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quinta-feira, 14 de maio de 2015

POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ



 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!


 Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)





domingo, 3 de maio de 2015

Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Narciso bravio


Campo imenso de altivos girassóis amarelos viçosos
Prado dourado repleto de flores que gritam alegria
Girassóis que sonham alcançar o Sol, tão ambiciosos!
Flores viçosas que sobrevivem às estações com mestria

Campo imenso de flores arrancadas pela raiz cruelmente
Prado frio e triste de terra quase estéril,  seca e salgada
Onde alguém, ainda com fé, planta uma túlipa docemente
“Cresce, flor delicada como cristal”, é a prece murmurada

E o jardineiro senta-se no topo da colina a vislumbrar o prado
E espera que a túlipa vingue no vento gélido que sopra forte
Mas a flor enrosca-se na terra fria e espera satisfeita pela morte

O jardineiro, sentado no topo da colina, desvia o olhar marejado
E vislumbra, num canto esquecido, um narciso bravio a despontar
Vida inesperada num campo triste e frio onde já não vale a pena plantar…


Campo singelo


Campo singelo de margaridas bravias e inocentes
Flores viçosas, alegres, criadas por entre o prado verdejante
Plantas felizes que, se pudessem mover-se, saltitavam contentes
Flores modestas, de beleza selvagem, veias de vida palpitante

Não viram o Sol subir, a cada dia mais um pouco, incapaz de adormecer
Astro flamejante que, sem saber conter-se, lhes cuspiu fogo abrasador
E dias passaram,  o verde esmoreceu e as margaridas viram-se escurecer
Até que um dia o Sol olhou para o prado e viu nele semeada bem fundo apenas dor

As estações sopraram vendavais, derramaram chuva furiosa, mas o prado renasceu
Despontaram devagar, um a um, amarelos e cor-de-laranja viçosos, verdes valentes 
Os narcisos estrangularam as raízes das plantas de dor, e cresceram orgulhosos e insolentes

Prontos para cobrir o mundo de cores e alegria, como um prado que a tudo já venceu
Não sabem que o vento os persegue, e que em breve os vendavais tudo vão arrancar,
E os narcisos vão ser soprados pelo mundo afora, e noutros prados vão vingar…


Nevoeiro


Ela pensa que no nevoeiro denso vai encontrar o que procura
Pensa que nas nuvens gordas de irritação se esconde um abrigo
E que ao mergulhar no nevoeiro cinzento vai encontrar uma cura
Acha que as nuvens escuras a podem esconder de todo o perigo

Ela pensa que no mar calmo de nuvens celestiais vai encontrar o que procura tanto
Não percebe que o nevoeiro, gordo de saudade e revolta, carrega apenas profunda tristeza
Ela não sabe a agrura que cobre de fel as nuvens curiosas, como um angustiado manto
Elas que, curiosas e alvas, desceram do Céu para espreitar, em busca de um mundo de beleza

E se viram aprisionadas à lama do mundo desleal, sujas e manchadas de Humanidade
Mas Ela… Ela não sabe, Ela não ouve os lamentos, não cheira a dor que vagueia pelo ar…
Ela, cega de esperança e desespero, abre os braços sem hesitar, e reza por Liberdade

Ela salta sem temer, porque o peito já não tem lugar para o receio nem quer duvidar
E quando se encontra no ventre do nevoeiro, escuro e fétido, sabe que encontrou
Ali, naquele ventre estéril  Ela encontra o Nada que procurava, a paz por que tanto ansiou…





 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Poesia de Sylvia Beirute


Poesia de Sylvia Beirute

 

Desejo infinitesimal ; Exercícios para os olhos ; Correspondência



 
 Desejo infinitesimal



 {que horas eram quando o tempo acabou?}
{que horas eram quando deixaste de
 poder reproduzir clandestinamente a explicação
 da conclusão do desejo infinitesimal?}
 {que horas eram quando a razão de espírito
 substituiu a de ciência na ocupação do abraço?}
{que horas eram quando te adiantaste à felicidade
 no dia que dilui
 na percepção multiforme da multidão?}
{que horas eram quando a boca simulou
 o silêncio com princípios aleatórios?}
 {que horas eram quando deixaste que a alma
 somasse corpos e subtraísse outros?}
 {que horas eram quando viver era deixar morrer
 e a solidão incomunicável?}
 {que horas eram quando o tempo acabou?
 que horas eram?}

 Sylvia Beirute

 

 Exercícios para os olhos



 quem manda aqui é a biologia,
mas o sentimento incontrolável é aquele que se masturba.
 eu apenas comecei o palco, síntese da arte, um
 contra}actor contra o corpo.
 cada corpo tem um deus, a sua estrutura de exibição
 não encontra muita importância no texto inevitável.
 {quem escreveu este texto? quem escreveu este texto
sem seios, ânus ou um pudor que os cubra?}
 a estética de tal esconderijo, vejamos, é, eu diria, circunstancial,
 circunstancial, aliás, como o esconderijo dos
 olhos circuncidados do público atento aos
 actores que tapam os espaços mas sobretudo aos
 que tapam os tempos com os es}paços de partes
 inexibidas e por isso, imaginadamente, universais.
 {a lágrima final é uma morte fetal}, poderia {eu} per-
feitamente dizer nesta fala depois de uma deixa redundante,
mas fugiria ao texto e nunca devemos fugir ao texto, a menos
 que tenhamos um outro. { } mas, de repente penso: {se tivesse
 um bisturi e me matasse, quem duvidaria
 de que tal não viesse no texto?}

 Sylvia Beirute

 

 Correspondência

{aos poetas contemporâneos do algarve}

 

 para dizer {intemporal} digo {o infinito do tempo} ,
 para dizer que {existe espaço} digo {vazio} ,
 para dizer {passado} digo {o esqueleto do presente} ou
 uso a sinédoque, estranhamente
 mais exacta e rigorosa, {os seus ossos frágeis} ,
 para dizer {cegueira} digo {a mera visão interior
 com passos de tigre ao escuro} ,
 para dizer {sacar verdades} digo {emitir um
 certificado de existência poética}
para dizer que {sou} digo que {estou, ou estou por vezes},
 para sentir {o anonimato contemporâneo dos outros poetas
 que no jardim da alagoa passeiam os cães e fingem
 não me ver} faço {assim com os ombros}.
 para permanecer preciso de {usar as mãos}
 e {estender todo o corpo nos lábios, ou entre sinónimos
 e correspondências}.

