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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015


Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015

Coluna Um - Daniel Teixeira


Em tempos que ladram a nossa cultura passa

Verdadeiramente inspirador é este título embora a sua versão inicial dele difira. E daí talvez fosse também pouco correcto reescrevê-la aqui na sua formulação exacta porque no nosso entender só se lhe aplica o sentido e não o significado.

Na verdade a nossa caravana não tem cães que lhe ladrem, ou se os tivesse nem disso nos aperceberíamos, embora devamos ter presente que os tempos actuais ladram verdadeiramente, um pouco para todos ou então para muitos.

Depois temos também uma questão com uma outra proporcionalidade nos termos a utilizar do caso original e na transcrição que aqui fazemos. Na verdade somos talvez um pequeno grão de areia, um pequeníssimo grão de areia: Florbela Espanca faz referência à insignificância de um grão de areia que se desprende utilizando a expressão de Marco Aurélio. Apenas um grão que se perde...nada mais que isso.

Esta cultura da relativização das percas, quando as há, funciona assim para o Estoico Marco Aurélio e para a poetiza Florbela tendo em atenção que não se trata de uma redução qualquer, de uma redução de uma coisa.

Subtilmente, ou de forma subliminar, o que se afirma é que aquilo que se perde, o tal grão de areia, não afecta a estrutura da construção na qual se acredita: há coisas que sendo compostas por milhões de grãos de areia continuam na mesma. O espírito, a ideia, não se resume a uma soma de grãos (de areia), mas sim à riqueza da sua estrutura.

Por isso por aqui vamos nós todos, perdendo e ganhando alguns grãos de areia e uns e outros, os que se perdem e os que se ganham, recompensam-se entre si naquela ideia sempre acompanhada de que sem a perca de uns e sem o ganho de outros não haveria progressão: na ideia, nas coisas, nos homens, na cultura.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira

Ps: Este é o número 263 do Raizonline: na coluna da direita, na parte que se refere às etiquetas (O que aqui se escreve), encontrarão lá uma etiqueta com o Nº263-12/02/2015 que, aberto o link, dá acesso a todos os trabalhos publicados neste número.



«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»


«DIZEI-LHE QUE TAMBEM DOS PORTUGUESES ALGUNS TRAIDORES HOUVE ALGUMAS VEZES»

Texto de Paulo em Filhos de um Deus Menor

«Dizei-lhe que também dos portugueses, alguns traidores houve algumas vezes» (Luiz de Camões - canto IV, estrofe XXXIII)

 Na verdade, com esta frase Camões não se referia ao ano de 2015 nem tão pouco ao século XXI, mas sim aqueles portugueses que nos tempos de D. João I, se passaram para o lado de Castela (Espanha) e combateram contra os interesses de Portugal.

Hoje, quando se coloca a questão da crise em Portugal, vêm os mais altos dignitários da Nação atribuir a culpa à conjuntura da Europa ou mesmo planetária fazendo, com isso, crer que Portugal é uma vitima inocente da «desgraça». Ninguém parece ter a coragem de Camões...

Porém, quando a crise passar - se passar - haja quem tenha a coragem de dizer que tal crise também se deveu a portugueses traidores que houve algumas vezes.

Embora São Paulo tenha dito que o Diabo não tem forma, que é «espírito dos ares» (o ar - mau das crenças populares) admite-se no entanto que Ele não possa ser o culpado da crise actual em Portugal. Na verdade o bicho das sete cabeças do Apocalipse, o veado da lenda da Senhora da Nazaré e o corvo de Santo Espedito, não podem ser arguidos neste processo.

Não porque sejam inimputáveis em razão de anomalia psíquica. Não. Os culpados são uma espécie de Diabos tornados ermitãos, isto é: aqueles que levaram uma vida dissipada e corrompida e, depois de velhos, se tornaram penitentes e filósofos. Estes não são inimputáveis, embora , por vezes, consigam dar a «volta» à justiça ainda que popular...

Neste ano de 2015 é preciso que o Povo saiba que Deus e o Diabo não são concorrentes, diga-se o que se disser; as clientelas é que diferem. Tal como o distinto advogado não aceita defender a causa do plebeu - excepto quando é mediática - , tal como o médico de nomeada não se interessa pelos clientes pobres, nem o ilustre pensador pelas vilezas deste mundo, assim os políticos endeusados - que são muitos - desconsideram as paixonetas dos seus «adoradores», as intrigas de bairro, as mortes na estrada, as reivindicações das classes profissionais distintas, a mesquinhez dos negócios domésticos e, de quando em quando, a bandeira de Portugal.

Infelizmente, hoje raramente se roga a Deus pelas coisas nobres mas, constantemente, solicita-se o Diabo para as coisas materiais (palácios, carros de alta cilindrada, piscina, dinheiro, prestigio pessoal). Esta divisão de papeis permitiu, nestes últimos anos, que a maioria dos que nos administraram tivessem solicitado mais do que rogado. Agora, o resultado esta à vista.

Muitos políticos, perante a actual crise, hão-de seguir a prudência popular neste ano de 2015, que aconselha a acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, porque pensam assim: «Deus é bom mas não tenho de que me queixar do Diabo».


Paulo




E é sempre assim - Daniel Teixeira


E é sempre assim

Conto de Daniel Teixeira


Desde sempre que pensei que as coisas iam ficar por ali. Aliás desde o primeiro minuto que interiormente já pensava isso. Quer dizer, eu já a conhecia um pouco, muito pouco, é certo, mas sabia que havia uma diferença grande entre nós.

Talvez não fosse assim tão grande, essa diferença, afinal e talvez fosse eu mesmo que a fizesse grande. Talvez tenha sido assim tal como as coisas se passam nos dias das nossas vidas quando nem sequer queremos desejar uma coisa que sabemos não poder vir a ter.

O processo para mim é simples, ou é fácil de explicar e é quase evidente que eu o reconheça, o processo. Colocamos essa coisa que não podemos ter muito longe do nosso alcance para não vir a desejá-la e para não sofrermos por não a ter.

Era isso que eu pensava dela, ou era assim mesmo que eu pensava e por mais voltas que tivesse dado às minhas ideias sobre ela dificilmente teria pensado que as coisas não tivessem ficado por ali, quer dizer por ali onde eu as tinha colocado: ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre a forma como alcançá-la.

Depois, bem, depois, passado já bastante tempo de nos conhecermos as coisas deram uma volta, ou mesmo duas, se quisermos. Não sei exactamente como as coisas se foram passando e como o tempo conseguiu influir, mas houve um dia, aquele dia, em que as nossas distâncias diminuíram. E é por isso que eu disse acima que talvez tenha havido duas voltas porque acho que a nossa ideia se aproximou, convergiu, vinda de dois sentidos. De mim e dela.

Foi quase por acaso acho eu, talvez estivéssemos os dois precisados um do outro, ou cada um de nós de um outro. E o que se seguiu foi muito rápido.

Muito rápido mesmo foi aquele passo de proximidade e convergência.

Estivemos envolvidos durante toda a tarde e durante toda a noite: fomos dois rios sedentos de foz, duas cascatas deslizantes em murmúrio, dois corpos em reencontro, duas almas sobrevoando-se.

Depois, bem, depois, veio o sol, quer dizer, o sol da manhã começou a entrar por entre os cortinados, a derramar-se sobre os nossos corpos, sobre os seus cabelos, sobre o seu peito, sobre a sua face.

E foi estranho como me ficou a parecer, em poucos minutos ou mesmo em poucos segundos, que tudo aquilo era absurdo, que não estava tudo certo, que havia ali qualquer coisa ou quase tudo que não tinha lugar e que aquele não era o nosso mundo desejado e não era um mundo a desejar. Foi mesmo estranho, muito estranho. E foi isso que senti, estranheza.

Agora que penso nisso, já passado algum tempo, talvez não tenha sido estranho mesmo, nada estranho, aquilo que senti naquela manhã ensolarada naquele quarto. Foi somente o manifestar daquele meu desejo de manter as coisas como estavam antes, quer dizer, de a manter naquele justo ponto da minha ideia : ela inalcançável e eu sem ambições frustrantes sobre ela.


