Santa Clara de Coimbra, mas acabando por resolver professar no Convento de Jesus, em Aveiro.

Esta última decisão foi contestada tanto pelo rei como pelo povo, dado que o Convento de Jesus era muito pobre e, na opinião geral, indigno de uma princesa.

Por outro lado, o povo discordava da vocação da princesa e não queriam que ela professasse. Perante tanta discórdia D. Joana decidiu não professar, mas declarou que usaria o véu de noviça para sempre e insistiu em ingressar no Convento de Jesus, vivendo na humildade e na pobreza e aplicando as rendas que possuía no socorro dos pobres.

A sua caridade era tão grande que depressa ficou conhecida como santa.
Mas a bela princesa adoeceu de peste e morreu em grande sofrimento.
Quando o seu enterro passou pelos jardins do convento deu-se um facto insólito: as flores que ela havia tratado em vida caiam sobre o seu caixão prestando-lhe uma última homenagem.

Após este primeiro milagre, muitos outros foram atribuídos a Santa Joana Princesa, levando a que, duzentos anos depois, o Papa Inocêncio XII concedesse a beatificação a esta infanta de Portugal.





 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Eleições e Abstenção

As eleições para o Parlamento Europeu são universalmente conhecidas como sendo aquelas que maiores volumes de abstenção proporcionam.

Mas as razões para que tal aconteça são as mesmas que são argumentadas quando se obtêm números baixos de participação noutras eleições e que se resumem mais ou menos assim neste ping - pong : «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?» - da parte dos abstencionistas, e:  «A nossa mensagem não chegou a todo o eleitorado!» da parte dos «abstencionados».

O que não deixa de ser curioso, tanto a repetição dos clichés, como a análise «científica» dos dirigentes e outros elementos partidários: porque não se pode dizer que uma coisa que está farta de partir (a tal de mensagem) não chega. Antes de ir apanhar a bola (votar) ela já foi mandada dezenas ou mesmo centenas de vezes para o campo das nossas misérrimas possibilidades de escolha.

Para mais sabe-se que, em termos estratégicos, os mais interessados na ida às urnas são precisamente os concorrentes, os partidos políticos (cada voto vale x €). Por isso com a significação que o voto atinge, é normal a afirmação repetida do «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?».

Estamos convencidos que para que a situação se modificasse teria que ser estabelecido um significado real ao acto, porque se assim não for cada vez haverá uma maior abstenção e cada potencial eleitor acabará por tornar mais repetida a solução «moeda ao ar» da cara ou coroa da abstenção.

Ora entende-se que a base da democracia é a participação dos cidadãos e quanto menor for o volume de participação mais a democracia se esfuma e isto é dito de forma que quase toma um valor absoluto.

A base da democracia é ter gente capaz de ser escolhida para governar, em primeiro lugar. Para se participar em algo é preciso ter onde participar: não se joga futebol sozinho, dão-se uns toques na redondinha, nada mais.

As eleições europeias são a base mais expressiva, apresentado especificidades mais claras na rotura, que de uma forma geral se conjugam quase ao extremo: através da maior distância entre eleitorado e candidatos, através do nível de conhecimento e de complexidade dos nossos interesses em jogo. Ou seja, estes, quase nenhuns.

Ora, se hoje, mesmo a nível nacional de todos os países ninguém percebe pévia do que se passa, isso resulta talvez do facto de não haver nada para perceber senão aquilo que já se percebeu.

Aqui em Portugal, por exemplo :

sabe-se - agora bem mas antes (durante muitos anos e até dias mais recentes) pouca gente pensou nisso - onde se foram buscar milhares de milhões de Euros para comprar os passivos dos Bancos falidos,

sabe-se que se tem feito uma frenética corrida à poupança em serviços públicos, muitos deles ficando praticamente inviabilizados,

sabe-se da impossibilidade de resposta à vida de milhões de portugueses que vivem abaixo do nível de pobreza,

sabe-se que o acima falado nível de pobreza está fixado através de fórmulas devidamente abstractas de interdependência que ninguém consegue entender a menos que perca uma vida a tentar destrinçar as escorregadias Leis, Despachos, Esclarecimentos, etc.

sabe-se também que os factores de cálculo sobre este limiar e outros limiares mínimos são burocraticamente alteradas à velocidade do som.

e sabe-se que existe um verdadeiro saque tributário.

Enfim...percorrendo o caminho «exemplar» das Eleições para o Parlamento Europeu e entrando nos seus sub - sectores nacionais (Eleições Presidenciais, Eleições para a Assembleia da República, Eleições Autárquicas, etc.) sabemos que estas (todas elas) servem apenas como factor de diferença quantitativa mínima, diferença essa que é praticamente nula em termos de substância e resultados palpáveis para as populações.

Assim a ausência da possibilidade de entender o que quer que seja sobre a vantagem de votar ou não votar proporciona a repetição do hábito (por isso mesmo se chama de hábito, por ser repetido) e prevê-se, facilmente aquilo que vai progressivamente acontecendo.