 Sylvia Beirute




Poesia de Xavier Zarco


Poesia de Xavier Zarco

 A Zeca Afonso; à Graça Soares; hoje sérgio bebi a certeza


 A Zeca Afonso

 

 os que comem tudo andam por aqui
 zeca voam nas noites e nos dias
 do poema concreto que é a vida
 no poema em que o belo se reduz
 ao horário a cumprir pelos que não
 têm nada por vezes penso o como
 se esquecem do poema da cantiga
 que não dizem nem cantam têm medo
 que a migalha de pão que o seu suor
 amassou se enamore pelo bico
 dos que voam nas noites e nos dias
 e não habite a mesa que os aguarda
 por vezes zeca sinto que perderam
 a semente que espártaco deixou
 sentindo-se felizes no sofá
 vendo o que só aos outros acontece
 sequer sentem que os próximos são eles
 e como riem riem zeca escuto
 os que andam por aqui e tudo comem

 Xavier Zarco

 

 Para a Graça Soares, minha esposa, no dia do seu aniversário: é um poema já com algum tempo, mas que se mantém bem actual.

 à Graça Soares

 

 meu amor não me esperes quando a noite
 acordar em meu olhar
 não me esperes
 de nada vale o tempo que gastares
 à janela da vida
 que só a ti pertence
 não te iludas
 com as coisas da moral
 que os vizinhos costuram nas ombreiras
 com as manhãs que dizem que hão-de vir
 nevoeiro algum diz do meu regresso
 todo o nevoeiro
 pronuncia somente o meu partir
 nada mais que a minha ausência
 por isso parte todas as molduras
 todas
 rasga as fotografias
 apaga os risos
 as lágrimas
 diz aos filhos que a via é sempre em frente
 onde o sol é bandeira desfraldada
 com as suas próprias cores
 e que rumem rumo ao sonho
 porque antes vivê-lo um segundo
 que chorá-lo toda a vida
 bem sabes que a minha morte
 só a mim pertence
 e a mais ninguém

 Xavier Zarco

 

 hoje sérgio bebi a certeza

 

 hoje sérgio bebi a certeza
 num copo de vinho entre amigos
 na solidão da casa as cadeiras
 vazias mas repletas de memória
 hoje recordas é o primeiro
 dia dos dias que sobram
 como sobra sobre a mesa
 esse copo vazio de onde se bebe
 a coragem estrume para o dia
 que teima lá fora em nascer

 Xavier Zarco




quinta-feira, 30 de abril de 2015

Poesia de Ilona Bastos


Poesia de Ilona Bastos

 

Dançante o meu olhar, que é Céu;  Quando a noite está quente; Versos em fuga    



Dançante o meu olhar, que é Céu;


 As nuvens viajam no céu.
 São brancas, às ondas, redondas,
 São leves, etéreas, oblongas,
 São ledas, suaves, serenas,
 São velas, veleiro, singrando
 Cordato, no mar infinito.

 O vento que sopra as encanta,
 O vento gentil as desmancha,
 O vento as estende, transforma,
 Subtil, envolvente, as seduz,
 E faz, desfazendo-as, ceder,
 Em gotas de água, sublime prazer.

 As árvores longínquas, frondosas,
 Verdes, brilhantes, harmoniosas,
 Ao jorro da chuva se animam,
 Ao sopro da brisa balançam,
 Bailarinas inspiradas, em aplauso
 Aclamadas pelos arbustos em flor.

 E, dançante, o meu olhar, que é céu,
 Que é vento e chuva, árvore e flor,
 Pela sala voa, música vibrante,
 Os vidros atravessa, confiante,
 Se entrega à vista bela, além janela,
 Feliz, enfim, confunde-se com ela.

 

 Quando a noite está quente


 Quando a noite está quente
 e o coração saciado de amor,
 sentada para escrever,
 a música a ditar o meu sentir,
 é poesia que me sai das mãos,
 como renda preciosa
 ou bordado mimoso,
 como doce apetecível
 ou afago carinhoso.

 Os sons longínquos
 não perturbam a paz,
 e o sono brando do cão,
 amável companhia,
 é conforto e tranquilidade.

 Embarco nos acordes
e na melodia,
brisa refrescante
 a enfunar as velas
do meu pensamento.
 E navego mar afora,
 cortando velozmente a água
 inventando um rasto de espuma,
 sonhos e palavras
 que compõem este poema.

 

 Versos em fuga


 Afastam-se, voando,
 as palavras em verso
que na noite murmuro
 (incessante balbucio, por
 entre sonhos turbulentos).

 Digo e repito as ideias
 pois temo perdê-las.
 Retenho detalhes,
 decoro-lhes formas
 de oração a não esquecer.