Daniel Teixeira

UMA CASA EM BEIRUTE (2) - Sylvia Beirute


UMA CASA EM BEIRUTE (2)

Por Sylvia Beirute

 

 um nome. as pessoas reduzem-se a um nome. a linguagem agrava as coisas. as pessoas também se reduzem a linguagens. na realidade o nome e tudo o que ele comporta, como o chamar, o entoar, o evocar, reduz-se a uma linguagem. quando a criança me chamou, disse o meu nome: «Carlaiz», disse ela. disse-o de uma forma diferente. disse-o como se se desmoronasse a linguagem subjacente.

eu nunca pensei no meu nome com esta sensação associada, concluí. nunca o meu nome conheceu uma matéria tão informe, sem opositor chamativo, com uma redução subliminar, própria do domínio do puro. Carlaiz, perguntava a criança, aceitas jantar connosco na sexta-feira? e eu pensava. eu não parava de pensar na primeira questão. disse «porque não?» com um sorriso como se pudesse fugir sem pernas. «ainda tenho de tratar do meu contrato, acabei de chegar à cidade», acrescentei.
 
 a questão filosófica mais importante numa pessoa sozinha no mundo, senão num espaço, maior ou menor, é a possibilidade (ou capacidade) de escolher a própria família. se for num espaço estrangeiro esse acolhimento é paradoxalmente mais efectivo. como que há um distanciamento natural entre quem recebe e quem chega, mas que aproxima pela descoberta, conquista, ou curiosidade radiográfica. mas que será isto? por que será assim?
 
 de seguida propus-me a não responder a quaisquer perguntas que pudesse naturalmente formular. trazia muitas questões, procurava respostas. respostas daquelas que não perguntam de novo. especialmente aquelas que não perguntam o mesmo que já fora perguntado.

 quando cheguei a casa rezei e chorei. tenho o hábito de fazer sempre duas coisas ao mesmo tempo. acoplá-las ainda que aparentemente de tal não sejam passíveis. rezar e chorar creio que, ao contrário de outras, são duas funções que se podem executar em conjunto. com o tempo, quando chorava instantaneamente, também rezava. era como se impusesse ao verbo um outro lado transitivo. e vivia a experiência. dir-se-ia que rezava o choro. certos contrários não fazem sentido. não podia dizer que chorava a reza, por exterior a mim.

comecei a viver em beirute uma outra dimensão. a minha casa seria decorada segundo outros padrões, podia começar relações do zero, esconder o meu passado, desarticular-me por completo no exercício do ser individual.

 no meu ouvido ainda permanecia o meu nome dito pela criança: «Carlaiz».

Sylvia Beirute



O primeiro beijo dá-se com o olhar. - João Manuel Brito Sousa


O primeiro beijo dá-se com o olhar.
 
Por João Manuel Brito Sousa


Ando por aqui. De manhã, entre as dez e as onze, mais onze que dez, saio à rua. Fecho a porta do prédio e ponho o pé na calçada. Estou na cidade que eu amo. Um amor feito de muitas recordações e saudade.

A cidade de hoje recebe-me bem. Estou aqui à dois meses e já conquistei algumas boas amizades. Entre outras, cito, por ser justo, Humberto Daniel, Jorge Gaspar e José de Sousa Pinto.

Sei que o meu coração não consegue odiar. Vou andando assim, tentando viver, um dia de cada vez. e percorro lugares e caminhos, montras e lojas, umas que já existiam de antigamente outras que nasceram agora.

O primeiro lugar que visito é a livraria do Pátio das Letras, onde normalmente compro um livreco, dos baratos. Depois, sento-me na esplanada e tomo um café. Aparece malta e conversamos um pouco. Sigo depois até ao mercado, onde normalmente revejo amigos..

O último foi o Jorge Custoidinho, grande, grande, grande amigo, dos tempos da primária. Estou a vê-lo no seu primeiro dia de escola. Fomos sempre amigos, eu e o Jorge, irmão doutra amizade enorme, a Fernanda Custoidinho, a quem aproveito para saudar.

O Jorge cruzou-se comigo, parou e cumprimentou-me. Trazia o brilho da amizade no olhar. E fez-me uma pergunta engraçada: «onde é que estás agora ?...».

Entupi … que raio, pensei.. Mas expliquei-lhe e aprovou o projecto. Que não garanto seja o mesmo daqui a quinze dias… Encontro-me com outros amigos, como o Custódio Serôdio, o Joaquim da minha terra, que emigrou para França anos 50 e tais e que me contou uma história interessantíssima... Que não posso deixar de a transcrever.

Tomámos um café e ás tantas ele pega na palavra e falou mais de uma hora seguida. Disse Joaquim:

«Em 1963 em Paris fui convidado por uns amigos a festejar o nascimento do Marquitos, filho de um preso político espanhol que tinha lutado contra Franco. Esteve 23 anos seguidos na cadeia, até que Franco, em 1943 fez publicar um decreto-lei que libertava todos os presos políticos com mais de vinte anos de cadeia seguidos.

Saíra cá para fora, mas tudo lhe parecia estranho e não se entendia muito bem com o brilho das luzes, com a dinâmica da cidade e por aí fora. Andava vigiado e sabia disso. Estivera preso dos 20 aos 43 anos e a sua vida não conheceu a Primavera, ou seja, nunca tinha amado nem sido amado, apesar de sentir o desejo.

Um dia encontrou um amigo doutros tempos, que depois dos abraços e cumprimentos lhe disse: «Mira, esta noche às diez por acá »…. «No te entiendo», terá dito o presidiário.

«às diez en la calle. Por acá, si»… E foi mesmo.. De tal modo que às onze dessa noite os amigos estavam num bar de meninas. Que tal ? perguntou o amigo…. Hum, respondeu o preso, que entretanto pensava no momento que estava a viver, coisa que sempre combatera…O amigo voltou a aproximar-se e o presidiário, parecia infeliz.

O amigo então apresenta-lhe Isabel, uma menina a quem entregou uma nota de 500 pesetas, dizendo-lhe: «Leva-o para o Hotel e fá-lo feliz» e virando-se para o presidiário: «Está aqui o teu primeiro beijo». Depois contas-me. Tenho de ir. Hasta mañana, ainda disse..

Vamos disse a menina. Para onde? Para o Hotel, óbvio. Espera, disse o presidiário. Vamos até um café, quero conhecer-te melhor. E foram. Conversaram e às tantas, disse ela. Vamos ? Fazer quê ? não sei fazer nada. Deixa, eu faço tudo. Foram. Aconteceu o quê? Não sei.

às quatro da madrugada o presidiário voltou para casa onde o irmão e a cunhada o esperavam preocupados. Mas… tudo bem. A cunhada pediu-lhe o casaco para o escovar. E ao fazê-lo, encontrou num dos bolsos um papel enrolado. Perguntou ao presidiário, o que é isto, Ferdinand ?...

Mostra, disse Ferdinand, que entretanto aceitou o embrulhinho. Desenrolou-o. Era a nota de 500 pesetas que Isabel introduzira no seu bolso do casaco e onde tinha deixado escrito: «Volta amanhã outra vez»…

Ferdinand foi para o quarto depois de dar as boas noites.. Pensou no assunto. E resolveu no outro dia passar por uma florista e comprar 500 pesetas de flores. E dirigiu-se depois para o Hotel onde tinha estado com Isabel, onde deixou as flores, pedindo que as entregassem á menina tal.

E escreveu num cartão que colocou dentro do «bouquet: «Para Isabel, o meu primeiro amor:»…

Dias depois encontrou o amigo.
 - Então que tal?
- Hum… respondeu Ferdinand
- Saiu o primeiro beijo?
 - Hum… disse ainda Ferdinand.
 - Então ? insistiu o amigo.
 - E Ferdinand, disse: «O primeiro beijo dá-se com o olhar»




Poesia de Virgínia Teixeira


Poesia de Virgínia Teixeira


Menina, Mulher, Mãe, Companheira

Menina despojada da sua meninice cedo demais,
Mulher desnudada da sua feminilidade
Mãe sem quem embalar com suavidade
 Companheira forçada a caminhar só pelo cais

Criança que vislumbra os barcos e sonha neles embarcar
Mulher que fita os barcos e anseia pelo seu marinheiro
Mãe que, para lá dos barcos, olha o horizonte vazio sem lastimar  
Companheira que se abraça para escapar da solidão e encontra no mar o seu cheiro

Menina que se ajoelha à beira-mar e reza com fervor
Menina crente, com o peito aberto e a alma selvagem
Mulher que é corpo e essência, paixão e entrega sem pudor

Mulher ardente que se entrega ao mar sem medo do vendaval
Mãe que embala o cadáver que encontra na margem
Companheira que silencia no peito a ânsia intemporal… 


Morreu a menina

As lágrimas caem do céu que vocifera ferozmente
A angústia e a raiva que traz nas nuvens que obscurecem o dia
Nesta terra gélida e desconhecida onde abriguei o espírito carente
De uma menina que morreu há muito, aquela que Via,