Ao nível que as explicações sobre a utilidade do voto (ou da abstenção) se colocam no povo, acabamos por saber que tudo é  misterioso:

umas vezes resulta tudo, pelo menos verbalmente, em milagres da multiplicação dos pães, outras vezes são o passe de mágica da desaparição do singelo pão prometido.

Eu, espero sem esperança, que algo de inesperado aconteça, porque tem de ser mesmo inesperado: na verdade das cansadas rimas e refrões propagandísticos já se sabe tudo.




quarta-feira, 1 de abril de 2015

O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ


O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ 


Lá estava ele, meu amigo Ocimar lançando um livro de auto-ajuda. Nos seus setenta anos de idade, muitos deles dedicados a educação.

Professor nível três, conhecido pela seriedade e dureza com as chamadas «turminhas do fundo» (Aquelas no fundo da classe, normalmente organizando o churrasquinho ou a festinha na república das meninas). Ocimar não perdoava!

Os mais sortudos conseguiam ficar de recuperação, quando não, eram reprovados incondicionalmente! Conhecido pelo mal humor e não poderia ser diferente para um homem de setenta anos que na infância conheceu a palmatória, além de ser filho do senhor Donato, calabrês de poucos amigos!

Prestigiando o lançamento do tal livro de auto-ajuda de Ocimar e pensando na pergunta que ele havia me feito: - Martinez, você gosta de escrever, nunca pensou num livro de auto-ajuda? Cheguei a algumas conclusões: Eu deveria mesmo escrever um livro de auto-ajuda...Afinal, virou moda!

Além do que, tenho experiências terríveis de vida no meu meio século de existência: passadas de mão, quatro casamentos, idas e vindas... sociedades desarrumadas, negócios mal feitos, troca de igrejas e algumas tentativas de religião, adoção de filho, ajuntamentos, paixões tórridas, desilusões...

Mas, percebo que ainda me faltam alguns anos de experiência...Nos setenta anos a gente começa realmente a filosofar ou estou mentindo? Perdemos aos poucos a nossa condição física e começam a falhar algumas coisas: audição, olfato, intestino, estômago, libido...

Chega a tal ponto que apenas o cérebro permanece em perfeito estado! É ele que começa a comandar a nossa vida de certa forma ociosa, à sombra de grandes varandas e arbustos, no joguinho de baralho, nas pequenas caminhadas com os netos ou até a padaria. Hábito de anos a fio trazidos do velho pai. 

Começamos a filosofar e coitado dos netos! Não paramos por aí ! Inconformados começamos pelos vizinhos e depois amigos incomuns! Sem contar a pobre da esposa que convive connosco o dia inteiro! Esquecemos a poesia! Lotamos os nossos arquivos com textos filosóficos...

Pobre daquele que ficou só com o cérebro e este ainda tem problemas! Alguns voltam à infância, outros caducam completamente! Não é incomum vermos alguns desfilarem pelas ruas se dizendo a reencarnação de Cristo, Buda, Dalai Lama, Hitler...Aí meus amigos, é um Deus nos acuda! Outro dia não é que apareceu um Saddam Husseim? Como se não bastasse, gritava por Bush com todo pulmão! 

Enquanto nosso cérebro mantém a saúde e certa coerência, acho salutar filosofar! Ainda mais na cabeça dos outros! Ocupa nosso tempo e nos deixa com a sensação de poder, perdida em nossas fracassadas experiências. Compensa as nossas debilidades físicas e melhora nossa auto-estima.

Escrever um livro de auto-ajuda, estamos nos ajudando e, com sorte, ainda pegamos alguns desavisados, sugestionáveis e melhoramos a vida dele. Mal não faz! Com mais sorte ainda, conseguimos vender toda tiragem e de repente virarmos um bestseller, que o diga Paulo Coelho com « O Alquimista», pai de tantos outros ainda mais filosóficos! Nada contra «O Mago», ainda acredito que as respostas estão dentro de nós mesmos...Todas as soluções de nossos problemas! 

A nossa mente é capaz de proezas intermináveis e usamos muito pouco de nosso cérebro...Por enquanto ainda filosofamos no tempo das pedras, com um cigarrinho dependurado no canto da boca e os neurônios dormindo por algum asilo ou à sombra de nosso guarda chuva em tarde quente de verão. Após os setenta anos, o que nos resta senão seguir a moda do «filosofar», rindo de nosso libido, sem que a patroa saiba ou os amigos...

Mil mentiras ditas como verdadeiras, tornam-se verdadeiras! 
Afinal, nesta fase de filósofo e mentiroso, todo mundo tem um pouco. 
Está certo Ocimar! Logo estarei escrevendo meu livro de auto-ajuda!




A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira” - por Cecílio Elias Netto


A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira”

A poética de Cornélio Pires é reveladora da simplicidade do universo caipira




As obras de Cornélio Pires, um dos ícones da chamada literatura caipira, têm sido recuperadas por estudiosos e editoras brasileiras. São parte de  um tesouro linguístico e folclórico de uma cultura que, entre os paulistas e mineiros, começa a ser valorizada. Jornais, revistas,  livros, teses acadêmicas abrem espaços e cuidados para um estilo de vida, o caipira, que continua vivo em muitas das pequenas cidades interioranas, e nos subúrbios de cidades médias, conhecidos como “rurbanos”, comunhão do rural e do urbano.