 Pela manhã, estou só,
 desse canto, o que ficou?
 Vagas impressões
 de ladainha abandonada
 pelas trevas, pelo vento…

Ou seja, nada! Tudo se foi!
 Resta-me este rasto triste,
 do que julguei encontrar
 mas me fugiu dos lábios
 com o sopro da alvorada!





Poemas de Jorge Vicente


Poemas de Jorge Vicente

 

 POEMA UM; POEMA DOIS; POEMA TRES; NUVEM



 POEMA UM

 1.

diz o mestre ao discípulo:
 reúne a cor na sua expressão
 máxima e juntai-a de luz branca

só assim as aves serão
 mais do que pontos negros
 na copa dos dedos

2.

as crianças fogem. e do seu
 cálice retomará o espírito
 a sua longa caminhada

3.

fácil é a palavra que se
 incendeia quando dita;
 difícil o poema que dança
 no colo de um vulcão

 

 POEMA DOIS

 eu digo: chamaremos as mulheres e invocaremos o sacro império do corpo. não existe
 pedra maior (ou mais bela) do que aquela onde dioniso se esconde, o deus entre os
 homens, a pedra ante a gélida raiz dos antepassados. formaremos uma roda e
 imitaremos o som de todos os animais. todo o poema é proibido: só a origem, a
 hierofania do ritual e da pele contra pele.

 

 POEMA TRES

 responde-me se ouvires os pássaros, ou se do teu interior a voz é de guerra, um
 silvo constante, o boum das palavras grandes, das palavras santificadas pelo uso,
 mesmo que o uso seja o apanágio da noite - aquela noite que não pertence a ninguém,
 é apenas nossa e da paisagem que nos cerca:

uma casa,
 a ribanceira entre as casas,
 um abrigo onde o pastor se alimenta,
 o caminho milenar por entre as águas do rio,

um trovão é apenas isso: uma voz sobre o alentejo,
 um rumor que rompe o guadiana e nos sobra de pele
 e de versos entre os relâmpagos.

sei que tudo sobra, mas a casa é só minha.

 

 NUVEM

 carrego uma nuvem às costas
 como se dependesse de mim
 permanecer no silêncio

naquele silêncio
 que não se quer rígido
 esquecendo-se do propósito de
 existir e de alimentar o fogo

sossega-me ver uma casa ao
 longe, adormecida no ceptro
 de terra abandonada

uma casa caiada de branco, todas
 as casas o são, mesmo que os olhos
 roubem a realidade
e deus a ignore.

a memória verga todas as coisas,
 mesmo o silencioso movimento
 da não-existência.

tudo é ilusório.

a casa abraça
 a ferrugem dos corpos caiados
 de gestos. os dedos movimentam-se
 numa sinfonia de trevas

jorge vicente





Poesia de India Libriana


Poesia de India Libriana

 

 LAMENTOS; AO TEMPO QUE FOSTE; HABEAS CORPUS



 LAMENTOS

 

Parto sim, do jovem aconchego desse olhar
 que não retocará a sua fantasia primeira
 e só há bilhete para Lugar Nenhum a cobrar
 nesta Estação ubi cheguei tarde à bilheteira...

 Parto sim – de tudo – e parto suas promessas
 abandono o tango e volto ao crepúsculo da solidão
 e fragmento noites e vicio madrugadas travessas,
 no pranto do fadista há lamentos sentidos em vão...

 Em meu retorno ao calabouço do frio espectro
 há portas hipócritas abertas a festejar
 abanando convites para entrar e chorar na ruela

 Há lágrimas de reencontro e desencontro
 e há queixumes de paredes a atormentar
 com boas vindas cantadas a solo e a capela

 

 AO TEMPO QUE FOSTE

 

Es (és) de um tempo que foi e que já não dói
 em que eram tuas minhas ruas
 por onde passava e passeava
 copioso teu olhar, uma dor de amar;

 Eras caloroso espaço, regaço
 de maciez sedosa, tez preciosa
 cheirando a flores, dando calores
 aos sentidos e ruídos contidos;

 Es (és) da Imagem que foste, Cópia inópia
 poesia sem sentimento, o pejo do beijo
 que habitou o meu intenso silêncio
 de todas as horas em que te amava nas demoras;

 Es (és) saudade ausente, toque sem choque
 do exaurido perfume sem ciúme,
 da Ideia do inteligível no sensível
 do tempo que foste, passado sem enfado;

 Eras do tempo que eras e foram eras
 de muitas promessas, louças essas já partidas
 hoje nem saudades amenas, fóssil apenas
 de tão remoto na minha memória sem glória.

 

 HABEAS CORPUS

 

 Vim para soltar da garganta o verbo
 o grito que te sufoca e te prende no papel
 pois é este teu medo de alforria que te dá tropel
 Mas cautela! Nada de estar em assoberbo...

 Vim desatar o nó do laço que te aperta forte,
 fazer desaparecer dele medos e dores,
 fluir das suas entranhas flores e amores
 e fazer-te largar para os mares do norte...

 Que a tua voz se erga bem alto
 A altitude dos que esperam te ouvir
 E dos que te desconheçam deste asfalto!

 Esquece tudo o que antes te foi torpe,
 que na nova via seja de maiêutica teu esculpir.
 Estás solto dos teus grilhões. Que tenhas corpo!!!

 India Libriana 





quarta-feira, 29 de abril de 2015

Poesia de Florbela Espanca


Poesia de Florbela Espanca

TÉDIO


Passo pálida e triste. Oiço dizer:
"Que branca que ela é! Parece morta!"
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
- O que é que isso me faz? O que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente...
O mesmo lago plácido, dormente...
E os dias, sempre os mesmos, a correr...


MAIS TRISTE


É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou...eu...afinal,
A coisa mais magoada das que o são?!...

