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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Poesia de Pedro Du Bois - SILÊNCIO - LADOS

 
Poesia de Pedro Du Bois

 
SILÊNCIO



A reafirmação do ocaso

sucessivo ao decorrido. Tempos

eleitos em esquecimentos. Torpor

                                       e formato.



A recondução do corpo ao silêncio

originário. O primeiro sinal de vida

escrito no todo universal.



            A solidão se completa

            em esquecimento

                  e silêncio.
 
(Pedro Du Bois, inédito)


LADOS



Na peça dos fundos
deposito o que não quero

que me acompanhe



no fundo do quarto
depósito as jóias



aos interesses maiores

deposito flores plastificadas

nas memórias arquivadas

dos inoxidáveis seres

desprovidos de passado



nos desinteresses

reverbero cânticos

e desprezo no rito

a sensação vazia

do conflito: entre

orações descubro

o texto analisado

no espúrio tempo

desconexo da vaidade



Faço o que me é pedido

perdido em estrelas

vistas em céus

anilados: anilhado

o pássaro se descobre

em céus abandonados



do que faço a pedido

relembro a ensolarada

tarde das tradições:

       antes do poente

     na desorientação

                 do corpo



Quando é hora

acordo em sonhos

e me desfaço do corpo

ao relento: na afirmação da gratidão
sou descrente emotivo



sendo hora do quando

me encontrar no bastante

faço do enjôo o sábado

aferido em descanso



Irrealizado termo
usado no subterfúgio

dos automóveis
em estreitas estradas:

o cotovelo do lado de fora

na sequência quilométrica



o termo correto na irrealização

do esteta no conforto da história:

habito a vida anterior do trajeto

e me recuso em novidades



ao morrerem malvadezas

se estendem sob o solo
no aguardo do perdão



malvadezas morrem

em perdões e se reabilitam

nas bondades contrariadas



Busco a fotografia publicada

na revista há tantos anos:

testemunho no aguardo

do desvelo com que notícias

praticam vaidades



a fotografia busca

representar em ânsia

a permanência: desbota

e envelhece personagens



Arrasto o tronco caído

sobre ao leito: não posso

estragar a rodovia no permitir
a interrupção da viagem



o tronco arrastado

permanece: leito desdobrado
na fluidez do trânsito

concatenado das saídas.





(Pedro Du Bois, inédito)


 
http://pedrodubois.blogspot.com
 
 
 


Poesia de Virgínia Teixeira - Vidas passadas - Caminho forjado - Sonhei que morrias

 
Poesia de Virgínia Teixeira
 
Vidas passadas
 
A minha alma deambula neste caminho agreste
Como tantas outras vezes deambulou noutras vidas
A minha alma procurou-te sem saber até que vieste
E a sede e a fome amansaram, por ti ávidas
 
Milhares de vidas percorri sem te encontrar
Milhares de vidas percorri apenas para te perder
Milhares de vidas roguei por ti sem me aperceber
Milhares de vidas gastas só para te procurar
 
E quando nos encontrámos, em cada vida passada
E me amaste por apenas um momento, ferozmente
A minha alma encontrou o seu porto e acreditou ter nele pousada
 
E quando nos perdemos, em cada vida passada
E nos despedimos com o olhar marejado e a alma pesada
Proferi mais uma vez a promessa de te procurar eternamente...

Caminho forjado
 
A amazona forja o seu próprio caminho,
Com uma espada de ferro incandescente
De um lado ao outro como um remoinho,
Cortando o mato bravio compassadamente
 
Desbrava o seu próprio caminho a guerreira
Com golpes desferidos com aparente bravura
De um lado ao outro, numa apaixonada cegueira
Abatendo as ervas daninhas e roseiras sem censura
 
A amazona assim desvenda o caminho da sua sina
Com golpes desferidos à falta de um caminho desimpedido
Cegamente, sem saber o que está para lá de cada colina
 
Marcando cada passo com uma grossa lágrima em pérola transformada
Sem hesitar, avança, com o seu peito de mulher aberto ao desconhecido
Não crente, não esperançosa, mas incapaz de se admitir derrotada!

 
Sonhei que morrias
 
Esta noite sonhei que morrias...
Encontrei-te deitado num caixão com aroma a eternidade
As mãos repousadas no peito que já não movias
E as pálpebras cerradas a esconder o teu olhar de tempestade...
 
As lágrimas corriam pelo meu rosto contorcido
E a minha voz transformada num grito alucinado
Som de besta selvagem, de espirito perdido...
Abracei o teu cadáver jurando manter-te acorrentado
 
Prometi-te o meu coração estraçalhado no peito
O meu corpo e a minha alma abandonadas à sua sorte
Deitei-me devagar junto a ti no teu eterno leito
 
E beijei-te como uma menina bravia que saboreia a morte
Envolvi-te com o desespero de mulher endoidecida
E ali restei, ao teu lado, eternamente adormecida...
 