Morreu a menina inocente que clamava poesias ao vento
A que escrevia sentimentos para sobreviver
A que amava tão profundamente que raiava o sofrimento
A menina que eu não soube proteger…

O vento agride as árvores e força-as a recuar
As lágrimas do céu derramam-se sem cansaço,
E a que restou, luta para finalmente encontrar

Encontrar o caminho de onde se perdeu
O tão ansiado descanso no seu regaço
A certeza de que, afinal, algo ainda permaneceu…


Veneno

Tantas lágrimas derramadas num tempo já ido
Fluidas num rio de sal e angústia, lamacento de traição
Rio que corria revoltado e feroz, de mim condoído
Ferida de morte por um punhal afiado com desilusão…

E, ao nascer do Sol, o rio começou lentamente a secar
E no pântano viu-se nascer uma singela flor de esperança.
Os passos ficaram mudos na fuga e pensaram parar
E os raios ardentes acenderam a centelha voraz da aliança

Na lama da Razão ficou enterrado o punhal odiado
Encoberto, mas tão real quanto a desilusão que restou…
E ao anoitecer, quando a Lua do seu sono despertou,

O rio voltou a brilhar ao luar com um laivo esverdeado,
De veneno puro, que se impregna devagar e profundamente,
Para os laços dourados do amor macular, eternamente… 





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ROBERTO GOMES – O Terno Branco

ROBERTO GOMES – O Terno Branco 


ROBERTO GOMES, acaba de lançar mais um livro de contos, A Guitarra de Jemi Hendrix, pela Criar Edições. Para os leitores que conhecem Roberto Gomes não haverá surpresa quanto a excelência de sua escrita ficcional. Mas, para os seus novos leitores, não será demasia dizer que ele é um dos escritores brasileiros contemporâneos mais importantes – daí minha indicação para que não deixem de ler o livro A Guitarra de Jemi Hendrix, que é composto por quinze excelentes contos. 

Mesmo voltado para a literatura – conto, novela, romance, bem como pela ficção infantil, com a qual foi distinguido com o Prêmio Jabuti – Roberto Gomes não se afastou da Filosofia, depois que se graduou, na Universidade Federal do Paraná, há algumas décadas. Na Universidade, não se  limitou a exercer a docência, também levou seus conhecimentos filosóficos para o livro, como é exemplo Crítica da Razão Tupiniquim, que há algumas décadas vem sendo adotado por muitas escolas do nosso país, e com edições renovadas.

Como nosso propósito nesta postagem é dar conhecimento aos leitores do lançamento do novo livro de contos de Roberto Gomes, vamos transcrever abaixo o conto O terno branco, do livro A Guitarra de Jemi Hendrix:


 
O terno branco

Roberto Gomes


Ele já não tinha nome.

Era conhecido pelos apelidos, que eram muitos, dependendo de onde estivesse, dos amigos a sua volta, se era madrugada e estava numa boate, se anoitecia e estava num boteco. Só não tinha um apelido para as manhãs, quando passava dormindo, roncando demasiado alto para seu corpo pequeno, produzindo um estardalhaço sonoro que parecia capaz de quebrar vidraças.

Acordava pontualmente às duas da tarde, a boca queimando, os olhos vermelhos, que dizia infestados por espinhos, não tem mesmo um espinho neste olho?, perguntava, abrindo as pálpebras com dois dedos em alicate. Saía da cama gemendo, ia ao banheiro, enfiava a cabeça debaixo da torneira e, num mesmo gesto, esticava a mão para apanhar a garrafa de conhaque que deixava no armário ao lado. Bebia no gargalo e estalava os beiços.

Sempre vestido de preto.

Uma calça e duas camisas pretas e puídas, que fediam a mil noites e muitas mulheres da vida. Só permitia que fossem lavadas às segundas-feiras, quando não acordava às duas horas da tarde e seguia roncando pelo resto do dia. Saía da cama quando já era noite. Pedia um café embora soubesse que ninguém o atenderia e, cruzando o corredor rumo à cozinha, declarava:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada.

Tomava café frio, olhava com desinteresse para a televisão, diante da qual a mulher e a filha estavam plantadas como duas samambaias. Ia ao banheiro com algum estrondo, empestando os ares da casa, batia portas, deixava cair os sapatos quando tentava calçá-los, atrapalhava-se com a camisa do pijama, que enroscava nos braços. Depois desta encenação que repetia com uma precisão de relógio, dizia puta que o pariu que ninguém fala comigo nesta casa! e, parado no meio da sala, decretava, com ênfase:

- Segunda-feira é mesmo um dia que não presta pra nada!

E voltava para a cama, onde se punha a fazer cálculos na tentativa de descobrir há quantos anos ninguém o ouvia, há quantos séculos não tinha notícias da filha, que estava lá plantada no sofá, como era mesmo o nome da desinfeliz?, há quanto tempo não conversava com o filho, que cuspia para o lado quando cruzava com ele? E a mulher, quem era ela?

Depois, dormia aos solavancos até mergulhar num sonho onde havia uma mulher que lhe dizia: vem. Ele ia, sentava-se à mesa, contava casos, anedotas, pregava apelidos em quem estivesse por perto e fazia com que todos rissem muito e batessem nas suas costas dizendo que era mesmo um sujeito admirável, uma figura. Acordava na terça-feira, às duas horas da tarde, pontualmente. E recomeçava.

No mais, terminava certas noites emborcado numa calçada, acordava com dois policiais cutucando suas costelas com o coturno. Noutras, abria os olhos numa casa desconhecida, no meio da madrugada, diante de uma cortina de plástico que era um escandaloso campo coberto com flores vermelhas e amarelas. Ou era erguido por dois braços fortes e jogado na rua, onde quebrava um dente contra o meio-fio. Ia até a farmácia, passava mercúrio cromo na boca, nos braços, na testa, pregava alguns esparadrapos pelo corpo e entrava no primeiro boteco.

Foi assim até o dia em que chegou em casa num domingo à tarde, provocando alvoroço na vizinhança, o que ele fazia em casa àquela hora?, o que estava acontecendo? Atravessou a curiosidade daquela gente cretina sem se deixar abalar e entrou em casa com um pacote muito jeitoso debaixo do braço. Cumprimentou a todos, não recebeu resposta alguma, a filha na frente da televisão, a mulher fabricando os biscoitos com os quais sustentava a casa, o filho cuspindo para os lados como se fosse um preto velho de macumba.

Entrou no quarto e, como sempre, deixou a porta aberta. Todos viram quando abriu o pacote com cuidado e dele retirou um terno branco, claríssimo, e uma camisa também branca. Viram quando estendeu o terno sobre a cama e dependurou a camisa num prego ao lado do armário. Despiu-se, jogando no chão o terno preto e a camisa preta, e estava nu, pois não usava cuecas, uma de suas implicâncias. Viram sua exibição inocente de carnes flácidas, a bunda murcha, o sexo desatento entre as pernas.

Então ele vestiu a camisa branca, as calças brancas, o paletó branco. Olhou-se no espelho balançando a cabeça e, quando se virou para a porta, a mulher, a filha e o filho fizeram de conta que não estavam olhando e mergulharam de novo na tela da televisão. Ele veio até a sala, perguntou se ninguém ia lhe oferecer um café. Não teve resposta. Foi à cozinha e tomou um copo de água, derrubou uma caneca e, quando retornava ao quarto, disse:

- Amanhã é segunda-feira e segunda-feira não serve mesmo pra nada.

Quando entrou no quarto, os três observaram o modo cerimonioso como ajeitou o terno branco no corpo, acomodou os punhos da camisa, aprumou o colarinho, alisou os lençóis, afofou o travesseiro e se deitou na cama. Ficou muito reto, parecendo maior do que era, as mãos sobre o peito, os sapatos apontando para o teto, o nariz muito fino interrogando contra a janela ao fundo.

Logo estava roncando aos arrancos. O filho fechou a porta do quarto, a filha aumentou o volume da televisão. Estranharam quando ele não acordou ao anoitecer da segunda-feira, pedindo café e reclamando que segunda-feira não serve mesmo pra nada. Só às duas horas da tarde de terça-feira abriram a porta do quarto.

- Acho que não roncava desde as dez horas de ontem, a filha explicou ao médico que foi chamado às pressas.