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!


NOCTURNO


Amor! Anda o luar,todo bondade,
 Beijando a Terra, a desfazer-se em luz...
 Amor! São os pés brancos de Jesus
 Que anda pisando as ruas da cidade!

 E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
 Das ilusões e risos que em ti pus!
 Traças em mim os braços duma cruz,
 Neles pregaste a minha mocidade!

 Minh'alma que eu te dei, cheia de mágoas,
 É nesta noite o nenúfar de um lago
 Estendendo as asas brancas sobre as águas!

 Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
 Fecha-os num beijo dolorido e vago...
 E deixa-me chorar devagarinho...




 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Poesia de Euclides Cavaco


Poesia de Euclides Cavaco
 
DIA DOS MONUMENTOS, aqui deixo uma versão das nossas:

SETE MARAVILHAS DE PORTUGAL

Poema de Euclides Cavaco.

Em Terras da Nossa Terra
Faço destas redondilhas
Um poema que descerra
Nossas sete maravilhas.

Entre muitos monumentos
Considerados perfeitos
Após os discernimentos
Só sete foram eleitos.

Em GUIMARÃES O CASTELO
E JERÓNIMOS também
O monumento modelo
Que é a TORRE DE BELÉM.

ÓBIDOS p’la sua graça
Com seu CASTELO altaneiro
O MOSTEIRO DE ALCOBAÇA
Do turismo qual roteiro.

O MOSTEIRO DA BATALHA
Moldado em pedra morena
E bem digno de medalha
É o PALÁCIO DA PENA.

Cada um é maravilha
De dimensão cultural
Que com tanto fulgor brilha
Em terras de Portugal !...

Euclides Cavaco


DIA internacional do LIVRO

O LIVRO

Poema de Euclides Cavaco

Um LIVRO é como um tesouro
Muitas vezes escondido
Mas que vale mais que o ouro
Ou fortuna quando é lido.

Qualquer LIVRO é para nós
Um amigo e confidente
Porque mesmo sem ter voz
Diz-nos tudo abertamente.

Um bom LIVRO é mais valia
Na cultura é soberano
Por dar a sabedoria
Que enriquece o ser humano.

Quem lê um livro usufrui
Conhecimento e saber
Da riqueza que ele possui
Sem dela se desfazer !...

Euclides Cavaco



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Maria Louca - Poema de José Geraldo Martinez


Maria Louca

Poema de José Geraldo Martinez

Por onde andaria Maria Louca?
 Nega pedinte e pinéu...
 Talvez nesta vida pouca,
 já tenha ido para o céu...

Lá, aprontaria com todo mundo!
 Espantaria os passarinhos das mãos de São Francisco...
 Como se não bastasse, nada que lhe faltasse,
 beberia o café de São Benedito!

Maria Louca, nega andarilha, da minha infância,
 era amada e não sabia!
 Com largo sorriso branco na boca,
 candura distribuia...
 Tudo que ganhava dava:
 bolachas, balas, doces...
 Era a festa da molecada!

Pra eles contava longas histórias
 e a gente até acreditava:
 - Fui amiga de Jesus! (por certo era)
 - Tirei a sua coroa na cruz (duvido)
 - Os pregos de suas mãos (duvido)
 - Vi a ressurreição! (duvido)
 - Briguei com Judas e Pilatos,
 arrumei a maior confusão! (não duvido)

Relatava fatos da época!
 O Padre sempre a escomungava...
 Quem garante que não vivera em outras vidas,
 aquilo que tudo falava?

Proibida de entrar na igreja e
 ainda assim confessava...
 Dizia que era com Deus e que ele sempre
 a escutava! (acredito)

Em baixo de uma seringueira,
 começava a rezadeira e a sua sua igreja montava!
 Naquela hora, parece que eu via
 ao seu redor muitos santos...

Jesus com ela sorria e no colo de Maria,
 sobrepunha o seu manto!
 Maria?
 Eu disse, Maria?
 Quem garante que não era?
 Mãe de Jesus? (dúvida)
 Nega pinéu ... (é fato)
 Um minuto para pensar...
 Maria estaria no céu? (Não duvido)
 Ela tinha tempo para amar...


«Nenhum tempo há de ser perdido se for gasto
 com amor»


( Martinez )



terça-feira, 14 de abril de 2015

Prosa poética de Joaquim Nogueira


Prosa poética de Joaquim Nogueira



 ... A MEDIDA DO AMOR; … o tempo demasiadamente lento; …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto 



... A MEDIDA DO AMOR



...um dia, há milénios passados, perguntei se amar tinha medida, ou peso, ou tamanho; nessa altura, a minha caminhada ainda era prematura e ainda muito «verde» nos caminhos da vida… e nunca ninguém me soube responder e eu, ainda que repetindo a pergunta muitas vezes, nunca sabia «como» amar; se amar deste tamanho, se amar com este peso, se amar de determinada forma ou feitio… se amar tivesse medida eu queria amar com o máximo que ela tivesse...

um dia, há milénios passados, deixei de me preocupar com a forma, com a medida do Amor; pela simples razão de que, durante toda a minha demanda, jamais houvera encontrado essa mesma bitola, essa fita métrica ou essa balança... e foi nesse momento, quando deixei de procurar como é que deveria Amar, de que forma é que deveria «usar» o Amor (como que fosse um componente para se fazer um bolo), que eu descobri que o Amor não tem medida...

o Amor jamais se pode medir, o Amor apenas, é... é amando, é dando-nos completamente numa entrega absoluta, que se consegue amar... e quem o conseguir fazer, para além de tudo o que possa transmitir aos outros, será ele mesmo, uma pessoa inteiramente feliz... não, não amo muito... não, não amo com todas as forças da minha alma... não, não enlouqueço...
 ...amo, apenas...