Cornélio Pires foi um mestre no recolhimento, em prosa e verso e também através da música – em recolher a simplicidade das conversas caipiras, as tais patacoadas, misto de anedotas, tiradas maliciosas,  simplicidades e astúcias, contos e “causos”. 

Poucos conhecidas, no entanto, são algumas de suas poesias, tidas, hoje, como documentos imprescindíveis para se conhecer essa “alma caipira”. Aliás, o primeiro livro de Cornélio Pires intitulou-se exatamente “Musa Caipira”, dedicado a outro mestre do folclore brasileiro, Amadeu Amaral. 



A turma caipira de Cornélio Pires.Foto histórica de 1929, vendo-se da esquerda para a direita, em pé: Ferrinho, empunhando a “puíta”, Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Caçula, Arlindo Santana; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Zico Dias.

A seguir, alguns de seus versos.

“A origem do homem” 

Esse soneto foi publicado, pela primeira vez, no jornal “O Tietê”, na cidade do mesmo homem, em 1909:

O senhor por acaso não descende
 Dos bugres que moravam por aqui?
 – Homéu num sei dizê, vancê compreende
 Que essa gente inté hoje nunca vi.

Mais porém o Bernardo diz que intende
 Que os moradô antigo do Brasi
 Gerava de macaco!… Inté me ofende
 Vê um véio cumo ele, ansim, minti.

D´outra feita um cabrocro – ai um caiçara –
 Diz que nasci um de dois e inté de trêis,
 Quando estralava um gomo de taquara!

Nóis num temo parente portuguêis,
 Nem mico, nem quati, nem capivara…
 Semo fio de Deus cumo vanceis

“Ideal do Caboclo”

Tido como um soneto clássico da literatura regionalista, “Ideal Caboclo” foi publicado em 1910, no livro “Musa Caipira”:

Ai, seu moço, eu só quiria
 Pra minha filicidade,
 Um bão fandango por dia,
 E um pala de qualidade
 Pórva, espingarda e cutia,
 Um facão fala-verdade
 E uma viola de harmonia
 Pra chorá minha sódade
 Um rancho na bêra d´água,
 Vará de anzó, pôca mágoa,
 Pinga boa e bão café…
 Fumo forte de sobejo…
 Pra compretá meu desejo,
 Cavalo bão – e muié!

 Poesia do final de vida 

No final de sua vida, Cornélio Pires tornou-se homem religioso, espírita convicto, dedicando-se à caridade. Em sua cidade natal, Tietê, onde quis morrer, manteve um orfanato infantil. Sobre essa sua fé religiosa, deixou a seguinte quadrinha:

“Mas caridade sem ação
 é qual a fumaça no forno,
 que espalha mais fome em torno,
 em vez de espalhar pão.”

Doente, sabendo estar próximo de morrer, cantou a sua “Terra amada” neste poema:

Tietê!Querida terra e muito amada
 De ti distante, esplêndida cidade,
 Sinto invadir minh´alma hoje sozinha
 Uma profunda e acríssima saudade.

Terra dos meus amores! Não definha
 O amor que te dedico; que me invade…
 E foi-se tudo que sonhado eu tinha,
 Tão ridente e feliz, na mocidade.

No mar grosso da luta pela vida,
 Eu não te esqueço, não, terra querida,
 E o teu nome defendo em toda parte.

Tu me viste perder as ilusões
 Porém nunca verás nos repelões,
 Da peleja sem fim, deixar de amar-te.

As espertezas de Joaquim Bentinho, personagem que caracteriza o caipira típico, superam as tolices e malandragens com que o personagem de Monteiro Lobato, “Jeca Tatu”, marcou, por tanto tempo, a imagem do caipira paulista. Mas não só Joaquim Bentinho. 

Em todos os seus escritos, como que em retalhos,  Cornélio Pires registrou essa alma caipira, tão rica em sua simplicidade que é universal.




terça-feira, 31 de março de 2015

Esmeraldo, o garçom - Texto de Laé de Souza


Esmeraldo, o garçom
 
Texto de Laé de Souza

http://www.lerebomexperimente.com.br/blog/lae-de-souza/

Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garção e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.

Esmeraldo, educadamente, perguntou:

- Como é o seu nome, senhor?

O cliente mais irritado ainda respondeu:

- Jonas.

- Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. - A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.

Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores?

O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. 

Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor!

Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente:

- O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.

Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um "pois não", bem macio.



Irene - Conto de Daniel Teixeira


Irene 

Conto de Daniel Teixeira
 
A Irene não era bonita, nunca tinha sido bonita e nunca seria bonita, pensava eu no tempo em que a conheci mais de perto, então era ela jovem, isto pelos idos dos anos oitenta.