Poemas de Sá de Freitas


Poemas de Sá de Freitas

 
COMO SINTO UM ADEUS

O adeus é prenúncio de ansiedade
Que surgirá nascida de uma ausência...
É princípio de angústia... é evidência
De prantos que virão com intensidade.

O adeus é um sentir de vacuidade,
É o interromper de uma convivência,
É um padecer com a triste permanência,
Da grande dor que traz uma saudade.

O adeus é esperança de um retorno;
É sensação terrível de abandono;
É temor do que inda não surgiu.

É apreensão que a alma mortifica;
Sonho de também ir, para quem fica;
Vontade de regresso à quem partiu.

 
HEI DE ENCONTRAR

Hei de encontrar ainda em meu caminho,
O amor que busco desde a mocidade,
Mesmo que seja no findar da tarde,
Que pressinto chegar-me de mansinho.

Não falo do gostoso «amor - carinho»,
Que traz ao nosso corpo a saciedade:
Falo do amor que falta à humanidade,
Sem o qual cada ser vive sozinho.

Falo daquele amor que mata a fome,
Que agasalha a quem no frio dorme,
Que ao desolado vem trazer alento.

Falo do amor que no perdão se aplica,
Falo do amor que o coração pratica,
Contido no primeiro Mandamento.

 
LUTES

Ao sentires a dor que vem terrível,
Para te torturar, roubar-te a calma,
Enchendo de angústia a tua alma,
De maneira cruel e indescritível...

Reajas, lutes, antes que enfraqueça,
Tua esperança que, depressa, foge;
Antes que o desespero, em ti, se aloje
E toda a força, em ti, desapareça.

Ergues-te antes de entregar-te à sorte;
Antes que venhas assistir a morte
Do otimismo e dos esforços teus...

Extermines com dor antes que aumente,
Antes que te transformes num descrente,
Que duvida do próprio Amor de Deus.





JANEIRO - Miriam de Sales Oliveira


JANEIRO

Miriam de Sales Oliveira

Janeiro ,como palavra,não existe na nossa língua;imagino que seja uma corruptela de Jannuarius,que era, em tempos mais antigos do que eu,dedicado à Jano,primeiro rei do Lácio,que o leitor sabe era o primeiro nome de Roma;e,se não sabia,ficou sabendo.Sabendo,pode exibir sua cultura no escritório e impressionar a secretária.

Eu não me sinto obrigada a prestar homenagem a um cara que não conheci,não é meu vizinho nem meu chefe e nada tem a ver comigo ou com vocês,concordam?

Se fosse januário,ainda vá lá,conheço alguns,inclusive a Januária,de Chico,que vivia na janela e boa coisa não deveria ser.E,também,o S. Januário,que lembra o Vasco.Até ai,tudo bem.

É um mês festeiro,aqui em Salvador,temos,após o réveillon,a festa do Sr. Bom Jesus dos Navegantes com sua procissão de barcos,a festa do Sr. Do Bonfim,com a lavagem e os banhos de cheiro,sem falar nos ensaios carnavalescos que ninguém é de ferro e baiano quando não está numa festa,está inventando alguma;por isso se diz que baiano não nasce,estréia.

O pior de tanta festa é que a chuva gosta de comparecer e cai com vontade,principalmente no Sudeste,pois,como o Nordeste precisa de chuva para amainar a seca e a chuva é pirracenta,cai no Sul,só para aporrinhar os paulistas trabalhadores e os cariocas,praieiros.

Bom é em Belém do Pará,lá,dizem,ainda não fui conferir,a chuva cai com hora marcada;a gente marca um compromisso,perguntando:
-Antes ou depois da chuva?
Terra civilizada é assim.

Dizem  que,no dia 12 de janeiro,em Flandres e no Brabant,na França,existe uma festa tradicional na qual as mulheres querem aparecer como as verdadeiras donas da casa;para isso,metem os maridos na cama e saem a resolver os problemas;os problemas das mulheres brasileiras é simplesmente tirar da cama os maridos para ir trabalhar.



Dois Poemas de Mário Matta e Silva


Dois Poemas de Mário Matta e Silva


NAS VOLTAS DA VIDA

Uma volta, outra volta
Nas voltas que o Mundo dá
Vou lutando em cada volta
E a volta não pára já.
Volta certa, volta e meia
Revolta sempre a voltar
Vai na volta o tempo anda
Na forma de se animar.
Anda à volta, volteando
Nas voltas deste viver
Cada volta que se dá
A vida passa a correr.
Volta à esquerda e à direita
Volteio de carrossel
Vai longe a volta que dou
No cavalo cor de mel.
São voltas que tu me dás
Meio loucas, desvairadas
Já nada volta pr’a trás
Nestas longas caminhadas.
Até quando andar à volta
Da onda, do sol, da lua
Dê eu as voltas que der
Volto a ter-te bela e nua.
Nas voltas do teu rosário
Ando voltando ao pecado
Sentindo que em cada volta
Eu canto meu triste fado.
Vai na volta, vou na volta
Destes dias turbulentos
Com remoinhos à volta
Da pobreza, sofrimentos.
Reviravolta sangrenta
Ais de choro, gritaria
Em cada volta que damos
Quero que a Paz nos sorria.
Ao voltar à engrenagem
Das rodas que o tempo tem
Ando à volta na viagem
Do tempo que vai e vem.
Até quando vou voltar
À espera desse futuro
Cada dia há-de avançar
Do claro para o escuro
Até me sentir definhar
Toca a rodar, a rodar.

25 de Janeiro de 2015

MÁRIO MATTA E SILVA


O SANGUE ESCORRE EM PARIS

Paris. Viagem calma pelo Sena
Por onde voam andorinhas
A aragem é suave, amena
As nuvens vão cinzentas, baixinhas.
Com Notre – Dame, Gótico antigo
Tenho o cântico-chão como abrigo.
Paris. Nos três gritos, fronte erguida
Liberdade, igualdade, fraternidade
Revolução de furores tão destemida
Tão viril, tão gentil, de tanta idade.
Solene Arco do Triunfo, erguido e forte
Contra o nazismo, vencendo a morte.
Paris. Coração a bater pela Europa
Charles de Gaulle, feito vitória
Vaga que se ergue na popa
A banhar França com sua História.
Avanços hábeis na modernidade
Berço de emigrados a gritar saudade.
Paris. Do cume mais alto, a tocar estrelas
Torre Eiffel no ferro emaranhado
Campos Elisios, suas coisas belas
Paz feita no apogeu do Mundo alterado.
Na cultura assenta fórmulas de poetas
Baudelaire. em flores do mal, é rei de profetas.
Paris. De Charlie Hebdo, reduto caricatural
Expressão em desenhos feita liberdade
Sem mancha de prosa, sem texto formal
Vê mensagens bramidas p’la religiosidade.
Jihadismo pressegue, mata atrozmente
Em no nome de Alá, ceifando inocentes.
Paris. Cidade bela tão violentada
Por terrorismo louco, em sangue desfeito
Com gente de máscara e arma apontada
Magoada a Europa, chora no seu peito.
Numa falsa Fé, num atraiçoado Islão
Faz escorrer sangue p’lo Mundo Cristão!

3 de Fevereiro de 2015

MÁRIO MATTA E SILVA




Dois textos de Maria Álvaro



Dois textos de Maria Álvaro


Juventude

Como escorrem pensamentos e emoções ao longo das palavras, assim escorre a juventude pelos dedos feita espuma de gel.... Ah! A juventude!...Sabonete perfumado num banho embebido de prazeres molhados, borbulha macio e nos escapa instante, deslizando vivaz e inconsequente por mãos ávidas por ele... Beleza mesmo na feiura, sem engenho, sem arte, súbita, generosa e impaciente... Não se apercebe que não É, que apenas Está! 

Desliza a juventude... ...ágil... afoita... iludida campeã de ilusões e futuras derrotas... Desliza se desfazendo...como uma nuvem passageira... vapor impalpável que se acaba, chorando na dureza da terra... Arco-íris esfuziante, que se esfumaça suave ao sol, na manhã cintilante encharcada de chuva... ignorante da noite que o espera......

Maria Álvaro



Vazio de mentes

Com a comunicação nas redes sociais, o uso de códigos por adolescentes, e não só, vem limitando a necessidade de se estruturar frases completas e bem construídas. Acredito que várias línguas, não só a Portuguesa, estejam ficando cada vez mais pobres. E expressão verbal pobre conduz a pensamento pobre...e vice versa... 

Além do mais, na vida real, ao vivo, pouco se lê e, consequentemente, a expressão verbal fica ainda mais empobrecida nestes casos . Os jovens comunicam-se oralmente e por escrito através de idiomas telegráficos e gírias metafóricas, que têm a pretensão de substituir toda uma estrutura. 