 

 … o tempo demasiadamente lento

 … o tempo demasiadamente lento… as horas e os dias demoram eternidades… sente-se a pressa e as saudades… é preciso que as horas voem… é preciso que a manhã do dia seguinte surja rápida com a certeza de mais um dia que passou… é menos um dia na contagem voraz de quem sente desejo de um novo encontro para sentir a tal paz…

a serenidade do abraço que nada tem de sereno mas de forte, de pura ternura e ao mesmo tempo de paixão… rege-se então a dádiva da presença… gostosa… imensa… e os corpos se abraçam num rodopiar sem fim, num beijo prolongado, doce, com sabor a jasmim… e a ternura e o amor não termina ali… prolonga-se na alma do sentir que se ama… perde-se então a noção do tempo que se ganhou na espera…

é um momento mágico aquele em que enlaçados, deixamos de ser o que somos para passarmos a ser o beijo de um tão doce e eterno desejo…

 

 …Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto

 ...Em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso… a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim… brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras… a beleza em ti não residia nem morava … era!…

A tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar… a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia sensual de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade… e tu, demoravas…

da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam… e a tua cama, ansiava pela tua presença… e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo… levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença… olhaste de soslaio e sorriste… sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria…

Tiraste os teus pezinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito… a tua cama nem sequer se moveu… aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder… a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento… deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos…

Teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligares... os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia… e a tua cama sentia… na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão… olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente… avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento…

a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente… em suas mãos te acabavas de entregar… e o sono chegou…. adormeceste… não sei mais o que se passou… a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu… a tua cama não se movia, com receio de te acordar... abraçava-te sempre para não te deixar fugir… sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali… tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas… a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha… sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia… nada mais desejava… queria apenas ser o teu sonho…




sábado, 11 de abril de 2015

Poesia de Euclides Cavaco


Poesia de Euclides Cavaco

 
NAU FEITA DE SONHOS

por Euclides Cavaco.

Minha nau feita de sonhos
Parece às vezes perdida
Quando os ventos são medonhos
Neste oceano da vida.

Ai quantas vezes os ventos
Sem saber porquê se agitam
Causando à nau tais tormentos
Que o seu curso debilitam.

Eu procuro navegar
Ser da nau um bom arrais
E luto prà controlar
Ao encontrar vendavais.

Quando amaina a tempestade
Fico feliz não o nego
Ao sentir tranquilidade
Nesta nau onde navego !...

Euclides Cavaco

 
ALVORADA DE ABRIL

por Euclides Cavaco

Mais um Abril a brotar
Que nos apraz celebrar
Em cada ano que passa
P’lo grande significado
Dum Povo que amordaçado
Pôs fim à vil ameaça.

Abril, é toda a bravura
Que derruba a ditadura
Dum poder ultrapassado
Com toda a intrepidez
Traz ao Povo Português
O que em lei lhe foi roubado.

Abril dum povo unido
Que se afirmou destemido
Sem qualquer excesso hostil
Com civismo e com respeito
Restaurou o seu direito
Nesta ALVORADA DE ABRIL.

No seu sentido maior
Infunde o fim opressor
Da déspota austeridade
Abril é data de glória
E proeza peremptória
Que instaurou a liberdade !...

Euclides Cavaco




quinta-feira, 9 de abril de 2015

Poesia de Marcos Loures


 
 
Poesia de Marcos Loures

O CUSTO DA ESPERANÇA

O custo da esperança é a tristeza,
Do nada conseguir após a luta,
Ao ter a solidão por sobremesa,
Eu sinto quanto a vida se faz bruta.

Uma alma necessita ser astuta,
Vencendo qualquer forte correnteza,
Porém quando insegura, ela reluta,
Naufraga sem mostrar qualquer destreza.

Versando sobre o quanto que te quis,
Riscando o quadro negro, apago o giz,
E deixo este vazio na parede.

Percebo quanto estúpido é sonhar
E volto a realidade devagar,
Do mar que imaginei sobre a sede...

CAMINHEIRO

Da vida um caminheiro sem paragem,
Adormecendo, lembro-me de ti,
Relembro cada cena que vivi,
Como se fosse agora, vã miragem...

Reconstruir meus sonhos e seguir
Sorvendo cada gole de esperança.
E quando maltratar-me tal lembrança,
Olhar para o futuro, e no porvir

Saber que este andarilho coração,
Terá algum descanso, finalmente,
Nos braços de outro alguém, ir plenamente
Buscando novo rumo e direção,

Até poder dizer que estou em paz,
Diverso do que fui tempos atrás...

NAS ÁGUAS DESTE AMOR

Amor enche barriga? Mas esvazia
E quando isso acontece, outro guri,
Ou pode ser também uma guria,
É lá no Ceará ou bem aqui.

A fome vem chegando pela porta,
Amor pula depressa uma janela,
Quem disse que com isso não se importa,
Um belo mentiroso se revela...

Amor numa casinha de sapê,
Na beira do riacho... isto é poético
Mas quando o trem aperta, ninguém crê
Que ainda exista algum espírito ético.

