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domingo, 16 de agosto de 2015

Os saltimbancos - Conto de Maria Petronilho

 
Os saltimbancos
 
Conto de Maria Petronilho

Chegaram em carroças.
 
Os miúdos da aldeia medieval onde estive entregue ao abandono, corriam atrás, rindo muito dos velhos chapéus de palha que os burros levavam enfiados nas cabeças, as orelhas felpudas surgindo por entre dois buracos, disfarçados com flores de papel desbotado.
 
E à noite, lá fomos: eu, a minha avó e a Henriqueta, juntar-nos à roda de povo no pequenino largo.
As pessoas, de escuro no escuro, ficaram de pé.
Os aparelhos eram cadeiras, mesas e duas estacas espetadas no chão de terra batida, uma corda esticada entre elas.
 
Os artistas vestiam farrapos, velhos e rotos.
 
Na roda dos pobres, aquela miséria extrema provocou comentários.
Sobretudo a magreza da menina que atravessou de braços no ar, a corda. Levezinha como uma borboleta, ameaçando partir a voar.
 
A contorcionista vestia um maillôt e estava tão grávida que as mulheres cochichavam entre si:
- Coitados, já começam a trabalhar na barriga da mãe.
Na meia-luz dos lampiões, pouco mais vi que a lástima.
 
Escutava o que se dizia à volta, e no fim um menino pequeno e sério passou por entre todos o chapéu do pai, que apresentara o espectáculo, sem fausto.
 
Os homens remexeram as moedas raras no fundo dos bolsos das calças surradas, as mulheres remexeram as bolsas de feltro que ainda se usavam por baixo dos aventais.
 
E os tostões, pequeninos e negros, iam caindo um a um, dois a dois... com esforço, num mudo entendimento da fome compartilhada.
 
Só as crianças sorriram e bateram palmas. Os artistas aplaudiram no fim a plateia improvisada.
 
Nunca, nunca na minha vida gostei de circo!
 
Nem no Coliseu, por detrás da praça dos Restauradores, onde ofereciam bilhetes no Natal aos filhos dos funcionários, nem na TV do Circo do Mónaco, nem do magnífico circo de Moscovo.
 
Aquele primeiro que vi e ainda vejo por detrás das lágrimas que sinto bastou-me para toda a vida!


 

A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote» - Conto de João Furtado

 
A Lenda da Senhora Matilde e da «San Líjà Bote»
 
Conto de João Furtado
 
 Vestida imaculadamente de branco, a senhora Matilde, sim era este o nome da velha que diariamente sentava-se a berma do rio Papagaio.
 
Usava saias longas e de pregas e uma blusa de mangas folhadas. Esperava alguém, alguém que deveria voltar e nunca mais voltaria. Aquela zona era denominada de «San Lijà Bote», em português, senhora Luísa Bote.
 
Que esperava a senhora Matilde? Alias quem esperava ela?O João diariamente passava por ela e tornava a passar. Passava para ir a escola e passava de novo quando voltava para a casa. A senhora Matilde lá estava.
 
Ia bem cedinho e só regressava a noite. Há anos que ela passava o dia sentada. Alimentava de cola e agua. Graças a Deus a cola era uma semente milagrosa. Bastava uma semente para não se sentir a fome durante longo período do dia e era fácil de se conseguir.
 O fazia ela sentada ali e quem esperava ela?
 A agua cristalina e transparente descia rio abaixo até o mar alheio a tudo e a todos e a Senhora Matilde, alheia a tudo que passava a sua volta fixava os olhos no rio e via a agua correr na sua trajectória milenar, enquanto respondia a todos que por ela passassem o «Passô» com outro «passô».
 
Ninguém mais se importava com ela. O hábito de ficar sentada a beira do rio já se havia transformado em normal, natural. Um tão estranho hábito tornou-se habitual e quando o estranho se transforma em normal, ninguém mais liga. A Senhora Matilde já tinha se tornado em parte integrante do ambiente.
 
Um dia ela não pode ir, ela tinha apanhado uma ligeira gripe, ai sim todos acharam anormal e correram para a casa dela, para saberem o que havia acontecido com ela.
 
O João sabia o caminho que devia seguir de cor e salteado. Nunca deveria encurta-la. Devia ir tomar sempre a ponte e atravessar o rio, seja porque razão ou motivo for.
Mas naquele dia estava com pressa e o rio parecia tão calmo… podia saltar a casa ficava a poucos metros da margem do outro lado do rio.
 
Já estava a entrar na água quando ouviu a Senhora Matilda a chama lhe:
- Mino, minooooooooo, vem cá!
 Voltou, veio responder, na Ilha era assim, todos se conheciam e se respeitavam, uma Ilha pequena e uma cidade ainda mais pequena.
 
Tornou a dizer «passo» era o costume. Se encontrassem mil vezes, mil «passo» era dado.
-Sabes porque estou cá sentada? Não, não sabes! Tenho uma única filha, a Maitê, devia ter tua idade quando entrou na água, precisamente onde ias entrar. Nunca mais voltou e eu estou cá a espera dela, um dia haverá de voltar.
-Para onde foi ela?
-A «San Lijá Bote» levou-a para o seu mundo. Todos dizem que ela nunca mais voltará, mas eu sei que um dia a Maitê voltará. Um dia a “San Líjá Bote» deverá dormir e ela fugirá e regressará.
 
-Há quantos anos ela desapareceu?
-Há mais de trinta anos, mas vou esperar, vou esperar até o dia que ela regressar, irá voltar um dia! Era um dia de sol como hoje. A água estava cristalina e transparente. Ela vinha em grupo da escola. Entrou na agua e as colegas ficaram a vê-la, de repente fez um remoinho no meio do rio e ela foi puxada. As outras crianças viu-a a ser puxada e nada podiam fazer, até que ela se perdeu para sempre.
 
-A senhora vai ficar aqui mais quanto tempo? Porque não entra no rio e vai procurar a sua filha?
 
A senhora Matilde não respondeu. Caiu de novo no seu silencio e na sua resposta ao «passo» que os habitantes da Ilha lhe desejava…
 
Por muito tempo o João e os habitantes da ilha continuaram a ver a senhora Matilde imaculadamente vestida de branco sentada esperando a filha Maitê. Até que um dia ela deixou de ser vista. Procuraram-na por toda a Ilha, mas ninguém a encontrou. Ninguém soube ao certo o que aconteceu com a Senhora Matilde.
 
O João tinha uma certeza, a Matilde havia entrado no rio, havia ido procurar a Maitê e a «San Lijá Bote» ficou com ela também. Disse para toda a Ilha, afirmou que foi ele que a aconselhou a fazer tamanho disparate, mas ninguém acreditou nele.
 
Ainda hoje fala-se na «San Lijá Bote» na sua fome insaciável de povoar o seu reino encantado e também fala-se do desaparecimento misterioso da Matilde.
 
Mas nunca ninguém ligou os dois casos.
 
Ninguém não, o João os ligou sempre.
 

 

Ternura... - Conto de Irene Fernandes Abreu in Blogue Valium 50

 
Ternura...
 
 

 
 Marisa deu uma corrida e ainda conseguiu apanhar o comboio, que fechou logo as portas mal ela entrou. A carruagem nem estava muito cheia.
 
Olhou indecisa para o banco que estava logo à entrada da porta para se sentar, mas desistiu da ideia, porque a mulher que lia uma revista, estava sentada de tal forma, que não sobrava muito espaço para ela. Foi então que reparou na velhinha num dos bancos a meio da carruagem, que lhe lançou um sorriso convidativo:
- «Ah menina, ainda bem que se sentou aqui, estava com medo que fosse aquele sujeito que tem ar de ladrão...»
 
Ela sorriu e acenou com a cabeça, num gesto cúmplice.
 Sentada à janela do comboio, a velhinha confidenciou que já tinha tirado os «ouros», ou seja, os fios e pulseiras que habitualmente usava e que vinham já da sua avó. Filigranas raras, deviam valer bom dinheiro, se a roubassem... nem queria pensar no desgosto.
 
Tinha medo andar com eles assim à vista, pois o caminho da estação até a casa, a pé, era escuro e longo e agora andava por aí tanta malandragem, que todo o cuidado era pouco.
 
A «menina» olhou a idosa e enterneceu-se, lembrava-lhe a mãe, já falecida. A velhinha continuou a tagarelar, falando da filha, dos netos, da vida cara, do tempo cheio de humidade, que lhe atacava o reumático...
 
 Saíram na mesma estação e foi cada uma para seu lado, enquanto a jovem se metia no carro, estacionado mesmo ali, a velha senhora seguia devagar junto à linha. Ela olhou-a e, lembrando-lhe mais uma vez a figura da mãe, sentiu uma enorme ternura.
 
O seu carro já tinha percorrido alguns metros, quando num impulso, meteu marcha -atrás e parou junto da velhinha:
-«Avozinha, entre!» - disse com um sorriso meigo, esticando o braço e abrindo-lhe a porta do lado do passageiro.
 
Depois de a deixar à porta de casa, feliz por não ter de fazer a tal caminhada cheia de perigos de assaltantes e, entregue à filha e aos netos, Marisa retomou o seu caminho.
 
Chegou a casa, cansada mas contente. Bebeu um café e só então abriu a mala e despejou em cima da mesa o espólio desse dia, conseguido à custa de uns tantos empurrões nos transportes públicos...


 

 

domingo, 28 de junho de 2015

QUANDO AS FOLHAS CAEM - Texto de Liliana Josué


QUANDO AS FOLHAS CAEM

Texto de Liliana Josué

 O velho Manuel era um homem alto e pesado; olhos pequenos, ligeiramente rasgados e brilhantes, de tom pardo e vivos como os de uma criança.

