Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 266 de 2 de Abril de 2015 - Coluna Um - Daniel Teixeira


Eleições e Abstenção

As eleições para o Parlamento Europeu são universalmente conhecidas como sendo aquelas que maiores volumes de abstenção proporcionam.

Mas as razões para que tal aconteça são as mesmas que são argumentadas quando se obtêm números baixos de participação noutras eleições e que se resumem mais ou menos assim neste ping - pong : «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?» - da parte dos abstencionistas, e:  «A nossa mensagem não chegou a todo o eleitorado!» da parte dos «abstencionados».

O que não deixa de ser curioso, tanto a repetição dos clichés, como a análise «científica» dos dirigentes e outros elementos partidários: porque não se pode dizer que uma coisa que está farta de partir (a tal de mensagem) não chega. Antes de ir apanhar a bola (votar) ela já foi mandada dezenas ou mesmo centenas de vezes para o campo das nossas misérrimas possibilidades de escolha.

Para mais sabe-se que, em termos estratégicos, os mais interessados na ida às urnas são precisamente os concorrentes, os partidos políticos (cada voto vale x €). Por isso com a significação que o voto atinge, é normal a afirmação repetida do «Para quê ir votar se fica tudo na mesma?».

Estamos convencidos que para que a situação se modificasse teria que ser estabelecido um significado real ao acto, porque se assim não for cada vez haverá uma maior abstenção e cada potencial eleitor acabará por tornar mais repetida a solução «moeda ao ar» da cara ou coroa da abstenção.

Ora entende-se que a base da democracia é a participação dos cidadãos e quanto menor for o volume de participação mais a democracia se esfuma e isto é dito de forma que quase toma um valor absoluto.

A base da democracia é ter gente capaz de ser escolhida para governar, em primeiro lugar. Para se participar em algo é preciso ter onde participar: não se joga futebol sozinho, dão-se uns toques na redondinha, nada mais.

As eleições europeias são a base mais expressiva, apresentado especificidades mais claras na rotura, que de uma forma geral se conjugam quase ao extremo: através da maior distância entre eleitorado e candidatos, através do nível de conhecimento e de complexidade dos nossos interesses em jogo. Ou seja, estes, quase nenhuns.

Ora, se hoje, mesmo a nível nacional de todos os países ninguém percebe pévia do que se passa, isso resulta talvez do facto de não haver nada para perceber senão aquilo que já se percebeu.

Aqui em Portugal, por exemplo :

sabe-se - agora bem mas antes (durante muitos anos e até dias mais recentes) pouca gente pensou nisso - onde se foram buscar milhares de milhões de Euros para comprar os passivos dos Bancos falidos,

sabe-se que se tem feito uma frenética corrida à poupança em serviços públicos, muitos deles ficando praticamente inviabilizados,

sabe-se da impossibilidade de resposta à vida de milhões de portugueses que vivem abaixo do nível de pobreza,

sabe-se que o acima falado nível de pobreza está fixado através de fórmulas devidamente abstractas de interdependência que ninguém consegue entender a menos que perca uma vida a tentar destrinçar as escorregadias Leis, Despachos, Esclarecimentos, etc.

sabe-se também que os factores de cálculo sobre este limiar e outros limiares mínimos são burocraticamente alteradas à velocidade do som.

e sabe-se que existe um verdadeiro saque tributário.

Enfim...percorrendo o caminho «exemplar» das Eleições para o Parlamento Europeu e entrando nos seus sub - sectores nacionais (Eleições Presidenciais, Eleições para a Assembleia da República, Eleições Autárquicas, etc.) sabemos que estas (todas elas) servem apenas como factor de diferença quantitativa mínima, diferença essa que é praticamente nula em termos de substância e resultados palpáveis para as populações.

Assim a ausência da possibilidade de entender o que quer que seja sobre a vantagem de votar ou não votar proporciona a repetição do hábito (por isso mesmo se chama de hábito, por ser repetido) e prevê-se, facilmente aquilo que vai progressivamente acontecendo.

Ao nível que as explicações sobre a utilidade do voto (ou da abstenção) se colocam no povo, acabamos por saber que tudo é  misterioso:

umas vezes resulta tudo, pelo menos verbalmente, em milagres da multiplicação dos pães, outras vezes são o passe de mágica da desaparição do singelo pão prometido.

Eu, espero sem esperança, que algo de inesperado aconteça, porque tem de ser mesmo inesperado: na verdade das cansadas rimas e refrões propagandísticos já se sabe tudo.




Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57 - Por Se Gyn



Rápida memória - a tragédia do acidente radiológico na rua 57


Por Se Gyn

Uma bomba de aparelho de radiologia irresponsavelmente abandonada num terreno baldio no centro da cidade foi levada por catadores de sucatas e aberta, com a intenção de retirar o chumbo, para ser vendido, em 1987.

Tragédia.

Acharam graça no efeito luminescente do Césio 137 - cujos grânulos guardaram numa vasilha. À noite, eles brilhavam intensamente no escuro e, a linda e pequena Leide, consumiu alguns deles. A contaminação radiológica rapidamente se espalhou entre a vizinhança, que ia até a casa, para ver a novidade. Logo se notaram os efeitos, com gente sofrendo os primeiros efeitos, procurando ajuda médica nos postos de saúde pública da cidade.

Notícia trombeteada, que se espalhou rapidamente pelo país e, aos poucos, pelo mundo. Pânico em São Paulo - Hebe Camargo dizia que Goiânia e os goianienses deviam ser evitados e segregados. Eu, que morava no Setor Aeroviário e passava pelo centro da cidade todos os dias, voltando da faculdade, ficava espantado com aquele pânico, que me parecia inexplicável, ante às providências tomadas.

O governador Santillo recebeu ajuda imediata do governo federal, através dos técnicos da CNEN - Comissão Nacional de Energia Nuclear, que tomou conta de tudo - isolou parte d acesso ao bairro Popular e interditaram a entrada na rua 57. Mais pânico - e piada dos brasilienses, por exemplo: "sabe como reconhecer um goiano? É só coloca-lo no escuro, para ver se brilha!".

Santillo foi para São Paulo, e procurou a imprensa. Médico e administrador enérgico e bem informado, rebateu o pânico e esclareceu tudo. Era um acidente radiológico e, não nuclear, a radiação não ia se espalhar além do local, não se cansava de repetir. Foi dando certo.
Mais de oitenta contaminados. Leide das Neves, cara de baianinha linda, internada e em coma.

Siron Franco, que havia morado na rua 57, chocado com o fato, deixou São Paulo e ocupou uma casa na rua 54 e fez dela um estúdio. Hipnotizado pela tragédia e pelos fatos, pirou, e enquanto assistia a tudo na quase dezena de televisores espalhados pela casa, produzia uma série lancinante de quadros, retratando o fato.

E dava entrevistas, e fazia o que era possível para denunciar a tragédia e, ao mesmo tempo, afastar o preconceito. - entrementes, um crítico se comprazia em taxa-lo de oportunista, através de um jornal.

E a coisa foi indo, malgrado o sofrimento inexorável dos atingidos, a despeito do apoio do governo estadual. Os técnicos da CNEN e os servidores da Secretaria de Saúde deram conta do recado. O imóvel onde foi o epicentro de tudo foi colocado abaixo e seu chão escavado e concretado.

Mas, entre os atingidos pela contaminação radioativa do césio 137, a coisa se complicava - sofrimento, desespero, amputações de membros, e mortes . Leide se foi. No enterro dela, presenciado por pouco mais de uma dezena de corajosos familiares, chegou o vereador José Nelto e sua trupe, para injuriar a inocente, apredejando seu caixão.

E os goianienses e goianos, vivendo experiências pouco confortáveis, ao cruzar o rio Parnaíba.No setor Aeroviário, região oeste da cidade, sensação de distância e, ausência de perigo, imediato ou próximo.

Atualmente, o depósito de material contaminado da rua 57 é modelo e roteiro obrigatório dos estudantes da rede pública de ensino. E os goianienses parecem preferir não se recordar do fato.

Uma história (que parece uma piada curta e grossa) que ouvi hoje me fez voltar ao tempo e recordar tudo. A história é esta:

Rio de Janeiro. Barreira policial - fiscalização de trânsito - "documentos por favor". "Ué!, em Goiânia não está todo mundo morrendo de Césio?". Mudez. E depois, ríspida resposta: "Olha, sargento, estão morrendo bem menos goianos de Césio do que cariocas de Aids." De fato - meados dos anos 80 e...

O tempo fechou.

Um link para os quadros de Siron Franco sobre a tragédia da rua 57:

http://ardotempo.blogs.sapo.pt/2009/02/17/

terça-feira, 31 de março de 2015

Esmeraldo, o garçom - Texto de Laé de Souza


Esmeraldo, o garçom
 
Texto de Laé de Souza

http://www.lerebomexperimente.com.br/blog/lae-de-souza/

Esmeraldo servia um bife acebolado, enquanto outro cliente fazia insistentes sinais chamando-o. Ele, fingindo não perceber para não interferir no seu trabalho, atendeu com presteza e só então deslocou a sua visão à outra mesa. (Aí que descobri que quando chamamos um garção e parece que ele não vê, às vezes está vendo e finge que não vê). Acostumado com os tipos e pela cara sentiu que era reclamação, e era mesmo. O sujeito, irritado, sentia-se indignado com a refeição. O macarrão estava grudado e o molho salgado.

Esmeraldo, educadamente, perguntou:

- Como é o seu nome, senhor?

O cliente mais irritado ainda respondeu:

- Jonas.

- Pois é senhor Jonas, vou lhe explicar como funcionam as coisas -, disse-lhe Esmeraldo. - A minha função aqui, é a logística. Ou seja, coleto os pedidos do cliente, passo para a copa, que manda para a cozinha. Daí para a frente não interfiro em nada, até que eu ouça dois toques da sineta, o sinal de que o meu pedido está à disposição. Então apanho a mercadoria, vejo se está bem separada, cada qual em sua bandeja e faço a distribuição para os clientes. Quanto a verificar se os produtos estão perfeitos, se a qualidade é boa, foge ao meu alcance e se o fizesse, estaria me intrometendo no trabalho de outro setor, com o que o senhor há de concordar, seria antiético.