 
 

domingo, 16 de agosto de 2015

Poesia de Adelina Velho da Palma - A NOVA VELHA - ANULAÇÃO - ÓDIO

 
Poesia de Adelina Velho da Palma
 
A NOVA VELHA
 
De longe faz lembrar uma menina
empoleirada nos saltos da mãe,
embora de estatura muito aquém
duma ideal figura feminina…
 
A cabeleira ruiva estilo crina
aderna num ridículo vaivém,
o traje é colorido, vê-se bem,
demasiado até, pra gente fina…
 
Mas eis que tal visão se aproxima
e nos permite enfim grato prazer
de lhe colocar bem a vista em cima…
 
Só então nos é dado perceber
verrugas, flacidez e pantomina
de velha que não soube envelhecer…
 
Adelina Velho da Palma

ANULAÇÃO
 
Ao pé de ti eu não sou como sou
visto a pele de alguém bem diferente
pois se fosse como sou realmente
não podias ficar aonde eu estou...
 
Não me opondo a que estejas onde estou
consinto em comportar-me como ausente
de vontade e opinião dormente
imune à enormidade que te dou...
 
Se tivesses alma suficiente
eu não abdicaria do que sou
e tu encarnarias outra gente...
 
Mas não consegues ir aonde eu vou
por isso quem avança para a frente
sou eu – não sendo aquilo que sou!...
 
Adelina Velho da Palma

AVISO
 
O soneto que se segue contem ideias e/ou palavras que podem chocar o
leitor mais sensível
 
ÓDIO
 
Quero-te exangue, tolhido com dores,
a súplica e o medo em teu olhar,
a boca desfigurada num esgar
e o corpo carcomido por tumores...
 
Quero-te esmagado por dissabores,
atormentado, contrito, alvar,
sem nada que te possa aliviar
nem arrependimento nem licores...
 
Quero-te humilhado sem esperança,
castrado, sem recurso nem vingança,
presa de patético frenesi...
 
Quero-te reduzido à nulidade,
cuspir-te na cara à minha vontade
e esquecer que um dia te conheci!...
 
Adelina Velho da Palma
 
 
 
 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes - A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho

 
Poesia de Arlete Deretti Fernandes

A Quem muito amei; Bolinhas de sabão; Sementes de Amor; Sonho 

A Quem muito amei
 
 Queria ser uma flor, a rosa.
 De todas a mais delicada.
 Queria ser pedra preciosa
 que cintila ao sol, na madrugada.

Ao surgir de seus primeiros raios,
 a iluminar a natureza inteira,
 eu saio a vagar, a procurar-te,
 até chegar a lua branca e faceira.

Meu destino será amar-te para sempre,
 a plainar pela imensidão do Universo,
 qual ave a chamar a companheira.

Esta cicatriz jamais se fechará,
 espero encontrar-te em outra vida,
 minha saudade só assim se aplacará.

Arlete Deretti Fernandes
 
Bolinhas de sabão
 
A menina de vestido bonito,
 lá do topo da escada,
 solta bolinhas de sabão
 e as observa admirada!
 Multicoloridas bolhinhas !!!
 que voam nas asas do vento.

Vestido de bolinhas esvoaçante,
 Lá no topo da escada!
 a menina embevecida e deslumbrante,
 sonha que as bolinhas seguem sua estrada,
 sem saber que se acorda na vida num instante,
 E as bolinhas explodem no ar, espatifadas!.

Arlete Deretti Fernandes
 
Sementes de Amor
 
Se eu for um plantador de esperanças,
 jogarei lindas sementes pelos caminhos que passar.
 Sementes de amor aos carentes,
sementes de paz aos sofridos,
 sementes de alegria aos tristonhos.

E quando voltar da jornada,
 pularei, cantarei versos de esperança
 a todos que dela precisarem.
 Verei ao longe o arco íris depois da chuva,
 as estrelas, o capim e o cheiro de terra molhada.

E sorrirei, porque muitas sementes
 brotaram na minha volta, e de seus brotos
 saíram pétalas multicoloridas,
 e as crianças têm boas escolas,
 os doentes são tratados em bons hospitais,
 os idosos recebem carinho.
 E as sementes de amor proliferam cada vez mais...

Arlete Deretti Fernandes
 
Sonho
 
Quero chegar bem devagarinho.
 Pé antepé, e com carinho,
 Recordar aquela meiga criança
 Que um dia esperou o coelhinho.

Passar a mão em seus lindos cabelos,
 Beijar seu rosto inocente,
 Olhar com alegria seus olhos,
 Que amarei para sempre.

Quando chegam estas datas
 Meu coração sente mais saudades
 De um tempo que foi ontem.

Caminho pelos gramados
 E no meio das plantas revejo
 Um cinema inesquecível.

Arlete Deretti Fernandes


 

Poesia de António Cambeta - VENDAVAL; SAUDADES NO CAIS DEIXEI

 
Poesia de António Cambeta
 
VENDAVAL;  SAUDADES NO CAIS DEIXEI   
 
 VENDAVAL
 
 No meu pequeno, mas belo jardim
 entrou a tristeza
 o vendaval que assolou a região
 levou-me as belas flores
 as rosas negras, os crisântemos amarelos
 as orquídeas de âncora
 que eu tinha bem estimadas
 como um tesouro que Deus nos dá.

As plantei e tratei
 com paciência de bonzo
 numa tarde serena e luminosa
 de Maio

Diariamente
vigiava meu tesouro
 de orquídeas de âncora
 de Fá Mui e de tulipas

Visionava distante com se de um sonho
 se tratasse.
 De um sonho pleno de amor.

Viver o sonho que sonhei
 entre as orquídeas de âncora de meu jardim
 embriaga-me
 no seu perfume oriental
 das orquídeas de âncora.

