Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónica. Mostrar todas as mensagens

sábado, 24 de janeiro de 2015

Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015


Jornal Raizonline nº 262 de 26 de Janeiro de 2015

COLUNA UM- Daniel Teixeira

Alteração gráfica do Jornal

Por razões relacionadas com as alterações verificadas nos sistemas de busca dos motores (de busca) resolvemos (ainda que e sempre a título experimental) transferir o nosso Jornal, até agora publicado em servidor com domínio próprio (raizonline.com) para publicação a partir deste número num dos nossos blogues.

Os números anteriores a este 262º número encontram-se no respectivo site acima referido (http://www.raizonline.com/) e por lá vão ficar, pelo menos até ao mês de Setembro, altura em que se decidirá se se continua a pagar o domínio ou não.

Na verdade, em termos de alcance de leituras temos visto reduzir-se o número de clics no Jornal, o que se pode atribuir a mais que um factor.

O facto de termos até agora colocado um resumo de cada postagem num outro Blogue (que não este) mostra-nos que é relativamente menor o número de pessoas que vão até ao Jornal ler os textos completos do que aquele que se fica pelo resumo apresentado no Blogue.

As razões deste facto são também mais que uma: uma parte das pessoas não repara no link colocado abaixo de cada postagem e considera (os leitores não assíduos ou sem trabalhos publicados, sobretudo) que lhes satisfaz a amostragem que fazemos considerando mesmo que o nosso resumo constitui a totalidade do texto.

Assim, razões de facilidade de busca e facilidade de acesso aos textos totais são as motivações que nos levam para já a fazer esta alteração: de site (domínio próprio) para Blogue da Google.

Ainda uma outra razão, embora de segunda ordem, nos leva também a esta alteração: estamos (no Jornal em site) com uma centena de páginas, renovadas em grupos de vinte / vinte e cinco periodicamente, o que faz com que os textos fiquem, na nossa opinião, demasiado tempo online num mesmo exemplar. No caso do Blogue, eles ficarão até mais tempo online, mas de acordo com a sua distribuição número a número.

Este número tem o seu índice geral no seguinte link (Índice) mas como é o primeiro desta série poderá ser acedido calmamente através do sistema habitual nos Blogues (postagem anterior).

Esperamos ir resolvendo alguns problemas que entretanto possam vir a surgir e muito sinceramente achamos que este sistema tem futuro nas nossas publicações uma vez que praticamente toda a gente conhece o mecanismo dos blogues.

Que tenham uma boa semana são os meus desejos.

Daniel Teixeira  




 

O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR - Crónica de Gociante Patissa


O SONHO É AQUELE LUGAR QUE SEDUZ, COMO SE SE DEIXASSE APRISIONAR

Crónica de Gociante Patissa

Os homens gabam-se ter sonhos, quando são na verdade estes que carregam aqueles. Não posso dizer que tenha até aqui inventado a asserção. Temos os sonhos, são nossos, mas não mandamos neles, nem os mudamos. Ou mudamos? Parece-me mais certo ver os sonhos como a não aceitação da impotência, da circunstância vivida.

O sonho, enquanto meta, mais não é do que o tempo indeterminado entre o hoje e o amanhã promissor, algures na manivela do tempo. Certa pessoa, no contexto de trabalho, chegaria a escandalizar-se diante de uma resposta minha em 2006. Questionado sobre o que sonhava ser em termos profissionais, justamente no segundo ano de fracassada tentativa de entrar para a universidade, disse-lhe eu que não levávamos para a esfera do sonho a coisa, que o sonho não contava onde tudo escasseia.

A gente até já sabe com o que se pode, ou não, sonhar. Se limitadas são as almas, também o são por solidariedade sonhos. Mas, incorrigíveis, sonhamos sempre, talvez porque o onírico tem a chatice de ser multidirecional. Que remédio!

E eu sonhava, mais ou menos a partir de 1996, com a possibilidade de ver um dia um livro numa vitrina de livraria... com o meu nome na capa.
Seria o chamado sonho de Gutenberg? Ora, tal sonho carregou a minha imaginação, a auto - superação e as energias até 2008. E sem que eu pudesse controlar, o sonho metamorfoseou-se, porque ele, o sonho, lida mal com a ideia de chegar ao destino, o sonho é afinal um caminhante de só começar.

Agora o sonho passou a ter na mira a primeira oportunidade de ser entrevistado para falar (não sobre, mas) de um livro meu, discutir, se tal se aplica, o interior.

