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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Eleições e Abstenção

As eleições para o Parlamento Europeu são universalmente conhecidas como sendo aquelas que maiores volumes de abstenção proporcionam.

Mas as razões para que tal aconteça são as mesmas que são argumentadas quando se obtêm números baixos de participação noutras eleições e que se resumem mais ou menos assim neste ping - pong : «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?» - da parte dos abstencionistas, e:  «A nossa mensagem não chegou a todo o eleitorado!» da parte dos «abstencionados».

O que não deixa de ser curioso, tanto a repetição dos clichés, como a análise «científica» dos dirigentes e outros elementos partidários: porque não se pode dizer que uma coisa que está farta de partir (a tal de mensagem) não chega. Antes de ir apanhar a bola (votar) ela já foi mandada dezenas ou mesmo centenas de vezes para o campo das nossas misérrimas possibilidades de escolha.

Para mais sabe-se que, em termos estratégicos, os mais interessados na ida às urnas são precisamente os concorrentes, os partidos políticos (cada voto vale x €). Por isso com a significação que o voto atinge, é normal a afirmação repetida do «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?».

Estamos convencidos que para que a situação se modificasse teria que ser estabelecido um significado real ao acto, porque se assim não for cada vez haverá uma maior abstenção e cada potencial eleitor acabará por tornar mais repetida a solução «moeda ao ar» da cara ou coroa da abstenção.

Ora entende-se que a base da democracia é a participação dos cidadãos e quanto menor for o volume de participação mais a democracia se esfuma e isto é dito de forma que quase toma um valor absoluto.

A base da democracia é ter gente capaz de ser escolhida para governar, em primeiro lugar. Para se participar em algo é preciso ter onde participar: não se joga futebol sozinho, dão-se uns toques na redondinha, nada mais.

As eleições europeias são a base mais expressiva, apresentado especificidades mais claras na rotura, que de uma forma geral se conjugam quase ao extremo: através da maior distância entre eleitorado e candidatos, através do nível de conhecimento e de complexidade dos nossos interesses em jogo. Ou seja, estes, quase nenhuns.

Ora, se hoje, mesmo a nível nacional de todos os países ninguém percebe pévia do que se passa, isso resulta talvez do facto de não haver nada para perceber senão aquilo que já se percebeu.

Aqui em Portugal, por exemplo :

sabe-se - agora bem mas antes (durante muitos anos e até dias mais recentes) pouca gente pensou nisso - onde se foram buscar milhares de milhões de Euros para comprar os passivos dos Bancos falidos,

sabe-se que se tem feito uma frenética corrida à poupança em serviços públicos, muitos deles ficando praticamente inviabilizados,

sabe-se da impossibilidade de resposta à vida de milhões de portugueses que vivem abaixo do nível de pobreza,

sabe-se que o acima falado nível de pobreza está fixado através de fórmulas devidamente abstractas de interdependência que ninguém consegue entender a menos que perca uma vida a tentar destrinçar as escorregadias Leis, Despachos, Esclarecimentos, etc.

sabe-se também que os factores de cálculo sobre este limiar e outros limiares mínimos são burocraticamente alteradas à velocidade do som.

e sabe-se que existe um verdadeiro saque tributário.

Enfim...percorrendo o caminho «exemplar» das Eleições para o Parlamento Europeu e entrando nos seus sub - sectores nacionais (Eleições Presidenciais, Eleições para a Assembleia da República, Eleições Autárquicas, etc.) sabemos que estas (todas elas) servem apenas como factor de diferença quantitativa mínima, diferença essa que é praticamente nula em termos de substância e resultados palpáveis para as populações.

Assim a ausência da possibilidade de entender o que quer que seja sobre a vantagem de votar ou não votar proporciona a repetição do hábito (por isso mesmo se chama de hábito, por ser repetido) e prevê-se, facilmente aquilo que vai progressivamente acontecendo.

Ao nível que as explicações sobre a utilidade do voto (ou da abstenção) se colocam no povo, acabamos por saber que tudo é  misterioso:

umas vezes resulta tudo, pelo menos verbalmente, em milagres da multiplicação dos pães, outras vezes são o passe de mágica da desaparição do singelo pão prometido.

Eu, espero sem esperança, que algo de inesperado aconteça, porque tem de ser mesmo inesperado: na verdade das cansadas rimas e refrões propagandísticos já se sabe tudo.




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira

A minha casa sonhada

Casa, palavra tão pequenina no seu tamanho
Casa, palavra tão gigante no seu valor
Casa, tão querido esse meu sonho…
Anos longe e ainda no peito o mesmo fervor

A mesma tristeza, a angústia que oprime o coração 
O coração estrangulado pela ânsia de regressar
A chaga aberta de quem se sente perdida na imensidão
A dor de todos os dias acordar fora do ninho que continuo a recordar

A vontade, a simples vontade de me aninhar no lar tão almejado
O lar que sonhei em menina, o lar que quis construir já crescida
O país onde nasci e cresci e de onde me roubaram, esse país tão despedaçado…  

A sensação de não pertencer aqui nem ali, a sensação de estar perdida
O sonho de, por um momento, para sempre talvez, voltar a sentir-me parte desse país amado
Voltar a sentir-me, por um instante, para sempre talvez, completa!


Alvorada

Tão feia e deserta me pareces nesta noite cruelmente envenenada
A harmonia da tua singular magia já tão maculada pela separação…
Choro baixinho, nesta noite escura e gélida tão tristemente antecipada…
E murmuro uma prece que atrase o clarear baixinho desta tenebrosa escuridão

Como uma criança que de um sonho imenso não quer despertar…
Aguardo silenciosamente pelo clarear do alto da minha torre de cristal
A escutar a ferocidade do mar, que ao longe comigo se parece revoltar
E ao ritmo das marés também eu me abandono a esse anseio visceral…

Envolvo-me cuidadosamente no meu manto carmesim de pura saudade,
Angústia que já me come os ossos como um fado de uma mulher amargurada…
O céu ainda se cobre de negro, mas ao longe espreguiça-se o Sol sem piedade

E eu, uma cigana enraizada, derramo pesadas lágrimas de despedida
Uma por cada tonalidade pintada no céu em largas pinceladas de vida
Enquanto murmuro “Adeus, minha terra tão amada”, ao nascer da alvorada…


Girassóis

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Flores alegres e tão cheias de vida
Ao longe admirado como os mais belos prados
Ao perto adorado com paixão incontida

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Arrancados pela raiz pelo inclemente vendaval
Mãos cruéis que rasgam a terra sem nenhuns cuidados
Tempestades que arrancam cada girassol do seu pedestal

Campo imenso de viçosos girassóis dourados 
Onde alguém um dia, quando o vendaval pára de soprar 
Cansado de acreditar no ouro dos campos amargurados

Planta com ternura uma túlipa na terra já seca e salgada
Uma túlipa tão delicada e sincera que parece não poder vingar 
E a flor desperta viçosa e espreguiça-se ao nascer da alvorada…  




Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57 - Por Se Gyn



Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57


Por Se Gyn

Uma bomba de aparelho de radiologia irresponsavelmente abandonada num terreno baldio no centro da cidade foi levada por catadores de sucatas e aberta, com a intenção de retirar o chumbo, para ser vendido, em 1987.

Tragédia.

Acharam graça no efeito luminescente do Césio 137 - cujos grânulos guardaram numa vasilha. À noite, eles brilhavam intensamente no escuro e, a linda e pequena Leide, consumiu alguns deles. A contaminação radiológica rapidamente se espalhou entre a vizinhança, que ia até a casa, para ver a novidade. Logo se notaram os efeitos, com gente sofrendo os primeiros efeitos, procurando ajuda médica nos postos de saúde pública da cidade.

Notícia trombeteada, que se espalhou rapidamente pelo país e, aos poucos, pelo mundo. Pânico em São Paulo - Hebe Camargo dizia que Goiânia e os goianienses deviam ser evitados e segregados. Eu, que morava no Setor Aeroviário e passava pelo centro da cidade todos os dias, voltando da faculdade, ficava espantado com aquele pânico, que me parecia inexplicável, ante às providências tomadas.

O governador Santillo recebeu ajuda imediata do governo federal, através dos técnicos da CNEN - Comissão Nacional de Energia Nuclear, que tomou conta de tudo - isolou parte d acesso ao bairro Popular e interditaram a entrada na rua 57. Mais pânico - e piada dos brasilienses, por exemplo: "sabe como reconhecer um goiano? É só coloca-lo no escuro, para ver se brilha!".

Santillo foi para São Paulo, e procurou a imprensa. Médico e administrador enérgico e bem informado, rebateu o pânico e esclareceu tudo. Era um acidente radiológico e, não nuclear, a radiação não ia se espalhar além do local, não se cansava de repetir. Foi dando certo.
Mais de oitenta contaminados. Leide das Neves, cara de baianinha linda, internada e em coma.

Siron Franco, que havia morado na rua 57, chocado com o fato, deixou São Paulo e ocupou uma casa na rua 54 e fez dela um estúdio. Hipnotizado pela tragédia e pelos fatos, pirou, e enquanto assistia a tudo na quase dezena de televisores espalhados pela casa, produzia uma série lancinante de quadros, retratando o fato.

E dava entrevistas, e fazia o que era possível para denunciar a tragédia e, ao mesmo tempo, afastar o preconceito. - entrementes, um crítico se comprazia em taxa-lo de oportunista, através de um jornal.