Agora, é responsabilidade minha e o senhor pode me chamar a atenção que eu vou abaixar a cabeça, se ocorreu alguma coisa que me diz respeito como: Seu pedido veio trocado? Sua cerveja chegou quente? O refrigerante diet da sua esposa e as cocas normais dos seus filhos não vieram certinhos, como pedidos? Sua comida veio misturada, decorrente do transporte da copa até a sua mesa? Deixei cair um copo ou derramei molho na mesa ou em algum dos senhores?

O senhor pode não ter percebido, senhor Jonas, mas a sineta tocou e eu já corri para trazer sua refeição. Se houve demora, foi lá para dentro, mas não no serviço de distribuição. Agora, se o senhor quer fazer reclamação do serviço da produção, posso chamar o cozinheiro ou então o senhor Manoel, que é o dono, portanto, é quem tem que ouvir essas reclamações, não eu. Aliás, aqui pra nós, acho que o senhor tem que reclamar com ele sim, porque esse cozinheiro é muito folgado e anda fazendo as coisas de qualquer jeito. É a segunda reclamação injusta que recebo hoje. 

Que culpa tenho eu, senhor Jonas, que estou aqui do lado de fora, nem sabendo do que está acontecendo lá por dentro e alguns clientes sem atentar para isto, me chacoalham? O senhor, sinceramente, não acha que é injusto seu Jonas? Vou chamar o seu Manoel, o senhor reclama do macarrão, do molho e, não diga que falei nada, mas pode reclamar que a carne está dura, porque sei que está, pois, uns dois clientes já reclamaram. Lá está o seu Manoel. Seu Manoel! Seu Manoel , faz o favor!

Enquanto o Sr. Manoel se aproximava, Esmeraldo cochichou para o cliente:

- O senhor pode reclamar do que quiser seu Jonas, mas não da comida fria, porque se esfriou, foi por culpa sua que iniciou a conversa, deixando-a esfriar.

Jonas, mulher e filhos boquiabertos olhavam para o Esmeraldo e o Sr. Manoel, que todo solícito dizia um "pois não", bem macio.



segunda-feira, 30 de março de 2015

Crónicas de Santarém - Por Arlete Piedade


Crónicas de Santarém

Por Arlete Piedade

O Peregrino

Sempre que entrava naquele velho palácio, onde funcionam vários serviços úteis á cidade e ainda a escola de danças de salão que o meu filho frequentou por três anos, uma sensação estranha de irrealidade me envolvia, de velhas memórias do passado trágico de pessoas apanhadas nas malhas de um destino que enlutou toda uma nação.

Pois que é voz corrente e aceite, conforme lápide de pedra afixada na frontaria do mesmo, que naquele local se erguia no século XVI o solar dos Sousa Coutinho, sob as ruínas do qual foi construído o actual Palácio Landal no século XVIII o qual tem sido objecto de restauro e usos diversos desde então.

Corria o século XVII, algures num daqueles anos seguintes á tragédia da batalha de Alcácer-Quibir, em que o rei português D. Sebastião foi dado como morto ou desaparecido em combate e com ele vários dos seus companheiros, numa batalha sangrenta no Norte de ??frica e por tal facto condenou a liberdade da sua nação, ao morrer solteiro e sem herdeiros directos.

Ocasião que foi utilizada pelos reis espanhóis que se aproveitaram de factos sem contestação possível e se apoderaram da coroa portuguesa, perante a revolta impotente de vários fidalgos patriotas mas que não sentiam legitimidade para se rebelarem abertamente. Entre esses, destacava-se D. Manuel de Sousa Coutinho, casado em segundas núpcias com D. Madalena, viúva de D. João, falecido na batalha fatídica.

Era um fidalgo da velha estirpe, leal á sua nação e ao sangue dos seus reis, que vivia no seu palácio de Santarém, mas que na altura por ordem real fora mandado ocupar pelo rei estrangeiro, para servir de acomodação aos seus nobres.

Então D. Manuel num assomo de coragem e patriotismo, preferiu mandar incendiar o velho palácio dos seus antepassados a ter que o entregar ao odiado governo usurpador.

Deu assim ordem á sua esposa e filha amadas, e ao seu servo, para preparem a mudança urgente para o velho palácio pertença do primeiro marido de sua esposa, facto que esta repudiou, por lembrar tempos antigos e infelizes, e por temores próprios de mulher, como seu marido classificou, mas que foi forçada a acatar, pela forte determinação e patriotismo de seu marido.

Consumado o facto, perante a admiração velada e aplauso dos outros fidalgos, não tardou contudo mais uma tragédia a abater-se perante aquela família tão unida e admirada.

Pois que estando D. Madalena um dia atarefada com a reorganização da sua rotina doméstica, o seu fiel servo Telmo, lhe veio anunciar que um peregrino lhe pretendia falar.

Assustada com o que a razão lhe apontava com vagos pressentimentos, mas resoluta, concordou em receber o estranho homem que dizia voltar da Terra Santa, o que teve lugar na sala de entrada, onde um retrato do seu antigo marido, D, João era peça principal.

Ao primeiro olhar, e porque aquele trazia a face velada por longo capuz, não soube porque o coração lhe deu um sobressalto tão forte no seu peito fraco de mulher.

Depois de algumas palavras trocadas, contudo e porque o que o romeiro lhe dizia a inquietava fortemente, ousou perguntar:

- Mas, quem sois, senhor?

Ao que este respondeu apontando com o seu cajado de peregrino, para o austero retrato: - Ninguém senhora, ninguém!

A partir deste facto desenrola-se a tragédia anunciada e descrita pelo grande escritor do romantismo, poeta, dramaturgo, político e embaixador português do século XIX, Almeida Garrett, na sua obra-prima adaptada ao teatro, Frei Luís de Sousa, nome adoptado por D. Manuel de Sousa Coutinho, ao recolher-se ao convento depois do desenlace trágico do seu casamento com a viúva de um fidalgo que afinal reaparece das sombras do passado, para provocar a desonra de uma família e a morte de desgosto de sua inocente filha Maria.

Almeida Garrett, grande viajante e estudioso ao visitar Santarém no século XIX, que descreveu como «Um grande livro de pedra recortado», visitou o local e escreveu esta aplaudida peça de teatro, baseada nessa tragédia do homem que contudo depois como frade dominicano, foi também reconhecido como um grandioso vulto das letras lusas.

Arlete Piedade



sexta-feira, 27 de março de 2015

Idiotas e zumbis - Por Tom Coelho


Idiotas e zumbis

Por Tom Coelho




"Os sábios aprendem com os erros dos outros,
os tolos com os próprios erros
e os idiotas não aprendem nunca."
 (Provérbio chinês)



Um estudante morre após sofrer coma alcoólico. Um juiz é afastado por usar um bem apreendido. Um motorista digita no celular enquanto dirige. O que estes episódios têm em comum?
 
 Em Bauru, o estudante de engenharia Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, sofreu parada cardiorrespiratória após ingerir cerca de 30 doses de vodca, o equivalente a uma garrafa e meia. Ele participava de uma competição absurda para celebrar quem tinha capacidade de beber álcool em maior quantidade.
 
 A idiotice da situação não se restringe ao morto. Envolve os outros seis colegas que também passaram mal (três deles sendo internados em UTI) e todos os demais participantes, incluindo os que estavam no entorno, registrando com seus celulares e postando em mídias sociais a imbecilidade da disputa como se fosse um ato admirável. A competição havia sido anunciada publicamente e a festa não foi interrompida mesmo após o registro de óbito. Todos, sem exceção, são igualmente idiotas e cúmplices por omissão.
 
 Pergunto-me: o que acontece no meio estudantil nos tempos atuais? Não importa se a faculdade é pública ou privada, de alto ou baixo poder aquisitivo. Não importa a região geográfica ou o tipo de curso. Em lugar da preponderância do estudar, do aprender, o que vemos é a recorrência dos trotes e a ocorrência de festas regadas a atos de violência, com estupros e mortes.
 
 No Rio de Janeiro, o juiz federal Flávio Roberto de Souza foi afastado do cargo, e está sob investigação, após ser flagrado dirigindo um dos veículos apreendidos do réu Eike Batista, além de ter determinado que um piano do empresário ficasse sob a guarda de um vizinho seu. O magistrado feriu o princípio básico da imparcialidade e provocou a suspensão de todos os processos sob sua tutela. Detalhe: embora afastado, continuará a receber seus vencimentos.
 
 Em São Paulo, um motorista de ônibus foi filmado utilizando as duas mãos para se comunicar pelo WhatsApp com o veículo em movimento transportando dezenas de passageiros. Um ato de irresponsabilidade extrema, cada vez mais praticado por pessoas que vivem como zumbis conectados aos seus eletrônicos e desconectados da vida. Não são mortos-vivos, mas sim vivos-mortos.
 
 O que há em comum entre estes três episódios? A educação, ou melhor, a falta dela. Uma dose de vodca oferece prazer, 30 doses, a morte. O poder de um juiz deve ser canalizado para o bem, não para benefício próprio. A tecnologia facilita a vida, aproxima pessoas, compartilha conhecimento, mas a mesma vida não se restringe a bits e bytes.
 
 A palavra “idiota”, oriunda do latim, remete a “falta de instrução”. Certamente não falta a estudantes universitários acesso a informação, não falta a um juiz federal conhecimento dos fundamentos éticos, não falta a um motorista entendimento do risco ao qual está se submetendo. Falta a todos o mínimo de discernimento, bom senso e respeito.
 



Data de publicação: 13/03/2015



Tom Coelho é educador, palestrante em temas sobre gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros. Contato: tomcoelho@tomcoelho.com.br. Visite: www.tomcoelho.com.br e www.setevidas.com.br.
 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Jornal Raizonline Nº 265 de 19 de Março de 2015 - Coluna Um - O Dia do Pai - Por Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 265 de 19 de Março de 2015 - Coluna Um - O Dia do Pai - Por Daniel Teixeira

Por norma não gosto muito de escrever sobre mim embora toda a escrita que tenho espalhada pela Net em geral e por este Jornal Raizonline em concreto, diga sempre um pouco sobre mim.