São expressões estratificadas que todos usam de forma igual, sem que haja a preocupação de mostrar uma identidade crítica individual. Paradoxal e ironicamente, no mundo hoje altamente individualista, o jovem fala a pobre linguagem dos grupos. Tenta a identificação com os grupos apenas no que é aparente, na linguagem corporal, na forma de se vestir, de se maquilhar ou de se pentear, na linguagem e não consegue se caracterizar como indivíduo. 

Estão ficando cada vez mais raros os que buscam outras razões de integração em grupos que tenham finalidades éticas e sociais.. Uma boa parcela da juventude hoje não sabe e não quer se distinguir linguisticamente e é altamente voltado para interesses materiais de caráter também comum...interesses esses neles inconscientemente incutidos, em parte, pela subtil insinuação interesseira dos Media e do mundo capitalista. 

Vive-se um vazio de mentes...

Maria Álvaro

Poemas de Liliana Josué



Poemas de Liliana Josué


Em memória dum grande amigo que partiu desta vida terrena

As lágrimas por nós choradas
na tua quase vontade
de quereres , finalmente, livre pássaro
são tristes, fundas pesadas
apertam o coração
e marcam a existência
de quem te quis tanto, tanto…

mas mesmo assim tu partiste
levitando nesse prazer da ausência
de quem já não pertence aqui

foste habitar o eterno
que os vivos inventam por desconhecimento
o os mortos abraçam no contentamento
de o ter alcançado

ficam as memórias de um viver passado
ficam quase certezas de não estares infeliz
ficam as historias que tu não contaste
ficam os contornos dum tempo feliz.

23/01/2015
 
Liliana Josué


EVA

O vento batia forte
a chuva era um rosário
fevereiro, inverno na sua total nobreza
adversário rígido mas necessário

e foi nesse frio agreste
que certa criança nasceu
linda, loira, branca, doce
uma pérola pequenina
pérola minha, muito minha

sim, era o mundo que o meu ventre tinha dentro
e que nesse frio dorido
fez a vida receber

fio dourado
erva pura e verde
brisa marinha
calor do meu corpo cansado
esperança sem fim
vinda de mim
tenra haste desse fevereiro agreste.

06/02/2015
 
Liliana Josué

Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979



Joaquim Paço d'Arcos: 1908-1979

Um destes dias numa visita a um alfarrabista em Lisboa encontrei, entre outros, o livro “Amores e Viagens de Pedro Emanuel” da autoria de Joaquim Paço D’Arcos. Calhou-me a quarta edição de 1945 (a primeira é de 1935). Folhas amareladas e com espaço para dedicatória, mas não tive sorte. Estava em branco… Ainda assim, uma preciosidade de um autor cuja veia literária despertou precisamente em Macau, cujas primeiras impressões não foram as melhores

“A cidade sobre todas linda, a pérola cobiçada do Oriente, onde os meus dias teriam que decorrer; o seu bairro chinês pareceu-me aldeola cotejado com o de Hong Kong; o burgo português deu-me o aspecto de vilória de província, transplantada para sob aquele sol ardente. (…) Nem as colinas viçosas, nem as estradas. Serpenteando à beira-mar, nem as sombras seculares das árvores que abrigaram Camões, me reconciliaram com o forçado degredo”.  

Joaquim Belford Correia da Silva, filho do governador de Macau (1918-1923), Henrique Correia da Silva Paço d’Arcos, publicou duas obras com temas macaenses: "Amores e Viagens de Pedro Manuel" (1935) e "Navio dos Mortos e outras Novelas" (1952).

No primeiro título o protagonista é um chefe da polícia secreta de Macau que era também capitão de piratas nos mares da China. A segunda obra conta a história da filha de um rico chinês residente em Macau, assassinada pelo marido que não admitia que a sua mulher herdasse a fortuna do pai. O navio, que fazia o transporte de mortos chineses do estrangeiro, trouxe os corpos de ambos, pois o marido, condenado pela justiça inglesa, morrera na forca. 

Ao “Navios dos Mortos” o Times Literary Supplement referiu em Agosto de 1995 que se tratavam de “novelas que têm marca cosmopolita e recordam as de Somerset Maugham”. As obras são de ficção mas os locais e até algumas personagens são reais. Caso do padre Jerónimo, por exemplo. 

Numa entrevista em 1968 o próprio afirmou: “Existem determinadas figuras humanas que podem ter indirectamente inspirado algumas personagens da minha obra, mas profundamente modificadas. Se há algumas que dão traços de pessoais reais, são pessoas diferentes que nós depois mesclamos e transformamos inteiramente. As nossa figuras são criadas de imaginação, embora reflectindo aspectos da forma humana à nossa volta”. 

Neto do primeiro conde de Paço d’Arcos e irmão do segundo Conde, nasceu (1908) e morreu em Lisboa (1979). Conhecido como Joaquim Paço d’Arcos, foi um dos escritores portugueses do século XX mais traduzidos no estrangeiro: Brasil, Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Inglaterra, Itália, Polónia, Roménia, Suécia, Estados Unidos, Rússia…). No The Penguin Book of Modern Verse Translation (1966) podem encontrar-se dois dos seus poemas.

Partiu com apenas quatro anos para Angola (1912) com os pais e, depois, para Macau (1919) e Moçambique, onde exerceu funções de secretário e chefe de gabinete de seu pai, governador entre 1925 e 1927. A viagem até Macau fez-se via S. Francisco e depois rumo a Hong Kong em 1919 no navio “Persia Maru” e de Hong Kong para Macau na canhoneira “Pátria”, a 22 de Agosto de 1919. 

“Demandei Macau em noite negra de tufão, na companhia do padre Jerónimo, ao qual fiquei talvez devendo a vida, pelas promessas que fez ao bom Deus se nos salvasse.” Ficaria até 1922. Chega com 11 anos e estuda no Liceu (então no Tap Seac) tendo colaborado no jornal da escola “A Academia”. 

Um dos professores do liceu foi o padre José da Costa Nunes que viria a ser bispo de Macau e que lhe terá dito da sua especial vocação para a escrita. Segundo Monsenhor Manuel Teixeira, Joaquim “estudava pouco e lia muito, empolgando-se, sobretudo, nos romances de Camilo”. 

Nos três anos vividos no território vai muitas vezes a Hong Kong e a Cantão. Em 1925, com apenas 17 anos, está em Moçambique onde é secretário do seu pai (governador da província), regressando a Lisboa dois anos depois até que ruma ao Brasil onde vive de 1928 a 1930 como comerciante (antiquário) e jornalista. 

Regressa a Lisboa e em 1931 era chefe de repartição da Companhia Nacional de Navegação. Já em França, em 1933, escreve o seu primeiro romance, Herói Derradeiro. Após uma segunda permanência no Brasil, é nomeado em 1936 chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que ocupa até 1960, tornando-se igualmente, a partir de 1944, director da Trans-Zambezia Railway. 

Foi ainda presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores e membro da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Foi ainda membro do Pen Club, da Société des Gens de Lettres de France e sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.

No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (Vol. IV, Lisboa, 1997) pode ler-se: “Obteve diversos prémios literários, o primeiro dos quais coincidiu com a sua nomeação para o cargo de chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros: foi o Prémio Eça de Queirós (1936), atribuído ao seu romance “Diário de um Emigrante” pelo Secretariado de Propaganda Nacional; o seu livro de novelas “Neve sobre o Mar” foi galardoado com o Prémio Fialho de Almeida, e a sua peça de teatro O Ausente obteve o Prémio Gil Vicente (1942); quanto ao Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências (…), o autor recusou-o devido aos termos em que se exprimia o relatório da comissão incumbida de o atribuir e que punha públicas reservas quanto à sua qualidade, designadamente pelo uso frequente de estrangeirismos.”

Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, premiado diversas vezes, Joaquim Paço d’Arcos foi um caso de sucesso junto dos leitores nas décadas de 1940 e 1950 do século XX, em especial com o romance “Ana Paula”. 

O conjunto de obras que publicou sob o título genérico Crónica da Vida Lisboeta foi considerado por muitos críticos, quer portugueses, quer brasileiros, fundamental no âmbito da literatura portuguesa. 

Óscar Lopes escreveu que “Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d’Arcos quanto a determinados sectores portugueses.”

Na poesia, o seu livro mais conhecido é o “Poemas Imperfeitos”, de 1952. E também aí Macau marca presença nos poemas “Medo” e “Foi numa terra distante”. 