E a coisa foi indo, malgrado o sofrimento inexorável dos atingidos, a despeito do apoio do governo estadual. Os técnicos da CNEN e os servidores da Secretaria de Saúde deram conta do recado. O imóvel onde foi o epicentro de tudo foi colocado abaixo e seu chão escavado e concretado.

Mas, entre os atingidos pela contaminação radioativa do césio 137, a coisa se complicava - sofrimento, desespero, amputações de membros, e mortes . Leide se foi. No enterro dela, presenciado por pouco mais de uma dezena de corajosos familiares, chegou o vereador José Nelto e sua trupe, para injuriar a inocente, apredejando seu caixão.

E os goianienses e goianos, vivendo experiências pouco confortáveis, ao cruzar o rio Parnaíba.No setor Aeroviário, região oeste da cidade, sensação de distância e, ausência de perigo, imediato ou próximo.

Atualmente, o depósito de material contaminado da rua 57 é modelo e roteiro obrigatório dos estudantes da rede pública de ensino. E os goianienses parecem preferir não se recordar do fato.

Uma história (que parece uma piada curta e grossa) que ouvi hoje me fez voltar ao tempo e recordar tudo. A história é esta:

Rio de Janeiro. Barreira policial - fiscalização de trânsito - "documentos por favor". "Ué!, em Goiânia não está todo mundo morrendo de Césio?". Mudez. E depois, ríspida resposta: "Olha, sargento, estão morrendo bem menos goianos de Césio do que cariocas de Aids." De fato - meados dos anos 80 e...

O tempo fechou.

Um link para os quadros de Siron Franco sobre a tragédia da rua 57:

http://ardotempo.blogs.sapo.pt/2009/02/17/

Ode ao Quinhentão - Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS


Ode ao Quinhentão

Poema de Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS

(Esta poesia foi feita em sala de aula, durante Curso Livre de Poesias e Literatura Brasileira, no distante ano de 2000)

I

A bruxa vestida de negro
 Com muitas verrugas e muitos pêlos
No nariz, pilota vassoura
 Já gasta puída, careca
 Que o diabo à guinchar agoura.

II

O que é o Brasil, que ninguém vê?
 -Zunzuns, assovios, vastos gritos
 Permeiam a mata, onde o ipê
 Se destaca, belo altaneiro:
 Onde mora o saci pererê.

III

Montado num porco, o caipóra
 Vigia gnomos brasucas e Yara
 Mãe d’água, que sonha com botos
 Que atraem moças virgens pro rio...
 E o curupira que vigia as matas
 Por cinco e longos séculos à fio
 Pra que não se façam queimadas
 Nem deixar que poluam as cascatas
 Onde se banha Yemanjá.
 O esforço parece que é vão...

IV

Matas tantas, quantas, imensas
 Manacás, mandaquis, jabotis
 Mangabas, goiabas, sapotis
 Que o fogo aos poucos consome...
 Fechemos nossos olhos à dor
 Joguemos sal por sobre os ombros
 -Que vá de retro, lobisomem.

V

São os entes imaginários
 Que povoam nossas cabeças
 Antropofagia de mários
 Provocando muitos enleios
 Bois-mamão, bumbá e as mulas
 Sem cabeça, são os cavalos
Marinhos, reizados, catiras
 E o negrinho do pastoreio
 Cabeça urbana, pés caipiras.

VI

Justifica-se o meu Brasil
 Tão caboclo, caipira, gentil
 Tão audaz, sereno, dolente
 Esse mulato insoneiro
 Ainda moço, só quinhentão
 Que crê: para ser brasileiro
 E preciso amansar barbatão
 E com meia braça de corda
 Chegar um touro ao mourão
 E preciso calçar esporas
 E cair muitos, muitos tombos
 E sentir o ardor das chibatas
 E fugir para poucos quilombos
 E ter na cabeça um mote
 Paciência, a mais não poder
 E muito peso no cangote
 Fazer verso de pé quebrado
 E sofrer, viver o agora
 Ser índio, ou mulato indolente
 Contar «causos», onde se gabe
 Que o Brasil é terra da gente!

Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS





quarta-feira, 1 de abril de 2015

O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ


O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ 


Lá estava ele, meu amigo Ocimar lançando um livro de auto-ajuda. Nos seus setenta anos de idade, muitos deles dedicados a educação.

Professor nível três, conhecido pela seriedade e dureza com as chamadas «turminhas do fundo» (Aquelas no fundo da classe, normalmente organizando o churrasquinho ou a festinha na república das meninas). Ocimar não perdoava!

Os mais sortudos conseguiam ficar de recuperação, quando não, eram reprovados incondicionalmente! Conhecido pelo mal humor e não poderia ser diferente para um homem de setenta anos que na infância conheceu a palmatória, além de ser filho do senhor Donato, calabrês de poucos amigos!

Prestigiando o lançamento do tal livro de auto-ajuda de Ocimar e pensando na pergunta que ele havia me feito: - Martinez, você gosta de escrever, nunca pensou num livro de auto-ajuda? Cheguei a algumas conclusões: Eu deveria mesmo escrever um livro de auto-ajuda...Afinal, virou moda!

Além do que, tenho experiências terríveis de vida no meu meio século de existência: passadas de mão, quatro casamentos, idas e vindas... sociedades desarrumadas, negócios mal feitos, troca de igrejas e algumas tentativas de religião, adoção de filho, ajuntamentos, paixões tórridas, desilusões...

Mas, percebo que ainda me faltam alguns anos de experiência...Nos setenta anos a gente começa realmente a filosofar ou estou mentindo? Perdemos aos poucos a nossa condição física e começam a falhar algumas coisas: audição, olfato, intestino, estômago, libido...

Chega a tal ponto que apenas o cérebro permanece em perfeito estado! É ele que começa a comandar a nossa vida de certa forma ociosa, à sombra de grandes varandas e arbustos, no joguinho de baralho, nas pequenas caminhadas com os netos ou até a padaria. Hábito de anos a fio trazidos do velho pai. 

Começamos a filosofar e coitado dos netos! Não paramos por aí ! Inconformados começamos pelos vizinhos e depois amigos incomuns! Sem contar a pobre da esposa que convive connosco o dia inteiro! Esquecemos a poesia! Lotamos os nossos arquivos com textos filosóficos...

Pobre daquele que ficou só com o cérebro e este ainda tem problemas! Alguns voltam à infância, outros caducam completamente! Não é incomum vermos alguns desfilarem pelas ruas se dizendo a reencarnação de Cristo, Buda, Dalai Lama, Hitler...Aí meus amigos, é um Deus nos acuda! Outro dia não é que apareceu um Saddam Husseim? Como se não bastasse, gritava por Bush com todo pulmão! 

Enquanto nosso cérebro mantém a saúde e certa coerência, acho salutar filosofar! Ainda mais na cabeça dos outros! Ocupa nosso tempo e nos deixa com a sensação de poder, perdida em nossas fracassadas experiências. Compensa as nossas debilidades físicas e melhora nossa auto-estima.

Escrever um livro de auto-ajuda, estamos nos ajudando e, com sorte, ainda pegamos alguns desavisados, sugestionáveis e melhoramos a vida dele. Mal não faz! Com mais sorte ainda, conseguimos vender toda tiragem e de repente virarmos um bestseller, que o diga Paulo Coelho com « O Alquimista», pai de tantos outros ainda mais filosóficos! Nada contra «O Mago», ainda acredito que as respostas estão dentro de nós mesmos...Todas as soluções de nossos problemas! 

A nossa mente é capaz de proezas intermináveis e usamos muito pouco de nosso cérebro...Por enquanto ainda filosofamos no tempo das pedras, com um cigarrinho dependurado no canto da boca e os neurônios dormindo por algum asilo ou à sombra de nosso guarda chuva em tarde quente de verão. Após os setenta anos, o que nos resta senão seguir a moda do «filosofar», rindo de nosso libido, sem que a patroa saiba ou os amigos...

Mil mentiras ditas como verdadeiras, tornam-se verdadeiras! 
Afinal, nesta fase de filósofo e mentiroso, todo mundo tem um pouco. 
Está certo Ocimar! Logo estarei escrevendo meu livro de auto-ajuda!




A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira” - por Cecílio Elias Netto


A poesia de Cornélio Pires em “Musa Caipira”

A poética de Cornélio Pires é reveladora da simplicidade do universo caipira




As obras de Cornélio Pires, um dos ícones da chamada literatura caipira, têm sido recuperadas por estudiosos e editoras brasileiras. São parte de  um tesouro linguístico e folclórico de uma cultura que, entre os paulistas e mineiros, começa a ser valorizada. Jornais, revistas,  livros, teses acadêmicas abrem espaços e cuidados para um estilo de vida, o caipira, que continua vivo em muitas das pequenas cidades interioranas, e nos subúrbios de cidades médias, conhecidos como “rurbanos”, comunhão do rural e do urbano.

Cornélio Pires foi um mestre no recolhimento, em prosa e verso e também através da música – em recolher a simplicidade das conversas caipiras, as tais patacoadas, misto de anedotas, tiradas maliciosas,  simplicidades e astúcias, contos e “causos”. 

Poucos conhecidas, no entanto, são algumas de suas poesias, tidas, hoje, como documentos imprescindíveis para se conhecer essa “alma caipira”. Aliás, o primeiro livro de Cornélio Pires intitulou-se exatamente “Musa Caipira”, dedicado a outro mestre do folclore brasileiro, Amadeu Amaral. 