Trata-se daquelas coisas às quais não conseguimos fugir mesmo que em muita ficção a presença da minha pessoa possa ser menos notada. Contudo ela está lá, pelos temas muitas vezes, mesmo os mais humorísticos e alguns surrealistas mesmo, e também por um factor ao qual se dá normalmente pouca atenção, o gosto: ou seja, e para este caso, o facto de gostar de escrever sobre algo, mesmo que esse algo apenas remotamente aponte para mim, já demonstra pela escolha uma opção minha e logo eu.

Prefiro o chamado low profile... gozar em pleno e sem interferências a minha querida insignificância.

É difícil, senão impossível, reconheço, obter isto : e estando nestes dias a fazer um pequeno trabalho sobre a importância daqueles que da lei da morte se libertaram trago aqui - repescado desse meu texto em elaboração - o caso do escravo de Camões, Jau, um pobre javanês que na minha opinião e dentro desta minha perspectiva da quase invisibilidade que defendo, teve o azar de ter sido escravo de uma celebridade ficando à sua fama agregado.

Assim e tendo em atenção que este jornal tem no seu dia de publicação a data de 19 de Março e que nessa data é o Dia do Pai, falar do meu pai seria também falar um pouco sobre mim uma vez que eu me revejo nele pelo menos numa parte larga daquilo que sou.

A parte em que sou diferente de meu pai deve-se talvez, ainda na minha opinião, ao facto de o meu pai ter vivido num tempo e ter falecido entretanto não tendo assim as possibilidades de ser meu mentor naquilo que não alcançou transmitir-me em vida.

Claro que há outras diferenças, mas essas, de uma forma bastante clara resultam do facto de ele ter podido dar-me a mim aquilo que os seus pais (e meus avós) não lhe conseguiram dar a ele.

Alexandre O'Neill (um dos meus poetas preferidos) foi um dia questionado sobre aquilo que gostaria de ter como epitáfio na sua sepultura e respondeu, claramente: «Aqui dorme um homem que dormiu muito pouco em vida: bem o merece agora!»

O meu falecido pai não tem um epitáfio destes: tem o seu nome, a referência aos que deixou por cá e um cão de cerâmica em memória aos vários cães que foi tendo durante a sua vida e que assim o acompanham tal como ele os acompanhou.

Um dia, talvez um dia destes eu acrescente algumas palavras àquilo que ele hoje tem, umas palavras simples mas com muito significado para mim: «Obrigado Pai por me teres sempre ensinado a pescar!» 



HAJA PACIÊNCIA - Texto de Liliana Josué


HAJA PACIÊNCIA

Texto de Liliana Josué

I

Cá estou eu, mais uma vez, para denunciar outra peculiar vivência. Não vou tratar deste assunto com poesia, em forma de conto e muito menos com punhos de renda, vai ser relatado tal como aconteceu.

No verão, mais precisamente em Junho, fui chamada a comparecer a uma consulta médica no Hospital dos Capuchos por indicação e pedido da minha médica de família, por sinal uma ótima profissional, com a finalidade de ser operada à vesícula.

Nessa mesma consulta correu tudo muito bem, o médico ouviu-me atentamente, registou o essencial e mandou-me fazer os exames da praxe: RX tórax, análises e consulta de anestesia, informando-me que depois de tudo concluído deveria ser chamada para a intervenção entre trinta a quarenta e cinco dias, ou seja, cerca de mês e meio.

Como esse espaço de tempo ia cair sobre as minhas férias pedi ao médico que tivesse a gentileza de adiar a dita por um mês, ao que ele acedeu prontamente registando a altura exata em que iria ser operada, em Outubro de 2014. Até aqui estava tudo certo, mas o tempo foi passando e o mês de também. De início não me preocupei muito pois sabia que poderia haver algum atraso nos processos de internamento.

A certa altura, adoeci e fui novamente à minha médica para ser observada e medicada convenientemente. Ela, já minha conhecida de há muitos anos, e na qual deposito a minha confiança, foi verificar a fixa onde tem assente todo o meu historial.

Entretanto interrompeu a procura e perguntou-me se já tinha sido operada (pois estávamos em Fevereiro). Eu respondi na inocência dos ignorantes que ainda não tinha sido chamada. A médica voltou à minha ficha (pois como sabem agora há cruzamento de informação entre hospitais e centros de saúde) e pôs-se em campo na busca da data marcada para esse efeito.
De início não encontrou nada, mas eu insisti no sebastiânico mês de Outubro que por fim lá apareceu já muito envergonhado e amarelecido. Parou um instante, pensou uns segundos e por fim disse-me: “Isto está esquecido no hospital, lamento mas tem de contatar com eles”. Suspirei contrariada mas fiz o que ela me mandou.

Como não tenho todo o tempo necessário para andar a correr hospitais em busca do meu processo esquecido, tomei as minhas providências no sentido de resolver a questão telefonicamente.

Abreviando a narração, acrescento apenas que passei mais de 15 dias a telefonar para variadíssimos números sem obter qualquer resultado. Pois é, diziam-me sistematicamente não existir qualquer processo. Aqui a situação tornou-se ainda mais feia e confusa, pondo-me a cabeça e a ansiedade às voltas.

Estava completamente perdida, decidindo finalmente ir mesmo ao dito hospital, que também podia ser outro, (pois e médico dava consultas e operava num e fazia urgências noutro).

Mas, felicidade suprema, numa derradeira tentativa de contatar com ele o milagre deu-se, o senhor doutor falou comigo e ficou um tanto pasmado por eu ter tido tanta dificuldade em contatá-lo visto não ser comum tal situação.

Sim, claro, lembrava-se perfeitamente de mim, que não estava nada esquecida mas que havia muitos doentes…, concluindo, marcou-me a intervenção para uma semana depois, logo assim, sem mais rodeios. No dia indicado apresentei-me no Hospital dos Capuchos às nove horas da manhã.
Finalmente iria ser resolvido o meu problema vesicular.

II

Dividi este assunto em três partes para não se tornar cansativo, no entanto umas sem as outras também não fazem sentido.

Fui levada pela minha filha, que sempre simpática e solícita me acompanhou passo a passo. Aproximei-me do guichet , informei já ter chegado e a simpática senhora que estava no atendimento pediu-me para me sentar nas cadeirinhas em frente para que, logo que fosse oportuno poder fazer a minha inscrição.

Note-se que aquele sítio não era uma sala de espera mas um corredor onde as correntes da ar pareciam cobras de gelo envolvendo-nos as pernas e o resto do corpo. Aos poucos a tensão nervosa foi aumentando, tentando ingloriamente a minha filha apaziguar-me. Sem pingo de paciência vi chegar as treze horas.

Ainda mais descontrolada dirigi-me novamente ao guichet pedindo para falar com o meu médico. A funcionária, já muito atrapalhada, informou-me que ele estava perto e que ia chamá-lo para falar comigo. Voltei a sentar-me com a cara em brasa e uma garrafa de água fria que ia rolando por todo o rosto pois o jejum já se fazia sentir e bem, mas o médico não aparecia.

Desorbitada voltei a pedir à infeliz funcionária que queria mesmo falar com o meu médico, ao que ela respondeu já lhe ter dado o recado e só ele sabia porque ainda não tinha vindo. Aqui eu já me encontrava transformada num “monstro” quase indomável.

Inesperadamente eis que o médico apareceu junto de mim com um ar de quem já passou por aquilo um incontável número de vezes. Muito afogueada perguntei-lhe porque é que ainda estava naquele corredor miserável e sem saber de nada (isto andava pelas catorze horas).

Ele, com um ar tolerante, resignado e calmo disse-me que dado o adiantado da hora podia beber um golinho da água para enganar a fome e a sede.

Eu, no meu desespero, perguntei-lhe se realmente iria ser operada, ou não, visto ser tão tarde e ainda ter pessoas à minha frente para o mesmo fim, não falando do desconforto total daquele corredor onde não se podia descansar minimamente, ao que ele me respondeu: “Operada vai ser, mas só lá para o fim do dia, ainda está aqui porque não há camas disponíveis na enfermaria, estamos à espera que surjam altas”.

Fiquei de boca aberta a olhar para ele, acabando o mesmo por acrescentar: “Mas se quiser pode não ser operada hoje, pode adiar para daqui a uma semana quinze dias…” ainda mais atónita fiquei mas pus essa hipótese, a minha filha num ato reflexo quase gritou:” Nem penses nisso, tu não vais desistir!”.

Eu tremi e questionei novamente o médico: “Senhor doutor, se eu marcar nova data pode acontecer o mesmo que hoje?”, ao que ele respondeu resignadamente que sim. Claro que não desisti. Ele apertou-me a mão complacente informando que a qualquer momento vagaria uma cama e retirou-se .

Por volta das dezassete horas chamaram-me para a inscrição e pouco tempo depois fui finalmente chamada para o internamento. Quando dei por mim encontrava-me no pavilhão dos homens, mas no recobro, que segundo agora sei é misto mas na altura não sabia. Só aí havia camas.

Eu não queria acreditar que estava a viver tudo aquilo, a situação desde o início era Kafkiana e eu nada podia fazer nem sabia como encarar. Ali fiquei deitadinha e sossegadinha mas, ao menos, já de soro enfiado na mão, assim a fraqueza suportava-se melhor. Entretanto uns gemiam, outros diziam que morriam e outros dormiam apenas. Claro, eu estava num recobro, era de se esperar.

Estava-me a esquecer de aqui deixar registado de já lá se encontrar a senhora que chegou antes de mim, sem ser operada, exatamente nas mesmas circunstâncias, e mais tarde entrou outra já operada. A partir daquele momento deixei de me afligir, senti que o abismo tinha acabado ali, tudo o que viesse a seguir era uma história que eu iria contar.