Após a sua morte, a 10 de Junho de 1979, caiu praticamente no esquecimento. Mas não totalmente, já que como o próprio afirmou “escrever é projectar-se além da vida”. E ele escreveu dezenas de obras: contos, romances, ensaios, teatro, poesia…

Nos últimos anos de vida passou para o papel as suas memórias e não esqueceu Macau, claro, onde viveu parte da juventude. Deixou três volumes prontos e certamente surgiriam mais, mas acabaria por morrer no ano em que foi editado o último (já depois de morrer). Para ele o que escreveu foram “pedaços de livros, predominantemente seus, e pedaços de vidas, em grande parte alheias”. 

Para Hernâni Cidade, os livros de memórias são “transparentes como vidraça sem cor”, referência à análise objectiva que fazia das figuras humanas características da sua época, em especial das mulheres. Essas figuras/pessoas pertenciam à alta e média burguesia, meios que Joaquim Paço d’Arcos conhecia bem. Aliás, na sua obra encontram-se muitas marcas da sua vivência pessoal.

Em 2008 no centenário do seu nascimento foi doado o seu espólio à Universidade Lusíada que já exibiu publicamente uma parte e que ficou responsável pela sua inventariação e conservação. Já no início deste ano o Círculo Eça de Queiroz organizou em Lisboa uma sessão para celebrar a reedição, num só volume, das “Memórias da minha Vida e do meu Tempo”. Na ocasião, Fernando Pinto do Amaral e Guilherme Oliveira Martins evocaram Joaquim Paço D’Arcos.  Em Lisboa o seu nome ficou perpetuado numa rua.

Algumas das obras que deixou:

Romances: Herói Derradeiro, 1933. Diário dum Emigrante, 1936. Ana Paula: perfil duma lisboeta, 1938. Ansiedade, 1940. O Caminho da Culpa, 1944. Tons Verdes em Fundo Escuro, 1946. Espelho de Três Faces, 1950. A Corça Prisioneira, 1956. Memórias duma Nota de Banco, 1962. Cela 27, 1965

Contos e novelas: Amores e Viagens de Pedro Manuel, 1935. Neve sobre o Mar, 1942. O Navio dos Mortos e Outras Novelas, 1952. Carnaval e Outros Contos, 1958. Novelas pouco Exemplares, 1967.

Poesia: Poemas Imperfeitos, 1952.

Teatro: O Cúmplice: Peça em três actos, 1940. O Ausente: Peça em três actos, 1944. Paulina Vestida de Azul: Peça em três actos, 1948. O Braço da Justiça: Peça em nove quadros, 1964. Antepassados, Vendem-se: Peça em treze quadros, 1970.

Conferências e ensaios: Patologia da Dignidade, 1928. A Floresta de Cimento (Claridade e Sombras dos Estados Unidos), 1953. Carlos Malheiro Dias, Escritor Luso-Brasileiro, 1961. Algumas Palavras sobre a Missão do Escritor, 1961.A Dolorosa Razão duma Atitude, 1965.

Memórias: Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo: 3 vols., 1973, 1976 e 1979.





A Rã cozida ou os perigos da sociedade...


A Rã cozida ou os perigos da sociedade...

Por Irene Fernandes Abreu

Blogue Valium 50

Esta situação vem provar que, quando uma mudança acontece muito lentamente, escapa à nossa consciência e não desperta na maioria dos casos qualquer reacção, revolta ou oposição da nossa parte…

A Rã, desta história, não sabia que estava a ser cozida, tal como nós não nos apercebemos muitas vezes das graduais mudanças que se operam em nosso redor.
 
Imagine uma panela cheia de água fria, na qual uma pequena e inocente rã, nada tranquilamente.
Uma ligeira fonte de calor é colocada debaixo da panela. A água vai aquecendo lentamente. Pouco a pouco a água vai ficando morna. A Rã, acha isso bastante agradável e continua a nadar. A temperatura da água, porém continua a subir.
 
Agora a água já está quente demais para a Rã a poder desfrutar e nadar tranquilamente. Sente-se um pouco cansada, mas não obstante isso, não se amedronta. Finalmente a água está realmente quente. A Rã acha isso bastante desagradável, mas já está muito debilitada e por isso aguenta e não faz nada. A temperatura continua a subir, até que a Rã morre cozida, quase sem dar por isso, uma vez que a temperatura foi aumentando gradualmente, até ela perder os sentidos.
 
Se a Rã tivesse sido atirada para a água, com ela já quente, a pelo menos 50 graus, de temperatura, ela a Rã, com um golpe de pernas teria saltado para fora da água.

A Alegoria da Caverna, narrada por PLATÃO é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras à nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à condição dos homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões
 
Olivier Clerc, escritor e filósofo, nesta sua breve história, através da metáfora, põe em evidência as funestas consequências da não consciência da mudança que infecta nossa saúde, nossas relações, a evolução social e o ambiente. Podemos ver pois, desde a Alegoria da Caverna, de Platão, a Matrix, passando pelas fábulas de La Fontaine, a linguagem simbólica é um meio privilegiado para induzir à reflexão e transmitir algumas ideias.

Uma quantidade de coisas que nos teriam feito horrorizar 20, 30 ou 40 anos atrás, foram pouco a pouco banalizadas e, hoje, apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.
 
Em nome do progresso, da ciência e do lucro, são efectuados ataques contínuos às liberdades individuais, à dignidade, à integridade da natureza, à beleza e à alegria de viver; efectuados lentamente, mas inexoravelmente, com a constante cumplicidade das vítimas, desavisadas e, agora, incapazes de se defenderem. 

As previsões para nosso futuro, em vez de despertar reações e medidas preventivas, não fazem outra coisa a não ser a de preparar psicologicamente as pessoas para aceitarem algumas condições de vida decadentes e até dramáticas.

Se nós olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que temos sofrido uma lenta mudança no modo de viver, para a qual nós nos estamos a acostumar e, o pior, a aceitar como "natural". E porquê?
O martelar contínuo de informações, pelos mídia, satura os cérebros, que já não conseguem distinguir as coisas, que vão caindo na indiferença e no "habitual" do dia a dia...

Um resumo de vida e sabedoria, que cada um poderá plantar no seu próprio jardim, para colher os seus frutos.



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crónicas do Fel de Amor


Crónicas do Fel de Amor

Recolhido em «As Leituras de Madame Bovary»


Ando há mais de 2 meses a evitar escrever sobre um livro: Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante. Elegi-o como próxima leitura numa tarde chuvosa da Feira do Livro de Lisboa, alheia a todo o mistério do seu pseudónimo autoral mas a leitura havia de se concretizar mais tarde, quando Agosto já agonizava em Lisboa.

Tenho andado a evitar escrever sobre o livro porque ele me derrubou por completo. Já há algum tempo que assumi como evidência o facto de sofrer da patologia da leitura identificatória; no entanto, nunca um livro me tinha atingido com uma pancada tão seca e impiedosa.

Olga, a personagem principal da novela Os Dias do Abandono, diz a certa altura: “E depois, gostava da escrita que nos faz debruçar a cada linha e olhar para baixo, sentindo a vertigem da profundidade, as trevas do inferno.” A frase aplica-se, com precisão afiada, à escrita de Elena Ferrante. A sua leitura deu-me um mal-estar físico, recordou-me a vertigem e pôs de novo o abismo a devolver-me o olhar. Sublinhei passagens que se aproximam quase literalmente de algumas entradas diarísticas minhas, dos meus pensamentos mais íntimos e temidos.


 
 

Como por exemplo: “Queria ter a certeza chã dos dias normais, embora soubesse bem demais que persistia no meu corpo um movimento frenético noutro sentido, um relâmpago, como se tivesse entrevisto no fundo de uma cova um horrível insecto venenoso e todas as partes de mim própria continuassem tomadas ainda de um impulso de recuo, agitando os braços, as mãos, escouceando. Tenho de reaprender – disse para comigo – o passo tranquilo dos que pensam saber para onde estão a ir e porquê.”

Ou este diálogo: “ - Foi muito horrível? – perguntou-me ele, embaraçado.
- Sim.
- O que é que te aconteceu naquela noite?
- Tive uma reacção excessiva que destruiu a superfície das coisas.
- E depois?
- Caí.
- E onde é que foste parar?
- A parte nenhuma. Não havia profundidade, não havia precipício. Não havia nada.
 