A turma caipira de Cornélio Pires.Foto histórica de 1929, vendo-se da esquerda para a direita, em pé: Ferrinho, empunhando a “puíta”, Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Caçula, Arlindo Santana; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Zico Dias.

A seguir, alguns de seus versos.

“A origem do homem” 

Esse soneto foi publicado, pela primeira vez, no jornal “O Tietê”, na cidade do mesmo homem, em 1909:

O senhor por acaso não descende
 Dos bugres que moravam por aqui?
 – Homéu num sei dizê, vancê compreende
 Que essa gente inté hoje nunca vi.

Mais porém o Bernardo diz que intende
 Que os moradô antigo do Brasi
 Gerava de macaco!… Inté me ofende
 Vê um véio cumo ele, ansim, minti.

D´outra feita um cabrocro – ai um caiçara –
 Diz que nasci um de dois e inté de trêis,
 Quando estralava um gomo de taquara!

Nóis num temo parente portuguêis,
 Nem mico, nem quati, nem capivara…
 Semo fio de Deus cumo vanceis

“Ideal do Caboclo”

Tido como um soneto clássico da literatura regionalista, “Ideal Caboclo” foi publicado em 1910, no livro “Musa Caipira”:

Ai, seu moço, eu só quiria
 Pra minha filicidade,
 Um bão fandango por dia,
 E um pala de qualidade
 Pórva, espingarda e cutia,
 Um facão fala-verdade
 E uma viola de harmonia
 Pra chorá minha sódade
 Um rancho na bêra d´água,
 Vará de anzó, pôca mágoa,
 Pinga boa e bão café…
 Fumo forte de sobejo…
 Pra compretá meu desejo,
 Cavalo bão – e muié!

 Poesia do final de vida 

No final de sua vida, Cornélio Pires tornou-se homem religioso, espírita convicto, dedicando-se à caridade. Em sua cidade natal, Tietê, onde quis morrer, manteve um orfanato infantil. Sobre essa sua fé religiosa, deixou a seguinte quadrinha:

“Mas caridade sem ação
 é qual a fumaça no forno,
 que espalha mais fome em torno,
 em vez de espalhar pão.”

Doente, sabendo estar próximo de morrer, cantou a sua “Terra amada” neste poema:

Tietê!Querida terra e muito amada
 De ti distante, esplêndida cidade,
 Sinto invadir minh´alma hoje sozinha
 Uma profunda e acríssima saudade.

Terra dos meus amores! Não definha
 O amor que te dedico; que me invade…
 E foi-se tudo que sonhado eu tinha,
 Tão ridente e feliz, na mocidade.

No mar grosso da luta pela vida,
 Eu não te esqueço, não, terra querida,
 E o teu nome defendo em toda parte.

Tu me viste perder as ilusões
 Porém nunca verás nos repelões,
 Da peleja sem fim, deixar de amar-te.

As espertezas de Joaquim Bentinho, personagem que caracteriza o caipira típico, superam as tolices e malandragens com que o personagem de Monteiro Lobato, “Jeca Tatu”, marcou, por tanto tempo, a imagem do caipira paulista. Mas não só Joaquim Bentinho. 

Em todos os seus escritos, como que em retalhos,  Cornélio Pires registrou essa alma caipira, tão rica em sua simplicidade que é universal.




Uma grande coragem inútil - Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Uma grande coragem inútil



Com a idade, aprendi a gerir as minhas admirações literárias com parcimónia. Em 2009, viajei para Nova Iorque para estudar com uma pessoa cuja escrita e teoria me encantavam, relacionada com as minhas inquietações e convicções mais íntimas. Parti alegre, entusiasta, sibilando baixinho «é desta que encontro a minha comunidade, a comunidade dos que não têm comunidade». 

Regressei desiludida, atónita e mais do que nunca recordada das lições da minha adolescência nietzschana: se não queres ficar com as mãos ensanguentadas de barro, cuida de tocar o mínimo possível em ídolos.

Em Berlim, em Lisboa, o mesmo desencantamento. Por detrás das poesias mais etílicas e anárquicas, descobri poetas ora tímidos, ora pretensiosos, que em pouco honravam as palavras escritas. “Escrevem porque não viveram”, disse-me uma vez alguém a quem eu manifestei o meu desencanto relativamente aos poetas vivos e andantes. Talvez eu seja uma romântica ingénua, prezando muito palavras de honra e acreditando que tudo o que escrevemos deve ser lavrado com saliva, muco e sangue, se preciso for.

E tenho a certeza que a minha mania da honestidade não me acrescenta nem saúde nem charme. Ainda assim, passei a fugir dos poetas como um diabo foge da cruz. Um dia, alguém descobriu a minha enorme loucura pelo Herberto Hélder e prometeu apresentar-me o senhor. Não sei se a pessoa era bem-intencionada, nem se tal encontro seria viável, mas recuei de imediato, arreganhando o cenho, ciosa do meu encantamento precioso.

Apesar de tudo isto, descubro de vez em quando (e que alegria quando isso acontece!), alguém que muito me agrada admirar de longe. A última figura nesta lista reduzida chama-se Aníbal Fernandes. Já tinha reparado no nome, omnipresente na maioria dos livros publicados pela deliciosa Sistema Solar, mas as minhas últimas três leituras, escolhidas por apelos diferentes, partilhavam todas traduções e textos introdutórios do senhor, coincidência que veio sedimentar a fascinação nascente.

Curiosamente também, dois desses escritos pertencem a marginais – Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, e A Felicidade dos Tristes, de Luc Dietrich. Sempre tive um fraquinho por marginais escreventes e estes dois têm frases verdadeiramente deliciosas.

E em honra de crimes assim é que vou escrever o meu livro.
(…)
Mortos agora, na altura vieram ter comigo estes assassinos, e sempre que um astro de luto como eles me cai na cela bate com força o meu coração, o meu coração fica rendido, se é ficar rendido o rufo de tambor que anuncia a capitulação da cidade.

Nossa Senhora das Flores, Jean Genet

Em ambas as leituras, o furor começou sobretudo pelos textos (também) marginais ao texto traduzido, nomeadamente as badanas e as apresentações introdutórias, da autoria de Aníbal Fernandes. No caso do Genet, traduzido numa edição esgotadíssima da Difel, impressionaram sobretudo as poéticas badanas e ai! que saudades dos tempos em que a cultura do livro não tinha ainda sido conquistada pela indústria do entretenimento e pelas suas manobras marketeiras.

Senão vejamos: “Que palavra assustadora – génio – pode acudir-nos para se não explicar de todo que aprendizagem foi capaz de chegar a esta escrita sumptuosa cheia de vertigem e fascinação. Em 1944, Jean Genet riscava na prosa francesa um sulco – a mostrar sangue de subversão autêntica – entregava ao público Nossa Senhora das Flores. E afinal… o que se jogava naquela faca de vidro e de todos os cristais só era um banal filho de pai incógnito, só era a memória de uma infância magoada por Assistências Públicas e casas de correcção, a ponta de uma trajectória fortalecida em delinquências vagabundas por inconfessáveis marselhas e barcelonas”. E assim por aí adiante.

Já A Felicidade dos Tristes é precedida por um umbral encantatório, cujas palavras eloquentes revelam um conhecimento em profundidade desse mistério que foi Luc Dietrich. Quanto à autobiografia em si, não sendo aquilo que eu costumo chamar “um livro do caralho” (ou seja, daqueles que entram naquela lista reservada apenas aos abalos sísmicos), foi do melhor que li este ano. O tom deste improvável assassino é verdadeiramente singular, porque simultaneamente ingénuo e sofrido, e algumas passagens atingem picos de beleza muito próximos do sublime. Um exemplo ao acaso:

Mas nem estes que trabalham nas minas são homens verdadeiramente tristes. Tristes são os que não trabalham e pensam.

É bonito sermos um homem triste, porque é raro encontrar-se um que o seja.

Os homens tristes fizeram as igrejas, as pontes. As pessoas alegres fizeram cinemas, estações de caminhos-de-ferro, lojas. Vemo-las passar aos bandos, dentro de automóveis que riem, e todas se riem. E eu parava na estrada a olhar para elas de frente, e para sentirem vergonha fazia o mais triste dos meus ares.

Porque as melhores pessoas são tristes. A minha mãe é pálida, e mesmo quando se ri treme-lhe uma tristeza no riso como gotas de água num ramo ao sol. Nunca vemos Jesus dar cotoveladas aos seus discípulos e torcerem-se a rir. Judas, esse, queria armar-se em esperto e afastava-se deles para se rir sozinho. Nunca se viu ninguém pensar numa coisa difícil, nos rebentos de uma árvore, no sol, como é que ele sobe e desce na água do céu, e desatar a rir-se. Aliás, só há felicidade nos tristes.


Não podia estar mais de acordo. Há muito que venho meditando nesta estranha álgebra em que os mais alegres são simultaneamente os mais tristes. De resto, o livro está cheio de perturbadores flores e frases incandescentes. Em particular, esta: O amor é isto: uma grande coragem inútil. Ainda que enlouquecesse, jamais a esqueceria, de tão bela e fatal que é.





terça-feira, 31 de março de 2015

Esmeraldo, o garçom - Texto de Laé de Souza


Esmeraldo, o garçom
 
Texto de Laé de Souza

http://www.lerebomexperimente.com.br/blog/lae-de-souza/

Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garção e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.

Esmeraldo, educadamente, perguntou:

- Como é o seu nome, senhor?

O cliente mais irritado ainda respondeu:

- Jonas.

- Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. - A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.

Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores?

O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. 

Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor!

Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente:

- O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.

Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um "pois não", bem macio.



João e Marquinha - Conto de João Furtado


João e Marquinha

Conto de João Furtado


Sentado a porta da casa, o João olha para o nada. O seu olhar é vago e a solidão que o atinge faz-lhe estar distante de tudo. A electricidade não chegou ainda à sua casa. Não tem televisão nem rádio.

Descalço e com roupa retalhada, as pernas não são as mesmas de há 60 anos atrás. Nem a memória é a mesma, mas uma coisa é certa, o amor que sente pela Marquinha é o mesmo de sempre.

O rosto enrugado e a boca desdentada, mal consegue suportar o peso do cachimbo fumegante, seu companheiro de sempre. Muita vida vivida foi para esquecimento, mas a Marquinha continua viva nele. A única que não morreu numa memória cada vez mais morta que viva.

Marquinha era diferente de todas. Teve muitas mulheres durante os seus longos 80 anos de vida, mas nenhuma foi como a Marquinha, o seu primeiro amor. Nunca teve uma foto da Marquinha, mas sempre a teve na memória. A imagem da Marquinha jamais saiu da sua memória. Hoje, que nem dos filhos se recorda bem, continua a viver a sua Marquinha.

A casa da Marquinha era no alto da colina, nos Órgãos, Ilha de Santiago. Era um sobrado lindo e via-se de longe, entretanto não era fácil lá chegar. Para se ir a casa da Marquinha tinha-se que andar quase dois quilómetros sempre a subir. Num serpentear de curvas e contra-curvas entre argilas e pedras, que qualquer descuido seria razões de acidente gravíssimo. O caminho íngreme e quase perpendicular obrigava a uma perícia incalculável.

O João, hoje velho e cansado, continua a ter a imagem da Marquinha, dengosa, com pano amarrado à cintura bamboleando quando transportava a lata de água, ladeira acima. Negra, esguia e bela, subindo ao compasso do batuque. Luxuriosamente bela, a Marquinha era a única lembrança da juventude do João.

Desde muito cedo, João enrabichou-se pela Marquinha, ele tinha 18 anos e ela 14. Ele de enxada no punho e ela de balaio e pano à cintura. Ele a cavar o chão para ela semear.

Eram muitos, quase 30 pessoas, entre homens, mulheres, rapazes e raparigas, mas ele só via ela, a Marquinha. E ela, dengosa, fingindo-se alheia a tudo, mas atirando o feitiço de mulher, que bem cedo sabe da força que esconde nos seios firmes e libidinosos, escondidos por fino e sensual pano de cetim.

Um pouco acima da fina cintura de cobra, fazia salientar a bela e carnuda anca de mulher badia. Ele a cavar para ela. Era um djunta-mon, onde não estava apenas o trabalho, mas mostrar do que era capaz. Que era melhor que todos os outros rapazes! Ela era o troféu em disputa.

Ela, a Marquinha sabia disto, se mostrava e se sentia orgulhosa a ser razão do frenesim que à sua volta desenrolava. Mas não falava com ninguém, se mostrava e se escondia, no jogo do amor e do pudor. Os adultos, os pais, viam tudo e fingiam nada ver.

Todos sabiam do jogo. Todos participavam no jogo. Ela tinha que se resguardar e se mostrar difícil. Ele queria que ela fosse difícil e ficava orgulhoso disso. À tardinha ia esperá-la na ribeira. Sabia que ela ia e ela sabia que o ia encontrar lá. Continuavam os rituais.

Ele insistindo na conversa e ela esquiva jogando com as palavras:
 -Marquinha, sou louco por ti!
 -João devias era ir para o hospital então para te tratares!
 -Marquinha, deixa de brincadeiras, estou a falar a sério. Quero-te! Quero casar contigo!
 -João, não vês que ainda sou criança?

O João pegava-lhe nas mãos e ela lutava e fingia-se ofendida. Afirmava que a mãe estava a vir atrás dela. Dizia que ontem tomou uma carga de porrada, porque a madrinha dela teria dito à mãe que a viu com o João. O João todo fanfarrão prometeu que ia falar com a tagarela da madrinha da Marquinha! O que tinha ela a ver com a vida dos dois?

A Marquinha ameaçou-o:
 -Se disseres alguma coisa, sou eu que nunca mais falo contigo!

Ela tenta fugir dele e ele tenta fazer-lhe ficar mais uns minutos. Ela corre e ele vai atrás. Tenta prende-la, a lata de vinte litros de água que leva à cabeça cai. A lata fica informe, ele tenta dar um jeito. Está a ficar escuro. Ela tem mesmo que ir. Não seria desta vez que receberia um sim. Ele sabe que ela esta a gostar, mais fica orgulhoso com o não. Assim o sim será mais valioso. O não é uma pré-garantia de que a mulher vai ser fiel. Amanhã dirá sim, tinha a certeza!

-Quando te verei de novo? – Quase gritou, porque ela já ia longe!
-Não sei, amanhã irei à Praia vender umas galinhas e ovos! – Respondeu a Marquinha antes de se perder no escuro. - Era uma resposta que ele queria. Ela, tentando desconversar, está a convidá-lo a ir com ela à Praia. Era isto que iria fazer!

O cérebro humano é mesmo uma caixa de surpresas. O João que já nem se lembrava do seu próprio nome, não conseguia esquecer nenhum pormenor do seu romance com a Marquinha.

No dia seguinte levantou-se muito cedo. Às quatro já estava na estrada à espera da Marquinha. Ela vinha com as amigas. Quando o viu foi-se disfarçando, como se estivesse com carga a mais ou tivesse alguma pulguinha nos pés que a impedia de andar.

As amigas entenderam, sorriram e avançaram a passos largos, para depois continuarem mais devagar. Não queriam atrapalhar os namorados, mas também não queria deixa-los sozinhos. A viajem era longa, porque teriam de fazer quase dezanove quilómetros. A Marquinha ia à Praia, mas o João não, o João a acompanhava apenas uma parte do caminho, talvez um ou dois quilómetros.

A Marquinha chamou as amigas, elas não responderam. Sabiam que ela estava a fazer fita, fazia parte do jogo. Ele a pegou. A disse que havia chegado o momento.
- …Ou me dizes sim ou não te largo!
- … Não, não e não… - Disse a Marquinha.

Ele não foi na cantiga, não a largou. Pegou-lhe na mão. O João lembra-se como se fosse hoje. A Marquinha abaixou-se à procura de algumas pedrinhas. O Coração de João alegrou-se. Imaginou o que ia acontecer. Sabia o ritual. A Marquinha endireitou-se com três pedrinhas na mão e atirou uma a uma contra o peito do João dizendo:
-Te quero…….., te quero…………, te quero !

Estava cumprida a tradição para o primeiro acto. Haveriam mais cenas no futuro, mas o primeiro acto terminava ali com te quero, te quero, te quero…Sabia que nem um beijo iria conseguir se não roubasse. Rapidamente abraçou-a e beijou-a. Ela, a Marquinha ruborizada e envergonhada fugiu apresada. Ele disse, já enquanto ela se afastava:
-Venho te esperar aqui, logo a tarde!
-Sim! – Respondeu ela já longe.

Satisfeito e alegre, ele regressara para ir trabalhar. Ela a Marquinha juntara-se às colegas e caminharam rumo a Praia. Ambos ignoravam que estavam a ser espiados desde início pelo Joaquim.

Joaquim gostava da Marquinha, mas sabia que Marquinha tinha um fraco por João. Ele morava noutra ribeira, mas a algum tempo que vinha a espiar a Marquinha, na esperança de poder ter algum favor por parte dela. Com o sim que ouviu não restavam muito mais esperanças, senão fazer o que devia ser feito.

O João, hoje velho e desdentado, sentado a porta, com o cachimbo apagado na boca, engolindo o indigesto ar fedorento de tabaco que ele mesmo ainda cultiva ao redor da casa, revê como num filme, mais uma vez, aquele dia que marcou profundamente a sua monótona vida de jovem agricultor.

Lembra-se, como se tivesse sido ontem, a felicidade que sentiu quando deixou a Marquinha e foi tomar o pequeno-almoço reforçado antes de ir trabalhar. Lembra-se que ia a imaginar o dia em que mandaria seus pais pedir a Marquinha em casamento. Imaginava tudo, titim por titim.

A Marquinha haveria de lhe dizer que no próximo sábado era boa data. Ele informaria aos pais. Os seus pais falariam com os pais da Marquinha. Informariam que iriam pedir oficialmente as mãos da Marquinha. O teatro estaria encenado e sem possibilidades de falha alguma. Chegaria o sábado escolhido.

No sábado escolhido, os seus pais iriam. A Marquinha que já havia cochido e pilado o milho. Feito xeren, cuscus, massa e mais iguarias. Tudo para uma grande festa. Mal visse a delegação a subir a difícil ladeira que dava acesso a sua casa, iria afastar. A Marquinha ficaria longe e acompanharia tudo à distância.

Os pais da Marquinha iriam fingir que nada sabiam. Surpresos com a visita, que muito os honrava, mas não viam como a sua criança pudesse estar a pensar no casamento, ela a Marquinha que ainda ontem usava fraldas. Devia ser engano.

Bem,… por via de duvidas, seria melhor que fosse a desavergonhada a confirmar. Iriam chamá-la. Chamariam várias vezes para depois ela aparecer cabisbaixa. A Marquinha iria confirmar que ele o João andava há muito atrás dela, mas ela nunca lhe havia dado alguma esperança.