Até agora só tenho recebido da imprensa oportunidades para anunciar e informar - o que desde já agradeço, para não ser ingrato, posto que, de tão recorrente, pode ser um indicador da fatia de atenção que me é merecida enquanto criador do campo da escrita.

Foi por isso que recebi com satisfação, no começo de uma entrevista a propósito da novela «Não Tem Pernas o Tempo», uma pergunta muito pertinente, de um entrevistador que tinha um exemplar com considerável antecedência. "Vou-te apresentar como escritor?" Essa pergunta é ainda menos complexa do que a outra, para a qual me engasgo sempre: "Qual é o título do livro?"

Esta sim, é uma grande questão! Desfez-se pois o segredo. O sonho mesmo é chegar a ser lido e inspirar guião, mas sei também deste carácter fugidio de um sonho, pelo que me darei por avisado, se disso não passar.
 
Qual é mesmo o título do livro?

Gociante Patissa, Benguela 14.12.14


 



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Histórias da Vida Real - Crónica por Martim Afonso Fernandes


Cinema


Por muitos anos o salão de cinema em Imbituba situava-se ao lado dos barracões, que eram também moinhos de farinha de mandioca.

Era um conjunto de mais ou menos quinze barracões, inclusive alguns serviam de quartel do Exército no tempo da Guerra, onde foi instalado o 12° CEMAC, ou seja Grupo Motorizado de Artilharia de Costa, depois transferido para São Francisco do Sul.

Os barracões foram construídos pela Companhia Docas, localizados próximos à ICC. Serviam de depósito para armazenar farinha de mandioca, que era exportada para a Alemanha, para confeccionar matéria plástica, armazenar trigo, sal e granéis.

Os moinhos eram equipados com máquinas de beneficiamento de embalagem de farinha.

O referido cinema ficava entre dois armazéns. Era comum os moinhos funcionarem dia e noite.

Embora os ventiladores do cinema funcionassem durante as sessões, mesmo assim o talco da farinha, o amido, era muito fino e sempre se espalhava pelo salão.

Deixava vestígios bem acentuados nas roupas escuras, nas cabeças, nos chapéus, não dando para negar a quem assistia ao filme, que não esteve no cinema.

Não era preciso nem esperar que o filme terminasse, pois nos intervalos para troca de bobinas do filme, as luzes eram acesas, e ali já se via o talco branqueando as cabeças.

Era só o moinho funcionar quando passasse o filme para os telespectadores branquearem.

Mais ou menos em 1950 foi construído um novo salão para o cinema, no Centro Comercial, com maior espaço e modernidade, inclusive com palco para a apresentação de teatros, shows de mágicos, palestras, etc.

Era opcional ir assistir o filme, ou encontrar amigos e amigas, Também se arriscava ir ao encontro de uma namorada, pois o que não faltavam eram moças e moços para abrilhantar o movimento.

Também era um ponto para casais renovarem amizades. O cinema tornou-se o símbolo da comunicação ao vivo.

Com a vinda da TV, depois do videocassete e o DVD, chegou ao fim toda aquela amizade que se construía dando espaço à falta de comunicação e ao isolamento.

Hoje em dia, principalmente nas cidades menores, não se encontra uma sala de cinema, a não ser naquelas que tem seus shoppings centers completos.

O Filme Italiano, Cinema Paradiso, bem retrata a saudade e o romantismo dos cinemas.

E eu, assim como muitos, sinto saudades dos namoros no escurinho dos cinemas!!!



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Texto de Liliana Josué - EU VI UM SAPO…


Texto de Liliana Josué

Decidi colocar um conto/crónica da minha autoria como início do ano 2015, sem fotos, só letrinhas.
Hesitei em colocar o nome do Hospital mas pensando melhor vou colocá-lo aqui mesmo: HOSPITAL DE S. JOSÈ

EU VI UM SAPO…

Joana, minha amiga desde o tempo das fraldas, sempre teve problemas asmáticos. A sua infância e juventude foram bastante acidentadas por esse mesmo facto, embora tivessem existido períodos de acalmia com muita felicidade e brincadeira. Apesar de tudo, era uma miúda cheia de vida e entusiasmo. Franzina mas rija.