Lamentava-a porque, reflectindo, depressa tinha de chegar à conclusão que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas e eu não sou grande adepto da ideia do destino como guia do passado, do presente e do futuro.

Não acredito nas condenações eternas, acho que as coisas e o mundo estão em constante movimento, enfim acho que aquilo que é pode deixar de ser e que aquilo que não é pode vir a ser.

No caso dos homens o problema de ser feio não parece ser tão grave porque existe uma tradição implantada, penso eu. Corre por aí que as mulheres não se importam muito com essas coisas, ou que conseguem descobrir a beleza em traços quase imperceptíveis ao imparcial olhar comum.

Enfim, não vou fazer, neste espaço que é uma história, uma dissertação sobre a influência do patriarcalismo nestas coisas mas parece-me claro que, numa lógica do homem mandante este terá sempre defeitos que são socialmente mais toleráveis em si do que nas inferiorizadas e comandadas mulheres.

Claro que nos anos oitenta havia já um esbatimento da ferocidade patriarcal mas como sabe quem essa época viveu uma parte substancial das concepções de inovação nesse campo eram para uso crítico do comportamento dos outros e muito raramente para consumo próprio. 

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de vinte anos mais ou menos, de ter de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer, por isso, e contra minha vontade, voltava à ideia de destino e este parecia-me alicerçado nessa então recente certeza científica que era a genética.

Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em amplificação e profundidade das rugas à volta dos olhos, via-se-lhe o crescimento dos chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios - agora ainda relativamente carnudos - empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e imaginava-se aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando desde logo a sua artificialidade, tal como na sua mãe.

Via-se, imaginava-se, calculava-se também perfeitamente a possibilidade que deixava de ser cada vez menos remota à medida que nisso se pensava que a placa descolaria do céu da boca, tal como na sua mãe, quando ela se risse muito, coisa que fazia agora. E ria sem complexos a Irene.

Sabia-se desta mesma forma também que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) tal como a sua mãe.

Mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos ares à sua frente, um apêndice desproporcionado, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico lançado de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela.

Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidasmente às suas amigas, já nesta altura que descrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: "Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o qe a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só economicamente remediada; tinham, ela e a mãe - o pai falecera oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já ia passando.

Não sei exactamente como tudo se passou imediatamente antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene desapareceu da cidade.

Falecida a sua mãe com quem convivera desde sempre, talvez não se sentisse em condições de reviver a memória dela no mesmo espaço durante todo o seu tempo e partiu.

Foi o que eu e as suas amigas e amigos pensaram, embora todos achassemos estranho ela não dizer nada a ninguém. Soubemos entretanto que tinha vendido as casas e os terrenos que lhe ficaram. Não terá amealhado muito, era a voz corrente. E foi assim como que um corte radical, o acabar de um livro que se fecha e  não se leva na bagagem aquilo que achámos que a Irene tinha feito.

Pois...todas as histórias têm um remate final senão não valeria a pena contá-las e esta não foge à regra. Estava eu então em Lisboa num intervalo de esplanada quando se aproximou de mim uma senhora, eu já ia nos quarenta e a tal senhora por aí andaria, quando ouço um «Olá, estás bom!?».

Virei-me na direcção daquilo que me pareceu ser um chamamento a mim dirigido e deparo-me com a Irene, sem tirar nem por, quer dizer, com mais vinte anos como eu, mas igual a ela mesma. Dei-lhe os tradicionais dois arremedos de beijo na face, convidei-a a sentar-se e ela então foi-me contando aquilo que era feito nela.

Primeiro vieram as razões porque não tinha dito nada a ninguém quando se viera embora. Ainda recordo, passados mais alguns anos, as suas palavras: aquele ambiente era para mim sufocante - foi o que ela me disse - alegre sim, confessou, tinha ainda algumas saudades dos amigos e amigas, mas chegara à conclusão que precisava de se diluir numa multidão e na nossa pequena cidade sentia-se encurralada.

Embora nunca se tivesse apercebido de ser alvo de chacota, cada vez que entrava num café ou saía com as amigas e os amigos ou mesmo só sentia-se alvo de todos os olhares. Por vezes sentia a piedade, aquela sensação estranha de ser motivo de pena. Aguentou tudo enquanto a mãe foi viva, não iria nunca abandonar a velhota e nem sequer podia sugerir-lhe fazer aquilo que ela tinha feito.

Viera para Lisboa, tirara um curso de secretariado e encontrara emprego num pequeno escritório na baixa onde se mantinha desde então, já lá iam quase vinte anos. Com o tempo foi-se adaptando à nova realidade e hoje, naquela altura, sentia-se bem. Vivia só num apartamento depois de algumas bolandas por quartos alugados e disse-me: era feliz.

Acredito que sim, acreditei nela, na sua sinceridade, embora o peso da solidão estivesse presente nela. Gostou de me ver - disse. Eu também e nunca mais vi a Irene.

Por vezes, como agora, lembro-me dela e por estranho que me pareça sempre, embora ela fosse naquela altura em Lisboa quase igual à Irene que eu tinha conhecido muitos anos antes pareceu-me ter uma face e uma figura como qualquer outra pessoa. 





