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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O longo Inverno - Conto por Arlete Piedade


O longo Inverno

Conto por Arlete Piedade

Era inverno e chovia há muitos dias. Já tinha passado o Natal e outro ano se tinha iniciado e não parava de chover. O mês de Janeiro estava quase no fim e desde o princípio de Dezembro que chovia sem parar.

Francelina era a mais velha das quatro irmãs que viviam naquela casa quase isolada no pequeno aglomerado de casas, longe da aldeia, no meio dos campos. A norte era rodeado de pinhais e a sul, uma vasta campina atravessada de um ribeiro de água fresca e cristalina, estendia-se a perder de vista em direcção ás aldeias vizinhas.

Na margem do ribeiro, um velho moinho de água, moía incansável o trigo e o arroz, necessário á vida da aldeia e nos campos alagadiços, criava-se arroz, milho, e cultivavam-se hortas e vinhas.

Todas as famílias, tinham o seu pedaço de terra na campina, mas os pais das quatro irmãs, tinham também outras propriedades na aldeia vizinha de onde o seu pai era natural. Mas eram terrenos cultivados com oliveiras herdadas de varias gerações.

Todos os anos no outono as irmãs iam apanhar as azeitonas para levar para o lagar e extrair o azeite dourado que era depois guardado nas talhas em barro durante o inverno longo.

Durante o verão, Francelina e as suas irmãs, Amélia, Laura e Gertrudes, iam trabalhar nos campos de cultivo intensivo perto da cidade, a mais de 30 kms de distância. Estava-se em 1950, os tempos ainda eram de recuperação da grande guerra, e as irmãs deslocavam-se a pé acompanhadas do seu burro, que carregava as ferramentas de trabalho e os mantimentos necessários para a sua subsistência, bem como alguma roupa.

A sua mãe sempre doente, ficava em casa na companhia do marido que era pedreiro. Mas naqueles tempos, as casas eram construídas de adobes, que eram grandes blocos feitos
de terra prensada e seca dentro de moldes de madeira, e que eram retirados e colocados nos lugares, para fazer as paredes, transportados ás costas, pelos pedreiros e seus ajudantes.

Então a somar á doença da mãe, juntava-se o cansaço do pai, prematuramente envelhecido e sempre com dores nas costas. Quando as filhas chegavam dos campos estavam á espera da sua magra jorna, para pagar as contas do médico e dos remédios, bem como da mercearia da aldeia, que lhes dava crédito porque sabia que as filhas iam trabalhar e ganhar algum dinheiro.

Mas durante o inverno, não havia trabalho. Os campos estavam alagados com as cheias do rio Tejo, e não se podia cultivar. Entre Outubro e Março, eram os tempos das vacas magras. Valia-lhe os «fiados» e o azeite armazenado nas bojudas talhas de barro.

Quando a fome apertava e o dono da mercearia e da farmácia começavam a pedir se podiam pagar, o pai só tinha uma solução. Dizia á filha mais velha:
 - Francelina, vai lá encher uns garrafões de azeite, que eu vou vendê-los á feira amanhã! – E diz ás tuas irmãs, para darem mais uma ração ao burro, para ver se ele pode com os garrafões que eu preciso de o levar!

Era o que as irmãs queriam ouvir. Estavam cansadas de estar fechadas em casa e de ver a chuva cair lá fora. Agora era ver quais delas, conseguiam convencer o pai a acompanhá-lo á feira.

Tinham ouvido dizer que os serradores da aldeia vizinha também já tinham voltado das florestas da Beira Baixa e sabiam que um deles andava interessado na irmã mais velha. Pelo menos ela tinha que ir á feira com o pai. Quem sabe o encontrava e o namoro não ia em frente. Pelo menos era menos uma boca para alimentar.