Uma noite
 a tristeza
 entrou em meu pequeno mas belo jardim
 e com o vendaval da noite
 minhas orquídeas de âncora
 minhas rosas negras
 meus crisântemos amarelos
 foram levadas pelo vento.

Na manhã seguinte
 ao encontrar todo o meu tesouro
 desfeito, chorei lágrimas de sangue.
 no chão ainda pude ver uma orquídea de âncora
 tentar sobreviver foi só o que restou

De novo, com paciência de chinês
 tentarei fazer florir meu tesouro
 e o protegendo das intempéries
 irei fazer para que minhas orquídeas de ancora
 fiquem bem amarradas ao fundo da terra
 para que jamais as possa perder
 
 SAUDADES NO CAIS DEIXEI
 
 Saudades no cais deixei
 ficando assim aliviado,
 esqueci quem tanto amei jamais serei atraiçoado.

O mar, esse sei que é traiçoeiro,
 mas a ele estou habituado,
 o tenho por amigo e companheiro,
 sei que dele sou sempre amado.

Suas águas vou percorrendo,
 as marés as vou contando,
 e aos poucos envelhecendo
 mas dele sempre gostando.

Neste mar imenso e salgado
 suas águas vou sulcando,
 tendo o leme bem calibrado
 minhas mágoas vou soltando.

Tenho o mar e o céu por companhia,
 à noite as estrelas vou contemplando,
 e o sol que raia de dia,
 esses me vão acompanhando

Vivo um pouco na solidão
 não tendo com quem falar,
 fortalece meu coração,
 Tenho Deus para me ajudar.

O rumo nunca perdi,
 com o norte sempre atinei,
 foi nele que sempre vivi
 e nele sempre estarei.

é sempre bom conselheiro,
 para quem com ele souber falar,
 ele é bom é fiel companheiro
 que sempre nos sabe amar.

Meu rumo está destinado,
 ao longe, o cais já avisto,
 a ele ficarei amarrado
 nesta viagem tudo está já está previsto.

O mar, este, agora de berço me serve,
 depois será minha sepultura,
 minhas cinzas ele conserve
quando chegar à altura.

Depois, para sempre nele repousarei,
 findarão as minhas mágoas,
 e eternamente navegarei
 em suas serenas águas.

Outras marés outros oceanos,
 irei então encontrar,
 findam assim os desenganos
 a quem na vida tanto soube amar.


 

Poesia de Sanio Aguiar Morgado - CINQUENTA ANOS - TEMPO DA POESIA

 
Poesia de Sanio Aguiar Morgado

CINQUENTA ANOS
 
 Hoje acordei com
 cinquenta anos e fui procurar
minha cara no espelho.

Onde estará o rosto
 que era meu, com tudo que sou
 e sempre esteve comigo.

Os cabelos que me
 cobriam a testa, a pele sem
fungos e o olhar sem rugas.

Agora tenho que me
 aceitar todos os dias e acostumar
 com todas estas diferenças.

Não me encontrarei
 mais neste espelho, mas este olhar
sei que ainda é o meu.
 
TEMPO DA POESIA
 
 Não há como evitar
este tempo que se esvai,
 pelos meus dedos
 e o olhar.

Perdendo-se em
labirintos, com sonhos
 presos a abismos
 que não se comunicam

Agonizando pelas
paredes e nas fotos
e papéis esquecidos
em gavetas.

Guardarei comigo
 preso a correntes, meus
 versos, estrofes e rimas
 do tempo da poesia.
 
FLORBELA ESPANCA
 
 Versos que ecoam do além,
 dor que não é só tua,
 é minha também.

Os amantes e sofredores
 estarão sempre juntos,
 eternamente...

Florbela Espanca,
o amor que de ti se espalha,
como vento beijando rosas.

Vila Viçosa... a tempestade
 de todo teu sofrimento
 no chão desta aldeia.

Paixão eterna, antiga,
 vida tão breve, tão sofrida,
 flor bela…flor querida...
 
QUEBRA CABEÇAS
 
 Desde pequeno fui guardando
 peças curiosas que encontrava,
 algumas pareciam escondidas
 e outras pelo caminho onde passava.

A vida foi então seguindo
 e muitas depois fui achando
 como um quebra cabeças que
 aos poucos fui montando.

Já percebo a sua forma,
 seus inúmeros tons, sei
 as peças que me faltam e que
 dependem mais de mim.

Não é fácil encontrá-las agora,
 é já segredo, uma revelação,
 e a qualquer instante poderei ver
 o mistério desta emoção.

Sanio Morgado
 
 

 
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Poesia de Marcos Loures - PLANETA SONHO - APAIXONADAMENTE - PAIXÃO


Poesia de Marcos Loures

PLANETA SONHO

Mergulhando nos sonhos mais bonitos
Abraçando minha deusa tão amada.
Voando por espaços infinitos
Em busca da manhã iluminada;

Os raios deste sol brilhando tanto
Trazendo uma esperança, vivo amor.
Envolto na alegria, enfim te canto
E roubo deste sol todo o calor.

Amada como é bom viver contigo
Sem medo do tormento e da saudade.
Aqui, eu já pressinto, sem perigo,

Eu posso conhecer felicidade.
Amada, vem comigo, eu te proponho,
Na noite viajar, planeta sonho...