 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Crónicas de Santarém - Por Arlete Piedade


Crónicas de Santarém

Por Arlete Piedade

O Peregrino

Sempre que entrava naquele velho palácio, onde funcionam vários serviços úteis á cidade e ainda a escola de danças de salão que o meu filho frequentou por três anos, uma sensação estranha de irrealidade me envolvia, de velhas memórias do passado trágico de pessoas apanhadas nas malhas de um destino que enlutou toda uma nação.

Pois que é voz corrente e aceite, conforme lápide de pedra afixada na frontaria do mesmo, que naquele local se erguia no século XVI o solar dos Sousa Coutinho, sob as ruínas do qual foi construído o actual Palácio Landal no século XVIII o qual tem sido objecto de restauro e usos diversos desde então.

Corria o século XVII, algures num daqueles anos seguintes á tragédia da batalha de Alcácer-Quibir, em que o rei português D. Sebastião foi dado como morto ou desaparecido em combate e com ele vários dos seus companheiros, numa batalha sangrenta no Norte de ??frica e por tal facto condenou a liberdade da sua nação, ao morrer solteiro e sem herdeiros directos.

Ocasião que foi utilizada pelos reis espanhóis que se aproveitaram de factos sem contestação possível e se apoderaram da coroa portuguesa, perante a revolta impotente de vários fidalgos patriotas mas que não sentiam legitimidade para se rebelarem abertamente. Entre esses, destacava-se D. Manuel de Sousa Coutinho, casado em segundas núpcias com D. Madalena, viúva de D. João, falecido na batalha fatídica.

Era um fidalgo da velha estirpe, leal á sua nação e ao sangue dos seus reis, que vivia no seu palácio de Santarém, mas que na altura por ordem real fora mandado ocupar pelo rei estrangeiro, para servir de acomodação aos seus nobres.

Então D. Manuel num assomo de coragem e patriotismo, preferiu mandar incendiar o velho palácio dos seus antepassados a ter que o entregar ao odiado governo usurpador.

Deu assim ordem á sua esposa e filha amadas, e ao seu servo, para preparem a mudança urgente para o velho palácio pertença do primeiro marido de sua esposa, facto que esta repudiou, por lembrar tempos antigos e infelizes, e por temores próprios de mulher, como seu marido classificou, mas que foi forçada a acatar, pela forte determinação e patriotismo de seu marido.

Consumado o facto, perante a admiração velada e aplauso dos outros fidalgos, não tardou contudo mais uma tragédia a abater-se perante aquela família tão unida e admirada.

Pois que estando D. Madalena um dia atarefada com a reorganização da sua rotina doméstica, o seu fiel servo Telmo, lhe veio anunciar que um peregrino lhe pretendia falar.

Assustada com o que a razão lhe apontava com vagos pressentimentos, mas resoluta, concordou em receber o estranho homem que dizia voltar da Terra Santa, o que teve lugar na sala de entrada, onde um retrato do seu antigo marido, D, João era peça principal.

Ao primeiro olhar, e porque aquele trazia a face velada por longo capuz, não soube porque o coração lhe deu um sobressalto tão forte no seu peito fraco de mulher.

Depois de algumas palavras trocadas, contudo e porque o que o romeiro lhe dizia a inquietava fortemente, ousou perguntar:

- Mas, quem sois, senhor?

Ao que este respondeu apontando com o seu cajado de peregrino, para o austero retrato: - Ninguém senhora, ninguém!

A partir deste facto desenrola-se a tragédia anunciada e descrita pelo grande escritor do romantismo, poeta, dramaturgo, político e embaixador português do século XIX, Almeida Garrett, na sua obra-prima adaptada ao teatro, Frei Luís de Sousa, nome adoptado por D. Manuel de Sousa Coutinho, ao recolher-se ao convento depois do desenlace trágico do seu casamento com a viúva de um fidalgo que afinal reaparece das sombras do passado, para provocar a desonra de uma família e a morte de desgosto de sua inocente filha Maria.

Almeida Garrett, grande viajante e estudioso ao visitar Santarém no século XIX, que descreveu como «Um grande livro de pedra recortado», visitou o local e escreveu esta aplaudida peça de teatro, baseada nessa tragédia do homem que contudo depois como frade dominicano, foi também reconhecido como um grandioso vulto das letras lusas.

Arlete Piedade



O Flautista - Conto por Marcelo Torca


O Flautista


Conto por Marcelo Torca

Lá estava ele de novo, o músico, o flautista tocando o seu instrumento, portátil, assim poderia levar a qualquer lugar, onde estivesse poderia executar melodias, quase como um passarinho.

As vezes era um estorvo, outras, era o animador, o comandante da dança, da euforia, da alegria de estar mais um dia vivo, num dos bairros mais violentos daquela cidade. Nem sempre fora assim, devido à desestruturação das famílias, a perda do poder aquisitivo, o estímulo do pensamento fútil, foram responsáveis por gerar gerações perdidas, onde os valores básicos quase não existiam, e para discordar de tudo isso, o flautista Zé da Roda tocava o seu instrumento.