Fui operada por volta das dezanove horas e quarenta minutos. Toda a sala e o local onde me deitaram eram gelo, nem sei como as pessoas não se constipam, mas antes de adormecer, a tiritar de frio, e já com o efeito da anestesia alguém me disse que assim tinha de ser para evitar o desenvolvimento de vírus e bactérias, entendi e aceitei a explicação, era perfeitamente compreensível tal desconforto e já não dei por mais nada.

A operação correu lindamente e voltei para o recobro misto. Aí já pouco liguei a isso. Passei lá a noite e toda e parte da manhã. Finalmente fui para a enfermaria perto da hora do almoço. Almocei e como já podia andar e não tinha feito intolerância aos alimentos deram-me alta. Vá lá, ainda passei umas horas na enorme enfermaria de lindos azulejos creio que do seculo XXIII, cheia de senhoras aconchegadinhas. Parecia um gineceu em decadência. Essa noite já fui dormir casa da minha filha.

III

Do fundo do meu coração agradeço ao médico que me acompanhou , a toda a equipe que me operou, aos enfermeiros que me assistiram e a todo o pessoal auxiliar do Hospital dos Capuchos. Trataram-me dignamente e muito profissionalmente. Da minha parte têm total admiração e respeito pois trabalham em situações caóticas mas dão conta do recado. Coisa que noutro hospital não aconteceu, na parte das urgências, mas agora talvez consiga dar um certo desconto.

O meu dedo é apontado, isso sim, ao nosso Sistema Nacional de Saúde. Os utentes são tratados como seres inferiores (Filhos de um Deus Menor), encalhados à porta do hospital e depois atirados para um buraco onde se possa colocar uma cama (e ainda termos direito a cama já não é mau).
Senhor Ministro da Saúde, experimente ou mande experimentar algum amigo ou familiar seu este tipo de situação, só assim, talvez entenda, o mal que está a fazer aos portugueses. Sabe o que é sentir que vale “nada”? Que é uma “coisa” que anda no hospital aos baldões? Que representa num “transtorno” e “peso” público?...

Senhor Ministro da Saúde e restante Governo, não tratem tão mal quem trabalha nos hospitais. Médicos a operar com cargas horárias enormes disfarçando o cansaço e ainda dando um sorriso e apertos de mão, enfermeiros atenciosos mas que já pouco conseguem ouvir, auxiliares de corpo moído… enfim tanto ainda havia mais para lhes dizer mas fico-me por aqui.

Acrescento apenas que se não lutamos todos (utentes e profissionais de saúde), pelos nossos direitos, qualquer dia não haverá mais dia.

18/02/2014

Liliana Josué




quinta-feira, 19 de março de 2015

O CHICO ARTUR - Conto /Crónica de Daniel Teixeira


O CHICO ARTUR

Conto /Crónica de Daniel Teixeira

O Chico Artur casou com uma senhora (Inácia) residente e natural de Alcaria Alta. Ouvi falar algumas coisas do pai dela, comerciante de algum relevo proporcionado e vendedor de uma coisa que pelo que me apercebi dava estatuto : o guano, nitrato do Chile, era pago a pronto e vendido em quantidades variáveis ao longo de todo o tempo da lavoura e não havia devolução.

Havia empate de capital, risco, mesmo pequeno, mas numa terra em que não havia praticamente dinheiro «vivo» o facto de ter capital era sempre relevante. O negócio, depois do seu falecimento foi retomado pelos lavradores.

Tinha ainda um armazém pegado à casa onde em alturas próprias se realizavam bailes: com os meus 9/10 anos, tentei entrar num mas alegadamente a festa era para maiores de 18 anos: ouvi no entanto o toque do acordeão nas mãos de um exímio mestre que a minha mãe dizia só saber tocar «fon, fon» e que «quanto ele mais fanfonava mais depressa o pessoal bailava».

Da mãe da Inácia nada ou quase nada sei mas é provável que ela existisse em vida ainda durante o tempo da minha infância só que um e outro (Pai e mãe da Dª Inácia) se me varreram do campo das imagens que a mente recorda.

A Inácia, alguns anos mais nova que a minha mãe foi quem eu sempre conheci a tomar conta da mercearia e taberna do Monte. A organização do balcão era bem parca: a maior parte das coisas que se queriam comprar, e normalmente sabia-se o que havia na Ti Inácia, estavam algures estacionadas em dois quartos / armazém, um com entrada logo atrás do balcão e um outro á direita do fim do balcão em frente de quem entra. Havia uma outra porta, esta para o quarto do casal (logo à direita) e provavelmente ou seguramente havia mais divisões lá para trás.

Uma recordação que eu guardo é do tempo da caça, nos dias permitidos, em que os caçadores iam à taberna e se deparavam com cerveja quente: havia uma alternativa que era algumas garrafas que estavam dormindo num balde afundado no poço das traseiras o que pouco alterava a situação. Mais tarde vi por lá o primeiro frigorífico a gás da minha memória.

O sistema de compras no Monte estava escalonado de acordo com o hábito: açúcar, fósforos, petróleo, latas de conserva de peixe e mais algumas coisas assim. Havia uma estante atrás do balcão com tabaco e garrafas de aguardente e vinho. Não era muito variado o stock porque na sua grande parte compravam-se coisas em Giões, tanto no senhor Mateus, como num outro cujo nome me não lembra mas que foi o introdutor da máquina de café na aldeia.

O café era já moído, acalcado na forma com uma colher de sopa, a máquina era pequenina, de dois bicos e a gás e era ligada quando fazia falta e tinha mesmo de se esperar quando calhávamos a aparecer no período de repouso dela (e do gás). Normalmente pedia-se a bica, ia-se ás compras à contra loja, o que era sempre demorado, eu entretinha-me a conversar com o senhor ou ficava por ali e lá ia o pessoal comprar botões e tecidos encomendados ou peças de roupa acabadas de chegar, arroz, café, pouca coisa, afinal. O sistema de compras de mantimentos ou para arranjos caseiros era relativamente fácil porque na sua grande parte havia de quase tudo em casa: feijão, grão, batatas.

O senhor Mateus era outro tipo de negociante: era representante das máquinas de costura Singer na altura e tinha uma colecção de linhas e botões para todos os gostos. Quem vendia era a esposa, ele encarregava-se da parte da taberna quando não estava ausente em vendas fora de portas, levado pelo carro de rodas largas e pela sua bem ajaezada junta de mulas.

Pois bem e entrando agora no Chico Artur, objecto principal desta crónica, este era natural do Pereiro, negociante de gado (ovelhas e porcos) e foi o introdutor do porco branco no Monte de Alcaria Alta e durante muito tempo o único criador. Tinha uma carrinha (talvez Ford Transit) de caixa aberta que por vezes chegava altas horas da noite e quase sempre partia de madrugada.

A geração de porco preto era não só de tradição como vivia em parte de tremoços, de restos de comidas misturadas não cozinhadas (talos de legumes, figos de pita, etc.) com farinha de centeio ou de cevada. Por vezes «ganhava» um tomate esborrachado.

O porco branco, por excelência era animal de ração e comprar ração não estava ainda nem nos meios de uso de dinheiro no Monte nem na mente das pessoas. A circulação de dinheiro era quase nula e o sistema de trocas processava-se em quase tudo: mesmo os vendedores ambulantes que eram poucos levavam ovos em troca ou uma ou duas panelas de barro (que eram as medidas usadas) com figos secos, feijão seco ou grão.

Os porcos brancos cresciam mais depressa, engordavam mais depressa, à base da ração é claro e eram sobretudo porcos para matança fora de períodos anuais, eram carne para revenda. Na minha vida só assisti à matança, não à morte, de dois porcos. Um era ainda criança e fez-me uma verdadeira impressão ver o pobre do animal a estrebuchar (por reflexos condicionados aprendi depois) quando da tostagem do corpo na fogueira de lenha para queimar os pelos e uma outra muito mais tarde em que por convite e simpatia resolvi não fazer a desfeita de recusar.

Foi uma manhã complicada essa, o matador amador/profissional estava mal das costas na véspera e apresentou baixa nessa mesma manhã. Entre os presentes ninguém sabia nem queria matar o porco. «E se sai mal e o animal fica aqui a sofrer uma série de tempo?» dizia-se...

Lá acabou por aparecer o Manelito Vilão que nunca tinha matado nenhum porco mas que dizia que era só acertar na veia e etc. e acabou por fazer o serviço praticamente sozinho porque o resto do pessoal debandou quase todo só regressando quando tudo estava silenciosamente certo. A minha prima, dona do porco, ficou de cara virada apanhando com uma tigela o sangue que jorrou. O Manelito suou por todos os poros e acabou sentado e derreado num poial jurando que nunca mais...Enfim.

O Chico Artur tinha grande orgulho também numa criação sua, aliás o maior orgulho, por aquilo que me apercebi que era o cruzamento entre porcos e javalis. Francamente nunca acreditei muito nessa treta e durante muito tempo pensei tratar-se de uma forma dele gozar a minha situação de citadino ignorante.

Quando ele falava das vantagens do porco - javali vinha-me à ideia uma história que se contava para desfazer da esperteza dos habitantes de uma povoação vizinha: um deles tinha encontrado uma porca fugida, tomara-a por um javali e vá de ir buscar a espingarda a casa e tiro. Fizera um repasto de javali com convidados e tudo, e todos, entre os presentes, comeram javali nesse dia...até o dono da porca tresmalhada.

No caso do Chico Artur a história era assim: um individuo de um monte das redondezas tinha encontrado um javali arrastando numa pata uma ratoeira de coelhos e lebres. Por artes e ajuda conseguiu laçar o animal, praticamente enrolá-lo em cordas e levá-lo para um pocilgo. O animal ficou coxo mas era uma fêmea e em pouco tempo e com a visita de um marrão acabou por emprenhar. Isto é a história, não garanto nada disto...

Dessa javali saíram depois cerca de uma meia dúzia de animais misturados e o Chico tinha comprado um: tinha-se ficado por um macho porque pensava inverter o processo de procriação e como partia cedo e chegava tarde não dava para espreitar o pocilgo. Ele bem me falava e eu bem dizia que sim...