Mas deixa de conversa e venha logo,
Nas águas deste amor, quero e me afogo.




quinta-feira, 2 de abril de 2015

Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

A minha casa sonhada

Casa, palavra tão pequenina no seu tamanho
Casa, palavra tão gigante no seu valor
Casa, tão querido esse meu sonho…
Anos longe e ainda no peito o mesmo fervor

A mesma tristeza, a angústia que oprime o coração 
O coração estrangulado pela ânsia de regressar
A chaga aberta de quem se sente perdida na imensidão
A dor de todos os dias acordar fora do ninho que continuo a recordar

A vontade, a simples vontade de me aninhar no lar tão almejado
O lar que sonhei em menina, o lar que quis construir já crescida
O país onde nasci e cresci e de onde me roubaram, esse país tão despedaçado…  

A sensação de não pertencer aqui nem ali, a sensação de estar perdida
O sonho de, por um momento, para sempre talvez, voltar a sentir-me parte desse país amado
Voltar a sentir-me, por um instante, para sempre talvez, completa!


Alvorada

Tão feia e deserta me pareces nesta noite cruelmente envenenada
A harmonia da tua singular magia já tão maculada pela separação…
Choro baixinho, nesta noite escura e gélida tão tristemente antecipada…
E murmuro uma prece que atrase o clarear baixinho desta tenebrosa escuridão

Como uma criança que de um sonho imenso não quer despertar…
Aguardo silenciosamente pelo clarear do alto da minha torre de cristal
A escutar a ferocidade do mar, que ao longe comigo se parece revoltar
E ao ritmo das marés também eu me abandono a esse anseio visceral…

Envolvo-me cuidadosamente no meu manto carmesim de pura saudade,
Angústia que já me come os ossos como um fado de uma mulher amargurada…
O céu ainda se cobre de negro, mas ao longe espreguiça-se o Sol sem piedade

E eu, uma cigana enraizada, derramo pesadas lágrimas de despedida
Uma por cada tonalidade pintada no céu em largas pinceladas de vida
Enquanto murmuro “Adeus, minha terra tão amada”, ao nascer da alvorada…


Girassóis

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Flores alegres e tão cheias de vida
Ao longe admirado como os mais belos prados
Ao perto adorado com paixão incontida

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Arrancados pela raiz pelo inclemente vendaval
Mãos cruéis que rasgam a terra sem nenhuns cuidados
Tempestades que arrancam cada girassol do seu pedestal

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Onde alguém um dia, quando o vendaval pára de soprar 
Cansado de acreditar no ouro dos campos amargurados

Planta com ternura uma túlipa na terra já seca e salgada
Uma túlipa tão delicada e sincera que parece não poder vingar 
E a flor desperta viçosa e espreguiça-se ao nascer da alvorada…  




Ode ao Quinhentão - Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS


Ode ao Quinhentão

Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

(Esta poesia foi feita em sala de aula, durante Curso Livre de Poesias e Literatura Brasileira, no distante ano de 2000)

I

A bruxa vestida de negro
 Com muitas verrugas e muitos pêlos
No nariz, pilota vassoura
 Já gasta puída, careca
 Que o diabo à guinchar agoura.

II

O que é o Brasil, que ninguém vê?
 -Zunzuns, assovios, vastos gritos
 Permeiam a mata, onde o ipê
 Se destaca, belo altaneiro:
 Onde mora o saci pererê.

III

Montado num porco, o caipóra
 Vigia gnomos brasucas e Yara
 Mãe d’água, que sonha com botos
 Que atraem moças virgens pro rio...
 E o curupira que vigia as matas
 Por cinco e longos séculos à fio
 Pra que não se façam queimadas
 Nem deixar que poluam as cascatas
 Onde se banha Yemanjá.
 O esforço parece que é vão...

IV

Matas tantas, quantas, imensas
 Manacás, mandaquis, jabotis
 Mangabas, goiabas, sapotis
 Que o fogo aos poucos consome...
 Fechemos nossos olhos à dor
 Joguemos sal por sobre os ombros
 -Que vá de retro, lobisomem.

V

São os entes imaginários
 Que povoam nossas cabeças
 Antropofagia de mários
 Provocando muitos enleios
 Bois-mamão, bumbá e as mulas
 Sem cabeça, são os cavalos
Marinhos, reizados, catiras
 E o negrinho do pastoreio
 Cabeça urbana, pés caipiras.

VI

Justifica-se o meu Brasil
 Tão caboclo, caipira, gentil
 Tão audaz, sereno, dolente
 Esse mulato insoneiro
 Ainda moço, só quinhentão
 Que crê: para ser brasileiro
 E preciso amansar barbatão
 E com meia braça de corda
 Chegar um touro ao mourão
 E preciso calçar esporas
 E cair muitos, muitos tombos
 E sentir o ardor das chibatas
 E fugir para poucos quilombos
 E ter na cabeça um mote
 Paciência, a mais não poder
 E muito peso no cangote
 Fazer verso de pé quebrado
 E sofrer, viver o agora
 Ser índio, ou mulato indolente
 Contar «causos», onde se gabe
 Que o Brasil é terra da gente!

Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS





segunda-feira, 30 de março de 2015

Poesia de Maria Álvaro


Poesia de Maria Álvaro

O MAR...

Veleiro ligeiro beija embevecido,
excitado,
de Tétis o seio cheio, acobreado
e cúpido;
E o Adamastor ora adormecido,
prostrado,
esquece seu furor e vira pr'o lado,
estendido.

Nas ondas eu sigo o seu lençol dourado
e persigo
estrelinhas piscando p'ra mim, deslumbrado,
rendido...
...são olhos espreitando por um véu rendilhado
e antigo
de ninfas pintando e bordando comigo
o meu fado...

Maria Álvaro


NOS AÇORES

Sou uma lagoa, lânguida, estirada,
de expressões mutantes, matizes do céu;
intensa neblina dá-me a imprecisão
de uma realidade p'lo sonho ofuscada.