MARCOS LOURES

APAIXONADAMENTE

Apaixonadamente me perdi
Nos braços mais gostosos deste mundo.
Pois sempre desejei estar aqui
Nesta casa, contigo, num segundo...

Estrela incandescente, Deus me deu
Trazendo uma alegria sem igual
Acendes o luar no olhar que é meu
Fazendo a poesia natural.

Amando teus cabelos, tua boca.
Sorrisos que em minha alma já descansam.
As ânsias de te amar na vida louca,

O paraíso pleno sempre alcançam...
Pois sabem que encontraram o luar,
Ansiosamente vivem para amar...

MARCOS LOURES

PAIXÃO

De amores vou perdido pelo mundo
Percorro tantos astros que nem sei.
De tudo que te falo, já me inundo,
Da vida que sem tréguas eu busquei.

Paixão que me arrebata e me domina
Não deixa nem sequer achar o rumo.
Perfumando tua alma cristalina
Retendo dos prazeres todo o sumo.

Amar demais passou a ser a meta
Que traz o meu caminho mais florido
Por isso em minha voz, canta o poeta

Sem amor nada faz sequer sentido.
Amores percorrendo os universos
Vibrando nos desejos dos meus versos!

MARCOS LOURES


 

Dois poemas de Liliana Josué - POEMA PARA A CATARINA - OS DOIS ANOS DA CATARINA


Dois poemas de Liliana Josué

POEMA PARA A CATARINA

O tempo ainda é minúsculo
como gota acabada de soltar-se
fruto ainda verde
pendente na árvore vida
esperando que a sustentem

pezinho pequeno
passada incerta
na procura do seu futuro
sem saber que o está fazendo

o cabelo salta a compasso
brilhando de ingenuidade e encanto

boca sorrindo na alegria ver o gato
olhos atentos no presente
para que o amanhã se torne menos estranho
gargalhada ao tocar o pelo do cão
mãozinhas abertas pedindo auxílio

és a minha zínia de verão
o meu girassol de luz
petúnia dos meus dias.

19/07/2015

Liliana Josué


OS DOIS ANOS DA CATARINA

Eu sou uma menina de dois anos
Gosto de brincar com muitos bichanos

Quando um gato peludo faz ron-ron
Rio sem parar e imitou-lhe o som

Quando vou na rua e vejo um cão
Pulo de alegria ai que perdição

Se ele abana a cauda e faz ão-ão
Dou gargalhadas de satisfação

Já tive medo de todas as flores
Explicar não sei estes meus temores

Agora gosto pois sou mais crescida
Ponho-as no cabelo com ar de atrevida

Tenho uma cozinha só para mim
Tachos e pratos tornam-se um festim

Até já mexi sopa no fogão
E o leite entornei mesmo ali no chão

Vou-vos contar um segredo terrível
Se dizem a outros fico irascível

Então lá vai o que trago comigo
Com grande pesar aqui eu vos digo

Sou muito teimosa o dobro em mimada
Faço tais birras que fico estoirada

Não sei o porquê de eu ser assim
Talvez algum genes se colasse a mim

Mas sou muito alegre, feliz, amada
Pois muita paixão me tem sido dada

Eu sou uma menina de dois anos
Nada para mim’ inda são enganos

19/07/2015

Liliana Josué




terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NÃO ME CITES - CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA - O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


Poesia de Cremilde Vieira da Cruz - NÃO ME CITES - CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA - O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


NÃO ME CITES


Não deixes que tua sombra te faça sombra,
Nem te despedaces de cansaço de fugir
De ti, num desespero que te assombra
De obscura tristeza, e te faz partir,

Receando o mundo inteiro, na penumbra
De teus passos, no jardim que não viste florir.
Diante de teus olhos nada se vislumbra,
Mas dentro em pouco, a alvorada vai surgir.

Se deslizares pelas ondas esculturais
De teus pensamentos nobres, na descoberta
De cada hora em cada hora certa,

Não me cites, nem recordes que existi.
Encontrarás então uma porta aberta
E deixarás de ter tua alma deserta.

Cremilde Vieira da Cruz


CONSCIENTES DE NOSSA INCONSCIÊNCIA


Percorremos conscientes,
A noite misteriosa,
Sob vagas altas que o mar atira sobre nós.
Ainda agora era a alvorada de nosso amor
Que agora, não sei porquê, é misterioso, mas enorme.
Talvez quando nascemos,
Alguém tenha trocado nossos caminhos.

Devia ser madrugada
E, de luzes apagadas, enganaram-se.
Nascemos para sentir nosso amor e dizer,
Mas esta distância desarrumada,
Quase muda e fria...
Não nascemos para ser aquecidos pelo mesmo sol,
Nem para caminhar na noite iluminada.

Envolve-nos uma escuridão enorme
E um mistério rude,
Mas esta força etérea que sentimos,
Faz-nos caminhar, caminhar...
Caminhamos de olhos fechados, mas conscientes,
Nesta distância desarrumada,
Como que abraçados por um mistério.

Quando abrimos os olhos,
Conscientes de nossa inconsciência,
Estamos abraçados.

Cremilde Vieira da Cruz



O POEMA QUE QUIS FAZER-TE (A MEUS FILHOS)


Quis fazer-te um poema tão belo,
Quanto o é teu coração,
Tão brilhante,
Como o brilho de teu olhar,
Tão grandioso,
Como o amor que te tenho.