Mas um dia em que o carro avariou e ele teve de ficar no monte mostrou - me o animal. Bem...os javalis que eu conhecia dos livros tinham sempre grandes presas e aquele tinha uma dentadura normal de porco, caninos grandes que arreganhava, sim, mas isso para mim era normal.

O que o distinguia era sobretudo o pelo: esse era sem dúvida mais abundante que num porco normal. Fiquei indeciso, de facto, nunca tinha visto um animal porcino com tanto pelo e nem sequer para desempate uma dentadura de javali ao vivo.

Nos anos seguintes não tive oportunidade de desenvolver a questão: quase nunca o encontrava e ele estava mais tempo no Pereiro do que em Alcaria Alta. Mais tarde também a mulher abandonou o local indo igualmente viver para o Pereiro.

Mas ainda me fui perguntando sempre se «aquilo» que tinha visto era um javali - porco, um porco javali ou simplesmente um porco cabeludo.




quarta-feira, 18 de março de 2015

A porta fechada - Texto de Ivone Boechat


A porta fechada

Texto de Ivone Boechat 


 Conta-se que Dr. Fritz Kaufmann, um dos mais notáveis médicos alemães, reconhecido em toda a Europa, foi convidado pela Sociedade Médica Americana para tomar parte de um Seminário, em Nova York. Quando a imprensa anunciou a sua presença nos Estados Unidos houve grande repercussão. Logo, a Associação Médica de Chicago o convidou para realizar algumas cirurgias de alto risco em doentes desenganados.

 Em Chicago, morava Dona Charlot que sofria de uma enfermidade, cujos recursos já se haviam esgotado. Sua única esperança seria o Dr. Kaufmann. Ela encheu-se de alegria e planejou um meio de encontrar-se com ele. Só pensava nisso, noite e dia.

 Dr. Kaufmann chegou, finalmente, a Chicago e, apesar de seu intenso programa na agenda, após o almoço, deixava o Hotel para fazer uma caminhada. Numa dessas saídas, enquanto andava, foi surpreendido por uma forte chuva. Todo molhado, procurou abrigo sob a marquise de uma casa, cuja dona, percebendo a presença de alguém batendo na sua porta não deu a mínima atenção e ainda foi mal educada.

 No dia seguinte os jornais de Chicago deram a seguinte nota:

«Esteve em Chicago o famoso médico alemão, Dr. Kaufmann que, ontem, enquanto fazia seu cooper, após o almoço, foi surpreendido por uma forte chuva. Todo molhado abrigou-se na marquise de uma casa, cuja dona não lhe deu atenção e ainda bateu-lhe a porta. O famoso cientista acaba de voltar para Alemanha».

Quando Dona Charlot leu a notícia, quase teve um colapso, em pranto confessou: «O famoso médico esteve na minha porta e eu não o reconheci, deixando-o do lado de fora. Agora tudo está perdido».

Para refletir:

 O Brasil tem a maior taxa de «abandono» escolar do ensino médio dentre Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Venezuela: 10%. Ou seja, 1 em cada 10 jovens abandonam a escola nesta etapa, segundo a Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 O Brasil bate um recorde mundial de «evasão» escolar e a gente sabe que o nome disto é porta fechada.

 A missão do educador é também ajudar a abrir portas. Muito cuidado! Analise sempre as batidas e os sinais daquele que suplica para alguém lhe abrir a porta da oportunidade, mas foi empurrado para fora.

Trabalhe para trazer de volta os que «desistiram» de implorar respeito.
Abra a porta, educador!

 Ivone Boechat





MARCIANITA - Crónica de Arlete Brasil Deretti Fernandes


MARCIANITA



Crónica de Arlete Brasil Deretti Fernandes



Há muitos anos, residi com minha família numa cidade interiorana onde havia um grande porto marítimo e pesqueiro. O povo cultivava tradições açorianas, por terem os seus antepassados vindo da Ilha dos Açores.

Como toda boa cidade portuária, não faltava ali a ZBM, ou zona do baixo meretrício, que uns chamavam de «casa das primas», para outros «zona» ou mesmo outros nomes que prefiro não citar. Dizem que a atividade principal ali realizada é o exercício da profissão mais antiga do mundo.

Também fui informada de que uma zona não é muito diferente da outra. São aglomerados de casas, algumas só vendendo bebidas e cigarros e outras só com quartos para rotatividade. Tinha algumas que eram completas, com lanchonete, cômodos, bar e salão de baile.

O fato que a mim foi relatado aconteceu no mês de agosto, época de safra de enchovas e daquele vento nordeste que geme, grita e assobia como um louco, sem parar, varrendo tudo o que tem pela frente.

Foi numa noite sem estrelas. Tripulantes de pesqueiros chegavam para passar horas de prazer e de orgia nos braços das «flores da noite», deixando ali suas frustrações e seus temores de tempestades quando tinham que invocar a Santa Bárbara e o São Jerônimo.

O ponto de partida para uma noite de orgia e de prazer foi iniciado no salão de danças. E é ali que recomeçava tudo a cada noite. Os sacerdotes e sacerdotisas de Baco bebiam, dançavam, comiam e esqueciam os perigos do mar.

Naquela noite o salão estava lotado. O conjunto musical não dava descanso aos dançadores. O acordeonista ou sanfoneiro, como é mais conhecido, após tomar umas doses pagas pelos apreciadores e dançarinos, se empolgava, e o som que partia do fole era alegre e convidativo.

Todos levantam-se das mesas e escolhem um par para a dança, chamada por alguns de «bate-coxas», «esfrega-saco» ou «roça-peito»!.

Marcianita era a música que estava no auge das paradas de sucesso nas rádios e nos bailes. Ali também se encontrava um apreciador de Marcianita, com o pé que era um leque e de «pé cagado», isto é, com as «guampas» cheias de cuba libre.

Ele tinha perdido sua quenga, aquela ingrata, de vestido vermelho, cabelos pretos e soltos, e os seios empinadinhos que queriam saltar do decote. Outro gajo a carregou e com ela dançava sem parar: nheco-nheco-nheco-nheco.

Num momento o gaiteiro fez uma pausa para dar um descanso, ir ao banheiro e fumar um cigarro. Quando voltou e pegou novamente a sanfona de fole, ouviu de alguém:
 - Gaiteiro, sapeca aí a Marcianita!
 E ele começou: -Marcianita, branca ou negra, gorduchinha, magrinha, gigante serás meu amor...
 O salão estava repleto, a animação era total.

De repente, o descornado passou pelo que dançava com sua dama, e como não tinha nada a perder, arrastou o outro pelo colarinho e a porrada pegou. E a gaita parou.

Foi um corre-corre, e a turma do «deixa pra lá» botou água fria na fogueira e arrastou pelas pernas o brigão, trancando-o num quarto. Tudo normalizado, o gaiteiro sapeca de novo a Marcianita. Quando a dança começou a esquentar, o pau começou a quebrar de novo.

E neste para e toca e toca e pára, não deu outra. Já era a quinta vez que tocava a Marcianita e não tinha jeito de chegar ao final, porque a briga sempre começava.

Foi aí que apareceu um cabra-macho, soltando fogo pelas ventas, portando uma bicuda ou peixeira, faca usada pelos pescadores para limpar o peixe e cortar corda ou rede.

Foi só soarem as primeiras notas da Marcianita, quando o gaiteiro abriu o fole da gaita e saiu um som diferente, rasgante e xoxo: - Froing. O fole foi cortado e a porrada pegou de todo o lado, com cadeirada e garrafada, até chegar a polícia e a calma retornar.

Um policial indagou o valentão que respondeu:

-Cortei e corto de novo se a Marcianita começar e não terminar.




segunda-feira, 16 de março de 2015

Nascer/viver sem afectos - Retirado do Blogue Livres Pensantes


Nascer/viver sem afectos

Retirado do Blogue Livres Pensantes

 

 Cerca de cinquenta (50) crianças foram abandonadas pelas mães à nascença nas maternidades portuguesas durante o ano de 2010.

Muitas outras foram encontradas em sacos de lixo, em caixotes, ao relento pelo país. Aventar as razões que levaram estas mães a este acto é especular sobre sofrimento, pobreza ou sentimentos que não se contabilizam. No entanto, reflectir sobre o estado da justiça social e da protecção aos desamparados é necessariamente uma obrigação ancestral.

A exclusão e a perda de afectos que marca os sem-abrigo cuja imagem se ergue quase banalizada por tantas reportagens televisivas é também uma deriva desta incapacidade que o Homem tem para com o outro ao consumir-se numa existência fútil de banalidades e de insensibilidade social.

As crianças são sempre as maiores vítimas. O elo mais fraco é a vulnerabilidade disponível na cadeia dos desprotegidos.

Os contos que Hans Christian Andersen escreveu para crianças retratam com actualidade situações que nos confrangem e que denunciam a perda de sentido de muitos rituais que marginalizaram a verdadeira essência do ser humano: o valor dos afectos.

«A menina dos fósforos» é um conto fabulosamente trágico que evidencia a fatalidade de ser pobre num mundo consumista e confortavelmente egoísta. A dimensão feérica e fantástica dos fósforos eleva-nos para a transcendência do sonho materializado pelas referências subjectivas dos afectos que distinguem cada ser humano.

Esta versão videográfica, montada em desenho animado, apresenta virtuosamente o conto escrito por Andersen no Sec. XIX, há quase 150 anos. A excelente banda sonora que a acompanha merece um visionamento.

domingo, 15 de março de 2015

Adeus Inezita Barroso - Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas


Adeus Inezita Barroso

Por Antônio Carlos Afonso dos Santos - Acas

Vinte e sete dias depois de internada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, morreu ontem, 08/3/2015, aos 90 anos de idade, a cantora, apresentadora de rádio e TV, pesquisadora e atriz, Inezita Barroso. A causa mortis foi “insuficiência respiratória aguda”. Inezita deixou uma filha, Marta Barroso, 3 netos e 5 bisnetos.