Os cabelos brancos ainda se mostravam um tanto vaidosos do seu vigor, emoldurando graciosamente as aquelas faces bordadas de rugas.

 Suas mãos eram mapas de gelhas, salpicadas de largas sardas acastanhadas mas ainda com alguma destreza. As pernas é que já não tinham a agilidade de antigamente e os pés arrastavam ligeiramente pelo chão.

No entanto, o seu porte era ainda contornado de certa virilidade.

 Cansado de olhar as grandes vespas do jornal, pois a vista para pouco mais dava, levantou-se do puído sofá, outrora verde, adornado de outonais folhas castanhas, saindo em direcção ao jardim perto de sua casa.

 Enquanto caminhava lentamente, nesse fim de tarde, ouvia os pássaros num cântico murmurado de saudade pelos apetecidos dias de verão.

 Manuel sentou-se num banco de madeira pintado de verde, debaixo de uma grande amoreira. As folhas fustigadas por ligeira aragem, cantarolavam nostálgicas melodias de despedida, e num recato de fim de tempo caíam uma a uma, no seu amarelo envelhecer, enquanto se ofereciam dóceis , em tapetes macios, aos pés daquele homem.

 Na relva verdejante, bandos de crianças corriam e gritavam, como pássaros acabados de aprender a voar, no seu entusiasmo de brincadeiras que só a elas diziam respeito.

 Havia ainda cães brincando com seus donos em corridas e saltinhos, de rabito espetado, numa felicidade sem limites. Enquanto outros, de pelo frouxo e olhar triste, fugiam de cauda encolhida na certeza de não serem desejados.

 Manuel tudo via e entendia. Inclinou um pouco a cabeça para trás, observando o céu acinzentado, e um leve sorriso marcou-lhe a boca de lábios finos. «Os eternos contrastes e desigualdades».

Um vento mais forte soprou num uivo de lobo, e o tapete de folhas mexeu-se num seco rostilhar, chamando a atenção daquele homem. Este olhou-as, agora atentamente, vergando lentamente o corpo.

Os seu pés mal se viam submersos naquele acolhedor tapete matizado. Numa admiração de velho que pensara já nada o perturbar, reparou serem elas também velhas mas belas.

 Esticou os braços e segurou algumas nas suas mãos. Chegou-as ao rosto inalando emocionado seu cheiro a terra, enquanto duas lágrimas traiçoeiras lhe rolaram pelas faces molhando as folhas quase mortas.

 Em atitude de abandono, ali permaneceu num abraço de cumplicidade, esperando serenamente algo de que sempre tanto medo tivera. Afinal a outra parte escura da vida também podia ser bela e repousante.

 Eis que uma nuvem de lindas folhas castanhas, amarelas e encarniçadas desceram suavemente pela árvore envolvendo totalmente o ancião, adormecendo este em doce serenidade.






 

Inesquecível Carrossel - Conto de José Pedreira da Cruz


Inesquecível Carrossel

Conto de José Pedreira  da Cruz

Era grande o movimento de gente que chegava para a festa da padroeira. A cidade já estava muito alegre e até o sino da igreja parecia musicado e mais festivo. As crianças corriam pra cima e pra baixo; pra lá e pra cá, alegrando a todos.

Um velho caminhão pára no centro da praça e dele desce um homem gorducho, carregando algumas ferramentas. A criançada, cheia de curiosidades, cerca o caminhão e tão logo se vai embora. Apenas uma ficou de plantão: o Chiquinho.

- Moço! O que está fazendo?

O homem de joelhos no chão, parou de cavar. Enxugou o suor da testa com a costa da mão, encostou a cabeça no cabo da cavadeira e, olhando para o menino, calmamente lhe respondeu:

- Estou cavando um buraco.

- Pra quê? Pra quê você quer esse buraco? - Insistiu o garoto.

- Para plantar um brinquedo. - Respondeu-lhe com um largo sorriso e voltou a cavar.

- O que é que tem em cima desse caminhão, moço?

- Um brinquedo! Um lindo carrossel!

- A gente pra brincar nele paga?

- Sim! Só duas moedinhas, um Real.

O menino ficou a se perguntar: - como será um carrossel? - E com um olhar inquieto começou a vistoriar aquele caminhão, enorme, coberto com uma lona amarela; parado na praça; bem na frente de sua casa. Ele via aquele caminhão como se fosse um brinquedo gigante e não parava de alisá-lo e de se olhar reflectido na pintura da boléia. Tudo lhe era novidade. E enquanto o homem cavava buracos na praça para erguer o carrossel, o menino fazia-lhe companhia e embaraçosas perguntas.

Suas curiosidades e a vontade de brincar no carrossel, eram tantas, que Chiquinho passou a desobedecer a sua própria mãe.

- Chiquinho! Oou Chiquinho. Eu vou te bater, entra! - Ela gritava a todo instante, para que o menino parasse de amolar ao homem e voltasse para casa. Mas ele dava pouca importância as ameaças de uma surra, pois o que mais lhe preocupava era ver o carrossel e nele poder brincar.

- Moço! Como é o carrossel?

- É grande! Tem luzes, cavalos, leões e elefantes. Você vai brincar nele? - Questionou-lhe o gorducho, enquanto, furiosamente, arremessava a cavadeira no buraco.

O menino fez cara de tristeza e aquietou-se. Ficou olhando para os cabelos esbranquiçados da barba do gorducho. Por pouco não lhe veio uma lágrima.

- Não! Não tenho dinheiro. Mamãe não tem dinheiro. Lá em casa, ninguém tem dinheiro. - Disse e depois se calou. Após um curto silencio o gorducho lhe consolou: - dinheiro você arranja. É fácil! Muito fácil. É só pedir

A noite não demorou e as luzes do carrossel piscavam dentro de seus olhos como se fossem estrelas. Muitas fantasias corriam em sua mente, mas sua felicidade era nula: todas as crianças do lugar brincavam nos cavalos, leões e elefantes, menos ele que, apenas, a tudo assistia correndo em volta do carrossel.

- Moço me dê uma moeda! Por favor, moço, me dê um dinheiro!

A resposta era-lhe sempre a mesma:

- Não.

- Moço deixa-me entrar! - E o bilheteiro dizia-lhe categórico:

- Não.

Aquele “não" deixava-o triste e magoado. Chiquinho percebia claramente que o caminhão iria embora e nunca brincaria num carrossel.

A festa acabou e todos se foram.

O homem desmontou o brinquedo e o cobriu com a mesma lona sobre o velho caminhão. Depois sumiu na curva da estrada, deixando para Chiquinho apenas o som de sua buzina como única recordação.

O menino voltou para casa e chorou.







José Pedreira da Cruz




 
Servidor Público do Estado de São Paulo.

Nasceu em 05 de Janeiro de 1948 em Sátiro Dias-Bahia/Brasil. Iniciou a escrever contos, crónicas e poesias aos cinquenta anos e, a cada letra que acrescenta a seus escritos, se sente mais prazeroso com a vida. Possui dezenas de textos em jornais, revistas e sites de literatura.




domingo, 17 de maio de 2015

A PENSÃO EM MARTINLONGO


A PENSÃO EM MARTINLONGO

Conto / Crónica de Daniel Teixeira


Ao longo destas minhas crónicas tenho falado já algumas vezes sobre o sacrifício que era para nós deslocarmo-nos de Faro a Alcaria Alta devido às muito más condições das estradas e ao deplorável estado dos arcaicos e desprezados pelas companhias, transportes públicos. Entre as diversas variantes para tentar adocicar o suplício do enjoo tínhamos uma que era ir até Martinlongo numa linha de transporte, passar lá a noite e seguir no dia seguinte na camioneta que partia de Martinlongo para Vila Real de Sto António logo manhã cedo. Ou seja, chegávamos por volta das 22 horas, dormíamos e partíamos de novo cerca das 8 da manhã.

Ficávamos então na Pensão da Dª Letícia que era a esposa do «ferrardorzinho» como lhe chamávamos porque era baixote e era ferrador entre outras coisas como aguadeiro nos períodos mais fracos e trabalhador de jorna noutras alturas. Era a única pessoa que conheci por aqueles lados com o chamado cabelo «cor de cenoura»: um dos filhos dele o H. também tinha essa cor de cabelo. Havia mais filhos e não me lembro quantos mas o casal era conhecido também pela sua grande contribuição para a natalidade do lugar. Um outro anda aqui por Faro também, o G. mas temos pouca lidação. O H. esse conhecemos bastante bem mas na altura era com eles todos que brincávamos quando lá íamos dormir à Pensão.

Sem vontade de comer nada acabávamos sempre com uma açorda com ovos escalfados, com umas migas de alho, uma canja quando havia galinha e conseguíamos brincar um bocado enquanto a minha mãe (ela também uma vítima do enjoo como nós) conseguia por a conversa em dia. A minha mãe levava sempre umas latas de leite condensado, um quilo ou dois de arroz e rebuçados para os miúdos.

Interessante como me lembro de coisas e como elas ficam gravadas em desfavor de outras, seguramente: os miúdos (como nós) embora fazendo parte de uma larga família onde claramente os meios não abundavam eram simplesmente impecáveis no trato, prestáveis ao ponto de irem connosco até à camioneta no dia seguinte ajudando na bagagem, corriam atrás da camioneta fazendo adeus e respeitavam a mãe de forma exemplar embora esta em muitos períodos do ano fosse sozinha em casa dadas as ausências para «ferrar» pelos Montes do marido.