Mas os meus pensamentos nublados
E empobrecidos de solidão,
Minha mente fatigada...
Oh, pobre inspiração que ruiu,
Como as paredes do castelo dos meus sonhos...!
Não te fiz o poema.

Todavia, quero que saibas,
Que tenho um poema dentro de mim,
Que sinto e é teu.
O meu poema,
Aquele que quis fazer-te...
Olha-me nos olhos,
Como quando te embalava,
Como quando te abraçavas a mim!

Olha-me nos olhos
E lerás o meu poema.

Cremilde Vieira da Cruz




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Poesia de João Furtado - VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO


Poesia de João Furtado



VAGUEANDO POR AQUI NESTE MUNDO

Andei naquele, noutro e neste autocarro
 Ao lado esteve, está e estará um amigo caro
 Que com encontros e desencontro já nem reparo!

Desta vez ia ver minha querida e estimada tia
 O aniversário dela mais uma vez era o dia
 Nada pude eu comer, um dente muito doía...

Enquanto o autocarro violentamente trepidava
 Eu este poema imaginava e escrevê-lo tentava
 Uma menina indiscreta ao lado gargalhada dava!

Perto uma madura mulher casada com o Baco
 Tentava a força dar ao rapaz novo um cavaco
 Ele, o rapaz na jovem força olhava com asco!

Meu pensamento continuava vagueando
 Ao ritmo do autocarro sempre viajando
 Aos homens e ao mundo meditando!

De Quioto à Copenhaga à Cancun há anos
 De reuniões de certezas e de enganos
 No céu o ozono chora com os danos!

Africa de Sul é a próxima esperança
 Nesta caminhada que nada alcança
 Porque o homem quer cheia a pança!

Na China continua recluso o dissidente
 Que recebe o Nobel e fica ausente
 E oferece ao mundo mais um presente!

No Ocidente prega-se a divina liberdade
 E Wekliks pensa que é pura verdade
 E vasculha, vira e revira sem necessidade!

O segredo dos deuses chega aos ouvidos
E muitos no Olimpo sentem-se ofendidos
 E acusam o ladrão de dados perdidos!

Mais o crime não pode ser crime
 Procura outro que só pode ser crime
 Como é livre o polvo do livre Regime…

Entre os cínicos deuses do Ocidente
E o pachorrento e obeso Buda do Oriente
 Situa a virtuosa Terra do Médio Oriente!

Passam os tempos e os costumes permanecem
 E a justiça e os hábitos duros e cegos fazem
 Com pedras mulheres e meninas perecerem!

Não havendo por rectidão dos machos as violações
 Adultérios são para suas fêmeas as acusações
Nobres homens, belas acções e puros corações!

O autocarro parara… era a última paragem do destino
 Ainda tinha tempo para lembrar do menino
 Recém-nascido e abandonado ao seu destino!

Era das treze de hoje o jornal da tarde de sábado
 Do dia depois dos direitos humanos desejados
 E do jornalista reclamando direitos atropelados!

Triste e envergonhado por pertencer a espécie humana
 Descia e via uma vendedeira com uma única banana
 Que me dizia, feliz e dengosa, que se chamava Bela Susana!

João Furtado




 

Haicais e Tankas de Se-Gyn


Haicais e Tankas de Se-Gyn

 

 HAICAIS


nenhum e-mail --
o gato medita um pouco
 e salta no muro

 

 o que ainda procuro
 na velha canção que ouço
 nesta fria manhã?

 

 o cão que fugiu
 arranhando o portão --
chuva matinal

 

 as coisas do bairro:
 outra loja que fecharam
 e o templo que abriram

 

 chuvas de verão --
a luz mortiça da fachada
 onde alguém entrou

 

 isso de manter
 cada macaco no seu galho
 da tanto trabalho!

 

 fila de carros
 daqui até muito longe --
pinta de monge

 

 vendo meu umbigo
 fugi do encontro esperado
 marcado comigo

 

 a briga de ontem
 a caixinha de chocolate --
vamos pro empate?

 

 casal de araras
 no parapeito da casa --
par perfeito

 

 ah, namoradinha
 depois da comemoração
 dormir de conchinha



Tankas


Enfim - Tanka

 sensação do pleno
 aquosa impressão que vem --
do que não se tem

 por agora ou enfim
 o vício livre de mim

 

 quanta maldade --
o fraudulento ENEM
 senhor Haddad

 seu nome está na bica
 Sampa elegeu Tiririca




domingo, 26 de julho de 2015

POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ - Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


POESIA DE JOSÉ GERALDO MARTINEZ


 Não fosse poesia ...; Preciso tanto...


 Não fosse poesia ...

Moça, valsar em ti eu queria,
 No amplo salão do corpo teu !
 Não fosse esta ilusão só poesia,
 A bordar este instante nos sonhos meus!

 Moça, como eu queria
 Esquecer do tempo em teu corpo!
 Rodopiando em ti,
 Por teus braços, envolto...

 Moça, se sem pressa, escalar
 Cada palmo de tua pele
E do teu suor então, provar...
 Todos segredos, talvez, reveles .

 Até a exaustão,
 Tombaria em teu chão,
 Dançarino de minha fantasia !
 Ah, moça, não fosse tudo ilusão,
 Não fosse tudo só poesia!