Nascida Inez Madalena Aranha de Lima, Inezita desde os quatorze anos de idade pensava em ser mais que uma aluna de canto, violão e declamação, que era ministrado pela professora Mary Buarque.

Ela dava muita importância ao folclore e música regional, contrariando tudo que sua família, herdeira de várias fazendas de café, pretendia. Perseguiu sua vocação, com enorme energia, durante toda sua vida.

Ainda menina, Inezita participava de recitais infantis de emissoras de rádio, tais como a Rádio Cruzeiro do Sul e Rádio Cultura de São Paulo.
Inezita, que nasceu em  04 de março de 1925 (faleceu em 08 de março de 2015), era formada Biblioteconomia pela USP onde lecionou por longo tempo. Foi casada com Adolfo Barroso, de quem adotou o sobrenome no seu nome artístico.



Em 1952 trabalhou na Rádio Clube do Recife, ainda amadora.  Em 1953 foi contratada pela rádio Nacional de São Paulo, deixando se ser amadora. No ano seguinte, mudou-se para a Rádio Record de São Paulo, onde atuou também na TV Record, onde teve um programa exclusivo dedicado à música regional e ao folclore.

Nessa época, gravou seus primeiros discos de 78 rotações, incluindo ali dois clássicos: ”Moda da Pinga”, de autoria de Zica Bergami e “Ronda”, de Paulo Vanzolini (só depois Ronda foi gravada pela Nora Ney e muito tempo depois, pela Maria Bethânia).

Outro grande sucesso de Inezita em disco, foi a música “Lampião de Gás”. Inezita gravou 65 LPs com modinhas, toadas, modas de viola, rasqueados, cateretês e sambas de roda, todos pinçados nas origens, sempre respeitando a legitimidade do autêntico.

Inezita atuou na TV Cultura de São Paulo, no programa “Viola, minha Viola”, desde 1980 (quando substituiu Moraes Sarmento ), até 2015. Foram 35 anos ininterruptos de música de raiz e folclore brasileiro mostrado à população.

Inezita nasceu numa casa da Rua Conselheiro Brotero, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo; segundo ela em entrevista ao jornal “O Estado de São Paulo”, em janeiro de 2012, exatamente quando passava uma escola de samba (Camisa Verde) à porta da casa; escola de samba que hoje se chama “Camisa Verde e Branco”. – Nasci ouvindo marchinha paulista; disse ela na ocasião.


CINEMA

Sua boa estampa (morena bonita, cabelos negros) participou de seis filmes nos anos 50: “Ângela”, “Destino em Apuros”, “O Craque”, “Carnaval em Lá Maior”, “É Proibido Beijar”, além do filme “Mulher de Verdade”; onde ganhou o Prêmio “SACI”, de melhor atriz.

História do Violão Quebrado

Depois de percorrer todo o brasil fazendo pesquisa de folclore, Inezita ficou desiludida, porque nenhuma emissora de rádio ou TV queriam exibir sua pesquisa.

Depois de levar o oitavo não, ela quebrou o violão, fez uma fogueira e jogou nas chamas todo o material recolhido pelo Brasil.Pensando bem, aquela fogueira não queimou nada. Tudo o que Inezita Barroso viu pelo País afora ficou bem guardado, fortalecendo a maior defensora das tradições culturais que o Brasil já teve.

POSTERIDADE

Eu, ACAS, nunca esquecerei o contato que fiz com a Inezita em 2002: fui informado que ela fazia um show beneficente no Hospital das Clínicas, todos os anos. Por sorte, fui informado desse show em tal dia de 2002 e fui lá: foi maravilhoso.

Até aproveitei para presentear Inezita com meu primeiro livro, o “Pequeno Dicionário de Caipirês”, pois eu também participei (convidado) do lanche oferecido à Inezita neste local.

Mas, Inezita será lembrada sempre por uma música: “Moda da Pinga”, que ai vai os primeiros versos:

Co´a marvada pinga é que me atrapaio,
Eu entro na venda e já dô meu taio,
Eu pego no copo e dali num saio,
Ali mêmo eu bebo, ali mêmo eu caio,
Só pra í pra casa é que dô trabaio, oi lá! ... .




- Há quem afirme que, embora os versos de Zica Bergami sejam preservados, continuam sendo acrescentados novos versos à essa música até os dias atuais; tal é a força e o apelo da mesma.

De hoje em diante, uma nova estrela aparecerá nos céus do Brasil: Inezzita estará lá, brilhando como sempre.

fim




 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Jornal Raizonline Nº 264 de 5 de Março de 2015 - Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira


Jornal Raizonline Nº 264 de 5 de Março de 2015

Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira

Os períodos eleitorais são para mim um verdadeiro paradoxo quando atingem aquela febre que já se vai tornando habitual nas suas pontas finais. Penso, por aquilo que leio e ouço que o fenómeno é geral, que existe em todos os países, mas não deixa de ser curioso que o processo tenha sido adoptado nos mais diversos quadrantes, também um pouco resultado do facto das campanhas terem períodos determinados no tempo, com princípio, meio e fim.

É no fim, quer dizer nos últimos meses antes das ditas eleições e nos últimos dias antes da sua realização que os ânimos aquecem, quer por necessidade de dar resposta aos chamados adversários ou por iniciativa própria que os diversos intervenientes no jogo ajustam o vocabulário, aumentam o volume da sua voz e utilizam os meios que julgam necessários para conquistar pontos aos adversários, baseados em análises resultantes de sondagens, em criteriosos estudos que dividem o eleitorado em faixas etárias, faixas de género, faixas de condição económica, faixas de intenção de voto, de utilidades de voto, enfim, a terminologia daria para encher pelo menos algumas páginas.

Faz-me sempre lembrar os jogos de futebol em que uma equipa, que em 90 minutos de jogo não consegue meter um golo na baliza adversária, protesta, pede cartão amarelo, reclama contra as lesões dos adversários que por princípio são sempre fingidas, nesta perspectiva, nos minutos finais e em que o outro, o adversário, aproveita o tempo para fazer as substituições que não fez porque não achou necessário mas que agora já acha que são necessárias ao cair do pano, faz uma falta ou outra desnecessária, enfim, empatam-se as coisas na perspectiva de um e aceleram-se as coisas nesses tais minutos finais na perspectiva de outros.

Um governo, ou qualquer órgão institucional eleito tem pelo menos 4 anos para mostrar aquilo que vale e se vale alguma coisa, as oposições têm também 4 anos pelo menos para mostrar aquilo que acham que o outro não vale, mas tudo se resume (dizer resumir é excessivo) aos tais minutos finais (que podem ser duas semanas, dois meses, ou um pouco mais).

O matraquear ou metralhar do pobre eleitor é um verdadeiro abuso e tudo se conjuga para que as ideias mais ou menos guardadas durante os tais 4 anos (exemplo) sofram uma reviravolta ou se mantenham sem reviravolta, consoante os interesses e os intervenientes.

Descobrem-se» nestes períodos os mais diversos escândalos, sejam eles financeiros sejam eles políticos ou mesmo de outra índole e no final, quer dizer, no dia das eleições, no dia do depósito efectivo do cartãozinho na urna, pelo menos uma percentagem razoável dos eleitores vota, não com a consciência, mas com a percepção algo abstracta de que o seu voto vai no caminho certo ou é «dado» a quem de facto o merece mais ou o desmerece menos.

Afinal será que o eleitorado anda mesmo às aranhas ou que não sabe analisar os comportamentos a longo ou a médio prazo e formar opinião ou será que tem a opinião tão frágil que um único ou vários acontecimentos pontuais faz (em) virar a balança do seu pensamento, será que os últimos minutos são determinantes para a formação e consolidação dessa mesma opinião, ou será simplesmente, o mais provável na minha opinião, que o eleitorado, de uma forma geral, precisa que lhe digam mesmo de uma forma bem explícita em quem deve votar?

O facto de se fazerem grandes obras, de se inaugurarem outras grandes ou pequenas, até por várias vezes a mesma como já tem acontecido, terá de ser assim tão determinante para a formação de uma opinião de voto?

Afinal o resultado do voto, até que as coisas mudem, o que não convém absolutamente nada diga-se (incomoda-me verdadeiramente os países que andam em eleições quase mensais) o resultado desse voto não é para durar os tais exemplares 4 anos e não deveria ser estudado durante os anteriores 4 anos todos e não nos últimos 4 minutos da partida?

É dificil pensar em termos de estabilidade para se fazer alguma coisa quando durante quatro anos, pelo menos,tivemos oportunidade de saber que   por exemplo em Portugal os Presidentes da República são eleitos por mais um mandato, que os governos andam sempre vai não vai sem saber se ficam se vão embora e quando mudam não mudam mesmo, enfim...

As Câmaras Municipais, depois de atravessado um período de longas (e quase eternas) repetições eleitorais, têm ultimamente mudado globalmente a um ritmo acelerado, as administrações dos Institutos Públicos mudam também aceleradamente de acordo com a camisola governamental eleita, e  existem milhares de cargos de nomeação que caem ou não caem depois das eleições, enfim...tudo isto é conhecido em cada um dos períodos em que regem os eleitos, quatro anos nuns casos ou mais noutro caso.

Enfim é um rol quase interminável que leva a esta sensação de inconstância, de fragilidade estrutural, de trabalho de cada um por si (e para si) que os eleitores portugueses vão sufragar neste ano que corre e muitos deles vão fazê-lo instavelmente durante os últimos minutos do jogo como tem sido usual.

O Churchil dizia que a democracia era o pior dos sistemas políticos excluindo todos os outros seguindo a ideia geral deixada por Rosseau no que se refere à representatividade. Ora agora que só localizadamente existem outros sistemas talvez seja bom aperfeiçoar esta mesma coisa a que chamam democracia porque assim é mesmo desesperante.




quinta-feira, 5 de março de 2015

Crónica por Martim Afonso Fernandes


Crónica por Martim Afonso Fernandes

Histórias da Vida Real

A Cadeia Pública

Em minha cidade natal tive vários amigos mais velhos, ou melhor, «com mais tempo de casa neste planeta!». Há amizades que conservo até hoje.