No dia seguinte tínhamos pois de novo camioneta : eram só 10 Kms sensivelmente de Martinlongo à placa de Alcaria Alta mas o terror faria o seu efeito nem que fossem só 500 metros: o efeito psicológico era enorme e bastava aproximarmo-nos da garagem que era estação de chegada e de partida para o estômago começar às voltas. Como a estrada era direita já no planalto normalmente não havia problema de maior neste segundo troço mas o stress era bem pesado e só abrandava cá fora.

Ora, nestas condições porque íamos todos os anos a Alcaria Alta? Por um lado era bom estar por lá mas havia sempre a esperança de que «nesse ano se não vomitasse». Tínhamos quase uma escola com direito a Licenciatura sobre o enjoo. Um primo meu foi o teórico da na prática inaplicável teoria do estômago/copo cheio de água, os comprimidos mais diversos alegadamente contra o enjoo tinham marcas e composições renovadas todos os anos garantia-nos o farmacêutico, a estrada era melhorada também todos os anos sabia-se em boato, e havia um condutor, o Zé Mário, que sabia fazer muito bem as curvas: certo ou não isso nunca produziu efeito real visível e ele mesmo tinha o seu baldinho ao pé do assento não fosse o diabo tecê-las. Mas todos os anos havia uma renovada esperança...

O H. esteve uns quantos anos na Alemanha e penso que o G. também e outro cujo nome não fixo tem uma barbearia. Todos acabaram por se estabelecer, cada um em seu ramo: dos restantes não sei nada mas também não tenho perguntado e penso que havia também uma menina, talvez a mais velha, que já ajudava a mãe nas lides da casa.

O pai deles, o ferradorzinho, corria de Monte em Monte no seu labor de calçar os animais: gostava de ver quando ele estava em Alcaria Alta, normalmente um dia inteiro outras vezes mais. O posto de ferragem era encostado à taberna da Ti Inácia (e depois do Chico Artur também). Depois acabou por ser levantado naquele recanto um galinheiro rudimentar onde foram colocadas entre outras aves as exóticas galinhas de angola.

Para ferrar era preciso ter alguma prática e alguma experiência e, arrisco dizer, algum conhecimento da psicologia animal. Era preciso fazer um inventário dos tiques das bestas e do seu significado e era sobretudo preciso ganhar a confiança dos animais, aproveitar para fazer um estudo sumário do seu comportamento e regular-se muito pelo arquivo mental construído com muitos episódios já vivenciados.

Por vezes o ferrador passava a outro animal esperando que aquele acalmasse a sua estranheza, mudava-o de lugar de espera, alterava-lhe a orientação cardeal, enfim...eu acho que aquilo era uma verdadeira ciência.

Era também preciso saber quando se devia interromper a tarefa de descascar os cascos para que o animal pousasse a pata para descansar e escapar lesto quando de costas com uma pata traseira do animal entre as suas pernas sentia algum estremeção mais forte. Nas patas dianteiras os trabalhos eram menores e de menor risco, mas era sempre arriscado.

Não sei como as coisas são agora mas tenho um primo que foi fazer um desses cursos da CEE (como ainda se diz) para tratar das unhas das vacas: como toda a gente deve saber chegou-se á conclusão que vaca bem manicurada produz mais leite.

Ora ele descreveu-me que se mete o animal numa espécie de gaiola que se inclina com manivela a jeito em noventa graus e que depois se trabalha nas calmas...sentadinho.

Não sei até que ponto isso é aplicável a bestas mas na altura o sistema teria feito muito jeito ao ferradorzinho que contou ao que soube com pelo menos meia dúzia de coices, felizmente para ele e para a sua família nas partes «almofadadas» do corpo.



quarta-feira, 29 de abril de 2015

DE CORPO PRESENTE - Conto de Carlos Carvalho


DE CORPO PRESENTE

Conto de Carlos Carvalho


Foi quando se apercebeu de que vivia nas trevas não sabia desde quando. Com a descoberta, a compreensão exata e desagradável da ausência.

No desejo intenso de se tornar presente, tratou de utilizar-se: lançou um membro, arremeteu outro, em marradas sucessivas. À força de vibrar, tentou romper os muros que o rodeavam, mas a desconexão e a noite impediam-lhe o movimento. A sólida construção a tudo resistia. Exausto, abandonou-se ao tépido torpor que o massageava. E adormeceu por séculos e séculos.

Foi arrancado do sono pela convulsão noturna. As paredes infladas tremiam em espasmos contínuos; um mar negro e viscoso elevou-se do abismo; ondas fermentaram ao seu redor, engoliram-no e trouxeram-no de novo quando já se julgava perdido; corpos estranhos grudaram-se ao seu, aumentando a noção de limites. Debateu-se. Fugindo às barreiras que o aprisionavam e que agora ruíam, rastejou, escapando, lenta e exaustivamente dos tentáculos e escamas que insistiam em retê-lo na escuridão. Lutou e perdeu a consciência.

Acordou com a luz doendo nos olhos. O corpo pesava numa superfície fria e drapeada. Demorou a acostumar-se com a luz. Mas a alegria de se sentir presente, de ocupar o lugar que sempre lhe estivera reservado, deu-lhe forças e obstinou-o a educar-se.

Luz primeiro, conforme o constatado. Depois, manchas indecisas, flutuantes, que ao poucos se fixavam e tomavam formas onde ele se refletia e se via futuro. E sons que batiam dolorosamente nos tímpanos, tentando acomodar-se, e que eram rechaçados, estrangeiros. Pacientemente aprendeu a selecioná-los, a catalogá-los, a entender o significado de cada um.

E quando distinguiu claramente as formas, quando percebeu o sentido dos sons, foi tomado por uma grande saudade do lugar antigo. Um pânico maior abateu-se. Gritou.

Logo acorreram mãos que tentaram acalmá-lo e contra as quais se rebelou. Através das mãos que dele se apossavam, que dispunham dele, evidenciando a propriedade, compreendeu o real sentido de um mundo grosseiro e pesado que ameaçava esmagá-lo. Gritou mais.

Preocupados os pais, o médico os afastou do berçário, dizendo tratar-se de uma simples cólica intestinal.

Inútil qualquer esforço, bebeu, resignado, o chá de erva-doce que o forçavam a engolir. E gostou.




terça-feira, 28 de abril de 2015

Verão - Conto de Daniel Teixeira


Verão

Conto de Daniel Teixeira

Havia uma chaminé, uma chaminé pequena, branca e também tisnada de um negro não muito escuro. Quase nem se notava, o negro. A chaminé parecia assentar nas telhas, e era mesmo assim como eu digo, assentava, simplesmente, como se tivesse sido ali plantada. Era como se fosse uma árvore de tronco claro num chão de terra castanha.

Por aquilo que eu via era uma casa baixa, ou talvez eu estivesse num ponto mais alto que o seu solo, não vi isso desde logo. Há casas baixas, eu sei que há, mas assim tão baixas mostrando-me o telhado e o enfiamento das telhas logo ali à minha altura, isso não. Teria de ser uma casa muito baixa, demasiado baixa para ter gente.

E tinha gente, tinha que ter. Havia um fumo ligeiro, esbranquiçado que saía do rendilhado da chaminé, assim - e fiz um gesto com as duas mãos - fazendo uma espiral que se diluía logo um metro ou dois depois em direcção ao azulado escuro do céu.

Talvez houvesse ali uma velhota, uma viúva, aquecendo-se à lareira - pensei. Mas nem estava assim tanto frio. Era capaz de não ser uma velhota aquecendo-se à lareira. Talvez estivesse cozinhando, fazendo uma sopa de couve com bocados de abóbora. E batata, uma sopa leva sempre batata.

Para ela chegava, um sopa chegava, se fosse mesmo uma velhota que lá estava cozinhando, mas não devia ser, pensei depois ao olhar melhor as paredes da casa. Estavam muito branquinhas, caiadas. E caiar as paredes de uma casa não é trabalho que possa ser feito por velhotas.

Talvez tivesse alguém que lhe caiasse a casa, um filho, um genro, alguém, também pensei. E podia não ser uma velhota cozinhando, talvez fosse uma pessoa de meia idade, era mais certo. Por ali não havia gente mesmo nova, isso eu sabia.

Os novos, os mesmo novos, tinham todos partido, abalado, tinham ido viver para outros lados, no estrangeiro ou na cidade, tanto fazia, tinham-se ido embora, para um lado ou outro. Os novos vão-se sempre embora, é muito raro ficarem, quase nunca acontece encontrar pessoas novas nas serras, naquelas serras.

Só no verão, lá pelo mês de Agosto ou mesmo no Natal. E é quando os velhotes, como aquela velhota que eu imaginava viver naquela casa vêem gente nova. Os netos, os filhos e filhas. E é bonito ver o corropio pelos caminhos, as correrias, os gritos.

E é quando os velhotes deixam de ser velhotes durante aquele tempo. São velhos, na mesma, mas deixam de ser velhos. É assim como que um acordar de uma vida onde jazem. Acho que não vivem, mesmo, durante esse tempo todo, durante quase todo o ano, os velhotes naquela serra. Respiram e esperam.

Ah, mas aquela casa, aquela casa, parecia bem tratada, estava mesmo bem tratada. Até o telhado que eu via, longo, talvez cobrindo três ou quatro quartos e uma sala, tinha as telhas bem direitas, bem alinhadas.

Não eram novas, as telhas, tinham aquele castanho esbatido, amarelado quase e viam-se algumas manchinhas de verde do musgo, talvez. Devia ser musgo.

A porta, pintada de castanho vinho cerrava a casa do outro lado por onde passei. E havia ainda duas janelas, também cerradas. E afinal a casa não era assim tão baixa. Não era muito alta mas também não era baixa. À volta da porta havia um amarelo ocre, uma tira um pouco larga, talvez com quinze centímetros e em dois canteiros, um de cada lado da porta, haviam umas hastes mortiças que esperavam a floração.