Inala as hortênses do ventre que é meu,
escuta os silêncios que grito dopada,
e afunda os teus olhos em minha amplidão...
Não ouses, porém, descobrir o meu véu,

Nem insinuar-te em minha morada,
que o colo tranquilo que embala Orfeu
cobre incandescente lava perturbada.

Ganhoa nas asas da minha Emoção
Voa no que é teu...
mergulha calada.

Maria Álvaro



Poesia de Arlete Deretti Fernandes


Poesia de Arlete Deretti Fernandes


Amigos virtuais


Arlete D. Fernandes


Nossas almas tem preocupações semelhantes.
 Mesmo sendo amigos virtuais.
 São pensamentos de amizade e de bem
 Que nos unem em anelos fraternais.

Angustia-nos a desordem da humanidade.
 Queremos ver o respeito, a paz e a unidade.
 Em contrapartida vemos a cada ano,
 incompreensões, guerras e desenganos.

Os dardos do mal se fortaleceram,
 Dos valores e princípios o que foi feito?
 Com o passar do tempo esqueceram.
 Já existe em nosso meio quem pratique
a volta aos conceitos verdadeiros.

As leis universais são justas e eternas
 e já se fazem sentir suas causas e efeitos.
 E muitos seres unindo-se praticam conscientes
 O amor e os princípios que ensinam pacientes.


Meu amigo virtual


Arlete Deretti Fernandes


Veio-me à lembrança de tempos passados
 Quando encontrei dentro de um antigo livro,
 Algumas fotos já amareladas
 que me fizeram recordar um grande amigo.

 Interessantes aspectos dos dias atuais,
 Com os avanços criados pela tecnologia,
 Permitem-me ver e fazer amizades,
 Um amigo virtual encontrei na Bahia.

 Amigos virtuais? Quem diria?
 Em outras épocas que isto possível seria?
 E felicidade encontrar amigos sinceros.

 Desejo-lhe muita paz e harmonia,
 Verdadeiro irmão, que com belas poesias
 Envia-me as mensagens fraternais que eu espero.


Poema da vida


Arlete Deretti Fernandes 


Dia e noite, noite e dia,
Assim segue o ritmo da vida.
Buscas, delírios,
Dores, martírios.

Nesta curva da estrada
 A felicidade me esperou.
 O sonho virou realidade,
 Meu lar aqui se formou.

Família, esposo e filhos,
Emoções tantas encontrei.
 Sucedem-se os dias,
 O sol, o verde, a chuva e as estações.

Ali, as folhas que caem,
 Aqui, as folhas que brotam.
 O poema da vida
Escrito em um grande cartão.

A infância, a adolescência,
 A juventude, a vida adulta.
 «Nossos filhos não são nossos filhos,»
 Como disse um dia Gibran .

Como a árvore que plantei,
As sementes que vi brotar,
 Cresceram e seus caminhos
 Um dia foram procurar.

Hoje espero ouvir o telefone,
 O skipe, o Messenger, um email.
 Como não sentir saudades
 Do barulho das crianças?

Este ninho ficou vazio,
 Procuro-os por todos os cantos.
 Enquanto em meu jardim vejo
 Pássaros voando constantes.

Passam dias, meses e anos.
 Os rios correm para o mar,
 Lá fora o poema da vida
 Continua a se renovar.




quinta-feira, 19 de março de 2015

Poesia de Maria De São Pedro


Poesia de Maria De São Pedro

 
Poema II

Enquanto o áspero da tua barba
de dois dias
não roçar no meu rosto…
Enquanto a tua boca não esmagar a minha
num beijo bravio e infindo…
Enquanto o teu corpo moreno
não se enroscar no meu
e a tua voz rouca não suspirar loucuras…
Enquanto não mergulhares no meu pescoço
e me farejares em instinto de Homem-Lobo…
Eu vou acordando
nas longas madrugadas frias
só e mal amada.


OUTONO EM LISBOA

Corriam palavras outonais,
breves poesias murmuradas,
folhas laranja verde-seco
voando leves na aragem gélida.

Queria um café quente,
desesperadamente quente.
Uma sala cheia de gente e fumo,
com cheiro a lareira
e bater de copos
num balcão.

Queimar-me num sopro
dentro de uma chávena de café.
Acender um cigarro e perder-me
em memórias simples.
Um piano.
Uma voz rouca dilui-se em lembranças
de cenas
que jamais existiram.

Que tosse estúpida!
Tenho de deixar de fumar
vagamente...

Aquele fulano ali parece...
Esquecera-me
que tinha morrido dois anos atrás.
Será que resolveu mostrar-se...
assim?!
Apenas e só
um efeito de sombra-luz.
Numa tarde chuvosa em Lisboa

Quero telefonar-te.

Quero telefonar-te.
Ter a violência gratuita
do teu “olá” sussurrado
numa antecipação de cóleras, ódios
e Amor reprimido.

Quero telefonar-te.
Quero escutar a tua respiração.
Quero sentir o teu perfume.
Quero odiar-te.
Quero amar-te.
Quero esquecer-te.

 
PASSAGEM

Aragem mansa insinuada em nevoeiro
enruga a seda do teu manto pesado.

Espectros, fadas e gnomos disputam
o teu olhar lânguido,
velado por rendas milenares e diáfanas.
Aves do paraíso pousam leves, descuidadas,
em bandejas de miosótis e alecrim.

A intemporalidade reacendendo-se,
sulca portais de eternidade.
Sonhos naufragados despertam tímidos
por entre colunas cobertas de conchas
e algas vermelho-sangue.

Sussurros e suspiros esvaem-se
nas longas roupagens de Invernia.
Duendes e feiticeiras emitem sons
que arrepiam a alma.