No dia seguinte iniciaram a jornada ainda era de noite. O burro estava bem alimentado e os garrafões de azeite foram colocados nos ceirões e amarrados com cordas. Depois de comerem umas sopas de pão de milho duro, molhadas em café, pai e filha colocaram-se a caminho do mercado que era na vila distante 10 kms. Demoravam cerca de três horas e tinham que estar lá bem cedo para apanhar um bom lugar e poderem vender o azeite por um preço melhor.

Apenas Francelina como a mais velha, pode acompanhar o pai que ia á frente pelo estreito caminho á beira do regato, levando o burro pela arreata . Atrás seguia a filha, que com 22 anos e habituada ás longas caminhadas, não tinha problemas em fazer a caminhada até á vila.

Ia contente, a pensar no seu pretendente. Ele era da aldeia vizinha e tinha uma propriedade ao lado de uma do seu pai. Nesse Outono quando estavam a apanhar a azeitona, ele andava também a fazer o mesmo trabalho e tinham conversado um pouco.

Ele tinha-lhe dito que era serrador e que ia estar fora até ao Carnaval, porque ia serrar para longe, para a Beira Baixa, e que lá fazia muito frio e caía neve. Ela tinha gostado da conversa dele e tinha-lhe dito também que no verão ia trabalhar para os campos da lezíria do Tejo, para ajudar o pai a pagar as contas.

Durante as semanas em que tinham apanhado azeitona nas propriedades vizinhas, os dois jovens tinham ficado mais amigos e todos os dias se falavam. Quando a adiafa chegou, que era a festa do final da apanha da azeitona, tinha havido um baile e tinham dançado juntos todas as danças.

Depois cada um seguiu o seu caminho, com a promessa de se verem no mercado pelo Carnaval. Francelina ia ligeira e mal sentia os pés tocarem no chão. Esperava pelo pedido de namoro e em resolver a sua vida.




quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Conto de Liliana Josué - Aguarela


Aguarela


Conto de Liliana Josué


Enquanto caminhava deparei com um espectáculo digno dos deuses de gostos mais requintados.

Não pela sua magnificência, mas pela singeleza, constatando que muitas vezes ali passara sem que realmente nada tivesse visto, na pressa da minha vida.

A planície era um manto longo a deixar de se ver. Papoilas vermelhas de olhar atrevido salpicavam o extenso tapete verde. O sol, estrela imponentemente e estática, ruborizava ainda mais essas frágeis criaturas, ao mesmo tempo que doirava os pequenos mal-me-queres que por ali se espraiavam.

Alguns chorões deixavam que a brisa acariciasse suas macias cabeleiras, num rostilhar de perpétuo alívio e bem estar, murmurando segredos que só ela entendia.

E os gira-sois, que seres simpáticos e divertidos, de grandes olhos castanhos enfeitados de loiras pestanas, cantavam o sol em felicidade suprema e, quando ele partia, baixavam suas cabecitas e adormeciam rezando para para que nunca lhes faltasse.

Prestei mais atenção em meu redor e deparei com duas delicadas borboletas, de sedosas asas brancas, poisando num discreto lírio cor de marfim, acasalando felizes. Todos os outros lírios viraram suas corolas em direcção ao pequeno riacho num sorriso envergonhado.

Este, corria um tanto travesso por entre as pedras, suas companheiras, vestidas de verde musgo e adornadas por avencas.

Não resisti por muito tempo a descalçar meus pés e mergulhá-los nessa água de cristal. Arregacei a comprida saia azul- marinho sarapintada de cerejas encarnadas, tirei o chapéu de palha decorado com uma fita cor-de rosa e ramo de violetas. Coloquei-o sobre a margem; manta castanha protectora do riacho.

Senti um frio que me arrepiou a espinha, olhei para baixo num pasmo estático e assim permaneci sem tempo. Em seguida, meus pés dançaram num serpentear de água, brincaram lá no fundo, sobre a condescendente areia. Meus dedos ondulantes arrebitaram como meninos traquinas. Deleitada sorri para a o riacho frio, ele numa atitude gaiata devolveu-me esse sorriso.