Talvez em Agosto, e se eu por ali passasse nessa altura, devia ver flores, certamente que as haveria. A velhota, se fosse mesmo uma velhota ou uma senhora de meia idade, tinha combinado com a natureza fazer florir aquelas hastes, agora quase secas, no Verão.

Dariam um ar mais bonito à casa - devia ela pensar. O que teria ela plantado ali (?) - perguntei-me. Deviam florir muito, no Verão, aquelas plantas. Ainda bem. Seriam como ela, floririam no mesmo tempo.

As risadas dos netos, o corropio, os choros das quedas no chão pedregoso, as asneiras que as crianças fazem, o ralhar, as pequenas irritações, os miúdos que não chegam a horas para comer, as repreensões dos pais e das mães, a filha ou a nora que diz que a sopa se faz assim e não da maneira que sempre se soube, tudo isso faz parte, velhota, tudo isso faz parte.

Já quando me afastava fui olhando para trás e lá estava ainda o fumo branco correndo da chaminé, as telhas alinhadas, a porta fechada. Tudo estava na mesma e tudo ficaria na mesma.

Eu sabia...isso eu sabia. Só mudava no Verão.

«Deus te guarde, velhota!» - tive vontade de lhe gritar já eu ia bem longe.
Afinal não falta muito para chegar mais um Verão - murmurei.



O Saci Pererê - Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


O Saci Pererê

Conto / causo de Antônio Carlos Affonso dos Santos. ACAS, o Caipira Urbano.


Prólogo atual: este texto, feito em abril de 1998; faz parte de meu penúltimo livro, uma antologia de contos, crônicas e poesias, cujo título é «Fragmentos»; na verdade um livro quase inédito, posto que não tenho tempo de procurar livreiros e eles não me enxergam, quando os encontro.... .

Devido à tragédia que ocorreu com a cidade de São Luiz de Paraitinga, SP, durante o mês de janeiro de 2010 e sendo esta cidade a sede da Sociedade dos Criadores de Sacis (SOSACI), resolvei torná-lo público. Gostaria que os leitores pudessem ajudar as famílias de lá, da maneira que puderem!

Para os leitores lusófonos terem uma idéia, o desastre ambiental em São Luis de Paraitinga parece ser muito maior do que aquele que ocorreu na Ilha da Madeira, na última sexta feira, 19 de fevereiro de 2010; ainda com a diferença de que São Luis Paraitinga é uma cidade importante sob muitos aspectos, porém pobre... .
Quem quiser conhecer como a cidade era, entrar no site: www.paraitinga.com.br

Toda vez que chegava uma nova família na fazenda de café, onde eu vivia, todos se alegravam. Os adultos, por terem mais um amigo por perto, já para a molecada da fazenda, nem se fala! E, ao ver-mos que na família nova tinha um menino da nossa idade então, ficávamos curiosíssimos: será que o novo amiguinho teria um dote especial? Será que ele sabe jogar bola melhor, brigar melhor, nadar melhor? Será que ele sabe tocar viola ou cavaquinho, fazer gaiola de passarinho e arapuca; será que é bom de estilingue ou bodoque e etc.?

Cada um de nós ficava imaginando qual seria a sua experiência de vida; se ele tinha irmãos e outras coisas. Como era praxe, colono novo almoçava na casa do administrador no dia da chegada: era as «boas vindas». O Administrador, meu pai, pagava a despesa do próprio bolso, pois o fazendeiro sovina jamais o reembolsou; talvez Deus tenha feito isso por ele! Papai tinha muita pena de gente que viajava com filhos pequenos durante muitas horas, às vezes passavam o dia todo sem comer.

- Naquele sábado não foi diferente, quando vi o «panelão» que borbulhava no fogão à lenha, logo imaginei: como não vai haver festa, é colono novo chegando, e de longe.

- Percorri toda a colônia avisando meus amiguinhos que teríamos gente nova na fazenda e que meu pai afirmou que tinha um menino da minha idade. Nesse dia não saímos para pegar frutas, nem caçar, nem jogar bola: passamos o dia todo debaixo da mangueira do quintal da minha casa, brincando com vaquinhas e cavalinhos de bucha, caminhõezinhos de lata de marmelada, aos quais atávamos um «cordoné» para poder puxá-los.

Desse modo transportávamos uma boiada do curral de um até o piquete de outro, e vice-versa. Fazíamos transações comerciais, as quais eram pagas com tampinhas de refrigerantes (o guaraná Paulista valia um conto; guaraná Caçula, destões (um mil réis); Mãe-Preta ou Níger, quinhentos réis).

A tarde já se anunciava mostrando a barra do dia avermelhada e o céu azul, que só a região de Cravinhos tem, quando percebemos um certo alvoroço com o pessoal da casa: a carroça com a mudança do novo colono chegou.

Eu e meus amiguinhos corremos até o portão da frente da casa e deparamos com uma família diferente: o pai, que estava conversando com o meu, era um crioulo alto, forte, com dentes brancos e perfeitos, com as carapinhas já embranquecendo; a mãe parecia bastante jovem, com um bebê no colo, ao mesmo tempo que dava ordens ao menino e sua irmã, um tanto atarantados com minha presença e de meus amiguinhos, e remexia em sacolas, sacos e embornais à procura de não sei o quê.

Meu pai muito gentil, pediu que apeassem e se preparassem para aquele almoço fora de hora. Minha mãe foi chispando reacender o fogo e botar o panelão e a assadeira para aquecer.

- Eu e meus amiguinhos não desgrudávamos os olhos do menino, que agora sabíamos chamar-se Ditinho, que por sua vez parecia muito incomodado com a nossa presença. Toda a família do Ditinho foi até a «vasca» do fundo do quintal, se refrescaram, banharam os braços e o rosto, molharam delicadamente a cabeça e a mãe penteou-os todos, até o marido.

Nesse ínterim minha mãe chamou-os para comer e já estava com a mesa posta: no panelão, risota caipira: uma espécie de sopa de pouco caldo com arroz, batata, frango, cenoura, vagem, cozidos com açafrão recém colhido, coberto de salsinha picada e queijo curado ralado; havia também mandioca frita, feijão, uma farinheira cheia de farinha de mandioca, que eu ajudei a fazer, e uma assadeira com um pernil de tatu «rabo mole» tostadinho, duas jarras de água da bica e uma tigela de arroz-doce com folhas de laranjeiras.

Eu e meus amiguinhos não ficamos ao lado da nova família de colonos, mas ficamos apinhados do lado de fora das duas janelas da sala com a grande mesa, onde freqüentemente comíamos em, no mínimo, nove pessoas.

Enquanto o pai do Ditinho almoçava, os camaradas da fazenda descarregaram a mudança na casa recém caiada da colônia, com chão de terra - batida, dois quartos, sala e cozinha. Na fazenda, os banheiros são feitos do lado de fora, diretamente sobre uma fossa, que a cada ano era coberta de «cal viva» e aterrada, sendo então feita uma outra.

Na verdade era cercada por folhas de zinco, e de zinco era também a cobertura. Eu e meus amiguinhos assistimos a despedida da família do Ditinho, agradecendo a hospitalidade e rumando para sua nova casa. Quando passou por nós, o Ditinho disse amanhã eu quero falar com vocês!

Ficamos bastante ansiosos, e mal podíamos esperar para falarmos com o novo amigo no dia seguinte. De manhã, como de costume, apanhei a caneca de louça, coloquei dois ou três dedos de café, acrescentei quatro colheres de açúcar cristal e fui até o curral, para tomar meu café com leite «direto da fonte».

A «fonte» era uma vaca rústica, toda «chitadinha» de branco e preto, chamada Bela Vista, que era a nossa preferida. O tirador de leite, que começava a ordenha por volta das quatro da manhã, precisava tirar o leite todo antes das sete horas, quando então enviava para minha casa duas latas de vinte litros: uma para os colonos e outra para fazer os queijos dos patrões; pelo menos dois por dia.

Portanto, o tirador de leite sempre deixava a Bela Vista para o final, pois a qualquer momento eu e meus irmãos podíamos querer leite fresco. Ele esperava até sete horas, aí então terminava seu serviço.

Pois bem, após meu desjejum, passei em casa e comi um belo pedaço de pão caseiro com queijo e me dirigi à colônia: pretendia reunir os meus amiguinhos e, juntos, irmos a casa do Ditinho. Mas, ao chegar à colônia, já os vi todos, inclusive o Ditinho, num bate-papo animado, que só parou quando me aproximei e disse: - o que você quer falar com a gente? Antes mesmo de o Ditinho abrir a boca, o Ném, meu amigo disse: ele vê e ouve saci - pererê!!.

Ele vê o que?, disse eu sem entender direito: saci - pererê, disseram todos em coro.

Nesse ponto, o Ditinho começou a contar a sua história: disse que sua mãe verdadeira já havia morrido, e aquela que morava com seu pai, era sua madrasta, e que sua irmã, por parte de mãe sofre de vermes e desmaia quando passa vontade de comer alguma coisa, mas que o bebê é lindo; a madrasta não liga pra ele e seu pai é generoso e trabalhador e que desde que era menino, ele via saci - pererê, só que não sabia o que era: a primeira vez que viu tinha quatro anos, fazia muito tempo, pois agora já tem sete e que qualquer criança pode ver o saci - pererê e que ele não faz mal a ninguém, só faz estripulias, que quando tinha cinco anos ele não quis brincar com o Saci e que o Saci derrubou todas as panelas da madrasta no chão da cozinha, durante a madrugada e que seu pai deu dois tiros de espingarda nele e que agora tem medo do saci se vingar do seu pai.