Tinha este apelido, pois quando criança brincava com pequenos pneus conduzidos por um pedaço de pau, tendo a ponta um arame. Mas não era só nas brincadeiras, ia para a escola com este brinquedo, para onde fosse a pé, levava. Um dia este menino cresceu, tornou-se músico, com uma família para cuidar, trabalhava em qualquer situação de músico, tinha coragem para enfrentar qualquer problema, desde que estivesse tocando o seu instrumento, a flauta.

Como tocava onde fosse convidado, um grupo de forró o chamou, esta parceria durou por uns dois anos e meio aproximadamente, era um conjunto em início de carreira, tinham apenas sete meses de experiência, sendo a infra-estrutura, de certa forma precária, o transporte era um caminhão, daqueles antigos, e os quatro músicos tiveram de ir na cabine, dois foram sentados, e dois de pé, de costas e encurvados ao pára brisa, o motorista não fazia parte do grupo.

A viagem demorou cerca de uma hora e meia, e quando chegaram ao seu destino, mesmo sentindo dores, foram arrumar o som, descarregando as caixas do caminhão e montando em cima do palco, depois de terem colocado todos os cabos, testado a energia, fizeram a passagem de som do conjunto.

Tinham saído de casa às treze horas, e eram quase nove horas da noite, quando veio a notícia de que o jantar não iria chegar, alguém da organização do evento tinha esquecido de encomendar, e faltando uma hora para dar início ao baile, não seria mais possível ir há algum lugar, mas tentaram negociar para levarem uns salgadinhos no decorrer do baile. Quando o relógio marcou dez horas da noite, teve início o forró, o salão já estava com metade do recinto ocupado, tinha tudo para faturarem bastante.

Passavam das duas horas da madrugada, ainda não havia chegado nenhum salgadinho, mas o salão estava cheio, e a pista de dança era contínua, nunca ficava vazia e assim foi até às quatro horas da manhã, onde se deu o desfecho, e também apareceram três coxinhas de frango miúdas, como eram em quatro músicos, tiveram de dividir.

O pior ainda estava por vir, quando estavam carregando o caminhão, o tecladista e cantor da banda foi procurar o promotor do evento, não encontra, conversa com vários da equipe, eles alegam que logo estaria ali presente, pois fora resolver alguns problemas pessoais.

Já passavam das cinco horas da manhã, e nada, mais meia hora se passou, e veio a notícia, só daria para acertar o baile no meio da semana, como não havia como dizer não, aceitaram e foram embora.

Até hoje não viram nem sombra deste dinheiro, para pagar o frete foi outro grande problema, o flautista negociou a sua bicicleta, o tecladista a única televisão que tinha, era de catorze polegadas e o baixista ainda teve de entregar o aparelho de som. Era vida difícil, porém, fazia parte da profissão, nem sempre conseguiam receber pelo serviço, e às vezes ainda eram considerados vagabundos.

O Zé da Roda desfez a parceria, pois fora convidado a participar de um programa de rádio, onde apresentava um programa e fazia gravações para as propagandas, o tempo era curto e era difícil conciliar as duas atividades. Era uma rádio comunitária, a legalização estava em andamento, portanto era considerada pirata, a documentação para deixar em ordem era difícil, mas como uma cidade poderia ficar sem rádio, e ouvir os programas locais, de interesses da comunidade onde estava inserida? Pergunta quase impossível de ser respondida.

O flautista não desanimava, tinha sempre o pensamento positivo, e cada dia, era um outro dia, onde novas oportunidades poderiam vir, surgir espaços novos, um músico precisava lutar, mas se não tiver um pequeno apoio, é quase impossível a sobrevivência deste, e com este pensamento, o Zé da Roda tocava todas as tardes no programa da Rádio Praça Central. 


 

sábado, 28 de março de 2015

Das Memórias do Cárcere de Camilo


Das Memórias do Cárcere de Camilo

Recolhido em Livres Pensantes


Em 1862, Camilo Castelo Branco publicou as suas Memórias do Cárcere,  obra em dois volumes, em que relata a sua passagem pela Cadeia da Relação do Porto.  Nessa cadeia conheceu José do Telhado, com o qual conviveu , pelo que lhe  dedica   todo o  Capítulo XVI, do volume II, acrescido posteriormente de algumas referências.

Camilo Castelo Branco esteve preso mais de um ano na cadeia da Relação do Porto, aguardando julgamento por causa do seu relacionamento amoroso com uma mulher casada, Ana Plácido, ela própria também levada para o cárcere.

"Dizem os registos que ninguém queria julgar Camilo por dormir com mulher alheia e a "espinhosa missão" acabou por ser confiada ao pai do escritor Eça de Queirós que despachou uma absolvição por falta de provas, "deixando o povo feliz e contente".

Quanto a José  do Telhado o registo  diz  diferentemente : "Condeno o réu José Teixeira da Silva da freguesia de Caíde de Rei, comarca de Lousada, na pena de trabalhos públicos por toda a vida na Costa Ocidental de África e no pagamento de custas", assim determinou o tribunal."