-Se não tivesses dado, eles não estariam cá! – Diria a mãe toda imperiosa e triste com tamanha ingratidão por parte da filha.
Ela baixaria mais a cabeça, pareceria que quereria beijar o chão. Não responderia nada!
-Diga lá, queres ou não casar com ele? - Tornaria a mãe da Marquinha, a Marquinha continuaria em silêncio. - Falas ou não falas? Posso dizer que não queres?

-Sim mãe, fui eu que mandei! – Diria a Marquinha tão baixo, tão baixo, que só se perceberia, porque todos já sabiam a resposta e a Marquinha também já sabia que quanto mais baixo, mais respeitada pareceria aos olhos da futura família que estava a arranjar! Seguiria o momento de choro por parte da mãe da Marquinha pela ingratidão da filha e por parte da Marquinha pela incompreensão da mãe.

Os homens assistiriam impávidos e serenos à espera da cena seguinte. A nova mãe, ou seja a mãe do João iria acariciar e acolher nos braços a nova filha ou seja a Marquinha. Seguiria a fase dos sermões e regras de namoro, com mais e menos restrições. Por fim o almoço e a recepção digna do momento.

Recorda com nostalgia o dia que foi o mais pequeno de trabalho e o mais longo de ansiedade. Trabalhou e não sentiu o peso da enxada. Não sentiu o peso da enxada mas sentiu que estavam quase parados os ponteiros do relógio.

Por fim chegou a hora. À tardinha saiu e foi ao ponto combinado esperar a sua amada. Esperou e desesperou. Ela não apareceu.

O Joaquim teve a certeza que havia perdido a batalha. Sabia que se não agisse rapidamente podia ser pior. Chamou os amigos e ficaram à coita. A Marquinha chegou antes da hora prevista. Normalmente chegavam da Praia ao escurecer. Mas desta vez as meninas chegaram antes das quatro. Sabia que ela ia a casa e arranjaria alguma desculpa para ir ao encontro do João. Escondeu-se e esperou.

A Marquinha estava alegre. Falou com as meninas até chegarem à Praia. Estava alegre, irradiava felicidade, as amigas ficaram contagiadas. Riam e falavam sem parar. O negócio correu bem, muito melhor do que o esperado. Uma hora depois já tinham tudo vendido. Regressaram muito mais cedo também. Antes das quatro já estavam nos Órgãos. Cada uma na sua casa. Estava ansiosa. Queria ver o João. Gostava muito dele. Já deviam estar a namorar se não fosse a tradição que exigia que a mulher fosse difícil.

Imaginou como seria o casamento. Iria entrar na igreja toda vestida de branco. As amigas cheias de ciúmes iriam vê-la. Os olhos estariam salientes e inchados de ter passado a noite toda a chorar. Mas iria chorar de verdade. Queria ser feliz, muito feliz. A felicidade e o choro são sentimentos directamente proporcionais. Era assim.

Estaria sentada e rodeada de mulheres mais velhas e vividas, ela já tinha assistido algumas vezes. As mulheres iriam descrever a vida difícil que iria ter. O calvário que seria o casamento. Quanto pior for descrito e pintado o quadro da sua vida futura mais profícua e feliz seria. Ela estaria preparada para o pior e contentava-se com o que a providência lhe proporcionasse.

Mal começara a escurecer pegou na lata e disse que ia apanhar água. A mãe quis faze-la desistir. Estava cansada, acabara de chegar da Praia. Ela não desistiu, disse que o pote estava vazio. Que ia num pé e voltaria noutro. Foi e só voltou meses depois.

O Joaquim e os amigos esperavam-na na estrada. Mal ela ia a passar saíram e pegaram-na. Colocaram-na no ombro e levaram-na. Prenderam-na dentro de casa durante meses. Ela nunca se conformou e cada dia que passava odiava mais o Joaquim. A saudade do João. O amor não vivido do João a fazia odiar cada vez mais o Joaquim.

O amor forçado, amarrado e unilateral do Joaquim só piorava mais a situação. Foi na dor e na tristeza que a Marquinha se engravidou. Presa no pé da cama, feita de quatro estacas de madeira enterradas ao chão. Ia ser mãe no cativeiro. Não tinha outro remédio senão ser mãe. O Joaquim ao vê-la grávida, soltou-a.

Dias depois deixou de a ver, bastou um descuido que ela regressou aos Órgãos, grávida, infeliz e sem honra.

O João estava noivo da Bianina, uma das suas amigas. Não amava Bianina, amava Marquinha, mas ia casar com a Bianina. Não queria casar-se de burro e com uma das pernas da calça rolada. A Mariquinha jamais casaria, teve um filho, o filho do Joaquim. Não casou nem com o João nem com mais ninguém!

Mas o amor de João por Marquinha e de Marquinha por João foi eterno, hoje ele não se recorda de mais ninguém, mas de Marquinha continua a ter a mesma saudade!



 

Irene - Conto de Daniel Teixeira


Irene 

Conto de Daniel Teixeira
 
A Irene não era bonita, nunca tinha sido bonita e nunca seria bonita, pensava eu no tempo em que a conheci mais de perto, então era ela jovem, isto pelos idos dos anos oitenta.

Lamentava-a porque, reflectindo, depressa tinha de chegar à conclusão que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas e eu não sou grande adepto da ideia do destino como guia do passado, do presente e do futuro.

Não acredito nas condenações eternas, acho que as coisas e o mundo estão em constante movimento, enfim acho que aquilo que é pode deixar de ser e que aquilo que não é pode vir a ser.

No caso dos homens o problema de ser feio não parece ser tão grave porque existe uma tradição implantada, penso eu. Corre por aí que as mulheres não se importam muito com essas coisas, ou que conseguem descobrir a beleza em traços quase imperceptíveis ao imparcial olhar comum.

Enfim, não vou fazer, neste espaço que é uma história, uma dissertação sobre a influência do patriarcalismo nestas coisas mas parece-me claro que, numa lógica do homem mandante este terá sempre defeitos que são socialmente mais toleráveis em si do que nas inferiorizadas e comandadas mulheres.

Claro que nos anos oitenta havia já um esbatimento da ferocidade patriarcal mas como sabe quem essa época viveu uma parte substancial das concepções de inovação nesse campo eram para uso crítico do comportamento dos outros e muito raramente para consumo próprio. 

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de vinte anos mais ou menos, de ter de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer, por isso, e contra minha vontade, voltava à ideia de destino e este parecia-me alicerçado nessa então recente certeza científica que era a genética.

Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em amplificação e profundidade das rugas à volta dos olhos, via-se-lhe o crescimento dos chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios - agora ainda relativamente carnudos - empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e imaginava-se aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando desde logo a sua artificialidade, tal como na sua mãe.

Via-se, imaginava-se, calculava-se também perfeitamente a possibilidade que deixava de ser cada vez menos remota à medida que nisso se pensava que a placa descolaria do céu da boca, tal como na sua mãe, quando ela se risse muito, coisa que fazia agora. E ria sem complexos a Irene.

Sabia-se desta mesma forma também que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) tal como a sua mãe.

Mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos ares à sua frente, um apêndice desproporcionado, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico lançado de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela.

Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidasmente às suas amigas, já nesta altura que descrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: "Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o qe a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só economicamente remediada; tinham, ela e a mãe - o pai falecera oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já ia passando.

Não sei exactamente como tudo se passou imediatamente antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene desapareceu da cidade.

Falecida a sua mãe com quem convivera desde sempre, talvez não se sentisse em condições de reviver a memória dela no mesmo espaço durante todo o seu tempo e partiu.

Foi o que eu e as suas amigas e amigos pensaram, embora todos achassemos estranho ela não dizer nada a ninguém. Soubemos entretanto que tinha vendido as casas e os terrenos que lhe ficaram. Não terá amealhado muito, era a voz corrente. E foi assim como que um corte radical, o acabar de um livro que se fecha e  não se leva na bagagem aquilo que achámos que a Irene tinha feito.

Pois...todas as histórias têm um remate final senão não valeria a pena contá-las e esta não foge à regra. Estava eu então em Lisboa num intervalo de esplanada quando se aproximou de mim uma senhora, eu já ia nos quarenta e a tal senhora por aí andaria, quando ouço um «Olá, estás bom!?».

Virei-me na direcção daquilo que me pareceu ser um chamamento a mim dirigido e deparo-me com a Irene, sem tirar nem por, quer dizer, com mais vinte anos como eu, mas igual a ela mesma. Dei-lhe os tradicionais dois arremedos de beijo na face, convidei-a a sentar-se e ela então foi-me contando aquilo que era feito nela.

Primeiro vieram as razões porque não tinha dito nada a ninguém quando se viera embora. Ainda recordo, passados mais alguns anos, as suas palavras: aquele ambiente era para mim sufocante - foi o que ela me disse - alegre sim, confessou, tinha ainda algumas saudades dos amigos e amigas, mas chegara à conclusão que precisava de se diluir numa multidão e na nossa pequena cidade sentia-se encurralada.

Embora nunca se tivesse apercebido de ser alvo de chacota, cada vez que entrava num café ou saía com as amigas e os amigos ou mesmo só sentia-se alvo de todos os olhares. Por vezes sentia a piedade, aquela sensação estranha de ser motivo de pena. Aguentou tudo enquanto a mãe foi viva, não iria nunca abandonar a velhota e nem sequer podia sugerir-lhe fazer aquilo que ela tinha feito.