Lembro-me de quando a ia visitar nas alturas das crises asmáticas, acamada e sem qualquer possível tratamento (pois naquele tempo não havia os recursos que existem hoje), apenas mezinhas caseiras como os pachos de algodão embebido em álcool ou papas de linhaça colocados, com duvidosas esperanças de melhoria, sobre o peito. Os lábios tornavam-se roxos apertados pela boca cerrada, narinas muito abertas e silvos saltando do peito, o qual parecia um fole nervoso e descompassado. Não conseguia falar.

Por vezes sentavam-na à janela do quarto para apanhar ar. O pai chegou a levá-la de carro , já um tanto “démodé”, abrir as janelas e correr com ela a cidade para que o vento lhe batesse forte na cara e ela se sentisse melhor. Hoje sabemos que isso nada faz, mas naquela época não, naquela época aquilo tinha de lhe fazer bem ou pelo menos fazê-la sentir melhor.

A situação embrulhava-me em tristeza e até em algum medo mas, mesmo assim, gostava de estar com ela. Lia-lhe livros de contos de fadas adornados com lindos desenhos que a minha amiga tanto gostava de colorir, ou lia páginas da coleção “As Aventuras dos Cinco”, cuja personagem Zé era disputada por ambas. Falava-lhe do meu gato amarelo ou do cágado que eu tinha no meu quintal, e também do meu vizinho guloso que me espreitava pelas janelas . Algumas vezes acompanhava-a no seu choro amargo e aflito, mas o meu era discreto para não a assustar ainda mais.

Já mais crescida, ou mesmo adulta, aquela erva daninha e corrosiva enraizada no seu peito abrandou as tenazes e a minha amiga tornou-se muito menos receosa, caminhado pela vida com um passo quase firme. 

Divertíamo-nos com imensas coisas, uma delas era fazermo-nos passar por estrangeiras nos parques da cidade, e muita gente acreditava. Eu era uma rapariga alta e de formas bem marcadas, dava nas vistas. Sem ser bela tinha um gracioso palminho de cara, não desvalorizando a minha inteligência que igualmente fazia parte do meu charme. 

A Joana era baixa, magra, pele muito branca, sardas no rosto, olhos esverdeados um pouco tristes, mas bonitos, e um invejável cabelo arruivado, mas era o seu sorriso que nos enternecia a alma. Quanto à sua inteligência também era patente, no entanto diferente da minha, era mais observadora e intuitiva. 

Os rapazes rondavam-nos como gatos com cio, e nós apimentávamos a situação fingindo-nos não portuguesas, os nossos tipos davam para fazer isso. Eles arregalavam os olhos enquanto perguntavam de risinho cobiçoso: “Vocês são francesas… ? inglesas…? alemãs…?” .

O tempo foi passando e agora já maduras a minha amiga voltou a ter crises asmáticas bastante violentas. O horizonte voltou a tornar-se triste e cinzento. Ontem deu entrada, de urgência, num hospital público. 

Foi rapidamente atendida, quanto a isso nada a dizer, fizeram-lhe todo os exames médicos considerados necessários e aplicaram-lhe os tratamentos mais indicados. Até aqui tudo bem, apesar do seu mal, mas depois… .

Como sua acompanhante estive quase sempre junto dela, pois até dá jeito para ajudar. O seu corpo arquejante afundou-se na cadeira embrulhado em toda uma parafernália de equipamentos médicos, alguns deles colocados por ela própria, por exigência dos serviços, mas ela não sabia que assim que tinha de ser. Ouvi um voz ao fundo: “então quando coloca o tubo do oxigénio no nariz? Está sentada mesmo em cima dele”. 

A minha amiga meio amedrontada e admirada procurou fazer desajeitadamente o que lhe diziam. Eu, infelizmente, também pouco podia acrescentar quanto ao manuseamento dos utensílios visto ainda menos perceber do assunto. Mas até se percebia tanto mau humor do pessoal pois o trabalho era muito e para além do mais estava-se num domingo. 

Caramba, que chatice ter de se estar ali no domingo, ainda por cima tudo gente nova que o que mais queria era estar a dormir ou a divertir-se, ou mesmo a namorar! 

Não compreendi o porquê mas realmente eram todos muito jovens, onde estariam os mais velhos? Se lá se encontrassem alguns até podia ser que tivessem um pouco mais de mais paciência, quem sabe…? Sim, quem sabe…?. 