Resgatou-se  uma passagem das  Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco no início da estadia na prisão que se transcreve, seguida de um excerto da Síntese Histórica da Cadeia da Relação do Porto onde são referidas as passagens deste nosso grande escritor e do salteador José do Telhado.


 Estátua de  Camilo Castelo Branco e  de Ana Plácido

I

 Memórias do Cárcere

"Antes de contar como passei a primeira noite de cárcere, perdi-me logo, como, em divagações, que o leitor, já afeito com o meu génio, aceita com benevolência. Às nove horas da noite, os guardas correram os ferrolhos, e rodaram a chave da pesada porta do meu cubículo, a qual rangia estrondosamente nos gonzos.

Estava sozinho. Sentei-me a esta mesma banca, e nesta mesma cadeira. Estavam aqui defronte de mim alguns livros. Recordo-me de Shakespeare, Plutarco, Sénancour, Bartolomeu dos Mártires, e uma Tentativa sobre a Arte de Ser Feliz por J. Droz. Folheei-os todos, e de todos me fugia o espírito para entrar no coração, e sair de lá em ânsias do inferno que lá ia.

À força de contenção de alma consegui ler e meditar algumas páginas da Arte de Ser Feliz. Em que local eu buscava a árvore dos bons frutos! É este um livro de filosofia racional que preparou o ânimo de seu autor para mais seguras e levantadas crenças na filosofia de Jesus Cristo.

Fez-me bem esta leitura. Principiei logo a pôr em português as vinte páginas que lera, com o intento de fazer publicar o livro inteiro em folhetins.

Fui às três horas da manhã procurar no sono a restauração das forças corporais, que as do espírito, até esta hora, nunca as senti indignas da ousadia com que ele se arremessou a perigosas batalhas com o mundo."

Camilo Castelo Branco, in Memórias do Cárcere, volume I, 2.ª edição, Casa da Viúva Moré – Editora, Porto, 1864,

II

A Cadeia da Relação do Porto

"Do lado Nascente do Jardim da Cordoaria, deparamos com a monumentalidade granítica do pesado colosso que é o edifício da Cadeia da Relação. Foi mandado construir por João de Almeida e Melo, iniciando-se as obras em 1765, no reinado de D. José. A conclusão ocorreu em 1796, já quando havia tomado conta do governo D. João VI, como regente, por força da irremediável psicose que havia atingido sua mãe, D. Maria I, em 1791.

(...) A Cadeia da Relação, justificando o nome, serviu de cárcere até à inauguração da actual cadeia de Custóias, em 1974, após a Revolução de Abril. Os presos eram distribuídos pelos diversos pisos, conforme a sua posição social, um pouco à guisa do inferno de Dante. Nos andares de cima, os mais categorizados, ali se situando os catorze "quartos de malta" (celas individuais).

Nos "quintos dos infernos", no rés-do-chão, os mais pobres, a ralé, onde os detidos se amontoavam em amplos salões com piso de pedra, as enxovias, com catres imundos em redor, os quais, durante o dia, eram levantados por meio de dobradiças, ficando empinados junto às paredes.
 
Essas celas comuns eram conhecidas pelos nomes de Santo António e de Santa Ana, as destinadas a homens, de Santa Teresa para mulheres, de Santa Rita para menores, de S. Victor e o Segredo para castigos.

Havia uma oficina denominada Senhor de Matosinhos. A imundice das enxovias tinha o cimento dos anos e das sucessivas gerações de presos. O cheiro das latrinas era nauseabundo. O ambiente soturno e triste, o que levou D. Pedro V a exclamar, após uma visita, em 1861: "É preciso arrasar tudo isto!".

Nos seus soturnos ergástulos albergou muitos presos, alguns célebres: José do Telhado, Camilo Castelo Branco (cela n.º 12). Nesta mesma cela esteve preso o desembargador Gravito, antes de ser enforcado, juntamente com mais nove liberais, em forca instalada na actual Praça da Liberdade, por decisão dos miguelistas.

Mais tarde, esteve ali também detido o banqueiro Roriz. Obras recentes preservaram-na. Ana Plácido, então amante de Camilo, esteve instalada num corredor porque não havia celas para senhoras de sociedade. O Duque de Terceira permaneceu, durante algum tempo, na cela n.º 8. O médico que envenenou familiares, Urbino de Freitas, ocupou a n.º 13. João Chagas, por via do seu republicanismo, estava detido nesta cadeia quando eclodiu a abortada revolta de 31 de Janeiro.

Os processos relativos a Camilo, Urbino de Feitas e Zé do Telhado, encontram-se no pequeno museu judiciário instalado no Palácio da Justiça do Porto, onde também funciona, actualmente, o Tribunal da Relação, que já tinha saído da Cadeia para se albergar na Rua Formosa, onde, depois, funcionou o Arquivo de Identificação e, agora, está a sede da Liga os Combatentes.