O arrepio desapareceu e a alegria invadiu-me.

Dei um grito de libertação enquanto meus desgostos eram levados por aquelas renovadoras águas de mistério.

Pulei para fora do riacho e corri até mais não poder, de saia esvoaçando pelo vento e cabelos flutuando pelo ar.

De exaustão deitei-me sobre a terra quente, senti seu coração a palpitar e o som da vida em permanente actividade.

Apertei-me toda contra ela e, sem saber porquê, chamei-lhe MÃE.


Liliana Josué 




Conto Crónica de Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU


O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

Conto Crónica de Daniel Teixeira


O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.

Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras.

Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.

Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.

A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.

Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.

No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...

Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.




Conto Crónica de Daniel Teixeira - O casal hippie


Conto Crónica de Daniel Teixeira


O casal hippie

Quando da minha travessia por Espanha nos anos 60 apanhei boleia de um casal hippie que tinha tudo aquilo que normalmente se diz que os hippies tinham.

A moça era simpática, tinha uma cara mesmo linda, lourinha, mas via-se que o cabelo havia tempo que não via água o que me fez depressa adivinhar que o resto do corpo dela também não, embora aquele intenso perfume marroquino, o patchouli, no qual ela parecia ter-se banhado, afastasse qualquer onda de outro adivinhável mau cheiro.

Ele não lhe ficava atrás embora não me parecesse que usasse o tal perfume.Tinha cheiro a suor puro, intenso e devia ser gorduroso também, pois, de barba desgrenhada, o cabelo derramava-se sobre os seus ombros em pastéis de cabelo colado tal como a barba.

Os caracóis dele e uma fita vermelha a barrar-lhe a fronte disfarçavam um pouco o desarrumado pessoal composto ainda por um colete em imitação de cabedal com negruras gordorosas nas mangas, nos bolsos, no colarinho e sabe-se lá onde mais.

Tinham uma daquelas carrinhas volkswagen (pão de forma) e na parte traseira, que foi onde ficámos os dois, eu e ela, havia um colchão preso por elásticos à parte lateral do furgoneta. Talvez por simpatia ela optou por vir fazer-me companhia na parte traseira, o que achei bem, mesmo que ela tivesse aproveitado a oportunidade para acender um charro e tentado partilhar com o condutor e comigo uma passa ou duas.

Eu não aceitei e simpaticamente disse quer era asmático e ainda tossi rouco um bocado para confirmar, mas para ela tudo bem, era verdadeiramente uma simpatia e resolveu fazer a parceria exclusivamente com o seu cara metade.

Fizemos cerca de duas horas de viagem juntos, o carro não era propriamente um fórmula 1 como se entende e acabámos por parar uns minutos enquanto eles entusiasmados tiravam fotos a uma enorme e solitária estátua de um pastor de ovelhas numa região perto de Vitória que teria esse seu símbolo.

Mais à frente à beira da estrada um indivíduo fardado fazia sinal para parar com a mão em palma o que assustou um pouco os meus companheiros ocasionais que começaram a murmurar «polícia, policia». Mas à medida que nos aproximávamos reparei que ela aí deitar qualquer coisa pela fresta da lateral porta de correr.

Eu já tinha achado estranho que a polícia, mesmo a espanhola e para mim estrangeira, não trabalhasse em patrulha dupla e à medida que nos aproximávamos vi que era um soldado, um tropa que teria vindo passar o fim de semana a casa e que aproveitava a farda para conseguir boleia através daquele interessante expediente.

Enquanto que eu e todo o usuário deste meio de deslocação metia o polegar à estrada, ele fazia o alto, tipo polícia mesmo e safava-se, pelos vistos. Ali safou-se...