Preciso tanto...

Preciso tanto de você,
 qual as praias o mar sem fim...
 As estrelas ao escurecer,
 a própria alma que trago em mim!

 Preciso tanto...
 Qual moribundo buscando o ar!
 A primavera as flores todas...
 Os lagos tristes, manso luar!

 Quem manda ser o meu ombro?
 Ter esta candura no olhar?
 A mão estendida aos meus muitos tombos...
 O colo para o meu descansar?

 Quem manda sorrir sempre?
 Ainda que o pesadelo me tenha acometido...
 Carregar o fardo quando eu me entrego,
 caído aos seus pés, homem vencido!

 Preciso tanto de você...
 Quem manda me transformar em um menino?
 E quando esquece seu homem feito,
 abrigando, ao peito, meus desatinos!

 Quando se abandona criança
 e me espera alegre no portão...
 No seu olhar brilhante vivo só bonança
 e lhe entrego a alma na palma da mão!

 Preciso tanto de você...
 Qual estrada um destino,
 um pintor o pincel e o poeta
 a poesia...

 Tanto amor de mim...
 Loucamente!
 Que morro todos os dias
 na mais doce agonia...
 Para nascer em você, igualmente!

«A maior felicidade de um homem é nascer
 todos os dias dentro da alma do ser amado.»
( Martinez

«Nenhuma busca é perdida se o amor
 for encontrado.»
( Martinez)




COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO - Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Que o vento me levante!; Jaz o semeador na seara; O Poeta Palhaço



 Que o vento me levante!

 Docemente
 me eleve
 acima de toda a pena
 na sua diáfana
 asa
 proteja
 da dor salgada
 entranhe
 no azul profundo
 leve
 as cinzas magoadas
 na busca
 de nuvens brancas
 onde
 repouse a fronte
 adormeça e acorde
 sossegue
 de onde volte
 renascida
 para cantar a ternura
 e
 saudar a primavera
 na luz que a todos afaga,
 aspergindo amor na Terra!



 Jaz o semeador na seara

 Há gente que
 quando parte
 deixa o mundo tão mais pobre!

 tu, semeaste searas de verde esperança
 nas terras que a guerra devastava.
 tu foste onde não se ousava
 enfrentar a amargura
 onde quer que ela grassava.

 Eras bandeira de esperança,
 semeador de ventura

 Hoje ceifou-te a loucura.
 Jazes no chão, qual papoila
 que os campos iluminava!

 (Homenagem a Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro assassinado em Bagdad)

 

 O Poeta Palhaço

 Poeta, conto-te um caso
 Que conheço bem de perto:
 Era uma vez um palhaço
 Pobre e roto, caricato,
 De narizinho redondo
 De um carmesim esfolado.
 Entrava em cena quando
 Nos bastidores do circo
 Se maquilhava um outro
 Que usava fato bordado
 Riso pintado no rosto
 Chapéu como o de Tartufo
 Cantava em voz de contralto...

 O palhaço de que falo
 Voava em cada salto
 Como se o levasse um sonho
 Não se ria no entanto
 E ficava sempre mudo.
 Quando se achava no escuro,
 Ficava vazio o circo,
 Encolhia-se num canto
 Abria a voz de seu pranto
 E sozinho, libertado,
 Tirava um papel do bolso
 E, com o dedo lambuzado,
 No suor do próprio rosto,
 Ia escrevendo, escrevendo
 Em poemas, seu calvário
 De pobre palhaço risonho,
 Enfim assumindo o vulto
 Dessoutro sério, tristonho.

 Encolhido no seu canto,
 Descobria enfim o choro
 Do ai profundo, seu Fado
 Ser poeta alistado
 De peito dilacerado...

 Esquecendo então ser mudo
 Soava o alto carpido
 Estremecido, enfim solto.
 Mau grado tendo o pano
 Da tenda para abafá-lo,
 Soava tão dolorido
 Que alarmava todo o povo
 Perturbando-lhe o sono.

 Mal o amanhecia o dia
 Punha-se a varrer a areia
 E ao papel que escrevera,
 Usando a tinta da cara,
 Em confetes o rasgava;
 Ia enfim lavar a cara
 E de novo, pintalgava
 um semblante de alegria.

 Tomava assento a plateia
 Entrava o palhaço em cena
 ... No brilho da noite, ria! 




terça-feira, 14 de julho de 2015

EU COMIGO - Texto e Poema de Mário Matta e Silva


EU COMIGO

Texto e Poema de Mário Matta e Silva

Só encontro uma forma de vencer pela poesia: escrevê-la! Ficamos bem com o nosso Ego e com o Mundo que nos rodeia, seja ele bonito ou feio. Desse instante faz-se uma eternidade (conforme poema que já publiquei) e de cada sentimento um desejo de viver bem com tudo e com todos, mesmo que não conformado com o mal.

O Bem é a nossa bandeira e o mal o nosso inimigo que tentamos abater com palavras harmonizadas e articuladas de forma a expressarmos os nossos «estados de alma». O espaço, mesmo que pequenino é global. A universalidade da palavra torna-nos universais. Somos a palavra com que comunicamos.