Eu e meus amiguinhos, inclusive o novo, ficamos ali até que ouvi o sino da sede da fazenda: era o sinal da minha mãe, avisando os filhos e meu pai que o almoço já estava pronto. Durante o almoço com minha família comentei com meu pai do menino novo que via e ouvia saci - pererê e enquanto meus irmãos faziam caçoada de mim, meu pai falou: Pois, agora, toda vez que vocês saírem juntos, você tem que levar uma caixa de fósforos no bolso.

Meus irmãos todos se calaram e meu pai não disse mais uma palavra, continuou calmamente a almoçar, com o olhar cúmplice de minha mãe: No mesmo instante eu percebi que meu pai também acreditava, ou já tinha visto um saci - pererê.

Durante os próximos dias e durante todo o ano, até a colheita do café, após a qual todos os contratos dos colonos venciam e discutia-se, quem vai ficar na fazenda e quem vai sair, discutíamos os casos dos sacis - pererês.

Certo dia o tirador do leite não encontrava os baldes para a ordenha, num outro dia os rabos dos cavalos apareciam amarrados uns aos outros, noutra ocasião esvaziaram o lavador de café, inundando todo o terreiro de secagem e atrasando o beneficiamento por mais de uma semana, enfim de vez em quando alguma traquinagem acontecia na fazenda: e eu sempre com a caixa de fósforos no bolso.

No final da colheita do café daquele ano, a família do Ditinho resolveu ir embora para São Paulo e eu e meus amiguinhos ficamos muito tristes, pois embora o Ditinho não pudesse jogar bola e tivesse dificuldade de nadar ou caçar de estilingue suas estórias eram muito excitantes.

No dia da sua partida, marcamos com ele para nos despedirmos junto à porteira da fazenda, uns dois quilômetros longe de casa, em meio a uma mata fechada. Quando a carroça com a mudança chegou, não vimos o Ditinho. Perguntamos por ele, e seu pai disse: ele vem vindo a pé pelo meio do mato - e foi embora. Estranhamos muito, mas ficamos ali esperando.

Após algum tempo, ouvimos um assovio longo e forte e nos voltamos para uma «picada» no mato e vimos o Ditinho com um boné vermelho na cabeça, cachimbo na boca, pulando sobre sua perna aleijada, completamente pelado e gritando:- me dá o fogo senão morre ou fica bobo!

Todo amedrontado, retirei a caixa de fósforos do bolso e entreguei ao Ditinho, que saiu rindo alto e assoviando, pulando atrás da carroça de mudança.

O Ditinho era o próprio saci-pererê!




quinta-feira, 16 de abril de 2015

BRINCANDO COM PAPAI - Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)


BRINCANDO COM PAPAI

Texto de Antônio Carlos Affonso dos Santos (ACAS)



Se um dia papai voltasse, eu tentaria viver com ele tudo aquilo que sempre quis e nunca aconteceu. Ah, se eu pudesse voltar o tempo! Papai iria brincar comigo. Não chegaria cansado, nem estressado, nem nervoso, nem dopado, nem triste. A luta, para seus filhos terem alguma coisa no futuro, não o deixou viver o presente.

Hoje ele é passado. Papai morreu quando eu tinha dezoito anos de idade; ele tinha à época, pouco mais de cinquenta. Ele nunca participou de minha adolescência; menos ainda, por Deus o ter levado tão cedo, da minha chegada à idade adulta.

Ah, se papai me abraçasse, ao menos uma única vez; eu diria a ele que o amava. Quem sabe assim ele e eu perdêssemos nossa timidez?

Se papai me abraçasse, eu lhe daria um presente: uma máquina do tempo!
 Ai então, eu ligaria meu «transformador de gente» e o faria ser menino de novo. Eu próprio entraria na máquina e nós dois, meninos; finalmente brincaríamos como só as crianças sabem brincar.

Cansados, eu o olharia embevecido, enquanto nova transformação ocorreria; eu e ele, aos poucos íamos ficando velhos. Fecharíamos nossos olhos e nos elevaríamos acima das casas, das ruas, das luzes, das cidades, do país e do mundo. Quem sabe finalmente eu veria a Europa, que tanta vontade tenho de conhecer e não pude; nem poderei.

Se um dia papai voltasse e eu pudesse conviver com ele tudo aquilo que quis e que nunca aconteceu, eu o acompanharia até a presença do Pai Eterno.

Reclamaria Dele, a falta de tempo que papai teve e do fato dele não me ver crescer. Ah, se eu pudesse voltar o tempo!

Se eu pudesse voltar o tempo, papai iria brincar comigo até o fim dos tempos. Eu, morto que estou, finalmente brincaria com papai.

Se um dia, você leitor, ouvir cantigas de roda, catiras batidas na mão e nos pés, ouvir sabiás cantando numa praça mal cuidada da cidade grande, ou ver um caipira lavrando a terra, saudado pela natureza, saiba leitor, será eu e meu pai, nos divertindo na eternidade; visto que na vida pouco nos divertimos.

Vocês ainda nos virão nos sorrisos ocultos dos personagens das estátuas que contam a história da terra bandeirante, em cada praça onde quer elas estejam.

Vocês nos ouvirão nos gorjeios dos canários da terra, dos coleirinhas, dos curiós, dos pintassilgos, no farfalhar das folhas dos jequitibás, nas flores dos ipês que os tornam sagrados, nas algazarras das crianças, nos curumins e cunhãs do Mato Grosso, que apreciaram um texto desse velho escrevinhador que, se não deixou filhos, foi abençoado por Deus com o dom de ver e ouvir estrelas, apreciar a natureza e entendê-la e a amar sua querida Dirce, despudoradamente.

Foi uma pena, meu pai, que não houvéssemos brincado mais com a vida, de não ter ouvido mais música caipira, de ter sorrido mais, como os curupiras e sacis que me acordaram hoje, só para que eu pudesse escrever este texto.

Pai, até breve! Não se perca de mim; não me desapareça.

ACAS



SUBTILEZAS - Conto / Crónica de Liliana Josué


SUBTILEZAS

Conto / Crónica de Liliana Josué

O dia era ainda uma criança, com poucas horas de vida. Excepcionalmente eu tinha chegado depois de todos. Não porque me atrasasse mas, aquela gente, tinha por hábito adiantar-se à hora prevista da partida. Quando tal sucedia e vislumbrava, ao fundo da rua, a camioneta de esgar piscante, sem ninguém à porta: cerrava os dentes e atirava-me em correria desenfreada até penetrar, de rompante, na sua boca de hálito zombeteiro. Aplaudiam-me da proeza e tranquilizavam a minha alma informando-me,( como se eu não soubesse) não me encontrar atrasada. Um pouco nervosa comentava mentalmente: «Esta gente deve ter palhas na cama!» .

Eram todos mais velhos que eu, talvez por isso mesmo a pressa fosse maior, pois o tempo era menor. Ainda arquejante semeava beijinhos para um lado, apertos de mão para o outro e um nunca acabar de sorrisos. Depois da maratona concluída, sentava-me discretamente num dos últimos bancos, respirava fundo, encostava a cabeça para trás e semicerrava os olhos numa atitude de abandono.

 Totalmente recomposta, dava comigo a observar atentamente os ocupantes do enorme veiculo. A alguns enxergava apenas o cocuruto da cabeça, a outros conseguia contemplar as faces: De sono nem vislumbre. Deparava com expressões calmas e felizes, de quem já muito fizera e, se sentia no seu pleno direito de desfrutar um resto de vida agradável e compensador.

 Por cada cabelo branco haveria, certamente, uma história não contada; por cada ruga um desgosto quantas vezes dissimulado ; por cada sorriso o triunfo de tantas barreiras ultrapassadas. Tudo isso me enternecia guardando, religiosamente, aquelas expressões bem dentro de mim. Absorvida por tais especulações, espraiava o meu olhar através da janela, encharcando-me da plana e verdejante paisagem alentejana, tornando-a cúmplice dos meus pensamentos.

 Também eu já era detentora de alguns cabelos brancos, rugas na cara e sorrisos esperançosos. No meio de toda esta gente fantástica impunha-se um personagem encantador: Estatura média, magro, cabelo farto e bigodinho maroto. Nos seus olhos podia ler-se a devoção por tudo o que fosse arte. Desde a antiga igreja românica, ao espectacular quadro impressionista, sem jamais esquecer a poesia.

 Só de pronunciar essa palavra mágica, o seu rosto alterava-se surgindo-nos pleno de êxtase e adoração. Sem dúvida será alguém que hei-de lembrar e admirar para todo o sempre. A sua tertúlia poética era singela em «número» mas imponente em «género».

Subitamente acordei do torpor dos meus pensamentos. A camioneta parou. Chegara a costumada pausa para o café da manhã. Enquanto que para muitos, essa milagrosa bebida matinal se revestia de importância capital, para mim, tornava-se perniciosa. Um café antes do almoço transformava-se num barril de pólvora. A pulsação poderia atingir os cento e vinte, e as minhas mãos agiriam autonomamente, sempre pelo oposto à minha vontade. Por isso limitava-me a folhear algumas revistas na tabacaria do estabelecimento.

 Findo o tempo estipulado para a recuperação de forças, regressávamos ao monstro que nos observava pachorrentamente, com orelhas quebradiças de cão atento, e introduzíamo-nos no seu interior através da sua boca plácida e um tanto desdenhosa.