É interessante supor Camilo Castelo Branco, de imaginação flamejante, a resmungar na sua cela n.º 12, como leão enjaulado, por ter cometido crime que, agora, já nem o é: relações sexuais com mulher casada. Só o adultério da mulher era punido. O homem casado podia impunemente relacionar-se com mulher que não fosse casada. Sendo-o, como era Ana Plácido, então poderia ser punido, com pena grave, extensível a ambos.
 
Aguardaram, durante mais de um ano, presos o julgamento em que o júri não considerou provados os factos e, por isso, foi proferida sentença absolutória.

No cárcere, Camilo continuou a escrever e, no silêncio do último piso, onde se situava a cela com janela para nascente - é a que se situa mesmo por baixo do ângulo esquerdo, de quem está virado para ele, do frontão -, o que mais o irritava era o barulhar ritmado e invariável dos passos do carcereiro sobre as tábuas rangentes do sobrado.

De noite, nas longas lucubrações, convenceu-se de que o marido enganado, Pinheiro Alves, teria subornado um outro preso para o matar. Confidenciou esse temor a outro preso que também ali se mantinha, José do Telhado. Este sossegou-o, dizendo-lhe: "- Esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos".

Talvez a aura romântica que se havia de formar à volta do célebre salteador, emergisse também do reconhecimento do escritor pela protecção dispensada. Camilo encerrou o seu livro "Memórias do Cárcere", desabafando: "Fecham-se as memórias. Eu devia ter dito porque estive preso um ano e dezasseis dias. Não disse, nem digo, porque verdadeiramente ainda não sei por que foi."

Claro que sabia. O que poderia não entender era o rigor dos preconceitos vitorianos da época, aos quais, afinal, surpreendentemente, o Tribunal se não vergou.

José Teixeira da Silva (Zé do Telhado) nasceu em 1816, provavelmente no lugar do Telhado, do concelho de Penafiel. Alistou-se nos Lanceiros da Rainha D. Maria II, tomando parte em vários combates, ascendendo distintamente ao posto de sargento.

Obedeceu às ordens de Saldanha na Revolta dos Marechais, em 12 de Julho de 1837, que colocou no poder o marquês Sá da Bandeira. Na Revolução de 1846, acompanhou o então Visconde Sá da Bandeira a Valpaços, e em boa hora para aquele, pois lhe salvou a vida.

Recebeu a Torre-e-Espada, ordem honorífica criada por D. Afonso V destinada a distinguir elementos das forças armadas, tendo os seus possuidores honras militares e precedência a todas as outras ordens daquelas forças, em igualdade de grau.

Terminada a guerra após a Convenção de Gramido, tentou obter um modesto emprego no Depósito do Tabaco, instituição economicamente importante para o norte, nomeadamente para o Porto e que o grande jurista e liberal, membro do Sinédrio, Ferreira Borges salvara da gula dos franceses comandados por Junot. Não lhe deram o emprego.

Desiludido, voltou para casa onde o esperavam a mulher e cinco filhos à beira da miséria. Acabou numa falperra à semelhança de um irmão, do pai e do avô Sodiano, distribuindo generosamente o produto dos roubos.

Foi julgado por isso e por assassínio de três pessoas, cometidos pelos seus capangas: um padre, um criado da Casa do Carrapatelo e um correligionário que, num assalto fôra ferido, ficando incapaz de fugir.
 
Foi deportado para Angola onde morreu cheio de prestígio entre os indígenas, no Malongo ou em Xissa, em 1875.

Nas tranquibérnias políticas do tempo de D. Maria II, após a sangrenta guerra civil que opôs liberais e miguelistas, as várias tendências políticas hostilizavam-se permanentemente e os governos caíam como fruta madura.

Bastava o Marechal Saldanha tomar a iniciativa de um golpe militar, e logo mais um governo devia constituir-se em substituição de outro que tombara. Foi a época da Setembrada, da Belenzada, da Revolta dos Marechais, da Maria da Fonte, da Patuleia.

Foi na sequência do este movimento, a influenciar o Porto, que o prestigiado duque de Terceira, de seu nome completo, António José de Sousa e Meneses Severim de Noronha, foi enviado para esta cidade, na esperança de que a força do seu enorme prestígio acalmasse os ânimos.

Em vez disso, foi preso, por pouco tempo, embora, quando exercia as funções de lugar-tenente da Rainha. A prisão foi ordenada e efectuada pelo patuleico José da Silva Passos que, com todo o respeito, teve a coragem de pedir que se considerasse preso, ao que ele obedeceu prontamente e deu entrada tranquilamente na Cadeia.

O velho edifício, depois de muito e ingloriamente se haver discutido acerca do seu destino, saiu do âmbito do Ministério da Justiça, de onde nunca deveria ter saído, por coerência histórica e lealdade à tradição.
 
É hoje a sede do Instituto Português da Fotografia e local de realização de actividades culturais. As enxovias têm espectaculares condições acústicas."

Porto, Novembro de 1998

(O texto de síntese histórica do Tribunal da Relação do Porto é da autoria do Sr. Conselheiro José Pereira da Graça),Tribunal da Relação do Porto.