Viera para Lisboa, tirara um curso de secretariado e encontrara emprego num pequeno escritório na baixa onde se mantinha desde então, já lá iam quase vinte anos. Com o tempo foi-se adaptando à nova realidade e hoje, naquela altura, sentia-se bem. Vivia só num apartamento depois de algumas bolandas por quartos alugados e disse-me: era feliz.

Acredito que sim, acreditei nela, na sua sinceridade, embora o peso da solidão estivesse presente nela. Gostou de me ver - disse. Eu também e nunca mais vi a Irene.

Por vezes, como agora, lembro-me dela e por estranho que me pareça sempre, embora ela fosse naquela altura em Lisboa quase igual à Irene que eu tinha conhecido muitos anos antes pareceu-me ter uma face e uma figura como qualquer outra pessoa. 





 

segunda-feira, 30 de março de 2015

O DUELO - UMA HISTÓRIA DE TÍTULOS E INVEJA - Por Miriam de Sales Oliveira


O DUELO

UMA HISTÓRIA DE TÍTULOS E INVEJA - Por Miriam de Sales Oliveira 

O filme que está em cartaz nos cinemas de Salvador,talvez passe desapercebido ,diante de tantos títulos  mais chamativos a ao gosto popular.Mas”,O Duelo” é um bom filme e  nos proporciona momentos de diversão  ,mas,também,nos faz pensar.

Baseado no romance de Jorge Amado,”Os Velhos Marinheiros” conta a história de um homem,Vasco Moscozo de Aragão,que nasceu como se diz na Bahia “,com a bunda pro fogo”,ou seja,com mil motivos para ser feliz,mas,vivia mergulhado numa indisfarçável  melancolia.

Isso chateava seu grande amigo,o Capitão dos Portos,que ,um dia,resolveu tirar isto a limpo.E o Vasco desembuchou,vomitou a mágoa.Bon vivant e neto de avó rico ,com futuro garantido sem precisar dar um prego numa barra de sabão,Vasco mal frequentou  o segundo grau,a duras penas e reprimendas do avô.Na idade adulta  ,o fato de ser Seu Vasco começou a pesar na sua vaidade;seus amigos eram doutores -médicos,advogados,comandantes,capitães – só ele era “seu”,um qualquer,um ninguém apesar dos contos de reis na sua conta bancária e de servir de banco muitas vezes emprestando dinheiro aos titulados.

O Comandante jurou resolver o problema.

-Deixa comigo.

-Mas,como?

Bem,o como vocês leem o livro ou assistem o filme.

O fato é que Vasco dormiu “seu” e acordou Capitão de Longo Curso,um título dado aos comandantes de navios da Marinha Mercante brasileira que os torna aptos  de comandar qualquer navio mundo afora.

Bom,o caso do título está resolvido.Agora,vamos falar da inveja.

Muitos anos depois ,Vasco,já cansado da esbórnia,remediado e solitário resolveu mudar-se para um subúrbio de Salvador, instalando –se de mala,cuia e instrumentos náuticos, numa casinha gostosa junto ao mar.

Brilhante e carismático logo conquistou amigos e era o ídolo do lugar.

E é ai que entra a inveja na pessoa de um morador que se sentiu desprestigiado e jogado pras traças  e,por causa disto,criou um ódio mortal pelo comandante.

Jurava que era mentira tudo o que ele contava,aliás ,causos muito engraçados que prendia as pessoas e aumentava o ódio do cidadão.

Quem nunca enfrentou uma situação destas ?  Qualquer um que se destaque e seja brilhante num mundo de foscos.

A inveja destrói,pisoteia ,fere;ela é amarga,revoltada,feroz.

Assim,o sujeitinho pegou o trem e foi á capital vasculhar a vida do Vasco.

Chegou radiante,sorridente,vencedor.Trazia notícias muito acintosas de como o Seu Vasco virou capitão.

Mas,para os foscos a vitória dura pouco.E a decepção foi grande.

Pensa que ele se rendeu?Continuou vociferando contra o rival e virou a chacota da cidade.

E mais não contarei,pois, leiam o livro –para mim um dos melhores de Jorge – e vejam o filme.Um duelo de monstros  entre Joaquim de Almeida  ,o Capitão e José Wilker,o invejoso.

E está feito o convite e contada a história.Entrou por uma porta ,saiu pela outra,o Rei Meu Senhor que te conte outra.



 

Poesia de Maria Álvaro


Poesia de Maria Álvaro

O MAR...

Veleiro ligeiro beija embevecido,
excitado,
de Tétis o seio cheio, acobreado
e cúpido;
E o Adamastor ora adormecido,
prostrado,
esquece seu furor e vira pr'o lado,
estendido.

Nas ondas eu sigo o seu lençol dourado
e persigo
estrelinhas piscando p'ra mim, deslumbrado,
rendido...
...são olhos espreitando por um véu rendilhado
e antigo
de ninfas pintando e bordando comigo
o meu fado...

Maria Álvaro


NOS AÇORES

Sou uma lagoa, lânguida, estirada,
de expressões mutantes, matizes do céu;
intensa neblina dá-me a imprecisão
de uma realidade p'lo sonho ofuscada.

Inala as hortênses do ventre que é meu,
escuta os silêncios que grito dopada,
e afunda os teus olhos em minha amplidão...
Não ouses, porém, descobrir o meu véu,

Nem insinuar-te em minha morada,
que o colo tranquilo que embala Orfeu
cobre incandescente lava perturbada.

Ganhoa nas asas da minha Emoção
Voa no que é teu...
mergulha calada.

Maria Álvaro



Crónicas de Santarém - Por Arlete Piedade


Crónicas de Santarém

Por Arlete Piedade

O Peregrino

Sempre que entrava naquele velho palácio, onde funcionam vários serviços úteis á cidade e ainda a escola de danças de salão que o meu filho frequentou por três anos, uma sensação estranha de irrealidade me envolvia, de velhas memórias do passado trágico de pessoas apanhadas nas malhas de um destino que enlutou toda uma nação.

Pois que é voz corrente e aceite, conforme lápide de pedra afixada na frontaria do mesmo, que naquele local se erguia no século XVI o solar dos Sousa Coutinho, sob as ruínas do qual foi construído o actual Palácio Landal no século XVIII o qual tem sido objecto de restauro e usos diversos desde então.

Corria o século XVII, algures num daqueles anos seguintes á tragédia da batalha de Alcácer-Quibir, em que o rei português D. Sebastião foi dado como morto ou desaparecido em combate e com ele vários dos seus companheiros, numa batalha sangrenta no Norte de ??frica e por tal facto condenou a liberdade da sua nação, ao morrer solteiro e sem herdeiros directos.

Ocasião que foi utilizada pelos reis espanhóis que se aproveitaram de factos sem contestação possível e se apoderaram da coroa portuguesa, perante a revolta impotente de vários fidalgos patriotas mas que não sentiam legitimidade para se rebelarem abertamente. Entre esses, destacava-se D. Manuel de Sousa Coutinho, casado em segundas núpcias com D. Madalena, viúva de D. João, falecido na batalha fatídica.

Era um fidalgo da velha estirpe, leal á sua nação e ao sangue dos seus reis, que vivia no seu palácio de Santarém, mas que na altura por ordem real fora mandado ocupar pelo rei estrangeiro, para servir de acomodação aos seus nobres.

Então D. Manuel num assomo de coragem e patriotismo, preferiu mandar incendiar o velho palácio dos seus antepassados a ter que o entregar ao odiado governo usurpador.

Deu assim ordem á sua esposa e filha amadas, e ao seu servo, para preparem a mudança urgente para o velho palácio pertença do primeiro marido de sua esposa, facto que esta repudiou, por lembrar tempos antigos e infelizes, e por temores próprios de mulher, como seu marido classificou, mas que foi forçada a acatar, pela forte determinação e patriotismo de seu marido.

Consumado o facto, perante a admiração velada e aplauso dos outros fidalgos, não tardou contudo mais uma tragédia a abater-se perante aquela família tão unida e admirada.

Pois que estando D. Madalena um dia atarefada com a reorganização da sua rotina doméstica, o seu fiel servo Telmo, lhe veio anunciar que um peregrino lhe pretendia falar.

Assustada com o que a razão lhe apontava com vagos pressentimentos, mas resoluta, concordou em receber o estranho homem que dizia voltar da Terra Santa, o que teve lugar na sala de entrada, onde um retrato do seu antigo marido, D, João era peça principal.

Ao primeiro olhar, e porque aquele trazia a face velada por longo capuz, não soube porque o coração lhe deu um sobressalto tão forte no seu peito fraco de mulher.

Depois de algumas palavras trocadas, contudo e porque o que o romeiro lhe dizia a inquietava fortemente, ousou perguntar:

- Mas, quem sois, senhor?

Ao que este respondeu apontando com o seu cajado de peregrino, para o austero retrato: - Ninguém senhora, ninguém!

A partir deste facto desenrola-se a tragédia anunciada e descrita pelo grande escritor do romantismo, poeta, dramaturgo, político e embaixador português do século XIX, Almeida Garrett, na sua obra-prima adaptada ao teatro, Frei Luís de Sousa, nome adoptado por D. Manuel de Sousa Coutinho, ao recolher-se ao convento depois do desenlace trágico do seu casamento com a viúva de um fidalgo que afinal reaparece das sombras do passado, para provocar a desonra de uma família e a morte de desgosto de sua inocente filha Maria.