A viagem continuava em conversa animada com o companheiro do lado ou o vizinho da frente. Chegados ao destino eram áhs! e óhs! de contentamento e deleite. Tanta coisa linda. Contemplei igrejas faustosas e conventos de admiráveis azulejos, fui bafejada pela sorte de poder admirar apaixonantes desenhos de Siza Vieira, traço breve e expressivo.

 A medida que a visita prosseguia o agrado tornava-se maior.
 Foi-nos sugerido observar as cisternas de determinado convento. Assim o fizemos. Não continham água, era um local subterrâneo, escuro, frio e um tanto assustador. A minha sensação, dentro daquele buraco negro, era como o de alguém tentando penetrar o insondável e misterioso mundo do Além. Inesperadamente um arrepio traiçoeiro percorreu-me a espinha, seguido de um bater forte de coração.

 A minha volta pressentia murmúrios tímidos e sombras deslizantes. Uma das senhoras pertencente ao grupo, expulsou os meus receios ao aproximar – se entabulando conversa. Apurando a vista o mais que pôde, fez-me notar a existência dum estranho objecto colocado junto a uma das paredes da cisterna, por baixo da única abertura que deixava penetrar uma efémera claridade. Foi-se chegando lentamente ao estranho corpo, eu imitei-a.

 Era um objecto esguio e comprido, com cerca de metro e meio de altura. A senhora muito compenetrada da sua missão exclamou triunfante: «Nem mais, isto é um medidor de água». Eu acenei afirmativamente a cabeça, admirando tamanha perspicácia.

 Satisfeita a nossa curiosidade demos por concluída aquela sapiente descoberta. Eis que, inesperadamente, a senhora apercebeu-se duma pequena placa onde se encontrava algo escrito. Assestou afincadamente o olhar e conseguiu ler os dizeres. Intrigada perguntei-lhe o que se encontrava ali escrito.

 A ingénua senhora, meio embaraçada, balbuciou: «Afinal isto não é nenhum medidor de água, é uma obra de arte duma escultura... uma Leonor qualquer coisa». Senti uma enorme vontade de rir.

Tínhamos sido mordazmente enganadas. A tudo hoje se chama arte. Talvez com razão. Só o facto de sabermos viver em tranquilidade é já uma obra de grande mestria artística.

 Mas quanto ao ferro comprido e ferrugento ... , francamente!.




sábado, 11 de abril de 2015

O Fantasma Caminhante (Conto) - Por Arlete Piedade Louro


O Fantasma Caminhante (Conto)

Por Arlete Piedade Louro

Numa terra muito distante, bem ao norte da velha Escócia, no pico mais alto de uma montanha gasta pelo tempo e erodida pelos temporais que chegavam do mar do Norte, erguia-se um castelo sombrio de torres altaneiras e espectrais.

Não se sabia se o castelo era habitado, nas montanhas em redor não havia ninguém que o pudesse saber, mas velhas lendas passadas por tradição oral de pais para filhos, relatavam que era assombrado por fantasmas como aliás todo o castelo escocês que se preze.

Constava que há centenas de anos, quem sabe até milénios, o castelo era habitado por um orgulhoso conde, senhor de todas as terras em redor, até ao mar a norte, a ocidente e oriente, e até á grande cidade a sul.
 
Dizia-se que ele era rebelde e de cabelos vermelhos, e que os seus antepassados tinham chegado pelo mar, da terra dos Vikings.
Um dia uma princesa infeliz chegou àquelas paragens, para curar seus males de amor e esquecer um casamento imposto por conveniências da corte real e o seu séquito ficou alojado no castelo do nobre senhor.

Seguiram-se passeios e cavalgadas, pelas terras selvagens e cobertas de urzes até ao mar, em que a infeliz princesa era acompanhada pelo Senhor do Castelo, com um pequeno séquito que os seguia até que um dia, o conde dispensou o séquito, alegando que não havia qualquer perigo naquelas paragens solitárias.

Oito meses depois de a princesa ter regressado á corte a chamado do seu marido, o príncipe, nasceu um principezinho, que foi nomeado herdeiro da coroa e a seu tempo foi aclamado rei de todas aquelas nações. O velho senhor do castelo diz-se que desesperado e solitário, cavalgou até ao mar e partiu no seu barco viking para Norte, em direção á terra dos seus antepassados, e nunca mais foi visto.

O rei que alguns diziam muito em segredo, ser filho bastardo do senhor do castelo, um dia passados muitos anos, depois da morte de sua mãe, veio em peregrinação conhecer os locais onde a sua mãe reencontrou a felicidade, mas o castelo estava deserto e só em noites em que a neblina vinda do mar, cobria os vales, se dizia que um fantasma era visto caminhando sobre as névoas em direção ao castelo.

O rei ainda subiu á mais alta penedia, no pico a sul do castelo, numa noite enovoada, o seu cabelo vermelho resplandecendo na escuridão, molhado pelo nevoeiro, mas o fantasma não apareceu.

Todos os anos o rei regressava nas noites de neblina, mas os negócios do reino, eram mais urgentes até que desistiu de encontrar o velho fantasma, que no entanto, dizem os raros habitantes, ainda pode ser visto em certas noites caminhando sobre as névoas.

Arlete Piedade Louro

Portugal.



quarta-feira, 1 de abril de 2015

O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ


O livro de Ocimar - Conto por JOSE GERALDO MARTINEZ 


Lá estava ele, meu amigo Ocimar lançando um livro de auto-ajuda. Nos seus setenta anos de idade, muitos deles dedicados a educação.

Professor nível três, conhecido pela seriedade e dureza com as chamadas «turminhas do fundo» (Aquelas no fundo da classe, normalmente organizando o churrasquinho ou a festinha na república das meninas). Ocimar não perdoava!

Os mais sortudos conseguiam ficar de recuperação, quando não, eram reprovados incondicionalmente! Conhecido pelo mal humor e não poderia ser diferente para um homem de setenta anos que na infância conheceu a palmatória, além de ser filho do senhor Donato, calabrês de poucos amigos!

Prestigiando o lançamento do tal livro de auto-ajuda de Ocimar e pensando na pergunta que ele havia me feito: - Martinez, você gosta de escrever, nunca pensou num livro de auto-ajuda? Cheguei a algumas conclusões: Eu deveria mesmo escrever um livro de auto-ajuda...Afinal, virou moda!

Além do que, tenho experiências terríveis de vida no meu meio século de existência: passadas de mão, quatro casamentos, idas e vindas... sociedades desarrumadas, negócios mal feitos, troca de igrejas e algumas tentativas de religião, adoção de filho, ajuntamentos, paixões tórridas, desilusões...

Mas, percebo que ainda me faltam alguns anos de experiência...Nos setenta anos a gente começa realmente a filosofar ou estou mentindo? Perdemos aos poucos a nossa condição física e começam a falhar algumas coisas: audição, olfato, intestino, estômago, libido...

Chega a tal ponto que apenas o cérebro permanece em perfeito estado! É ele que começa a comandar a nossa vida de certa forma ociosa, à sombra de grandes varandas e arbustos, no joguinho de baralho, nas pequenas caminhadas com os netos ou até a padaria. Hábito de anos a fio trazidos do velho pai. 

Começamos a filosofar e coitado dos netos! Não paramos por aí ! Inconformados começamos pelos vizinhos e depois amigos incomuns! Sem contar a pobre da esposa que convive connosco o dia inteiro! Esquecemos a poesia! Lotamos os nossos arquivos com textos filosóficos...

Pobre daquele que ficou só com o cérebro e este ainda tem problemas! Alguns voltam à infância, outros caducam completamente! Não é incomum vermos alguns desfilarem pelas ruas se dizendo a reencarnação de Cristo, Buda, Dalai Lama, Hitler...Aí meus amigos, é um Deus nos acuda! Outro dia não é que apareceu um Saddam Husseim? Como se não bastasse, gritava por Bush com todo pulmão! 

Enquanto nosso cérebro mantém a saúde e certa coerência, acho salutar filosofar! Ainda mais na cabeça dos outros! Ocupa nosso tempo e nos deixa com a sensação de poder, perdida em nossas fracassadas experiências. Compensa as nossas debilidades físicas e melhora nossa auto-estima.

Escrever um livro de auto-ajuda, estamos nos ajudando e, com sorte, ainda pegamos alguns desavisados, sugestionáveis e melhoramos a vida dele. Mal não faz! Com mais sorte ainda, conseguimos vender toda tiragem e de repente virarmos um bestseller, que o diga Paulo Coelho com « O Alquimista», pai de tantos outros ainda mais filosóficos! Nada contra «O Mago», ainda acredito que as respostas estão dentro de nós mesmos...Todas as soluções de nossos problemas! 

A nossa mente é capaz de proezas intermináveis e usamos muito pouco de nosso cérebro...Por enquanto ainda filosofamos no tempo das pedras, com um cigarrinho dependurado no canto da boca e os neurônios dormindo por algum asilo ou à sombra de nosso guarda chuva em tarde quente de verão. Após os setenta anos, o que nos resta senão seguir a moda do «filosofar», rindo de nosso libido, sem que a patroa saiba ou os amigos...

Mil mentiras ditas como verdadeiras, tornam-se verdadeiras! 
Afinal, nesta fase de filósofo e mentiroso, todo mundo tem um pouco. 
Está certo Ocimar! Logo estarei escrevendo meu livro de auto-ajuda!




terça-feira, 31 de março de 2015

João e Marquinha - Conto de João Furtado


João e Marquinha

Conto de João Furtado


Sentado a porta da casa, o João olha para o nada. O seu olhar é vago e a solidão que o atinge faz-lhe estar distante de tudo. A electricidade não chegou ainda à sua casa. Não tem televisão nem rádio.