Depois de eu ter dito que era «apenas» um soldado o «material» voltou ao lugar donde tinha saído, algures de entre as inúmeras saias que a jovem trazia vestidas e «acabámos» por dar boleia ao rapaz, que por acaso depois mostrou ser bastante humilde e de bom trato.

Largámo-lo nos arredores de Vitória, onde próximo deveria ser o seu quartel e foi depois dele se ter ido embora que eles me começaram a agradecer pela informação, que lhes tinha salvo o material que levavam e que seria difícil e dispendioso arranjar de novo.

Isto é uma pequena história, que tem um fundo moral, apesar de eu ter ajudado numa coisa que não é muito regular embora na altura fosse relativamente usual entre aquele pessoal.

O que me faz imaginar esta história é que aqueles dois ainda miúdos, de dezoito vinte anos no máximo, certamente fizeram como quase toda a gente daquela altura que eu conheci: tiraram um Curso Superior e transformaram-se ou em empresários ou quadros superiores de qualquer empresa.

De quase certeza um dia encontrarão num baú esquecido num sótão as tais fotografias da estátua do pastor de ovelhas, que depois largarão rindo muito alguns segundos porque estão com pressa. É fim de semana e têm de sair com os filhos e os netos.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Pónei SPARK - Conto de Arlete Piedade


O Pónei SPARK

Conto de Arlete Piedade

Era uma aldeia perdida no alto de uma montanha num país longínquo no centro da Europa. Quando vinha o inverno, caía muita neve e os caminhos estreitos que contornavam a montanha, ficavam escorregadios para as crianças poderem descer para o vale para irem á escola.

Os pais tinham receio que elas caíssem e se ferissem gravemente, ou até morressem enterradas na neve, antes que alguém as conseguisse encontrar e socorrer, mas o grupo de cinco crianças, era tenaz e com muita vontade de aprender para puderem sair da aldeia e tentar uma vida melhor na vila ou, do outro lado do rio, na cidade grande.

Marina, era a mais velha das meninas com 10 anos. As gémeas Mónica e Sofia, vinham logo a seguir, com 8 anos. Os dois rapazes, eram os irmãos Santiago com 11 anos e Ruben, com 7 anos. Num dia muito frio e sem sol, uma semana antes do Natal, o grupo de crianças seguia em fila pelo estreito carreiro, Santiago á frente, seguido do Ruben, as gémeas a seguir e Marina atrás fechando a retaguarda, quando a neve começou a cair espessa e soprada pelo vento gelado.

As crianças deram as mãos para se apoiarem, mas quando soprou uma rajada mais forte, Ruben, foi projetado contra a parede rochosa da montanha e escorregou, arrastando consigo Mónica que vinha atrás dele.

Santiago na tentativa de agarrar o irmão, foi precipitado no desfiladeiro, dando um grito estridente que fez eco por todo o vale. As crianças não perceberam o que ele gritou, exceto Marina que vinha atrás e tinha ficado de mão dada com Sofia, as duas tremendo e tiritando de choque e frio.

Por isso não souberam explicar aos pais, o que se tinha passado a seguir. Apenas diziam que tinham visto um cavalinho brilhante, de várias cores, que trotava rente ao caminho, com uma longa cauda esvoaçando ao vento e que mergulhou no desfiladeiro. Quando reapareceu, trazia Santiago montado na garupa, abraçando Ruben na sua frente e agarrada ás suas costas, a pequena Mónica.

- Sou o pónei Spark – Eles escutaram a voz meiga, ressoando dentro das suas cabeças. - A partir de hoje, quando estiverem em dificuldades, chamem por mim, e virei para levá-los até ao vale.

Quando recuperaram do choque, a escola estava á vista, não havia sinais de neve e o sol brilhava. Por todo o lado, havia flores vistosas e erva tenrinha. Ao longe pareceu-lhe ver um pequeno cavalo que pastava e trotava feliz, por entre um arco-íris de cores coloridas e luminosas.

Arlete Piedade

Portugal