Abraçou-me, manteve-me apertada contra o seu corpo por um momento, sem dizer uma palavra. Estava a tentar comunicar-me em silêncio que sabia, graças a um dom misterioso que lhe era próprio, tornar o sentido mais forte, inventar um sentimento de plenitude e de alegria. Fingi acreditar e foi por isso que, ao longo dos dias e meses que depois vieram, nos amámos devagar, serenamente.”

Tanto a segunda como a terceira novela, A Filha Obscura, terminam com uma fresta de luz mas é claro que ambas as personagens femininas são ainda cativas da obscuridade que as engoliu e que os únicos estratagemas que têm para lidar com o alçapão por onde se esvaiu o real são a mentira e o fingimento.

“Então, passa», disse ela.
«O quê.»
Fez um gesto para indicar uma vertigem, mas também uma sensação de náusea.
«O desnorteamento.»
Lembrei-me da minha mãe, disse:
«A minha mãe usava outra palavra, chamava-lhe caqueirada.»
Reconheceu o sentimento na palavra, fez um olhar de rapariguinha assustada.
«É verdade, escaqueira-te o coração: não consegues suportar estar contigo mesma e tens certos pensamentos que não podes dizer.»
 
Depois voltou a perguntar-me, desta vez com a expressão meiga de quem procura uma carícia:
«Mas mesmo assim, passa.»
Pensei que nem Bianca nem Marta tinham alguma vez experimentado fazer-me perguntas como as de Nina, com o tom insistente em que ela me estava a fazê-las. Procurei as palavras para lhe mentir dizendo a verdade.
«A minha mãe fez disso uma doença. Mas ela era de outro tempo. Hoje pode-se viver bem, mesmo se não passar.»

Estou exactamente nesse ponto. A tentar dar fé no real e a habitar com convicção a planura dos dias. Uns dias consigo, outros não. Gosto de acreditar que sucederei na minha busca e que o meu corpo tornará a ser casa. E então penso em Ulisses e lembro-me das palavras de Claudio Magris: “Talvez a minha odisseia literária seja aquela que conta a viagem ao nada e o respectivo regresso.”

Com essas palavras em mente, escolhi a minha odisseia para os tempos de chuva: A Divina Comédia. E de novo, logo nas primeiras linhas, o espelho identificatório:


 “No meio do caminho em nossa vida,
  eu me encontrei por uma selva escura
  porque a direita via era perdida.
 
Ah, só dizer o que era é cousa dura
 esta selva selvagem, aspra e forte,
 que de temor renova à mente a agrura!
 
Tão amarga é, que pouco mais é morte;
 mas, por tratar do bem que eu nela achei,
 direi mais cousas vistas de tal sorte.
 
Nem saberei dizer como é que entrei, 
tão grande era o meu sono no momento 
em que a via veraz abandonei.”


Que, desta vez, a descensão aos infernos me permita um pequeno vislumbre do céu.



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



 
Na década de 1960 o problema da delinquência juvenil em Macau foi 'atacado' com recurso a métodos 'inovadores'. Os jovens que infringiam a lei praticando crimes de pouca gravidade ocupavam o dia em actividades nas oficinas da PSP junto à Porta do Cerco. Lages Ribeiro, na época Comandante da PSP, recorda o excelente trabalho desempenhado pelo Tenente Ranhada, "austero mas não tirano" e que "ajudava muitos aqueles jovens". Nessas oficinas "eles aprendiam um ofício, estavam ocupados. À noite iam dormir para uma casa da polícia ali na zona do Ramal dos Mouros, junto ao reservatório". (imagem abaixo)



A Colónia Balnear de Hac Sá era outra das obras sociais da PSP que realizava diversas actividades em prol dos mais desfavorecidos, nomeadamente, a angariação de fundos através de rifas como a que o documento acima, de 1965, atesta.
 
O Regulamento da "obra social" da P.S.P. de Macau foi aprovado pelo Portaria n.° 7 470 de 15 de Fevereiro de 1964.

 

 
Em 1961 foi criado Centro de Recuperação Social. O Asilo para Mendigos e Vagabundos, estabelecido de acordo com a portaria n.º 4998 de 8 de Setembro de 1951, e gerido pelo administrador das Ilhas, albergava pessoas com idade superior a 16 anos, desempregados e sem residência fixa em Macau, mendigos e vagabundos. 

Foi o Comandante da PSP do então, Major de Infantaria, Sigismundo G. da C. Revês, o fundador deste centro, e funcionava tal como um asilo, que posteriormente passou a depender da PSP. O centro era compreendido organicamente com 5 serviços especializados: 1) Serviço de Tratamento da Toxicodependência, 2) Serviço de Recolhimento, 3) Serviço de Crianças, 4) Serviço de Psiquiatria, e 5) Serviço de Mulheres.
 
Em 1968 a PSP um organismo militarizado directamente dependente do governador de Macau e compreendia o Comando, Secretaria, Conselho Administrativo, Serviços Administrativos, Serviços Técnicos, Secção de Trânsito, Esquadras e Postos, Centro de Recuperação Social, Banda de Música e Obra Social, tendo no seu quadro de pessoal um efectivo de 796 homens.
 
Publicada por João Botas


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Três Lendas


Três Lendas

Lenda de Algôs ou Algoz

 A origem do nome da povoação de Algôs, e a sua respectiva grafia, divide as opiniões dos seus habitantes. Uns afirmam que o nome desta povoação, que já existia no tempo dos romanos, lhe foi atribuído por D. Fernando I, rei de Leão, quando ali passou a caminho de Silves. Um dos seus homens achou a povoação tão insignificante que nem valeria a pena que nela se demorassem, ao que o rei retorquiu: "Algo es!". E assim se ficou a chamar Algoes e depois Algôs.


 Mas outros defendem a pés juntos uma outra versão. Quando a povoação era tão pequena que ainda não tinha nome, os seus habitantes não sabendo como lhe chamar resolveram fazer uma procissão para que Deus lhes desse inspiração. Como a imagem do santo que levavam no andor era do tamanho de um homem, houve uma vereda cujas árvores impediam a respectiva passagem. O dono das árvores opôs-se a que estas fossem cortadas. 


A discussão instalou-se e o pároco, para evitar confrontos, resolveu cortar a cabeça da imagem do santo para que a procissão prosseguisse. A população enfurecida contra o pároco resolveu chamar àquela povoação Algoz, que quer dizer carrasco, para que a ofensa contra o santo ficasse para sempre registada.


Lenda da Vila de Salir

A vila de Salir, no Algarve, deve o seu nome à filha do alcaide de Castalar, Aben-Fabilla, que fugiu quando viu o seu castelo ameaçado pelo exército de D. Afonso III. Antes de fugir, o alcaide enterrou todo o seu ouro, pensando vir mais tarde resgatá-lo. Quando os cristãos tomaram o castelo encontraram-no vazio, à excepção da linda filha do alcaide que rezava com fervor que tinha preferido ficar no castelo e morrer a "salir". 


De um monte vizinho, Aben-Fabilla avistou a filha cativa dos cristãos e com a mão direita traçou no espaço o signo de Saimão, enquanto proferia umas palavras misteriosas. Nesse momento, o cavaleiro D. Gonçalo Peres que falava com a moura viu-a transformar-se numa estátua de pedra. A notícia da moura encantada espalhou-se pelo castelo e um dia a estátua desapareceu. Em memória deste estranho fenómeno ficou aquela terra conhecida por Salir, em homenagem pela coragem de uma jovem moura. Ainda hoje no Algarve se diz que em certas noites a moura encantada aparece no castelo de Salir, sob o seu olhar. 

O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor.


Lenda de Dona Branca ou da Tomada de Silves aos Mouros

 Reinava em Silves o inteligente e corajoso rei mouro Ben-Afan que numa noite de tempestade, no intervalo das suas lutas contra os cristãos, teve um sonho extraordinário. Um sonho que começou por ser um pesadelo, com tempestades e vampiros, mas que se tornou numa visão de anjos, música e perfumes e terminou pelo rosto de uma mulher, divinamente bela, com uma cruz ao peito. 


No dia seguinte, Ben-Afan procurou a fada Alina, sua conselheira, que lhe revelou que tinha sido ela própria a enviar-lhe o sonho e que a sua vida iria mudar. Deu-lhe então dois ramos, um de flor de murta e outro de louro, significando respectivamente o amor e a glória. Consoante os ramos murchassem ou florissem assim o rei deveria seguir as respectivas indicações. Enviou-o ao Mosteiro de Lorvão e disse-lhe que lá o esperava aquela que o amor tinha escolhido para sua companheira: Branca, princesa de Portugal. 