Alguns já mudaram-se para o piso de cima. É muito bom recordar!

A cadeia pública ficava próxima da usina de geração de energia, da lagoa de alimentação e circulação do sistema energético. O acesso à cadeia era pela rua principal, onde localizavam-se estabelecimentos comerciais e residências.

Como os moradores eram ordeiros, se o carcereiro dependesse do dinheiro da carceragem para viver, morreria de fome.

A cadeia já servia de moradia para o policial responsável.

O movimento do Porto era ininterrupto. De vez em quando algum marinheiro tomava umas graspas fora da conta e aparecia fazendo algazarra.

A polícia logo fazia o convite e o levava para curtir o porre e «ver o sol nascer quadrado». A ordem de descanso era de doze horas.

Quando era alguém de Imbituba, conhecido do delegado ou do policial, que desse algum apronto, era recolhido para que servisse de lição.

A cela tinha grade de madeira e era fechada por fora. Só o nome «cadeia» já impunha respeito ou medo.

Geralmente depois do preso completar umas duas horas de estágio, o policial chamava o detento e dizia:

-Vou dar uma volta. Lá naquele canto tem uma taboa solta. Levanta e sai pelo buraco, mas coloca a taboa no lugar. Some, porque se eu te pegar por aí, vais passar uma semana toda dentro do cubículo.

O detento atendia a ordem do policial, e para se ver livre, corria direto para casa. Como a saída da cadeia era pela rua principal, geralmente deduzia-se que aquele tinha sido preso. O pior era no dia seguinte agüentar as piadas e gozações dos amigos.

Porque sempre tinha alguém para perguntar:
 -Fulano, pagaste a diária do hotel do delegado? Que tal, a cama era boa? E o café da manhã?

Velhos e bons tempos, que não voltam mais.

Imbituba era uma cidade tão tranqüila, que quando o delegado queria falar com alguém que cometia algum deslize ou que descumprisse alguma lei, mandava um recado por um amigo ou pelo vizinho, para que o dito cujo comparecesse à delegacia.

Aconselhava-o paternalmente e prometia-lhe que se reincidisse na falta, da próxima vez a pena seria de uma semana no xadrez.

Assim a tranqüila Imbituba ia levando seus dias de paz e ordem.

O progresso veio lentamente, a imigração foi aumentando, a população crescendo.

Felizmente, o índice de criminalidade e o tráfico de drogas é mínimo para a expansão demográfica desta bela cidade de avenidas bem traçadas e de praias, ilhas e lagoas espelhados pelas águas límpidas e azuis do Atlântico.




Se o Mundo Acabasse por Laé de Souza


Se o Mundo Acabasse por Laé de Souza


Aquele dia foi de alvoroço. Cruzei com um amigo acostumado a prosa, numa correria e recusou-se a conversa, alegando que não podia perder tempo, pois tinha algumas coisas a concluir antes de começar a escurecer. Espantou-se com a minha ignorância de que o mundo estava prestes a acabar. (Preciso encontrá-lo para ver o que tanto não podia ficar sem fazer.) Por preguiça não escrevi no momento. Se acabasse mesmo, seria desperdício de tempo. Mas entre a dúvida de ficar no meu canto a rezar e sair a indagar e a observar, venceu a curiosidade.

Uma mulher que tinha um caso antigo com um vizinho, convenceu-o a se levantar bem cedo e sem dar satisfação aos cônjuges se dirigiram a um jardim e com olhos fixos no firmamento, de mãos dadas, esperavam a chegada do Senhor.

Uns doaram bens numa atitude desesperada da busca do paraíso. Juliano vendeu esperanças e garantiu lugar privilegiado a quem tinha posses. Aos de menos recurso, por preço camarada um lugar mais na frente da fila. E faturou um troco legal.

Mães de santo cobraram fortuna para prorrogar o fim. O Pastor Queixada me garantiu que o mundo só não acabou como previsto, por sua intercessão e para que desse tempo a alguns irmãos se arrependerem. Mas me avisou que não vai dar para segurar por muito tempo, portanto, desapeguem-se dos seus bens.

Muitos rezaram, confessaram e se arrependeram.

Minha filha me fez perguntas que nunca ousou. Minha mulher me questionou umas coisas esquisitas, que prometi responder assim que escutasse a primeira trombeta tocar e visse os anjos descendo do céu.

Gumercindo não despregava os olhos do relógio e de nada resolveram os calmantes. Chorava que dava dó e pedia perdão à mulher por falhas e contou coisas que só se conta na hora da morte e morte certa mesmo.

Chiquinho abriu as gaiolas, soltou todos os pássaros e se escondeu debaixo da cama.

Roberval, devedor contumaz, fez mais compras e mandou que todos os credores viessem no dia seguinte.
 
MAS NÃO ACABOU.

Assim, por culpa de um tal de Nostradamus, o que ia até mais ou menos se encrencou. A mulher do Gumercindo retirou o perdão e foi para a casa da mãe com as crianças, não sem antes dar uma bofetada no sujeito e ameaçá-lo de proibir visitas aos filhos.

Chiquinho chora a falta dos pássaros e Roberval se esconde dos cobradores. A mulher com o vizinho tiveram que juntar as trouxas e fugir. Eu ando me esquivando da mulher, mas sinto que a qualquer hora ela vai me pegar de jeito e vou ter que responder àquela pergunta, e aí, não sei não.

Por tudo isso, Manelão se interrogou: "Ele erra na profecia e nós é que se ferra?
"


 



sábado, 28 de fevereiro de 2015

Texto de Liliana Josué - CRÓNICA SOBRE NÓS


Texto de Liliana Josué

CRÓNICA SOBRE NÓS

Sabes, estou no sítio onde eu muitas vezes queria ir, o meu preferido para aquelas circunstâncias , e tu, embora também gostando, preferias inequivocamente o outro, o grande, muito amplo, pejado de gente e vida. Mas tu não eras assim!... o meu, era o tal lugar não muito grande e tranquilo, colorido mas discreto, um nadinha melancólico como eu e que sempre me puxou a vontade de rabiscar qualquer coisa, como agora.

Cá estou eu a ouvir música artificial de piano enquanto penso em ti. Fazes-me falta, mesmo nos desencontros de opinião, de vontades e crenças. E tu, aí onde estás, longe, sentes falta de mim? nem que seja só um pontinho no peito? gostava que sim.

Sabes, já não vou comprar o queijo branco e ácido à mercearia do russo, não me apetece. Esse queijo só fazia sentido comido e disputado por ambos, assim não. Recuso as lojas de roupa barata na rua larga e comprida, sem ti aborrecem-me, tal como o restaurante chinês que também tinha sushi, o qual eu comi pela primeira vez com alguma relutância, mas depois até gostei.

Sabes, fazes-me falta, não tenho a culpa mas é assim. O frio por aqui é muito, tanto no corpo como na alma, creio que onde estás não seja melhor. Sei que nunca deste muita importância ao que escrevo, mas, mesmo assim, no tal lugar onde estou tive de o fazer. Já cá não vinha há bastante tempo, e ao entrar entrei igualmente em mim, acredita que também tinha saudades minhas.

Variávamos pouco os sítios distrativos e relaxantes, talvez por isso mesmo os evite. Parte das nossas vidas permanece muito concentrada nesses locais. Por lá tudo ficou parado à nossa espera. Sinto-te longe, mas acredito que a distância está no tempo em que nos sentimos sós.

Sabes, fazes-me falta, mesmo muita falta.

Liliana Josué






quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015


Jornal Raizonline Nº 263 de 12 de Fevereiro de 2015

Coluna Um - Daniel Teixeira


Em tempos que ladram a nossa cultura passa

Verdadeiramente inspirador é este título embora a sua versão inicial dele difira. E daí talvez fosse também pouco correcto reescrevê-la aqui na sua formulação exacta porque no nosso entender só se lhe aplica o sentido e não o significado.

Na verdade a nossa caravana não tem cães que lhe ladrem, ou se os tivesse nem disso nos aperceberíamos, embora devamos ter presente que os tempos actuais ladram verdadeiramente, um pouco para todos ou então para muitos.

Depois temos também uma questão com uma outra proporcionalidade nos termos a utilizar do caso original e na transcrição que aqui fazemos. Na verdade somos talvez um pequeno grão de areia, um pequeníssimo grão de areia: Florbela Espanca faz referência à insignificância de um grão de areia que se desprende utilizando a expressão de Marco Aurélio. Apenas um grão que se perde...nada mais que isso.

Esta cultura da relativização das percas, quando as há, funciona assim para o Estoico Marco Aurélio e para a poetiza Florbela tendo em atenção que não se trata de uma redução qualquer, de uma redução de uma coisa.

Subtilmente, ou de forma subliminar, o que se afirma é que aquilo que se perde, o tal grão de areia, não afecta a estrutura da construção na qual se acredita: há coisas que sendo compostas por milhões de grãos de areia continuam na mesma. O espírito, a ideia, não se resume a uma soma de grãos (de areia), mas sim à riqueza da sua estrutura.

Por isso por aqui vamos nós todos, perdendo e ganhando alguns grãos de areia e uns e outros, os que se perdem e os que se ganham, recompensam-se entre si naquela ideia sempre acompanhada de que sem a perca de uns e sem o ganho de outros não haveria progressão: na ideia, nas coisas, nos homens, na cultura.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira

Ps: Este é o número 263 do Raizonline: na coluna da direita, na parte que se refere às etiquetas (O que aqui se escreve), encontrarão lá uma etiqueta com o Nº263-12/02/2015 que, aberto o link, dá acesso a todos os trabalhos publicados neste número.



O primeiro beijo dá-se com o olhar. - João Manuel Brito Sousa


O primeiro beijo dá-se com o olhar.
 
Por João Manuel Brito Sousa


Ando por aqui. De manhã, entre as dez e as onze, mais onze que dez, saio à rua. Fecho a porta do prédio e ponho o pé na calçada. Estou na cidade que eu amo. Um amor feito de muitas recordações e saudade.