Descalço e com roupa retalhada, as pernas não são as mesmas de há 60 anos atrás. Nem a memória é a mesma, mas uma coisa é certa, o amor que sente pela Marquinha é o mesmo de sempre.

O rosto enrugado e a boca desdentada, mal consegue suportar o peso do cachimbo fumegante, seu companheiro de sempre. Muita vida vivida foi para esquecimento, mas a Marquinha continua viva nele. A única que não morreu numa memória cada vez mais morta que viva.

Marquinha era diferente de todas. Teve muitas mulheres durante os seus longos 80 anos de vida, mas nenhuma foi como a Marquinha, o seu primeiro amor. Nunca teve uma foto da Marquinha, mas sempre a teve na memória. A imagem da Marquinha jamais saiu da sua memória. Hoje, que nem dos filhos se recorda bem, continua a viver a sua Marquinha.

A casa da Marquinha era no alto da colina, nos Órgãos, Ilha de Santiago. Era um sobrado lindo e via-se de longe, entretanto não era fácil lá chegar. Para se ir a casa da Marquinha tinha-se que andar quase dois quilómetros sempre a subir. Num serpentear de curvas e contra-curvas entre argilas e pedras, que qualquer descuido seria razões de acidente gravíssimo. O caminho íngreme e quase perpendicular obrigava a uma perícia incalculável.

O João, hoje velho e cansado, continua a ter a imagem da Marquinha, dengosa, com pano amarrado à cintura bamboleando quando transportava a lata de água, ladeira acima. Negra, esguia e bela, subindo ao compasso do batuque. Luxuriosamente bela, a Marquinha era a única lembrança da juventude do João.

Desde muito cedo, João enrabichou-se pela Marquinha, ele tinha 18 anos e ela 14. Ele de enxada no punho e ela de balaio e pano à cintura. Ele a cavar o chão para ela semear.

Eram muitos, quase 30 pessoas, entre homens, mulheres, rapazes e raparigas, mas ele só via ela, a Marquinha. E ela, dengosa, fingindo-se alheia a tudo, mas atirando o feitiço de mulher, que bem cedo sabe da força que esconde nos seios firmes e libidinosos, escondidos por fino e sensual pano de cetim.

Um pouco acima da fina cintura de cobra, fazia salientar a bela e carnuda anca de mulher badia. Ele a cavar para ela. Era um djunta-mon, onde não estava apenas o trabalho, mas mostrar do que era capaz. Que era melhor que todos os outros rapazes! Ela era o troféu em disputa.

Ela, a Marquinha sabia disto, se mostrava e se sentia orgulhosa a ser razão do frenesim que à sua volta desenrolava. Mas não falava com ninguém, se mostrava e se escondia, no jogo do amor e do pudor. Os adultos, os pais, viam tudo e fingiam nada ver.

Todos sabiam do jogo. Todos participavam no jogo. Ela tinha que se resguardar e se mostrar difícil. Ele queria que ela fosse difícil e ficava orgulhoso disso. À tardinha ia esperá-la na ribeira. Sabia que ela ia e ela sabia que o ia encontrar lá. Continuavam os rituais.

Ele insistindo na conversa e ela esquiva jogando com as palavras:
 -Marquinha, sou louco por ti!
 -João devias era ir para o hospital então para te tratares!
 -Marquinha, deixa de brincadeiras, estou a falar a sério. Quero-te! Quero casar contigo!
 -João, não vês que ainda sou criança?

O João pegava-lhe nas mãos e ela lutava e fingia-se ofendida. Afirmava que a mãe estava a vir atrás dela. Dizia que ontem tomou uma carga de porrada, porque a madrinha dela teria dito à mãe que a viu com o João. O João todo fanfarrão prometeu que ia falar com a tagarela da madrinha da Marquinha! O que tinha ela a ver com a vida dos dois?

A Marquinha ameaçou-o:
 -Se disseres alguma coisa, sou eu que nunca mais falo contigo!

Ela tenta fugir dele e ele tenta fazer-lhe ficar mais uns minutos. Ela corre e ele vai atrás. Tenta prende-la, a lata de vinte litros de água que leva à cabeça cai. A lata fica informe, ele tenta dar um jeito. Está a ficar escuro. Ela tem mesmo que ir. Não seria desta vez que receberia um sim. Ele sabe que ela esta a gostar, mais fica orgulhoso com o não. Assim o sim será mais valioso. O não é uma pré-garantia de que a mulher vai ser fiel. Amanhã dirá sim, tinha a certeza!

-Quando te verei de novo? – Quase gritou, porque ela já ia longe!
-Não sei, amanhã irei à Praia vender umas galinhas e ovos! – Respondeu a Marquinha antes de se perder no escuro. - Era uma resposta que ele queria. Ela, tentando desconversar, está a convidá-lo a ir com ela à Praia. Era isto que iria fazer!

O cérebro humano é mesmo uma caixa de surpresas. O João que já nem se lembrava do seu próprio nome, não conseguia esquecer nenhum pormenor do seu romance com a Marquinha.

No dia seguinte levantou-se muito cedo. Às quatro já estava na estrada à espera da Marquinha. Ela vinha com as amigas. Quando o viu foi-se disfarçando, como se estivesse com carga a mais ou tivesse alguma pulguinha nos pés que a impedia de andar.

As amigas entenderam, sorriram e avançaram a passos largos, para depois continuarem mais devagar. Não queriam atrapalhar os namorados, mas também não queria deixa-los sozinhos. A viajem era longa, porque teriam de fazer quase dezanove quilómetros. A Marquinha ia à Praia, mas o João não, o João a acompanhava apenas uma parte do caminho, talvez um ou dois quilómetros.

A Marquinha chamou as amigas, elas não responderam. Sabiam que ela estava a fazer fita, fazia parte do jogo. Ele a pegou. A disse que havia chegado o momento.
- …Ou me dizes sim ou não te largo!
- … Não, não e não… - Disse a Marquinha.

Ele não foi na cantiga, não a largou. Pegou-lhe na mão. O João lembra-se como se fosse hoje. A Marquinha abaixou-se à procura de algumas pedrinhas. O Coração de João alegrou-se. Imaginou o que ia acontecer. Sabia o ritual. A Marquinha endireitou-se com três pedrinhas na mão e atirou uma a uma contra o peito do João dizendo:
-Te quero…….., te quero…………, te quero !

Estava cumprida a tradição para o primeiro acto. Haveriam mais cenas no futuro, mas o primeiro acto terminava ali com te quero, te quero, te quero…Sabia que nem um beijo iria conseguir se não roubasse. Rapidamente abraçou-a e beijou-a. Ela, a Marquinha ruborizada e envergonhada fugiu apresada. Ele disse, já enquanto ela se afastava:
-Venho te esperar aqui, logo a tarde!
-Sim! – Respondeu ela já longe.

Satisfeito e alegre, ele regressara para ir trabalhar. Ela a Marquinha juntara-se às colegas e caminharam rumo a Praia. Ambos ignoravam que estavam a ser espiados desde início pelo Joaquim.

Joaquim gostava da Marquinha, mas sabia que Marquinha tinha um fraco por João. Ele morava noutra ribeira, mas a algum tempo que vinha a espiar a Marquinha, na esperança de poder ter algum favor por parte dela. Com o sim que ouviu não restavam muito mais esperanças, senão fazer o que devia ser feito.

O João, hoje velho e desdentado, sentado a porta, com o cachimbo apagado na boca, engolindo o indigesto ar fedorento de tabaco que ele mesmo ainda cultiva ao redor da casa, revê como num filme, mais uma vez, aquele dia que marcou profundamente a sua monótona vida de jovem agricultor.

Lembra-se, como se tivesse sido ontem, a felicidade que sentiu quando deixou a Marquinha e foi tomar o pequeno-almoço reforçado antes de ir trabalhar. Lembra-se que ia a imaginar o dia em que mandaria seus pais pedir a Marquinha em casamento. Imaginava tudo, titim por titim.

A Marquinha haveria de lhe dizer que no próximo sábado era boa data. Ele informaria aos pais. Os seus pais falariam com os pais da Marquinha. Informariam que iriam pedir oficialmente as mãos da Marquinha. O teatro estaria encenado e sem possibilidades de falha alguma. Chegaria o sábado escolhido.

No sábado escolhido, os seus pais iriam. A Marquinha que já havia cochido e pilado o milho. Feito xeren, cuscus, massa e mais iguarias. Tudo para uma grande festa. Mal visse a delegação a subir a difícil ladeira que dava acesso a sua casa, iria afastar. A Marquinha ficaria longe e acompanharia tudo à distância.

Os pais da Marquinha iriam fingir que nada sabiam. Surpresos com a visita, que muito os honrava, mas não viam como a sua criança pudesse estar a pensar no casamento, ela a Marquinha que ainda ontem usava fraldas. Devia ser engano.

Bem,… por via de duvidas, seria melhor que fosse a desavergonhada a confirmar. Iriam chamá-la. Chamariam várias vezes para depois ela aparecer cabisbaixa. A Marquinha iria confirmar que ele o João andava há muito atrás dela, mas ela nunca lhe havia dado alguma esperança.

-Se não tivesses dado, eles não estariam cá! – Diria a mãe toda imperiosa e triste com tamanha ingratidão por parte da filha.
Ela baixaria mais a cabeça, pareceria que quereria beijar o chão. Não responderia nada!
-Diga lá, queres ou não casar com ele? - Tornaria a mãe da Marquinha, a Marquinha continuaria em silêncio. - Falas ou não falas? Posso dizer que não queres?