Almeida Garrett, grande viajante e estudioso ao visitar Santarém no século XIX, que descreveu como «Um grande livro de pedra recortado», visitou o local e escreveu esta aplaudida peça de teatro, baseada nessa tragédia do homem que contudo depois como frade dominicano, foi também reconhecido como um grandioso vulto das letras lusas.

Arlete Piedade



O Flautista - Conto por Marcelo Torca


O Flautista


Conto por Marcelo Torca

Lá estava ele de novo, o músico, o flautista tocando o seu instrumento, portátil, assim poderia levar a qualquer lugar, onde estivesse poderia executar melodias, quase como um passarinho.

As vezes era um estorvo, outras, era o animador, o comandante da dança, da euforia, da alegria de estar mais um dia vivo, num dos bairros mais violentos daquela cidade. Nem sempre fora assim, devido à desestruturação das famílias, a perda do poder aquisitivo, o estímulo do pensamento fútil, foram responsáveis por gerar gerações perdidas, onde os valores básicos quase não existiam, e para discordar de tudo isso, o flautista Zé da Roda tocava o seu instrumento.

Tinha este apelido, pois quando criança brincava com pequenos pneus conduzidos por um pedaço de pau, tendo a ponta um arame. Mas não era só nas brincadeiras, ia para a escola com este brinquedo, para onde fosse a pé, levava. Um dia este menino cresceu, tornou-se músico, com uma família para cuidar, trabalhava em qualquer situação de músico, tinha coragem para enfrentar qualquer problema, desde que estivesse tocando o seu instrumento, a flauta.

Como tocava onde fosse convidado, um grupo de forró o chamou, esta parceria durou por uns dois anos e meio aproximadamente, era um conjunto em início de carreira, tinham apenas sete meses de experiência, sendo a infra-estrutura, de certa forma precária, o transporte era um caminhão, daqueles antigos, e os quatro músicos tiveram de ir na cabine, dois foram sentados, e dois de pé, de costas e encurvados ao pára brisa, o motorista não fazia parte do grupo.

A viagem demorou cerca de uma hora e meia, e quando chegaram ao seu destino, mesmo sentindo dores, foram arrumar o som, descarregando as caixas do caminhão e montando em cima do palco, depois de terem colocado todos os cabos, testado a energia, fizeram a passagem de som do conjunto.

Tinham saído de casa às treze horas, e eram quase nove horas da noite, quando veio a notícia de que o jantar não iria chegar, alguém da organização do evento tinha esquecido de encomendar, e faltando uma hora para dar início ao baile, não seria mais possível ir há algum lugar, mas tentaram negociar para levarem uns salgadinhos no decorrer do baile. Quando o relógio marcou dez horas da noite, teve início o forró, o salão já estava com metade do recinto ocupado, tinha tudo para faturarem bastante.

Passavam das duas horas da madrugada, ainda não havia chegado nenhum salgadinho, mas o salão estava cheio, e a pista de dança era contínua, nunca ficava vazia e assim foi até às quatro horas da manhã, onde se deu o desfecho, e também apareceram três coxinhas de frango miúdas, como eram em quatro músicos, tiveram de dividir.

O pior ainda estava por vir, quando estavam carregando o caminhão, o tecladista e cantor da banda foi procurar o promotor do evento, não encontra, conversa com vários da equipe, eles alegam que logo estaria ali presente, pois fora resolver alguns problemas pessoais.

Já passavam das cinco horas da manhã, e nada, mais meia hora se passou, e veio a notícia, só daria para acertar o baile no meio da semana, como não havia como dizer não, aceitaram e foram embora.

Até hoje não viram nem sombra deste dinheiro, para pagar o frete foi outro grande problema, o flautista negociou a sua bicicleta, o tecladista a única televisão que tinha, era de catorze polegadas e o baixista ainda teve de entregar o aparelho de som. Era vida difícil, porém, fazia parte da profissão, nem sempre conseguiam receber pelo serviço, e às vezes ainda eram considerados vagabundos.

O Zé da Roda desfez a parceria, pois fora convidado a participar de um programa de rádio, onde apresentava um programa e fazia gravações para as propagandas, o tempo era curto e era difícil conciliar as duas atividades. Era uma rádio comunitária, a legalização estava em andamento, portanto era considerada pirata, a documentação para deixar em ordem era difícil, mas como uma cidade poderia ficar sem rádio, e ouvir os programas locais, de interesses da comunidade onde estava inserida? Pergunta quase impossível de ser respondida.

O flautista não desanimava, tinha sempre o pensamento positivo, e cada dia, era um outro dia, onde novas oportunidades poderiam vir, surgir espaços novos, um músico precisava lutar, mas se não tiver um pequeno apoio, é quase impossível a sobrevivência deste, e com este pensamento, o Zé da Roda tocava todas as tardes no programa da Rádio Praça Central. 


 

Poesia de Arlete Deretti Fernandes


Poesia de Arlete Deretti Fernandes


Amigos virtuais


Arlete D. Fernandes


Nossas almas tem preocupações semelhantes.
 Mesmo sendo amigos virtuais.
 São pensamentos de amizade e de bem
 Que nos unem em anelos fraternais.

Angustia-nos a desordem da humanidade.
 Queremos ver o respeito, a paz e a unidade.
 Em contrapartida vemos a cada ano,
 incompreensões, guerras e desenganos.

Os dardos do mal se fortaleceram,
 Dos valores e princípios o que foi feito?
 Com o passar do tempo esqueceram.
 Já existe em nosso meio quem pratique
a volta aos conceitos verdadeiros.

As leis universais são justas e eternas
 e já se fazem sentir suas causas e efeitos.
 E muitos seres unindo-se praticam conscientes
 O amor e os princípios que ensinam pacientes.


Meu amigo virtual


Arlete Deretti Fernandes


Veio-me à lembrança de tempos passados
 Quando encontrei dentro de um antigo livro,
 Algumas fotos já amareladas
 que me fizeram recordar um grande amigo.

 Interessantes aspectos dos dias atuais,
 Com os avanços criados pela tecnologia,
 Permitem-me ver e fazer amizades,
 Um amigo virtual encontrei na Bahia.

 Amigos virtuais? Quem diria?
 Em outras épocas que isto possível seria?
 E felicidade encontrar amigos sinceros.

 Desejo-lhe muita paz e harmonia,
 Verdadeiro irmão, que com belas poesias
 Envia-me as mensagens fraternais que eu espero.


Poema da vida


Arlete Deretti Fernandes 


Dia e noite, noite e dia,
Assim segue o ritmo da vida.
Buscas, delírios,
Dores, martírios.

Nesta curva da estrada
 A felicidade me esperou.
 O sonho virou realidade,
 Meu lar aqui se formou.

Família, esposo e filhos,
Emoções tantas encontrei.
 Sucedem-se os dias,
 O sol, o verde, a chuva e as estações.

Ali, as folhas que caem,
 Aqui, as folhas que brotam.
 O poema da vida
Escrito em um grande cartão.

A infância, a adolescência,
 A juventude, a vida adulta.
 «Nossos filhos não são nossos filhos,»
 Como disse um dia Gibran .

Como a árvore que plantei,
As sementes que vi brotar,
 Cresceram e seus caminhos
 Um dia foram procurar.

Hoje espero ouvir o telefone,
 O skipe, o Messenger, um email.
 Como não sentir saudades
 Do barulho das crianças?

Este ninho ficou vazio,
 Procuro-os por todos os cantos.
 Enquanto em meu jardim vejo
 Pássaros voando constantes.

Passam dias, meses e anos.
 Os rios correm para o mar,
 Lá fora o poema da vida
 Continua a se renovar.




sábado, 28 de março de 2015

Das Memórias do Cárcere de Camilo


Das Memórias do Cárcere de Camilo

Recolhido em Livres Pensantes


Em 1862, Camilo Castelo Branco publicou as suas Memórias do Cárcere,  obra em dois volumes, em que relata a sua passagem pela Cadeia da Relação do Porto.  Nessa cadeia conheceu José do Telhado, com o qual conviveu , pelo que lhe  dedica   todo o  Capítulo XVI, do volume II, acrescido posteriormente de algumas referências.

Camilo Castelo Branco esteve preso mais de um ano na cadeia da Relação do Porto, aguardando julgamento por causa do seu relacionamento amoroso com uma mulher casada, Ana Plácido, ela própria também levada para o cárcere.

"Dizem os registos que ninguém queria julgar Camilo por dormir com mulher alheia e a "espinhosa missão" acabou por ser confiada ao pai do escritor Eça de Queirós que despachou uma absolvição por falta de provas, "deixando o povo feliz e contente".

Quanto a José  do Telhado o registo  diz  diferentemente : "Condeno o réu José Teixeira da Silva da freguesia de Caíde de Rei, comarca de Lousada, na pena de trabalhos públicos por toda a vida na Costa Ocidental de África e no pagamento de custas", assim determinou o tribunal."

Resgatou-se  uma passagem das  Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco no início da estadia na prisão que se transcreve, seguida de um excerto da Síntese Histórica da Cadeia da Relação do Porto onde são referidas as passagens deste nosso grande escritor e do salteador José do Telhado.


 Estátua de  Camilo Castelo Branco e  de Ana Plácido

I

 Memórias do Cárcere

"Antes de contar como passei a primeira noite de cárcere, perdi-me logo, como, em divagações, que o leitor, já afeito com o meu génio, aceita com benevolência. Às nove horas da noite, os guardas correram os ferrolhos, e rodaram a chave da pesada porta do meu cubículo, a qual rangia estrondosamente nos gonzos.