Para entrar no mosteiro, Ben-Afan disfarçou-se de eremita e o primeiro olhar que trocou com a princesa uniu-os para sempre. O rei mouro voltou ao seu castelo e preparou os seus guerreiros para o rapto da princesa. Branca de Portugal e Ben-Afan viveram a sua paixão sem limites, esquecidos do mundo e do tempo. O ramo de murta mantinha-se viçoso, até que um dia D. Afonso III, pai de Branca, cercou a cidade de Silves e Ben-Afan morreu com glória na batalha que se seguiu. Nas suas mãos foram encontrados um ramo de murta murcho e um ramo de louro viçoso.



Poesia de João P. C. Furtado


Poesia de João P. C. Furtado

2015 SEJA DE PAZ PARA O POVO DO PLANETA TERRA

Para todos um belo e Feliz Ano Novo
Com menos sofrimento para o povo
Deste planeta Azul de nome Terra
Que a PAZ ganhe e vença a guerra
Que a harmonia entre os homens o alvo
E que o pensamento seja perfeito e novo
É o ano 2015 que em força aparece
Que traga a alegre PAZ que tanto carece

João P. C. Furtado

Praia 28 de Dezembro de 2015


SEM O MENINO NEM A ESTRELA

Não foi por falta de fé e oração
A festa não contava com o Vulcão
Que fez tremer a terra e o coração...
Esperava-se do céu a brilhante Estrela
Mas dormia o semeador da Estrela
foi-se a esquina comprar-se a vela
Do ano passado sobrou uma árvore velha
Sem o Menino nem a estrela pôs-se a coelha!

João P. C. Furtado

Praia, 16 de Dezembro de 2014


A TRAIÇÃO DA RUTE

A TRAIÇÃO DA RUTE escrito para um concurso!

Bela morena e tão doce crioula
 Roubaste o meu único coração
 E apaixonado e sem qualquer razão
 Deixaste-me sem dizeres um olá!

Sai pelo mundo fora procurei-te
 Encontrei-te sim mas nos outros braços
 Briguei e lutei e de nada os esforços
 Pois não eras e nem podias ser a Rute

Teu quente sorriso pereceu falso
 E triste e choroso fiquei descalço
 Quanta dor me deste neste soluço
 Um certo dia lembrarás do meu abraço
 E me oferecerás o teu regaço
 Mas terei consolo e tal embaraço

Acredito que voltarás minha Rute
 Tu virás e até já vens a caminho
 Espero-te e até já tenho o vinho
 Comemoro e bebo e caio tal pedinte

De ti Rute nem sinal tu estas bem?
 Estou bêbado e no chão caído
Sou chamado de grande bandido
 É assim que estou culpa tua, meu bem!

Pouco tino me resta para ver a verdade
 Tu vens, Rute minha, será à tarde
 Eu é que espero-te desde madrugada
 Tu diz que serás mui bem chegada
 Eu acho que já é muitíssimo tarde
 Tu és Afrodite, eu humano, tu Divindade!

Altiva morena, negra de peito belo e alto
 Caminhas dengosa ao meu encontro
 Eu desanimado levanto, triste,  o ombro
 Parece que é mais um grande assalto!

Tu passas com outro, eu vejo ou sonho
 O Baco se tornou meu melhor amigo
 Torno-me valente e não temo o perigo
 titubeante vejo-vos, ele recebe teu carinho!

É sonho, estou certo, tu Rute não és de traição
 Nobre é o teu afável e puro e grande coração
 Sempre para mim tiveste enorme e única paixão
 E quando faltava, acontece, teveste compaixão
 Jamais condenar-me-ia ao frio e gelado caixão
 Ainda que o Hades tivesse para mim a reclamação!

João Furtado
 
Praia, 23de Janeiro de 2015
 




 

Crónica de Tom Coelho


Crónica de Tom Coelho

A Fragilidade da Vida

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

«No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim.»
(Fernando Sabino)

Quase cinco anos após o falecimento de minha mãe, estou de volta a hospitais. Meu pai teve o que parecia ser um AVC (acidente vascular cerebral), pois sofreu uma hemiplegia – paralisação do lado esquerdo do corpo (braço e perna).

Transportado por UTI móvel até um hospital em São Paulo, uma tomografia indicou algo pior. Não era um AVC, mas sim um edema oriundo de metástase de um câncer posteriormente identificado em seus pulmões.

Para quem jamais fumou um cigarro sequer, foi uma grande surpresa. Sabe-se que 85% dos casos de câncer de pulmão acometem pessoas com histórico de tabagismo. Portanto, restam outros 15%, grupo no qual meu pai foi laureado.

Mais intrigante ainda é que a doença não é recente. Embora não seja possível precisar seu início, pode-se depreender que vem se desenvolvendo há mais de dez anos!

Isso me leva a rever drasticamente meu conceito sobre a funcionalidade dos check-ups convencionais. Acabo de descobrir que exames clínicos diversos e mesmo radiografias eventuais são insuficientes para sinalizar uma doença silenciosa e perversa como esta.

Ao longo dos últimos 30 dias temos vivido uma verdadeira maratona. Passamos por quatro hospitais, enfrentando uma burocracia invejável, digna do mais áureo período do militarismo em nosso país, para obter guias e autorizações.

Todos os procedimentos são morosos e sua abreviação depende da insistência e do monitoramento permanente de nós, familiares, junto aos burocratas do sistema. A saúde, tal qual a educação, é um excelente negócio...

Enquanto isso, assistir a meu pai, em seu cotidiano, leva-me a reconhecer a fragilidade e brevidade de nossas vidas. Do alto de seus 68 anos de idade, um homem ativo e falante tem limitações e inquietações patrocinadas pela doença que o aproximam de um recém-nascido, fazendo-o demandar auxílio para movimentar-se, alimentar-se, higienizar-se.

Em paralelo, o tempo, que passa devagar num leito de hospital, convida à reflexão. Paciente e acompanhante são tomados por um senso de urgência e de valorização da vida.

Lembranças que nos visitam a mente, memórias de pessoas e eventos, coisas que fizemos e deixamos de fazer. A sensibilidade floresce, de modo que basta ouvir a voz ou vislumbrar o semblante de quem se gosta para que as lágrimas inundem os olhos.

Não é por acaso que quando abordo o conceito das Sete Vidas, principio falando sobre a saúde. Sem integridade física e mental, todo o mais carece de significado.

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

A certeza de que faremos mais do que o possível, a segurança de que buscaremos todos os meios e recursos necessários, a esperança de que o bem vencerá o mal. E a confiança de que, no fim, tudo dará certo.



Poesia de Jorge Vicente


Poesia de Jorge Vicente

Cadernos de Gethsemani



1.


desceram das montanhas os primeiros animais, as primeiras aves, as mães que, nas casas
dos filhos, casam e cozem o pão;

desceram das montanhas a flauta e a voz humana,
essa imensa cosmologia
mais breve que o voo de uma libélula
e infinitamente mais silenciosa [ou triste]
que a humana escritura dos deuses.

Jorge Vicente


2.

o meu pequeno deus doméstico
ininterruptamente escrevendo na argila:

constrói uma pequena linguagem que
possa alimentar os pássaros.

jorge vicente



3.


tenho, perante mim, uma grande escolha:
ser humano,
o produto de uma linhagem específica
- animal bípede, ser pensante, com um
sentido de existência muito próprio,
construtor, criador, filósofo nas horas vagas
e com um sentido estético para a poesia

tenho, perante mim, essa escolha:
ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas

não posso mudar o que se passa em gaza
nem fazer prognósticos para o meu próprio
futuro
não posso escrever "um verso a mais foi escrito
e tudo o que já foi dito antes será repetido mais
uma vez no meu próprio caderno"

tenho essa escolha
que é um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo

[uma ferida aberta com todas as possibilidades
de tempo

e com pequenos nadas no lugar
das palavras].

Jorge Vicente


4.

começa por escrever um poema verdadeiro
daqueles leves bem leves
daquela leveza bem justa e boa
daquela leveza bem dentro bem fora da língua

começa por escrever um poema sem vícios de forma
sem domínio claro e preciso da linguagem
não precisas voltar nem deslizar sorrateiramente
pela história da literatura
ela não te pertence
nem tu a ela

começa por dizer vou jantar com o coração apertado
não tenho espaço para mergulhar
sem pé, nem tenho medo de escrever
vou mergulhar de bruços em todo o teu poder

[violo e esta é a minha verdade,
a língua vivida sem escafandro].

Jorge Vicente