-Sim mãe, fui eu que mandei! – Diria a Marquinha tão baixo, tão baixo, que só se perceberia, porque todos já sabiam a resposta e a Marquinha também já sabia que quanto mais baixo, mais respeitada pareceria aos olhos da futura família que estava a arranjar! Seguiria o momento de choro por parte da mãe da Marquinha pela ingratidão da filha e por parte da Marquinha pela incompreensão da mãe.

Os homens assistiriam impávidos e serenos à espera da cena seguinte. A nova mãe, ou seja a mãe do João iria acariciar e acolher nos braços a nova filha ou seja a Marquinha. Seguiria a fase dos sermões e regras de namoro, com mais e menos restrições. Por fim o almoço e a recepção digna do momento.

Recorda com nostalgia o dia que foi o mais pequeno de trabalho e o mais longo de ansiedade. Trabalhou e não sentiu o peso da enxada. Não sentiu o peso da enxada mas sentiu que estavam quase parados os ponteiros do relógio.

Por fim chegou a hora. À tardinha saiu e foi ao ponto combinado esperar a sua amada. Esperou e desesperou. Ela não apareceu.

O Joaquim teve a certeza que havia perdido a batalha. Sabia que se não agisse rapidamente podia ser pior. Chamou os amigos e ficaram à coita. A Marquinha chegou antes da hora prevista. Normalmente chegavam da Praia ao escurecer. Mas desta vez as meninas chegaram antes das quatro. Sabia que ela ia a casa e arranjaria alguma desculpa para ir ao encontro do João. Escondeu-se e esperou.

A Marquinha estava alegre. Falou com as meninas até chegarem à Praia. Estava alegre, irradiava felicidade, as amigas ficaram contagiadas. Riam e falavam sem parar. O negócio correu bem, muito melhor do que o esperado. Uma hora depois já tinham tudo vendido. Regressaram muito mais cedo também. Antes das quatro já estavam nos Órgãos. Cada uma na sua casa. Estava ansiosa. Queria ver o João. Gostava muito dele. Já deviam estar a namorar se não fosse a tradição que exigia que a mulher fosse difícil.

Imaginou como seria o casamento. Iria entrar na igreja toda vestida de branco. As amigas cheias de ciúmes iriam vê-la. Os olhos estariam salientes e inchados de ter passado a noite toda a chorar. Mas iria chorar de verdade. Queria ser feliz, muito feliz. A felicidade e o choro são sentimentos directamente proporcionais. Era assim.

Estaria sentada e rodeada de mulheres mais velhas e vividas, ela já tinha assistido algumas vezes. As mulheres iriam descrever a vida difícil que iria ter. O calvário que seria o casamento. Quanto pior for descrito e pintado o quadro da sua vida futura mais profícua e feliz seria. Ela estaria preparada para o pior e contentava-se com o que a providência lhe proporcionasse.

Mal começara a escurecer pegou na lata e disse que ia apanhar água. A mãe quis faze-la desistir. Estava cansada, acabara de chegar da Praia. Ela não desistiu, disse que o pote estava vazio. Que ia num pé e voltaria noutro. Foi e só voltou meses depois.

O Joaquim e os amigos esperavam-na na estrada. Mal ela ia a passar saíram e pegaram-na. Colocaram-na no ombro e levaram-na. Prenderam-na dentro de casa durante meses. Ela nunca se conformou e cada dia que passava odiava mais o Joaquim. A saudade do João. O amor não vivido do João a fazia odiar cada vez mais o Joaquim.

O amor forçado, amarrado e unilateral do Joaquim só piorava mais a situação. Foi na dor e na tristeza que a Marquinha se engravidou. Presa no pé da cama, feita de quatro estacas de madeira enterradas ao chão. Ia ser mãe no cativeiro. Não tinha outro remédio senão ser mãe. O Joaquim ao vê-la grávida, soltou-a.

Dias depois deixou de a ver, bastou um descuido que ela regressou aos Órgãos, grávida, infeliz e sem honra.

O João estava noivo da Bianina, uma das suas amigas. Não amava Bianina, amava Marquinha, mas ia casar com a Bianina. Não queria casar-se de burro e com uma das pernas da calça rolada. A Mariquinha jamais casaria, teve um filho, o filho do Joaquim. Não casou nem com o João nem com mais ninguém!

Mas o amor de João por Marquinha e de Marquinha por João foi eterno, hoje ele não se recorda de mais ninguém, mas de Marquinha continua a ter a mesma saudade!



 

Irene - Conto de Daniel Teixeira


Irene 

Conto de Daniel Teixeira
 
A Irene não era bonita, nunca tinha sido bonita e nunca seria bonita, pensava eu no tempo em que a conheci mais de perto, então era ela jovem, isto pelos idos dos anos oitenta.

Lamentava-a porque, reflectindo, depressa tinha de chegar à conclusão que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas e eu não sou grande adepto da ideia do destino como guia do passado, do presente e do futuro.

Não acredito nas condenações eternas, acho que as coisas e o mundo estão em constante movimento, enfim acho que aquilo que é pode deixar de ser e que aquilo que não é pode vir a ser.

No caso dos homens o problema de ser feio não parece ser tão grave porque existe uma tradição implantada, penso eu. Corre por aí que as mulheres não se importam muito com essas coisas, ou que conseguem descobrir a beleza em traços quase imperceptíveis ao imparcial olhar comum.

Enfim, não vou fazer, neste espaço que é uma história, uma dissertação sobre a influência do patriarcalismo nestas coisas mas parece-me claro que, numa lógica do homem mandante este terá sempre defeitos que são socialmente mais toleráveis em si do que nas inferiorizadas e comandadas mulheres.

Claro que nos anos oitenta havia já um esbatimento da ferocidade patriarcal mas como sabe quem essa época viveu uma parte substancial das concepções de inovação nesse campo eram para uso crítico do comportamento dos outros e muito raramente para consumo próprio. 

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de vinte anos mais ou menos, de ter de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer, por isso, e contra minha vontade, voltava à ideia de destino e este parecia-me alicerçado nessa então recente certeza científica que era a genética.

Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em amplificação e profundidade das rugas à volta dos olhos, via-se-lhe o crescimento dos chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios - agora ainda relativamente carnudos - empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e imaginava-se aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando desde logo a sua artificialidade, tal como na sua mãe.

Via-se, imaginava-se, calculava-se também perfeitamente a possibilidade que deixava de ser cada vez menos remota à medida que nisso se pensava que a placa descolaria do céu da boca, tal como na sua mãe, quando ela se risse muito, coisa que fazia agora. E ria sem complexos a Irene.

Sabia-se desta mesma forma também que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) tal como a sua mãe.

Mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos ares à sua frente, um apêndice desproporcionado, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico lançado de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela.

Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidasmente às suas amigas, já nesta altura que descrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: "Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o qe a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só economicamente remediada; tinham, ela e a mãe - o pai falecera oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já ia passando.

Não sei exactamente como tudo se passou imediatamente antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene desapareceu da cidade.

Falecida a sua mãe com quem convivera desde sempre, talvez não se sentisse em condições de reviver a memória dela no mesmo espaço durante todo o seu tempo e partiu.

Foi o que eu e as suas amigas e amigos pensaram, embora todos achassemos estranho ela não dizer nada a ninguém. Soubemos entretanto que tinha vendido as casas e os terrenos que lhe ficaram. Não terá amealhado muito, era a voz corrente. E foi assim como que um corte radical, o acabar de um livro que se fecha e  não se leva na bagagem aquilo que achámos que a Irene tinha feito.

Pois...todas as histórias têm um remate final senão não valeria a pena contá-las e esta não foge à regra. Estava eu então em Lisboa num intervalo de esplanada quando se aproximou de mim uma senhora, eu já ia nos quarenta e a tal senhora por aí andaria, quando ouço um «Olá, estás bom!?».

Virei-me na direcção daquilo que me pareceu ser um chamamento a mim dirigido e deparo-me com a Irene, sem tirar nem por, quer dizer, com mais vinte anos como eu, mas igual a ela mesma. Dei-lhe os tradicionais dois arremedos de beijo na face, convidei-a a sentar-se e ela então foi-me contando aquilo que era feito nela.

Primeiro vieram as razões porque não tinha dito nada a ninguém quando se viera embora. Ainda recordo, passados mais alguns anos, as suas palavras: aquele ambiente era para mim sufocante - foi o que ela me disse - alegre sim, confessou, tinha ainda algumas saudades dos amigos e amigas, mas chegara à conclusão que precisava de se diluir numa multidão e na nossa pequena cidade sentia-se encurralada.

Embora nunca se tivesse apercebido de ser alvo de chacota, cada vez que entrava num café ou saía com as amigas e os amigos ou mesmo só sentia-se alvo de todos os olhares. Por vezes sentia a piedade, aquela sensação estranha de ser motivo de pena. Aguentou tudo enquanto a mãe foi viva, não iria nunca abandonar a velhota e nem sequer podia sugerir-lhe fazer aquilo que ela tinha feito.

Viera para Lisboa, tirara um curso de secretariado e encontrara emprego num pequeno escritório na baixa onde se mantinha desde então, já lá iam quase vinte anos. Com o tempo foi-se adaptando à nova realidade e hoje, naquela altura, sentia-se bem. Vivia só num apartamento depois de algumas bolandas por quartos alugados e disse-me: era feliz.

Acredito que sim, acreditei nela, na sua sinceridade, embora o peso da solidão estivesse presente nela. Gostou de me ver - disse. Eu também e nunca mais vi a Irene.

Por vezes, como agora, lembro-me dela e por estranho que me pareça sempre, embora ela fosse naquela altura em Lisboa quase igual à Irene que eu tinha conhecido muitos anos antes pareceu-me ter uma face e uma figura como qualquer outra pessoa.