Somos um elo que liga, pela estética e pela semântica das expressões, as sensações de todo o ser racional. Vibramos assim tão simplesmente comunicando como o fizeram, muito recuadamente, Orácio, Catulo, Ovídio, Virgílio ou até Moisés, Job, David, Salomão ou Isaías. O Bem e o Amor tornou-se na religião dos Poetas.


Poesia do meu primeiro livro «NUNCA VOS DIREI TUDO» ed. 2002

EU COMIGO

Cá estou eu de novo.
 Eu comigo.
 Comigo unicamente.
 Ausente inda que presente.
 Um querer sentir que me renovo
 Neste dar-me tão antigo!

Cá estou de novo... noutro apertado nó
 Num diálogo sem inimigo
 Olho-me, sinto-me... e só
 Viajo no tempo e louvo
 O facto de ser eu o meu melhor amigo
 Mesmo quando me torno em meu próprio estorvo

Lá estou eu de novo numa labiríntica encruzilhada
 Penso no que procuro e ainda não encontrei
 Tropeço e avanço neste acidentado caminho!
 Aturo-me, agrido-me, revolto-me... eu sei...
 Há dias em que o mundo é uma grande laranja vazia... sem nada
 E nele me refugio, só, comigo... gemendo em verso mas baixinho..




segunda-feira, 13 de julho de 2015

Prosa poética de Ilona Bastos


Prosa poética de Ilona Bastos

 

 A escrita em mim; Pinturas fotográficas; Escrever ou não escrever; A Observação dos Pássaros




A escrita em mim


 

 Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
 Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
 Mas, que fazer? E é assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
 Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
 Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.

 

 Pinturas fotográficas

 

 Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
 Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
 No ecrã, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que espantosa perfeição!
 E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.

 

 Escrever ou não escrever

 

 Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
 Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
 E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.
 Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada pela decisão que me consentira tomar.

 

 A Observação dos Pássaros

 

 Na imobilidade que impõe, a observação dos pássaros é uma actividade surpreendentemente viva. Os pássaros são espertos, desenvoltos, ladinos, simultaneamente nervosos e precisos nos súbitos movimentos de cabeça, no saltitar astuto, no debicar rápido e sagaz!

Seguia eu de automóvel, numa dessas manhãs modorrentas em que o céu nublado condiz com o nosso cérebro confuso, e, diante de um semáforo cuja luz vermelha parecia ter parado no tempo, pousei o meu olhar apático sobre o branco acinzentado da calçada.
 Movimentos breves, ligeiros, múltiplos, chamaram a minha atenção: pardalitos encantadores saltitavam pelo passeio.

Do canteiro, onde se encontravam, avançavam para o empedrado em pequenos saltos e graciosos meneios de cabeça, ora para vigiar em redor, ora para debicar algo no chão. Saltitando, espalhavam-se, corajosos. E logo atrás, superior, majestoso, um melro seguia o mesmo percurso. Plumagem preta, bico amarelo, pose distinta, não ameaçava nem protegia os pardais, mínimas e perfeitas criaturas de cor parda, pompons de penas, que pela manhã se moviam.

E, enquanto observava os pássaros, na imobilidade que tal tarefa implica, senti-me subitamente desperta, lúcida, viva, contagiada pelo vigor dos pardais!




domingo, 12 de julho de 2015

COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO


COLUNA POÉTICA DE MARIA PETRONILHO



 Preciso a vela de um barco; Em busca de uma centelha; Envelhecendo 

 

 Preciso a vela de um barco

 Uma vela larga e branca

 Habituada à salmoura

 Preciso secar o pranto

 Levar para longe a tristeza

 Vagueio só à deriva

 Sou a naufraga da vida

 Nada vislumbro no céu

 Tragam-me a vela de um barco

 Aonde sufoque o pranto

 E me leve para longe

 Do rasto deste momento

 Que me traz em desalento

 ... Preciso as asas de um anjo!

 



 Em busca de uma centelha

Mariposa que se lança

 Desvairada contra a chama

 Que o sentido lhe alucina

 Pássaro que o surto olvida

 Ao magnetismo da cobra

 Sem cuidar que perde a vida

 Assim tomba a minha alma

 Qual nuvem na trovoada

 Que pelo chão se derrama

 De si mesma compungida

 Procurando na negrura

 Sobras da própria centelha


 
 Envelhecendo


 Envelheço, sim, com orgulho!

 Que quererias?!

 Que pedisse emprestadas horas

 às gerações vindouras,

 Eu, que findo?!

 Cabe-me olhar amplo,

 Que já vi tanto

 E resisti de sobejo.

 Cabe-me ser tronco,

 Que não ramo prometendo

 Florir sem fruto.

 Cabe-me ser esteio

 Aos que no vento se arrojam.

 Serenamente aguardo o sagrado limbo

 De onde emergi e onde mergulharei

 Atavicamente

 De novo.





quinta-feira, 9 de julho de 2015

Poesia de José Manuel Veríssimo


Poesia de José Manuel Veríssimo


Equívocos

Sim!

Claro que  sofri!
  Mas  não sofremos todos
O  agora  e aqui ?
  Como  tolos
Num mundo
 que  construimos  assim?
Carpindo a  rodos
Com  maneiras
  modos
 culpas
dardos
 E  afins…………

Claro que  sofri
  Sofro
  Sofremos
  De  cegueiras
  De  fados
  Esfarrapados
  Pobres
 sem  bandeiras
 Sem  iras nem  beiras
 Ensopados
Em  piedades  próprias
E  nas  alheias
Pôdres
 E Vencidos
Como  quem desiste
A  pretexto  de  inclemências.