Joana fechou os olhos lacrimejantes aguardando meio resignada pelo bom sucesso dos tubos, fios e frascos enquanto eu ia observando todo aquele espectáculo. Volta e meia uma idosa gritava com dores na perna e agonias. Muito chata, é certo, mesmo muito chata, mas também muito idosa. Como o seu “show” não pegava resolveu então fazer uma voz doce e melada de submissão canina dizendo: “ ó minha querida, não me arranja uma pomadinha e dava-me uma massagem na perna?”. 

A funcionária que se situava mais perto dela olhou-a furiosa e disse: “fricção, eu…? eu…? eu…?” e virou-lhe as costas indignada. Mas talvez até fosse por bem que ela não lhe fez a fricção, quem sabe…?

Outro idoso que mal se podia mexer, e mesmo sentado se apoiava numa bengala tinha uma bata vestida, daquelas próprias dos hospitais feias e deprimentes, era esquelético , feio e um nadinha rezingão, pretendia com muito custo, ajustar a mesma aos ombros pois a dita tinha-lhe sido vestida à pressa. Dizia com cara de poucos amigos: “tenho frio”. 

Ora lá estava outro chato! E não queriam que os pobres funcionários se aborrecessem, mas que abuso e falta de compreensão. É claro que o débil protesto pouco lhe adiantou, ficaria mesmo assim, desconfortável e com frio se o vizinho do lado, também ele idoso e muito doente, não lhe tivesse estendido a mão e a muito custo o ajudasse a puxar um pouco mais a bata. 

Eu senti-me bastante indignada comigo própria por nada fazer, mas estava a acompanhar a minha amiga e não as outras pessoas que não tinham ali os acompanhantes, para além do mais tinha medo de ofender os funcionários, de modo que os meus pés não se descolavam do chão.

Uma outra senhora igualmente de provecta idade queria ir à casa de banho, pediu muitas vezes, mas muito tempo teve de esperar. Até que um auxiliar mal encarado chegou com uma cadeira de rodas e puxando-a por um braço a quis levantar e sentar na dita (até eu sei que não é assim que se agarra uma pessoa sem forças), mas pelos vistos o pobre homem não sabia, coitado, não sabia, e então…? e quase berrando à mulherzinha disse-lhe: “ olhe que se não se segura bem cai aqui mesmo”. 

E não é que ia caindo mesmo!..? tal como um outro tinha caído noutra cadeira de rodas?! Mas aí, sejamos honestos, a culpa tinha sido da cadeira pois rompera-se sozinha. Um segundo auxiliar viu a cena e deu uma ajuda mais vigorosa à senhora. 

Entretanto a tal funcionária histérica remoía entre dentes: “estão mal é habituados, têm é muitos luxos.” No entanto eu achava curioso que em certas alturas esta mesma funcionária olhava para mim e atirava-me um sorriso de compaixão e simpatia, eu correspondia não fosse ela zangar-se. Muito mais eu vi e a minha amiga também, instalando-se dentro de nós uma revolta silenciosa e comungada.

Hoje fui visitá-la a casa, está melhor felizmente, e vai ficar totalmente restabelecida, certamente. Os olhos deixaram de estar mortiços e o peito sem chiadeira nem solavancos. Tudo estava a entrar na normalidade, mas a nódoa negra marcada a socos nos nossos corações por aquele hospital, essa, não vamos conseguir curar.

Liliana Josué




Texto de Miriam de Sales Oliveira - O QUE ESPERAR DE 2015


O QUE ESPERAR DE 2015

Texto de Miriam de Sales Oliveira

Qualquer coisa será melhor que a decepção dos 7xI da Copa de 2014,diz um amigo ainda desolado.

Pois é ,provamos um prato amargo que  pôs abaixo uma velha ilusão:não,nós não temos o melhor futebol do mundo.Depois disto nossas esperanças desceram ladeira abaixo,como uma pluma ao vento.

Mas,passada a dor da desilusão  aprendemos que nossa vida  é  constituída  de ciclos: infância,juventude,maturidade ,velhice e morte.Tudo tem início ,meio e fim.O tempo é inexorável.

Estaria nosso país vivendo o fim de um ciclo?

Temos que voltar a crescer,temos que ouvir mais as ruas,temos que combater a corrupção,temos que nos livrar de velhos dogmas,como este do futebol,por exemplo,que estilhaçou nossa autoestima.Afinal,quem somos nós? Que país  queremos ser?

Uma coisa é certa,temos que deixar de ser o “país do futuro” e passarmos a pensar no presente.Deveremos ser mais responsáveis e mudar o que precisa ser mudado.Doa a quem doer.