Estava sozinho. Sentei-me a esta mesma banca, e nesta mesma cadeira. Estavam aqui defronte de mim alguns livros. Recordo-me de Shakespeare, Plutarco, Sénancour, Bartolomeu dos Mártires, e uma Tentativa sobre a Arte de Ser Feliz por J. Droz. Folheei-os todos, e de todos me fugia o espírito para entrar no coração, e sair de lá em ânsias do inferno que lá ia.

À força de contenção de alma consegui ler e meditar algumas páginas da Arte de Ser Feliz. Em que local eu buscava a árvore dos bons frutos! É este um livro de filosofia racional que preparou o ânimo de seu autor para mais seguras e levantadas crenças na filosofia de Jesus Cristo.

Fez-me bem esta leitura. Principiei logo a pôr em português as vinte páginas que lera, com o intento de fazer publicar o livro inteiro em folhetins.

Fui às três horas da manhã procurar no sono a restauração das forças corporais, que as do espírito, até esta hora, nunca as senti indignas da ousadia com que ele se arremessou a perigosas batalhas com o mundo."

Camilo Castelo Branco, in Memórias do Cárcere, volume I, 2.ª edição, Casa da Viúva Moré – Editora, Porto, 1864,

II

A Cadeia da Relação do Porto

"Do lado Nascente do Jardim da Cordoaria, deparamos com a monumentalidade granítica do pesado colosso que é o edifício da Cadeia da Relação. Foi mandado construir por João de Almeida e Melo, iniciando-se as obras em 1765, no reinado de D. José. A conclusão ocorreu em 1796, já quando havia tomado conta do governo D. João VI, como regente, por força da irremediável psicose que havia atingido sua mãe, D. Maria I, em 1791.

(...) A Cadeia da Relação, justificando o nome, serviu de cárcere até à inauguração da actual cadeia de Custóias, em 1974, após a Revolução de Abril. Os presos eram distribuídos pelos diversos pisos, conforme a sua posição social, um pouco à guisa do inferno de Dante. Nos andares de cima, os mais categorizados, ali se situando os catorze "quartos de malta" (celas individuais).

Nos "quintos dos infernos", no rés-do-chão, os mais pobres, a ralé, onde os detidos se amontoavam em amplos salões com piso de pedra, as enxovias, com catres imundos em redor, os quais, durante o dia, eram levantados por meio de dobradiças, ficando empinados junto às paredes.
 
Essas celas comuns eram conhecidas pelos nomes de Santo António e de Santa Ana, as destinadas a homens, de Santa Teresa para mulheres, de Santa Rita para menores, de S. Victor e o Segredo para castigos.

Havia uma oficina denominada Senhor de Matosinhos. A imundice das enxovias tinha o cimento dos anos e das sucessivas gerações de presos. O cheiro das latrinas era nauseabundo. O ambiente soturno e triste, o que levou D. Pedro V a exclamar, após uma visita, em 1861: "É preciso arrasar tudo isto!".

Nos seus soturnos ergástulos albergou muitos presos, alguns célebres: José do Telhado, Camilo Castelo Branco (cela n.º 12). Nesta mesma cela esteve preso o desembargador Gravito, antes de ser enforcado, juntamente com mais nove liberais, em forca instalada na actual Praça da Liberdade, por decisão dos miguelistas.

Mais tarde, esteve ali também detido o banqueiro Roriz. Obras recentes preservaram-na. Ana Plácido, então amante de Camilo, esteve instalada num corredor porque não havia celas para senhoras de sociedade. O Duque de Terceira permaneceu, durante algum tempo, na cela n.º 8. O médico que envenenou familiares, Urbino de Freitas, ocupou a n.º 13. João Chagas, por via do seu republicanismo, estava detido nesta cadeia quando eclodiu a abortada revolta de 31 de Janeiro.

Os processos relativos a Camilo, Urbino de Feitas e Zé do Telhado, encontram-se no pequeno museu judiciário instalado no Palácio da Justiça do Porto, onde também funciona, actualmente, o Tribunal da Relação, que já tinha saído da Cadeia para se albergar na Rua Formosa, onde, depois, funcionou o Arquivo de Identificação e, agora, está a sede da Liga os Combatentes.

É interessante supor Camilo Castelo Branco, de imaginação flamejante, a resmungar na sua cela n.º 12, como leão enjaulado, por ter cometido crime que, agora, já nem o é: relações sexuais com mulher casada. Só o adultério da mulher era punido. O homem casado podia impunemente relacionar-se com mulher que não fosse casada. Sendo-o, como era Ana Plácido, então poderia ser punido, com pena grave, extensível a ambos.
 
Aguardaram, durante mais de um ano, presos o julgamento em que o júri não considerou provados os factos e, por isso, foi proferida sentença absolutória.

No cárcere, Camilo continuou a escrever e, no silêncio do último piso, onde se situava a cela com janela para nascente - é a que se situa mesmo por baixo do ângulo esquerdo, de quem está virado para ele, do frontão -, o que mais o irritava era o barulhar ritmado e invariável dos passos do carcereiro sobre as tábuas rangentes do sobrado.

De noite, nas longas lucubrações, convenceu-se de que o marido enganado, Pinheiro Alves, teria subornado um outro preso para o matar. Confidenciou esse temor a outro preso que também ali se mantinha, José do Telhado. Este sossegou-o, dizendo-lhe: "- Esteja descansado. Se aqui alguém tentasse contra a sua vida, três dias e três noites não chegariam para enterrar os mortos".

Talvez a aura romântica que se havia de formar à volta do célebre salteador, emergisse também do reconhecimento do escritor pela protecção dispensada. Camilo encerrou o seu livro "Memórias do Cárcere", desabafando: "Fecham-se as memórias. Eu devia ter dito porque estive preso um ano e dezasseis dias. Não disse, nem digo, porque verdadeiramente ainda não sei por que foi."

Claro que sabia. O que poderia não entender era o rigor dos preconceitos vitorianos da época, aos quais, afinal, surpreendentemente, o Tribunal se não vergou.

José Teixeira da Silva (Zé do Telhado) nasceu em 1816, provavelmente no lugar do Telhado, do concelho de Penafiel. Alistou-se nos Lanceiros da Rainha D. Maria II, tomando parte em vários combates, ascendendo distintamente ao posto de sargento.

Obedeceu às ordens de Saldanha na Revolta dos Marechais, em 12 de Julho de 1837, que colocou no poder o marquês Sá da Bandeira. Na Revolução de 1846, acompanhou o então Visconde Sá da Bandeira a Valpaços, e em boa hora para aquele, pois lhe salvou a vida.

Recebeu a Torre-e-Espada, ordem honorífica criada por D. Afonso V destinada a distinguir elementos das forças armadas, tendo os seus possuidores honras militares e precedência a todas as outras ordens daquelas forças, em igualdade de grau.

Terminada a guerra após a Convenção de Gramido, tentou obter um modesto emprego no Depósito do Tabaco, instituição economicamente importante para o norte, nomeadamente para o Porto e que o grande jurista e liberal, membro do Sinédrio, Ferreira Borges salvara da gula dos franceses comandados por Junot. Não lhe deram o emprego.

Desiludido, voltou para casa onde o esperavam a mulher e cinco filhos à beira da miséria. Acabou numa falperra à semelhança de um irmão, do pai e do avô Sodiano, distribuindo generosamente o produto dos roubos.

Foi julgado por isso e por assassínio de três pessoas, cometidos pelos seus capangas: um padre, um criado da Casa do Carrapatelo e um correligionário que, num assalto fôra ferido, ficando incapaz de fugir.
 
Foi deportado para Angola onde morreu cheio de prestígio entre os indígenas, no Malongo ou em Xissa, em 1875.

Nas tranquibérnias políticas do tempo de D. Maria II, após a sangrenta guerra civil que opôs liberais e miguelistas, as várias tendências políticas hostilizavam-se permanentemente e os governos caíam como fruta madura.

Bastava o Marechal Saldanha tomar a iniciativa de um golpe militar, e logo mais um governo devia constituir-se em substituição de outro que tombara. Foi a época da Setembrada, da Belenzada, da Revolta dos Marechais, da Maria da Fonte, da Patuleia.

Foi na sequência do este movimento, a influenciar o Porto, que o prestigiado duque de Terceira, de seu nome completo, António José de Sousa e Meneses Severim de Noronha, foi enviado para esta cidade, na esperança de que a força do seu enorme prestígio acalmasse os ânimos.

Em vez disso, foi preso, por pouco tempo, embora, quando exercia as funções de lugar-tenente da Rainha. A prisão foi ordenada e efectuada pelo patuleico José da Silva Passos que, com todo o respeito, teve a coragem de pedir que se considerasse preso, ao que ele obedeceu prontamente e deu entrada tranquilamente na Cadeia.

O velho edifício, depois de muito e ingloriamente se haver discutido acerca do seu destino, saiu do âmbito do Ministério da Justiça, de onde nunca deveria ter saído, por coerência histórica e lealdade à tradição.
 
É hoje a sede do Instituto Português da Fotografia e local de realização de actividades culturais. As enxovias têm espectaculares condições acústicas."

Porto, Novembro de 1998

(O texto de síntese histórica do Tribunal da Relação do Porto é da autoria do Sr. Conselheiro José Pereira da Graça),Tribunal da Relação do Porto.