Salpicados por cascatas de prata líquida,
os Meninos do Amanhã surgem da bruma
e num espanto essencial, cristalino,
soltam gargalhadas de Amor.

Portais divinos sulcam paredes
de pedra dura,
desabrochando em luzes vibráteis
que entontecem e encantam.

Será o meu caminhar pelas estrelas,
partilhando contigo a mesma saudade
num cálice de rubi
com sabor a maresia.
E na intemporalidade absoluta
dissolver-me na tua paixão.




quarta-feira, 18 de março de 2015

Poesia de Liliana Josué


Poesia de Liliana Josué

PEDRO

No meu gemido Universal nasceste
menino robusto e lindo
crucial momento na minha existência

criança adorável em choro de vida

despontou o lírio branco que eu embalei
e amei na solidão do meu mundo

não deixei que te transformassem em nada
não, não deixei
eras meu, estavas em mim
e sendo assim
mais nada contava

querida vozinha em soluço de agradecimento

choravas por causa da música
e brincavas com o reflexo dos espelhos

doce canto, doce pranto
plena certeza de te querer aqui.

22/02/2015
Liliana Josué

GATOS VERDES

 Quatro gatos verdes
 observavam o seu desventrado quarto.
 Gavetas voadoras com línguas de fora;
 armários navegando assustados
 por ondas de papeis;
 leito num furacão
 envolto em negras nuvens de pó.

 Os gatos... eram gatos?
 Sim! Eram gatos! Na certeza da dúvida...
 mas tinham cor de papagaios!
 Verdes, brilhantes...
 talvez fossem... gatos - papagaios!?
 Mas não falavam!

 Constrangidos
 observavam o mundo ressequido
 daquele quarto esquizofrénico.
 Que ambição dali poderem sair
 mas uma despudorada Força contrária
 puxava-os e impedia a desejada saída.
 A liberdade é só para alguns
 ou mesmos nenhuns.

 Um dos quatro gatos - papagaios
 fixou uma porta abstracta
 passou por ela, quis tentar a liberdade.
 Os outros três por lá ficaram
 no caos das suas vidas
 dentro do quarto
 sem se atreverem a olhar mais longe.
 O gato - papagaio que se soltou
 tornou-se azul, brilhante como o céu
 e conseguiu cheirar o ar sem mofo.

 Seria gato? Seria ave?
 Quem o saberia?
 Só se comprovaria ser ele lindo.

 Do seu futuro
 mais ninguém soube.
 Será que encontrou a liberdade?
 Ou terá morrido na saudade
 dos outros três gatos verdes
 fechados nas bolorentas paredes?

 Liliana Josué

 Primavera Branca

 Há sol azul
 nos olhos do ancião,
 metamorfoses de vidas
 esvoaçando como tule
 adormecem esse olhar
 de solidão.

 Cabeça pendendo sonhos
 recordações
 do distante
 memórias de luares antigos
 polvilhados de emoções
 de cor imaculada
 e cheiro a ontem.

 Tudo é Primavera branca
 cabelo, barba, ilusão...
 a face nívea desgostos tranca
 só os olhos é que não.

 Liliana Josué





Poesia de Maria Álvaro


Poesia de Maria Álvaro


QUADRAS RICAS

Dinheiro?!
Cansei!
É deus traiçoeiro,
egoísta! --Eu sei.

Lobo disfarçado
espreitando o cordeiro,
fala açucarado,
mas morde o parceiro.

É outra maçã
de um éden criado
dentada, direi,
fruto envenenado.

Dono dos afectos
que meus eu julguei,
foi mel pr´os insectos
que agora matei.

É tiro certeiro
de alvo estudado,
Do-lar vai lançado
pr´as mãos do matreiro...

Hábil advogado
comandando a Lei :
se o tens, és honrado;
Se não, condenado.

Maria Álvaro

Cada poema, uma jóia...

Cada poema, uma jóia...
Um colar de palavras desfiando pérolas de cultura e emoção...
Filigranas de ouro retorcido insinuando arabescos de sentimentos populares...
Uns, pedras brutas de contornos primitivos e colorido rústico mas sábio...
Outros, as dramáticas peças de ouro verbal maciço cravejadas de rubis sangrentos de paixão e dor...

Há-os delicados como fios imperceptíveis que ligam as estrelas...
Cintilam subtilmente com uma suavidade distinta, só porque descobrem uma flor...
E há os que ostentam ansiosas esmeraldas de sonhada esperança ou amargo desespero...
Também os que mostram águas marinhas e terrestres de saudades natais profundas...
E ainda os que enriquecem de minerais cristalizados nas densas correntes de uma fonte original perdida no tempo...
Mas os mais preciosos têm brilhantes, lágrimas extraídas daquele diamante único, lapidado com o amor humano mais essencial...

Cada poema, uma jóia...
Cada jóia, uma emoção...

Maria Álvaro

BURACO NO PEITO

No buraco bem fundo do meu peito
Aquele vácuo sôfrego de ti...
Um estremecer de todo este meu jeito
Que, da nuca ao ventre...leve...senti...

Uma maré que persegue o luar
Escorre subtil neste leito dolente...
E uma lânguida onda do mar
'Spuma queixume da rocha ausente...

Face risonha de um amor-perfeito...
Trêmula, tensa, querendo te amar
Exala suspiro fugaz... urgente,
Frêmito ansioso como eu nunca vi...

No buraco bem fundo do meu peito...
Lampejam dois pólos desta corrente...
Chamas e fogos que em ti acendi

Inflamam meus céus em noite estrelar...
No buraco bem fundo do meu peito
Aquele vácuo sôfrego de ti...

Maria Álvaro