Antes  mesmo  das  sementeiras
Lamenta
 Sofre
Desespera
Sem  um  esboço de  resistência
Sem  um esforço
 De quem  supera
Os  excessos  de  paciência
De  quem é  manso
Mas  sem potência………………
De  quem  clama
Pela desobediência
 Em  quem
 A  inconsistência
 Se  confunde
 Com o princípio  da  irreverência.
                                                                   
 Seixal , 092.04.2015

José Manuel Veríssimo


No Jardim

 O Sol despontou
Receoso, tímido, volátil
Durou
O instante subtil
Em que o jardim brilhou
De novo o cinzento
Se instalou
Mas, ainda assim, o canto alado
 De um bando versátil
Sucedeu
Coisa que nem o cinzento
Interrompeu
Um forte vento
Se acendeu.
Hábil e persistente
Soprou nuvens
Tortuosos trilhos
Lutas brigas….sarilhos
Finalmente
Mais forte do que nunca
 O Sol voltou

Seixal 27.05.2013

José Manuel Veríssimo




Poesia de Pedro Du Bois


Poesia de Pedro Du Bois


ESCOLHER


 Escolho ser da geração o estigma

               e da terra o magma

                  na oração do devoto



         o coração se despedaça

         ao solo. Beijo o solo

         em homenagem.



Anos passados representam

a hora da jornada. O que falta

ao espírito. O que se deduz

em luz. A escolha.


(Pedro Du Bois, inédito)


SEMPRE


Na voracidade feito tempo

multiplico necessidades.

Não deixo a imagem perdurar.

Substituo feitos anteriores:

o produto recondicionado

transcende ao mito desprotegido.

A fome permanece como sempre.
 

(Pedro Du Bois, inédito)


VIVER



Vivo na ilusão

da água infinita

e da sede

saciada em goles.



vivo como intruso

destruindo o que não me pertence.



Alcanço o fruto e o desfruto.

Deixo o sumo escorrer pelas mãos.



Vivo na desilusão

de me intrometer

como abuso.
 

(Pedro Du Bois, inédito)
 

http://pedrodubois.blogspot.com 



 


 

Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

YESOD

assim como em baixo, também em cima,
o fundamento de sermos apenas homens,
e não seres votados à magia.
deixemos os anjos murmurar as nossas
preces e vivamos incólumes ao medo:
se vacilarmos, apenas resta o desconsolo
de quem viveu acima da praia, na vertigem
das arcadas, pedaços de pedra transparentes,
sem pele.

sou inteiro em baixo como o sou em cima,
revejo-me no silencioso embaraço que tudo
esconde sem nada demonstrar.

para quê o cosmos se tenho em mim o
fundamento de toda a existência? a
roda do meu destino.

Jorge Vicente


MALKUTH

o rei desperta. sem as silvas a silenciar
a fonte apenas um olhar sorrateiro ao
redor das águas. caminha comigo por entre
os corpos que te envolvem e traz a taça
dourada. olha-me nos olhos e inventa-te no
gesto.

sê pescador de almas e escreve-me um poema
de rochas.

não há genocídio no interior da pedra.
apenas a voz do cego e do louco que
sabe tudo sem se ver.

Jorge Vicente


GEBURAH

a cidade procura-me
no atrito dos corpos caídos
aspiro às ruínas das pedras velhas
à calçada gasta pelas olheiras dos
lábios

são dois os corpos que se encontram
em mim não existe dualidade
senão no julgamento infinito do
teu rosto.

Jorge Vicente



Poema e Prosa de Ivone Boechat


Poema e Prosa de Ivone Boechat


Um amigo

Você quer um amigo:

Para andar na linha? Compre um trem.

Para guardar segredo? Alugue um cofre.

Para socorrer 24 horas? Constrói um hospital.

Para ir com você pra todo lado? Que tal um carro, uma bicicleta ou moto?

Para escutar você sem parar? Ligue o gravador...

Para dizer sim o tempo todo? Grave o seu próprio sim, na frente do espelho.

Para sustentá-lo nos fracassos financeiros? Compre um banco.

Para lhe dar a mão na hora do medo? Contrate uma babá.

Para carregá-lo nas horas difíceis? Chame um táxi.

Para massagear suas dores? Ligue para o massagista!

Para transportar suas reclamações? Chame o carro de mudanças...


E, por falar em mudanças, você realmente precisa mudar. Mude para o mundo da possibilidade.  Não transfira para o amigo todas as suas ansiedades.

Sim, o amigo existe, somos nós. O amigo faz tudo isto que foi descrito acima. E faz mais ainda. Além de ser trem, cofre, hospital, carro, gravador, espelho, banco, babá, táxi, massagista, carro de mudanças, o amigo tem a capacidade de discernir quem é amigo ou quem necessita desta relação de coisas e profissionais para usufruir, economizar, explorar.

Mude! Seja compreensivo, bondoso e todos vão querer ter um amigo assim, como você, como nós.

Ser amigo de si mesmo não é egoísmo. Seja bom para com você também.



“O homem bondoso faz bem a si mesmo, mas o cruel a si mesmo se fere”.

Provérbios  11:17



Ivone Boechat