A cidade de hoje recebe-me bem. Estou aqui à dois meses e já conquistei algumas boas amizades. Entre outras, cito, por ser justo, Humberto Daniel, Jorge Gaspar e José de Sousa Pinto.

Sei que o meu coração não consegue odiar. Vou andando assim, tentando viver, um dia de cada vez. e percorro lugares e caminhos, montras e lojas, umas que já existiam de antigamente outras que nasceram agora.

O primeiro lugar que visito é a livraria do Pátio das Letras, onde normalmente compro um livreco, dos baratos. Depois, sento-me na esplanada e tomo um café. Aparece malta e conversamos um pouco. Sigo depois até ao mercado, onde normalmente revejo amigos..

O último foi o Jorge Custoidinho, grande, grande, grande amigo, dos tempos da primária. Estou a vê-lo no seu primeiro dia de escola. Fomos sempre amigos, eu e o Jorge, irmão doutra amizade enorme, a Fernanda Custoidinho, a quem aproveito para saudar.

O Jorge cruzou-se comigo, parou e cumprimentou-me. Trazia o brilho da amizade no olhar. E fez-me uma pergunta engraçada: «onde é que estás agora ?...».

Entupi … que raio, pensei.. Mas expliquei-lhe e aprovou o projecto. Que não garanto seja o mesmo daqui a quinze dias… Encontro-me com outros amigos, como o Custódio Serôdio, o Joaquim da minha terra, que emigrou para França anos 50 e tais e que me contou uma história interessantíssima... Que não posso deixar de a transcrever.

Tomámos um café e ás tantas ele pega na palavra e falou mais de uma hora seguida. Disse Joaquim:

«Em 1963 em Paris fui convidado por uns amigos a festejar o nascimento do Marquitos, filho de um preso político espanhol que tinha lutado contra Franco. Esteve 23 anos seguidos na cadeia, até que Franco, em 1943 fez publicar um decreto-lei que libertava todos os presos políticos com mais de vinte anos de cadeia seguidos.

Saíra cá para fora, mas tudo lhe parecia estranho e não se entendia muito bem com o brilho das luzes, com a dinâmica da cidade e por aí fora. Andava vigiado e sabia disso. Estivera preso dos 20 aos 43 anos e a sua vida não conheceu a Primavera, ou seja, nunca tinha amado nem sido amado, apesar de sentir o desejo.

Um dia encontrou um amigo doutros tempos, que depois dos abraços e cumprimentos lhe disse: «Mira, esta noche às diez por acá »…. «No te entiendo», terá dito o presidiário.

«às diez en la calle. Por acá, si»… E foi mesmo.. De tal modo que às onze dessa noite os amigos estavam num bar de meninas. Que tal ? perguntou o amigo…. Hum, respondeu o preso, que entretanto pensava no momento que estava a viver, coisa que sempre combatera…O amigo voltou a aproximar-se e o presidiário, parecia infeliz.

O amigo então apresenta-lhe Isabel, uma menina a quem entregou uma nota de 500 pesetas, dizendo-lhe: «Leva-o para o Hotel e fá-lo feliz» e virando-se para o presidiário: «Está aqui o teu primeiro beijo». Depois contas-me. Tenho de ir. Hasta mañana, ainda disse..

Vamos disse a menina. Para onde? Para o Hotel, óbvio. Espera, disse o presidiário. Vamos até um café, quero conhecer-te melhor. E foram. Conversaram e às tantas, disse ela. Vamos ? Fazer quê ? não sei fazer nada. Deixa, eu faço tudo. Foram. Aconteceu o quê? Não sei.

às quatro da madrugada o presidiário voltou para casa onde o irmão e a cunhada o esperavam preocupados. Mas… tudo bem. A cunhada pediu-lhe o casaco para o escovar. E ao fazê-lo, encontrou num dos bolsos um papel enrolado. Perguntou ao presidiário, o que é isto, Ferdinand ?...

Mostra, disse Ferdinand, que entretanto aceitou o embrulhinho. Desenrolou-o. Era a nota de 500 pesetas que Isabel introduzira no seu bolso do casaco e onde tinha deixado escrito: «Volta amanhã outra vez»…

Ferdinand foi para o quarto depois de dar as boas noites.. Pensou no assunto. E resolveu no outro dia passar por uma florista e comprar 500 pesetas de flores. E dirigiu-se depois para o Hotel onde tinha estado com Isabel, onde deixou as flores, pedindo que as entregassem á menina tal.

E escreveu num cartão que colocou dentro do «bouquet: «Para Isabel, o meu primeiro amor:»…

Dias depois encontrou o amigo.
 - Então que tal?
- Hum… respondeu Ferdinand
- Saiu o primeiro beijo?
 - Hum… disse ainda Ferdinand.
 - Então ? insistiu o amigo.
 - E Ferdinand, disse: «O primeiro beijo dá-se com o olhar»




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



A "Casa dos Rapazes" e a Obra Social da PSP



 
Na década de 1960 o problema da delinquência juvenil em Macau foi 'atacado' com recurso a métodos 'inovadores'. Os jovens que infringiam a lei praticando crimes de pouca gravidade ocupavam o dia em actividades nas oficinas da PSP junto à Porta do Cerco. Lages Ribeiro, na época Comandante da PSP, recorda o excelente trabalho desempenhado pelo Tenente Ranhada, "austero mas não tirano" e que "ajudava muitos aqueles jovens". Nessas oficinas "eles aprendiam um ofício, estavam ocupados. À noite iam dormir para uma casa da polícia ali na zona do Ramal dos Mouros, junto ao reservatório". (imagem abaixo)



A Colónia Balnear de Hac Sá era outra das obras sociais da PSP que realizava diversas actividades em prol dos mais desfavorecidos, nomeadamente, a angariação de fundos através de rifas como a que o documento acima, de 1965, atesta.
 
O Regulamento da "obra social" da P.S.P. de Macau foi aprovado pelo Portaria n.° 7 470 de 15 de Fevereiro de 1964.

 

 
Em 1961 foi criado Centro de Recuperação Social. O Asilo para Mendigos e Vagabundos, estabelecido de acordo com a portaria n.º 4998 de 8 de Setembro de 1951, e gerido pelo administrador das Ilhas, albergava pessoas com idade superior a 16 anos, desempregados e sem residência fixa em Macau, mendigos e vagabundos. 

Foi o Comandante da PSP do então, Major de Infantaria, Sigismundo G. da C. Revês, o fundador deste centro, e funcionava tal como um asilo, que posteriormente passou a depender da PSP. O centro era compreendido organicamente com 5 serviços especializados: 1) Serviço de Tratamento da Toxicodependência, 2) Serviço de Recolhimento, 3) Serviço de Crianças, 4) Serviço de Psiquiatria, e 5) Serviço de Mulheres.
 
Em 1968 a PSP um organismo militarizado directamente dependente do governador de Macau e compreendia o Comando, Secretaria, Conselho Administrativo, Serviços Administrativos, Serviços Técnicos, Secção de Trânsito, Esquadras e Postos, Centro de Recuperação Social, Banda de Música e Obra Social, tendo no seu quadro de pessoal um efectivo de 796 homens.
 
Publicada por João Botas


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Crónica de Tom Coelho


Crónica de Tom Coelho

A Fragilidade da Vida

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

«No fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim.»
(Fernando Sabino)

Quase cinco anos após o falecimento de minha mãe, estou de volta a hospitais. Meu pai teve o que parecia ser um AVC (acidente vascular cerebral), pois sofreu uma hemiplegia – paralisação do lado esquerdo do corpo (braço e perna).

Transportado por UTI móvel até um hospital em São Paulo, uma tomografia indicou algo pior. Não era um AVC, mas sim um edema oriundo de metástase de um câncer posteriormente identificado em seus pulmões.

Para quem jamais fumou um cigarro sequer, foi uma grande surpresa. Sabe-se que 85% dos casos de câncer de pulmão acometem pessoas com histórico de tabagismo. Portanto, restam outros 15%, grupo no qual meu pai foi laureado.

Mais intrigante ainda é que a doença não é recente. Embora não seja possível precisar seu início, pode-se depreender que vem se desenvolvendo há mais de dez anos!

Isso me leva a rever drasticamente meu conceito sobre a funcionalidade dos check-ups convencionais. Acabo de descobrir que exames clínicos diversos e mesmo radiografias eventuais são insuficientes para sinalizar uma doença silenciosa e perversa como esta.

Ao longo dos últimos 30 dias temos vivido uma verdadeira maratona. Passamos por quatro hospitais, enfrentando uma burocracia invejável, digna do mais áureo período do militarismo em nosso país, para obter guias e autorizações.

Todos os procedimentos são morosos e sua abreviação depende da insistência e do monitoramento permanente de nós, familiares, junto aos burocratas do sistema. A saúde, tal qual a educação, é um excelente negócio...

Enquanto isso, assistir a meu pai, em seu cotidiano, leva-me a reconhecer a fragilidade e brevidade de nossas vidas. Do alto de seus 68 anos de idade, um homem ativo e falante tem limitações e inquietações patrocinadas pela doença que o aproximam de um recém-nascido, fazendo-o demandar auxílio para movimentar-se, alimentar-se, higienizar-se.

Em paralelo, o tempo, que passa devagar num leito de hospital, convida à reflexão. Paciente e acompanhante são tomados por um senso de urgência e de valorização da vida.

Lembranças que nos visitam a mente, memórias de pessoas e eventos, coisas que fizemos e deixamos de fazer. A sensibilidade floresce, de modo que basta ouvir a voz ou vislumbrar o semblante de quem se gosta para que as lágrimas inundem os olhos.

Não é por acaso que quando abordo o conceito das Sete Vidas, principio falando sobre a saúde. Sem integridade física e mental, todo o mais carece de significado.

Podemos sobreviver 50 dias sem comer, 100 horas sem beber água, 15 minutos sem respirar, mas nem um único segundo sem fé.

A certeza de que faremos mais do que o possível, a segurança de que buscaremos todos os meios e recursos necessários, a esperança de que o bem vencerá o mal. E a confiança de que, no fim, tudo dará certo.