Criticar não  resolve nada.Mas,realizar,sim.Que tal levantarmos o traseiro da poltrona,arregaçar as mangas e entrar na luta?Somos o povo que detém o poder,somos um conjunto de cidadãos ,a sociedade civil capaz de realizar mudanças,a começar pelo voto consciente e pela análise profunda dos acontecimentos.Mahatma Gandhi   nos aconselha:”-Seja você a mudança que deseja ver no mundo. “

2015 sinaliza para a maior participação popular, para uma maior consciência em relação aos direitos e deveres,para cobranças pacíficas e para o fortalecimento das instituições.

Temos “quase” tudo,só nos falta um povo esclarecido e consciente.

Miriam de Sales Oliveira



Conto Crónica de Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU


O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

Conto Crónica de Daniel Teixeira


O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.

Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras.

Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.

Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.

A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.

Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.

No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...

Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.




Conto Crónica de Daniel Teixeira - O casal hippie


Conto Crónica de Daniel Teixeira


O casal hippie

Quando da minha travessia por Espanha nos anos 60 apanhei boleia de um casal hippie que tinha tudo aquilo que normalmente se diz que os hippies tinham.

A moça era simpática, tinha uma cara mesmo linda, lourinha, mas via-se que o cabelo havia tempo que não via água o que me fez depressa adivinhar que o resto do corpo dela também não, embora aquele intenso perfume marroquino, o patchouli, no qual ela parecia ter-se banhado, afastasse qualquer onda de outro adivinhável mau cheiro.

Ele não lhe ficava atrás embora não me parecesse que usasse o tal perfume.Tinha cheiro a suor puro, intenso e devia ser gorduroso também, pois, de barba desgrenhada, o cabelo derramava-se sobre os seus ombros em pastéis de cabelo colado tal como a barba.

Os caracóis dele e uma fita vermelha a barrar-lhe a fronte disfarçavam um pouco o desarrumado pessoal composto ainda por um colete em imitação de cabedal com negruras gordorosas nas mangas, nos bolsos, no colarinho e sabe-se lá onde mais.

Tinham uma daquelas carrinhas volkswagen (pão de forma) e na parte traseira, que foi onde ficámos os dois, eu e ela, havia um colchão preso por elásticos à parte lateral do furgoneta. Talvez por simpatia ela optou por vir fazer-me companhia na parte traseira, o que achei bem, mesmo que ela tivesse aproveitado a oportunidade para acender um charro e tentado partilhar com o condutor e comigo uma passa ou duas.

Eu não aceitei e simpaticamente disse quer era asmático e ainda tossi rouco um bocado para confirmar, mas para ela tudo bem, era verdadeiramente uma simpatia e resolveu fazer a parceria exclusivamente com o seu cara metade.

Fizemos cerca de duas horas de viagem juntos, o carro não era propriamente um fórmula 1 como se entende e acabámos por parar uns minutos enquanto eles entusiasmados tiravam fotos a uma enorme e solitária estátua de um pastor de ovelhas numa região perto de Vitória que teria esse seu símbolo.

Mais à frente à beira da estrada um indivíduo fardado fazia sinal para parar com a mão em palma o que assustou um pouco os meus companheiros ocasionais que começaram a murmurar «polícia, policia». Mas à medida que nos aproximávamos reparei que ela aí deitar qualquer coisa pela fresta da lateral porta de correr.

Eu já tinha achado estranho que a polícia, mesmo a espanhola e para mim estrangeira, não trabalhasse em patrulha dupla e à medida que nos aproximávamos vi que era um soldado, um tropa que teria vindo passar o fim de semana a casa e que aproveitava a farda para conseguir boleia através daquele interessante expediente.

Enquanto que eu e todo o usuário deste meio de deslocação metia o polegar à estrada, ele fazia o alto, tipo polícia mesmo e safava-se, pelos vistos. Ali safou-se...

Depois de eu ter dito que era «apenas» um soldado o «material» voltou ao lugar donde tinha saído, algures de entre as inúmeras saias que a jovem trazia vestidas e «acabámos» por dar boleia ao rapaz, que por acaso depois mostrou ser bastante humilde e de bom trato.

Largámo-lo nos arredores de Vitória, onde próximo deveria ser o seu quartel e foi depois dele se ter ido embora que eles me começaram a agradecer pela informação, que lhes tinha salvo o material que levavam e que seria difícil e dispendioso arranjar de novo.

Isto é uma pequena história, que tem um fundo moral, apesar de eu ter ajudado numa coisa que não é muito regular embora na altura fosse relativamente usual entre aquele pessoal.

O que me faz imaginar esta história é que aqueles dois ainda miúdos, de dezoito vinte anos no máximo, certamente fizeram como quase toda a gente daquela altura que eu conheci: tiraram um Curso Superior e transformaram-se ou em empresários ou quadros superiores de qualquer empresa.

De quase certeza um dia encontrarão num baú esquecido num sótão as tais fotografias da estátua do pastor de ovelhas, que depois largarão rindo muito alguns segundos porque estão com pressa. É fim de semana e têm de sair com os filhos e os netos.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Crónica de Gociante Patissa - «O QUE VEJO POSSO TRANSFORMAR EM ARTE, SÓ QUE NÃO CONSIGO ESCREVER»


Crónica de Gociante Patissa

«O QUE VEJO POSSO TRANSFORMAR EM ARTE, SÓ QUE NÃO CONSIGO ESCREVER»

Quando me consegui livrar do turno, delegando tarefas ao pessoal à disposição, estava a uma hora da entrevista em directo ao programa da amiga Lena Sebastião, na Rádio Benguela.

Tinha feito trinta quilómetros ao volante entre uma cidade vizinha e a casa, o mesmo trajecto que uso para relaxar, neste gozo que é conduzir, sozinho, ouvindo o que apetece e no volume que a alma entende. Mas a fórmula estava fora de hipótese nesse exacto dia. Sim, porque, por uma causa bem justificável, embora não seja para aqui chamada, eu tinha passado a noite de sexta para sábado no assento do motorista, onde aliás me foi servido o jantar, tão-só na principal avenida do centro do Lobito.

Nesta época do ano, o litoral é quente e húmido, o que em nada alivia o stress; daí depositar esperanças na terapia do chuveiro. Posto em casa, nada de água na torneira, banho frustrado! É que, como raramente a água falha, perdi o hábito de ter alguma na reserva. Dei meia-volta em direcção ao Largo de África para tirar a poeira do carro. Apenas um “limpador” se encontrava em serviço, engajado já em outra empreitada. Não era prudente esperar pela nossa vez, dada a natureza gasosa do tempo em rádio.

Música alta vinha do jardim. O dístico falava em feira do livro, quando só se viam uma tenda com livros, uma com produtos de alfaiataria e outra com artesanato. Bem, como não há meio-buraco, uma feira é feira a partir da sua intenção, deduzi. Por puro hábito, fiz algumas fotografias. Saudei duas pessoas conhecidas ali e retirei-me.

Um quarto para 16h00. Caminhava, apressado, para o carro, tão contra que sou relativamente ao atraso de convidados quando faço rádio. Para piorar, um adolescente vinha a correr em minha direcção. Inferi logo que alguém me havia referenciado a ele. «Desculpa, quanto tempo leva para escrever um livro?», questionou-me, humilde e sonhador, como se eu tivesse autoridade alguma. Numa cuidadosa selecção de palavras, tirei a coisa da esfera da contabilidade para focar na da maturidade. O importante é o exercício permanente de ler e escrever, e não já criar a pensar no livro ou no disco.

«Para mim, que tenho dificuldade na escrita, tem que ser disco, não?» Bem, eu sou mais inclinado para o livro do que para o CD de poesia. Mas é assim: a escrita é combinar a criatividade com o domínio da ferramenta de trabalho, a língua. Tens dificuldades de escrita, como? «A trombose que me fez assim - indicava a sequela do seu lado esquerdo - prejudicou o cérebro». Anda na 6ª classe do ensino especial e já reprovou duas vezes. Minhas emoções misturavam-se, tendo em conta a empatia e a crise de tempo.

Mas se não consegues ler nem escrever, como identificas a poesia? «Eu me inspiro em tudo, numa festa, jogo de futebol, num filme; tudo o que vejo posso transformar em arte, só que não consigo escrever. Por isso, penso no disco».

Neste caso, a gravação pode ser uma técnica de evitar dispersão, para mais tarde, com ajuda de alguém, cuidar da correcção. Se decidires ficar pelo CD de poesia, tudo bem, desde que seja um trabalho com maturidade. De contrário, o mercado literário pode anular o teu esforço.

Devo ter-lhe confundido ainda mais, mas não sei falar ao contrário do que penso.

Gociante Patissa, Lobito 15 de Abril de 2013